Santa Casa inicia programa de cirurgia bariátrica e anuncia primeiro procedimento em Ouro Preto

Equipe médica destaca que operação é parte do tratamento da obesidade e deve ser oferecida também pelo SUS, em parceria com o município A Santa Casa de Ouro Preto anunciou o início da realização de cirurgias bariátricas na instituição. Em vídeo gravado antes do procedimento, o cirurgião do aparelho digestivo Dr. Tuian Cerqueira afirmou que a operação marca um passo relevante na linha de cuidado para pacientes com obesidade associada a outras doenças — e ressaltou que a cirurgia não deve ser tratada como um atalho estético. “Hoje, nós vamos realizar a nossa primeira cirurgia bariátrica aqui na Santa Casa. Essa cirurgia tem uma importância muito grande porque ela é um dos elementos do tratamento daqueles pacientes que têm obesidade, junto com outras doenças”, disse. Segundo o médico, o caminho começa, em geral, pelo tratamento clínico, com acompanhamento ao longo do tempo. “Esses pacientes são submetidos, ao longo de todo um tempo, a um tratamento clínico para tentar reduzir a obesidade e melhorar as outras doenças. E, caso não tenha o sucesso terapêutico esperado, a cirurgia é então um desses componentes”, explicou. Tuian enfatizou que o objetivo principal é ampliar saúde e longevidade, reduzindo riscos associados à obesidade. “Não é uma cirurgia simplesmente para perder peso. Nosso objetivo é fazer a cirurgia para que, com a perda de peso, esse paciente possa melhorar a sua condição de saúde, reduzir a sua chance de ter câncer, de ter infarto, de ter derrame ou AVC, e para ele que ele possa viver mais”, afirmou. Ver esta publicação no Instagram Uma publicação partilhada por Santa Casa Da Misericórdia De Ouro Preto (@santacasadeouropreto) Procedimento por vídeo e preparação prévia De acordo com o cirurgião, a equipe fará o procedimento por via minimamente invasiva, com uso de videolaparoscopia. “A gente vai fazer a cirurgia por via minimamente invasiva ou por vídeo”, disse, citando a estrutura de materiais e equipamentos necessários. Entre os itens mencionados estão materiais conhecidos como OPME (órteses, próteses e materiais especiais), além de grampeadores e cargas específicas. “São materiais importantes para estar ali no momento do procedimento”, explicou. O médico também destacou que o processo começa bem antes da sala cirúrgica. “É um trabalho que a gente faz de duas a três semanas antes do procedimento… envolve outros setores, como autorização, suprimentos, farmácia. Então, todos os setores aí estão bem interligados para o melhor procedimento”, relatou. Equipe e perspectiva de atendimento pelo SUS Tuian informou que contará com o apoio de outros cirurgiões e profissionais na composição da equipe. “Aqui com a gente está o meu colega cirurgião… o doutor Gabriel Faleira, que vai participar da cirurgia e integrar a equipe junto com a gente para fazer isso e os próximos casos”, disse. Na gravação, o médico afirmou que o procedimento anunciado atende, neste primeiro momento, uma paciente com convênio. Ainda assim, a expectativa é que o serviço também seja ofertado pelo Sistema Único de Saúde, em parceria com o município. “A cirurgia vai servir uma paciente que tem convênio… mas vai ser feita, oferecida também… pelo Sistema Único de Saúde, uma parceria importante da Santa Casa com o município de Ouro Preto”, declarou. O cirurgião disse que a intenção é manter o mesmo padrão de equipe e insumos. “Vai ser feita pelas mesmas equipes, com os mesmos materiais de primeira qualidade, por via minimamente invasiva, oferecendo serviços de primeira qualidade”, afirmou.
Taquaral entra no período de chuvas entre a saída e o recomeço: 33 famílias retiradas, mas demolições ainda não começaram

Prefeitura afirma ter investido R$ 4,49 milhões em indenizações e reassentamentos entre 2024 e 2025; moradores relatam insegurança com casas vazias, risco de reocupação e dúvidas sobre valores Com a chegada do período de chuvas de fim de ano — quando a cidade volta a olhar para encostas, taludes e áreas vulneráveis — o Taquaral reaparece no mapa das preocupações em Ouro Preto. O bairro vive um tempo de transição: parte das famílias já saiu de uma área classificada como de risco, mas a etapa seguinte do processo ainda não começou. A Prefeitura informa que investiu R$ 4.491.309,20 para retirar 33 famílias entre 2024 e 2025: 28 receberam indenização em dinheiro e cinco foram reassentadas com moradias no Conjunto Habitacional Residencial Vila Alegre. Ao mesmo tempo, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitação (SMDUH) afirma que nenhum dos imóveis desapropriados foi demolido até o momento, o que, na prática, mantém o bairro dividido entre casas ocupadas, casas vazias e o medo de reocupações irregulares. Vale lembrar que não é o bairro todo que precisa ser evacuado, cerca de 280 casas não precisam ser evacuadas. As áreas de risco são divididas em: baixo, médio, alto e muito alto. Francisco Rodrigues, 54, diz que a decisão de sair não é simples: é deixar para trás uma vida inteira. “A gente fica muito triste de poder estar saindo do local da gente, que a gente construiu o sonho da gente. Mas se for pra melhorar, a gente sai.” O impasse, para ele, é o valor oferecido. “O problema também é sobre a indenização que está sendo muito pouca, porque ele só paga de 170 mil para baixo.” Casado há 25 anos e pai de três filhos, Francisco conta que a história da família está amarrada ao terreno. “Os pais dela pelejou para construir e fez aquela casinha. Criou os filhos tudo ali. Aí depois veio eu, que casei com ela… Foi uma luta para construir… Antes era trilho, a gente descia com o material de caminhonete e lutou pra fazer essa casa.” Ele teme que a indenização não garanta um recomeço equivalente: “Às vezes até acha [outro imóvel], às vezes acha num lugar ruim, até pior do que o lugar que a gente mora.” Bairro em transição: casas vazias e sensação de insegurança Além da mudança forçada, Francisco descreve um efeito colateral do processo: o vácuo deixado por imóveis desocupados. “A situação aqui é muito ruim porque a gente convive aqui… ao redor da gente tem muitas pessoas que saíram e estão no aluguel social. E as casas às vezes ficam vazias e outras pessoas vêm ocupando o lugar que a gente às vezes nem conhece.” Para ele, o ciclo só se fecharia com a retirada seguida de demolição e sinalização clara. “O que a prefeitura tinha que fazer é… derrubando as casas, demolindo… deixando a área limpa e boa… Tipo aquelas placas para não deixar ninguém construir mais.” “Eu comprei e só depois descobri que era indenizado” Maria, 53, relata ter chegado ao Taquaral pela necessidade de parar de pagar aluguel e por limitações físicas. “Eu estava pagando aluguel… já tinha mais de 12 anos. Aí apareceu esse barraco aqui. Eu não ia pagar aluguel o resto da minha vida.” Com problemas no joelho e dificuldade de subir escadas, buscou um imóvel térreo. Só depois de procurar a secretaria, afirma ter descoberto que a casa estava em área de risco e já havia sido indenizada ao antigo ocupante. “Quando eu cheguei lá [na Habitação], eu descobri que aqui estava indenizado… a moça lá, a Natália, falou para mim que era para eu aguardar.” O pedido dela é simples: “Se tirar eu daqui, é uma casinha para mim… um lugar que eu tenho acesso de andar. Não precisa ser grande coisa. Tiver um quarto, um banheiro e a cozinha é o suficiente.” Aquiles, que mora sozinho no bairro, resume por que ainda não saiu: “Não pagou nada não. O valor é pouco.” A reportagem do Vintém procurou o vereador Kuruzu que acompanha de situação de perto e ele afirma: ““É um misto de injustiça e escândalo muito grande: as pessoas serem expulsas pra morar nessas encostas de risco, com tanta terra firme pública abandonada, no imóvel conhecido como ‘Terras da Febem’, por exemplo”. Por que as demolições ainda não começaram Segundo a SMDUH, “até o presente momento, nenhum dos imóveis desapropriados foi demolido” e o início dessa etapa depende de entraves técnicos e administrativos. No plano técnico, a secretaria afirma que “as demolições dependem de autorização prévia do IPHAN, em razão do zoneamento e das restrições patrimoniais da área onde os imóveis estão localizados.” No plano administrativo, diz haver dificuldade de contratação, pois “grande parte dos imóveis situa-se em áreas de difícil acesso, exigindo que tanto a demolição quanto a remoção dos resíduos sejam realizadas de forma predominantemente manual.” A Prefeitura descreve ainda o protocolo após o pagamento: “o Município é imitido na posse do imóvel no prazo de até 30 dias” e, nesse período, o expropriado pode retirar materiais e concluir a desocupação. Após o prazo, “o Município passa a deter plena posse, podendo realizar intervenções no imóvel, inclusive a demolição… observadas as autorizações e exigências legais.” Reocupações: não há registro sistematizado Sobre reocupações irregulares relatadas por moradores, a SMDUH informa que “não dispõe de levantamento específico ou registro sistematizado” sobre o número de casos após indenização. A secretaria diz que episódios que chegaram ao seu conhecimento foram encaminhados à Secretaria Municipal de Segurança e Trânsito, “órgão competente para fiscalização e adoção das providências cabíveis.” Questionada sobre termos de cooperação com Ministério Público, forças policiais ou assistência social para esses casos, a resposta foi: “Atualmente, não há acordos ou termos de cooperação formalizados… especificamente voltados a esses casos.” Investimento informado pelo Município A Prefeitura informou que, entre 2024 e 2025, investiu: No Taquaral, o período de chuvas escancara a urgência de reduzir riscos — mas também de dar previsibilidade ao “depois”: o que será feito das casas desapropriadas, como evitar
Cia Lamparina relança seis curtas natalinos em exibição gratuita no site e no YouTube

Minas Gerais, 2025 – Seis histórias de Natal produzidas em plena pandemia de 2020 voltam a emocionar o público em exibição on-line e gratuita. A Cia Lamparina – por meio do projeto Lamparina Audiovisual, contemplado pelo edital 11 do Fundo Estadual de Cultura de Minas Gerais (FEC 11/2024 – Circula Minas – Audiovisual) – relança seu pacote de curtas natalinos no site oficial e no canal da companhia no YouTube, como ação de contrapartida pública. Originalmente realizados por demanda da Vale S.A./Trem da Vale, os curtas foram produzidos em um dos momentos mais delicados da recente história mundial e, por isso, carregam tanto o registro sensível da pandemia quanto temas universais ligados ao Natal, à família e às memórias afetivas. Dois dos filmes dialogam diretamente com o contexto da Covid-19: “O Causo do Papai Noel na Pandemia” acompanha, com humor e delicadeza, os desafios de manter a magia do bom velhinho em meio ao distanciamento social. “Fantasmas de Natal do Trem” toma o trem como cenário para tratar de ausências, medos e esperanças, evocando as marcas que o período pandêmico deixou nas relações humanas. Os outros quatro curtas apostam em histórias atemporais, que podem ser revisitadas a cada fim de ano: “Culinária” celebra as comidas, as amizades e os encontros familiares que fazem da ceia um ritual de afeto. “O Frango” narra, em tom bem-humorado, as desventuras de um casal que queima o frango da ceia e precisa lidar com o desastre gastronômico às vésperas da festa. “A Folia de Dê” é uma alegoria inspirada no Dia de Reis, conectando tradição, fé popular e brincadeira. “Trem de Minas” acompanha a imaginação de uma criança fascinada por um trem, em diálogo com a avó sobre a passagem do tempo e da vida, numa espécie de conto-poema sobre memória e despedida. O relançamento dos curtas reforça a vocação da Cia Lamparina para unir teatro, audiovisual e cultura popular, democratizando o acesso às artes por meio de conteúdos gratuitos e disponíveis on-line. As obras são indicadas para toda a família e podem ser assistidas de qualquer lugar do Brasil, bastando acessar o site e o canal da Cia Lamparina no YouTube durante o período natalino. ServiçoO quê: Relançamento on-line de seis curtas natalinos da Cia LamparinaFilmes: “O Causo do Papai Noel na Pandemia”, “Fantasmas de Natal do Trem”, “Culinária”, “O Frango”, “A Folia de Dê” e “Trem de Minas”Onde assistir: Site oficial (cialamparina.com.br/curtas-de-natal) e canal da Cia Lamparina no YouTube (@teatrodebonecos)Quanto: GratuitoRealização (2020): Vale S.A. / Trem da ValeRelançamento (2025): Contrapartida do projeto Lamparina Audiovisual – contemplado pelo edital 11 do Fundo Estadual de Cultura de Minas Gerais (FEC 11/2024 – Circula Minas – Audiovisual)
O poder da nostalgia: assistir novamente nossas séries favoritas faz bem à saúde
Janet Julie Vanatko/Shutterstock Anjum Naweed, CQUniversity Australia Com que frequência você se pega apertando o “play” em uma velha série favorita, revivendo os mesmos episódios de TV que já viu antes – ou que até sabe de cor? Sou um espectador crônico de programas que já assisti. Para mim, episódios de sitcoms como Blackadder (1983-1989), Brooklyn Nine-Nine (2013-2021) e The Office (2005-2013) são muito bem-vindos em momentos de estresse. Mas, recentemente, antes de um prazo excepcionalmente desafiador, me vi mudando meu modo de assistir. Em vez de uma comédia escapista para a qual normalmente volto, mudei para Breaking Bad (2008-2013), um thriller de roer as unhas com uma complexa narrativa de herói invertido – e imediatamente me senti à vontade. O que nossas escolhas de reassistir nos dizem sobre nós mesmos? É normal que continuemos voltando aos velhos favoritos? Histórias fictícias, relacionamentos reais Embora unilaterais, os relacionamentos que formamos com os personagens de nossos programas de TV preferidos podem parecer muito reais. Eles podem aumentar o senso de pertencimento, reduzir a solidão – e continuar nos atraindo. Quando assistimos novamente, sentimos tristeza, alegria e saudade, tudo ao mesmo tempo. Chamamos a soma dessas contradições de nostalgia. Originalmente cunhada no século XVII para descrever soldados suíços prejudicados pela saudade de casa, os psicólogos agora entendem a reflexão nostálgica como um escudo contra a ansiedade e a ameaça, promovendo uma sensação de bem-estar. Todos nós confiamos na ficção para nos transportar de nossas próprias vidas e realidades. A visualização nostálgica amplia a experiência, levando-nos a algum lugar que já conhecemos e amamos. Nostalgia compulsiva A pandemia da COVID-19 desencadeou uma onda de nostalgia. Nos Estados Unidos, a agência Nielsen descobriu que o programa mais transmitido de 2020 foi a versão americana da série The Office, sete anos após o término de sua exibição na televisão. Uma pesquisa da Radio Times revelou que 64% dos entrevistados disseram ter assistido novamente a um seriado de TV durante o confinamento, sendo que 43% assistiram a programas nostálgicos. De repente, fomos jogados em uma situação desconhecida e em um estado perpétuo de inquietação. Tínhamos mais tempo disponível, mas também queríamos nos sentir seguros. A sintonia com o conteúdo familiar na televisão oferecia uma fuga – um santuário das realidades do futuro desconhecido. Revisitar as conexões com os personagens da TV nos dava uma sensação de controle. Sabíamos o que estava por vir em seus futuros. A calma e a previsibilidade de seus arcos equilibravam a incerteza dos nossos. Nostalgia como ponto de enredo A nostalgia está no DNA da televisão desde que as primeiras decisões sobre programação foram tomadas. Todo mês de dezembro, as emissoras se esforçam para exibir uma das muitas versões de “A Christmas Carol” (Um Conto de Natal), a história de fantasmas de Charles Dickens (1812-1870), muito recontada e familiar, que também apresenta a nostalgia como um dispositivo do enredo. Exibida pela primeira vez na TV ao vivo na cidade de Nova York em 1944, com a tecnologia ainda nova, a transmissão deu continuidade a uma tradição de 100 anos em que o clássico aparecia nos palcos e nas telas de cinema. Assistir a “A Christmas Carol” nos conecta ao período de festas e a uma metamorfose emocionante. O protagonista Ebeneezer Scrooge revisita versões há muito perdidas de si mesmo e passa de vilão a herói e a nosso velho amigo em uma única noite. Para os espectadores, reencontrar esse personagem na mesma época, todos os anos, também pode reconectar com o passado e criar um padrão previsível, mesmo no frenesi da temporada de bobagens. (Re)conexão no mundo real A neurociência das experiências nostálgicas é clara. A nostalgia surge quando os dados sensoriais atuais – como o que você assiste na TV – correspondem a emoções e experiências passadas. Isso desencadeia uma liberação de dopamina, um neurotransmissor do sistema de recompensa envolvido na emoção e motivação. O encontro com a lembrança é como carregar automaticamente e tocar em experiências positivas passadas, elevando o desejo e regulando o humor. Portanto, a saudade se baseia em experiências codificadas na memória. Os programas de TV que escolhemos assistir novamente refletem nossos valores, nossos gostos e as fases da vida pelas quais passamos. Talvez esse seja o motivo pelo qual as reinicializações de nossos filmes ou série favoritos, às vezes, não dão certo e acabam nos deixando decepcionados. Ainda me lembro da desilusão esmagadora que senti ao assistir a série Knight Rider (2008-2009). Imediatamente recorri à mídia social para encontrar uma comunidade em torno do meu revés nostálgico Mais forte com o estresse Voltando ao meu prazo desafiador, o que diferenciava a experiência nostálgica de assistir a Breaking Bad? Essa série evoca uma fase específica da minha vida. Assisti às três primeiras temporadas quando estava escrevendo minha tese de doutorado. A jornada de ascensão e queda de Walter White em direção à redenção está conectada a um período difícil pelo qual passei. A previsibilidade do arco de Walter White na segunda exibição foi um refúgio improvável. O drama crescente de alto risco espelhou meu estresse crescente, ao mesmo tempo em que me conectou com quem eu era quando assisti essa produção pela primeira vez. O resultado? O “modo pavor” foi desativado, mesmo quando meus anti-heróis marcharam novamente para seu terrível enredo. Anjum Naweed, Professor of Human Factors, CQUniversity Australia This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
O que e como comiam os habitantes de Belém na época em que Jesus nasceu?
“Adoração dos pastores” (aprox. 1650), de Bartolomé Esteban Murillo: dieta era baseada em pães, azeite, laticínios e vinho, eventualmente complementada com carnes e peixes, e sempre respeitando as leis alimentares judaicas. Museo del Prado, CC BY José Miguel Soriano del Castillo, Universitat de València O nascimento de Jesus é narrado principalmente nos Evangelhos de Mateus e Lucas do Novo Testamento, cada um com um enfoque diferente. Ele também aparece em textos apócrifos, como o Protoevangelho de Tiago e o Evangelho do Pseudo-Mateus, e no Alcorão, que menciona o milagre do nascimento de Jesus (Isa) como filho da Virgem Maria (Maryam), reconhecido como profeta. Mas nenhum desses textos menciona o que Maria e José comeram naquela noite, ou o que a população local colocou em seus pratos. Estudos arqueológicos e tradições mediterrâneas podem nos permitir descobrir. Belém era um pequeno povoado da Judeia a cerca de nove quilômetros de Jerusalém, cuja vida girava em torno da agricultura, da criação de animais e das tradições religiosas judaicas. Ficava em uma região montanhosa com clima mediterrâneo, um ambiente natural que determinava tanto as atividades econômicas quanto as práticas culinárias de seus habitantes, que dependiam dos recursos locais para sua subsistência. Sua dieta, portanto, refletia as práticas comuns da região mediterrânea sob o domínio romano, mas também era profundamente influenciada pelas leis alimentares judaicas (kashrut). Essas regulamentações determinavam quais alimentos poderiam ser consumidos e como deveriam ser preparados, consolidando uma dieta simples, mas nutritiva. A dieta mediterrânea de 2 mil anos atrás No século I, a agricultura era a espinha dorsal da economia e da subsistência no vilarejo de Belém. A terra onde ela estava localizada oferecia condições ideais para o cultivo de cereais, azeitonas e vinhedos. Esses produtos eram essenciais não apenas para a dieta diária, mas também para o comércio e os rituais religiosos. Os cereais, como o trigo e a cevada, eram as culturas mais comuns e eram usados principalmente para fazer pão, o alimento básico da população. O pão de cevada, que era mais barato e acessível, era consumido pelas famílias pobres, enquanto o pão de trigo, mais caro, era reservado para ocasiões especiais ou para os habitantes mais abastados. Outro pilar da agricultura de Belém era o azeite de oliva, que era obtido pela prensagem manual do fruto da oliveira. Era um produto indispensável na cozinha, não apenas como gordura para cozinhar, mas também como tempero e conservante. Também tinha uso significativo em cerimônias religiosas e na iluminação de casas. Os vinhedos também ocupavam um lugar de destaque na economia local. As uvas eram consumidas frescas ou usadas para fazer vinho, que era uma bebida cotidiana, mesmo para os mais pobres, e também desempenhava um papel importante em celebrações e rituais. Todas essas colheitas não apenas garantiam a subsistência, mas também permitiam que as famílias contribuíssem com tributos para as autoridades romanas e cumprissem as regras religiosas. Ovelhas e cabras, animais essenciais A criação de animais complementava a agricultura como uma atividade crucial para os habitantes de Belém. A criação de ovelhas e cabras era especialmente importante, pois esses animais forneciam carne, leite e lã, atendendo às necessidades de alimentação e vestuário. Eles provinham do gado local ou do comércio inter-regional significativo, como o que ocorria no deserto da Judeia ou no Mar da Galileia. Em um ambiente em que a carne era um luxo reservado para festividades religiosas ou eventos importantes, os produtos lácteos, como queijo e iogurte, faziam parte do cardápio diário dos habitantes de Belém. Esses alimentos eram ricos em nutrientes, fáceis de conservar e frequentemente comercializados ou vendidos em mercados próximos. Além disso, cabras e ovelhas eram essenciais para os rituais de acordo com a lei religiosa judaica. Durante festivais como a Páscoa, os cordeiros eram abatidos e consumidos em família ou em comunidade, fortalecendo os laços sociais e religiosos. Por fim, o esterco desses animais era usado como fertilizante natural em campos agrícolas, fechando um ciclo sustentável entre a agricultura e a pecuária. Em menor escala, as aves domésticas, como pombos e galinhas, eram criadas para consumo de carne e ovos, embora sua produção fosse limitada em comparação com os rebanhos. Peixes salgados Embora a pesca não fosse uma atividade local em Belém devido à sua localização geográfica no interior da Judeia, os peixes – especialmente arenque, sardinha ou cavala – eram trazidos salgados de regiões costeiras como o Mar Mediterrâneo ou o Mar da Galileia. Essa preservação em sal facilitava o transporte e o armazenamento, permitindo que os peixes fossem consumidos mesmo em áreas distantes dos centros de pesca. Apreciado por seu sabor e valor nutricional, os peixes eram, no entanto, uma adição ocasional à dieta dos habitantes. Eles ofereciam uma opção acessível para aqueles que podiam pagar, mas não eram um alimento básico como os produtos agrícolas e os laticínios. A dieta de Belém era, portanto, baseada em um sistema de subsistência simples e autossuficiente de uma comunidade profundamente ligada ao seu ambiente e à tradição religiosa. José Miguel Soriano del Castillo, Catedrático de Nutrición y Bromatología del Departamento de Medicina Preventiva y Salud Pública, Universitat de València This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.