“Sinhá Olímpia, quem é você?”: Ouro Preto retoma pergunta da Mangueira 36 anos depois e transforma folia de 2026 em homenagem à “primeira hippie do Brasil”

Tema do Carnaval ouro-pretano cita literalmente o refrão do samba-enredo campeão do Estandarte de Ouro em 1990; escolha marca 50 anos do falecimento da personagem que inspirou Milton Nascimento, foi capa da Life e conheceu de Juscelino a Rita Lee O Carnaval de Ouro Preto 2026, que acontece de 12 a 17 de fevereiro, tem como tema oficial “Sinhá Olímpia, quem é você?” — pergunta que cita literalmente o refrão do samba-enredo com que a Estação Primeira de Mangueira homenageou a icônica personagem ouro-pretana em 1990. A escolha marca os 50 anos do falecimento de Olympia Angélica de Almeida Cotta, figura que atravessou as fronteiras de Minas para virar tema de escola de samba no Rio, inspirar música no “Clube da Esquina 2” de Milton Nascimento e ser chamada por Rita Lee de “a primeira hippie do Brasil”. A conexão entre o carnaval mineiro e o carioca não é coincidência. Em 26 de fevereiro de 1990, a Mangueira levou para a Sapucaí o enredo “E deu a louca no barroco”, assinado pelos carnavalescos Ernesto do Nascimento e Fábio Borges, com samba-enredo composto pelo trio Hélio Turco, Jurandir e Alvinho — que conquistou o Estandarte de Ouro de melhor samba daquele ano. O refrão, interpretado por Jamelão, perguntava: “Sinhá Olímpia, quem é você?” E respondia com versos que se tornaram antológicos: “Sou amor, sou esperança / Sou Mangueira até morrer.” Agora, 36 anos depois, Ouro Preto retoma a pergunta e convida foliões, turistas e moradores a conhecer — ou relembrar — quem foi a mulher que transformou as ladeiras barrocas em palco de liberdade, delírio e poesia. Quem foi Sinhá Olímpia Olympia Angélica de Almeida Cotta nasceu em 1889 em Santa Rita Durão, distrito de Mariana, e viveu em Ouro Preto entre as décadas de 1950 e 1970, até sua morte em 1976. Seu visual era inconfundível: roupas coloridas, chapéus enfeitados com flores e papéis de balas, bijuterias grandes, um cajado ornamentado com flores e tiras de papel colorido, e sempre um cigarro na boca. Mas não foi só a aparência extravagante que a tornou lendária. Sinhá Olímpia era contadora de histórias delirantes, misturando realidade e fantasia com tal convicção que encantava moradores e turistas. Dizia ter dançado em bailes com Tiradentes, tomado café com Dom Pedro I, e se apresentava como uma espécie de imperatriz de Vila Rica. “Ela era uma figura meio mítica, que misturava um pouco de loucura na realidade da vida. Contava casos de bailes nunca dançados com Tiradentes e cafés tomados com Dom Pedro, que nunca existiram”, explicou o secretário de Cultura e Turismo de Ouro Preto, Flávio Malta, em entrevista recente. A extrema sensibilidade e capacidade imaginativa de Olympia despertaram atenção nacional e internacional. Foi capa da revista Life, participou do programa do Chacrinha, conheceu Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Vinícius de Moraes e Rita Lee. Recebia cartões e presentes do mundo inteiro — chapéus do mercado de pulgas de Paris, medalhas da Inglaterra, moedas de diversos países. De Ouro Preto para a Sapucaí Em 1990, a Mangueira escolheu contar a história de Sinhá Olímpia na avenida. O samba-enredo, considerado por Hélio Turco “o mais bonito feito pelo trio”, recriava poeticamente a trajetória da personagem: “Viveu em Vila Rica a CinderelaEntre sonhos e quimerasDe raríssimo esplendorBrilhou sob o sol da primaveraE a beleza de uma flor (e assim)E assim, enfeitando os salõesEm seu doce delírioConquistou coraçõesAcalentou o ideal da liberdadeE transformou toda mentiraNa mais fiel realidade” O desfile retratou em alas e carros alegóricos as histórias, falas e lugares que ela frequentava. Embora a Mangueira tenha terminado em 8º lugar por ter estourado o tempo de desfile (houve quebra de um carro), o samba conquistou o Estandarte de Ouro e se tornou um clássico da verde-e-rosa. Segundo análises da época, a Mangueira “colocou a avenida inteira para desabar” e saiu “aos gritos de ‘É CAMPEÃ’”, apesar da pontuação final. A pergunta que atravessou décadas O refrão “Sinhá Olímpia, quem é você?” não era apenas uma pergunta retórica. Segundo análises do enredo, a questão sintetizava o mistério em torno da personagem: quem, de fato, foi Sinhá Olympia? Após tantas histórias que fundiam realidade e ilusão, a identidade dela se tornara fluida, múltipla. A resposta dada pela Mangueira — “Sou amor, sou esperança / Sou Mangueira até morrer” — fazia uma leitura filosófica: o espírito inventivo e delirante, mas também apaixonado e caridoso de Sinhá Olímpia era o próprio espírito mangueirense. Agora, em 2026, Ouro Preto retoma a pergunta em um contexto diferente: não mais para levá-la ao Rio, mas para trazê-la de volta para casa, 50 anos após sua morte. “A escolha do tema presta homenagem a uma das figuras mais emblemáticas da história social da cidade”, informou a Prefeitura de Ouro Preto. “A homenagem marca os 50 anos do falecimento de Sinhá Olímpia, personagem lembrada por sua estética singular, presença marcante nas ruas e forte ligação com a liberdade de expressão popular.” Legado além do carnaval A influência de Sinhá Olímpia ultrapassa a folia. Em 1978, Toninho Horta e Ronaldo Bastos compuseram “Dona Olímpia” para o disco duplo “Clube da Esquina 2”, lançado por Milton Nascimento. Em 1998, o estilista Ronaldo Fraga ministrou uma oficina de moda inspirada nela durante o Festival de Inverno de Ouro Preto. Em 1975, foi criada a Escola de Samba Sinhá Olympia em Saramenha (Ouro Preto), que desfila até hoje abordando temas relacionados à história e cultura da cidade. Jefferson de Oliveira Filho, presidente da escola, herdou da família de Olympia todas as roupas deixadas por ela. Como homenagem, uma das senhoras da escola sai todo ano vestida como a personagem. Há peças teatrais, poemas, restaurantes e pousadas que levam seu nome. Artistas como Orózio Belém desenharam seu retrato. Ela se tornou um símbolo de autenticidade, liberdade e resistência. Carnaval 2026: programação e expectativa O Carnaval de Ouro Preto 2026 é considerado um dos maiores e mais tradicionais de Minas Gerais. A expectativa é receber 60 mil foliões e movimentar aproximadamente R$ 55 milhões na economia local. A rede hoteleira