Ouro Preto, segunda-feira, abril 13, 2026 14:54

Milhões de pessoas são portadoras da bactéria causadora da tuberculose sem saber

No Dia Mundial da Tuberculose, especialista lembra que doença não é coisa do passado e continua sendo uma das principais causas de morte por infecção no mundo, especialmente em populações em situação de vulnerabilidade na África, Ásia e América Latina. New Africa/shutterstock Luis Felipe Reyes, Universidad de La Sabana Todo dia 24 de março se comemora o Dia Mundial da Tuberculose. E, no entanto, é uma data que passa quase despercebida, talvez porque muitos a vejam como uma doença do passado. Algo distante, associado a outra época, a romances ou a contextos muito específicos. Mas a realidade é muito menos confortável: a tuberculose continua sendo uma das principais causas de morte por infecção no mundo. E, surpreendentemente, coexiste silenciosamente com muitos de nós. Uma bactéria que vive em milhões de pessoas Estima-se que uma em cada quatro pessoas no planeta tenha em seu organismo a bactéria causadora da tuberculose. Sim, uma em cada quatro. Na maioria dos casos, esse microrganismo (Mycobacterium tuberculosis) permanece “adormecido”. Não causa sintomas, não é facilmente detectada e não gera doença. É o que se conhece como infecção latente. Mas essa aparente tranquilidade é enganosa. Em determinadas circunstâncias — por exemplo, quando o sistema imune fica enfraquecido —, a bactéria pode se ativar e provocar uma doença que afeta principalmente os pulmões, mas que também pode comprometer outros órgãos. Isso significa que a tuberculose não é apenas um problema para quem adoece: é uma infecção amplamente disseminada, uma espécie de “reserva silenciosa” global que pode se reativar a qualquer momento. Problema global, e profundamente desigual Em 2021, foram registrados cerca de 9,4 milhões de novos casos de tuberculose e ocorreram 1,35 milhão de mortes causadas por essa doença no mundo. São números impressionantes, mas que, por si sós, não contam toda a história. O mais importante é como eles se distribuem. A tuberculose não afeta a todos da mesma forma. Em muitos países de renda alta, a incidência da doença tem diminuído de forma sustentada nas últimas décadas. É pouco frequente, geralmente é diagnosticada precocemente e o tratamento está disponível. Por outro lado, em regiões da África, Ásia e América Latina, continua sendo uma realidade cotidiana. Nesses locais, fatores como superlotação, pobreza, desnutrição ou acesso limitado aos serviços de saúde favorecem a transmissão e a progressão da doença. Em outras palavras, a tuberculose não é apenas uma infecção: é também um reflexo das desigualdades globais. Avanços reais, mas muito lentos Seria injusto dizer que não houve progresso: houve, e é importante reconhecê-lo. Desde a década de 1990, a incidência e a mortalidade por tuberculose diminuíram globalmente. A expansão dos programas de controle, o acesso a tratamentos eficazes e o fortalecimento dos sistemas de vigilância contribuíram para esses avanços. O ritmo de melhoria, no entanto, não é suficiente. A Organização Mundial da Saúde OMS) estabeleceu metas ambiciosas na estratégia “End TB”, com objetivos intermediários para 2020. Entre eles, reduzir a incidência em 20% e a mortalidade em 35% em relação a 2015. Mas o mundo não atingiu essas metas. Entre 2015 e 2020, a incidência global de tuberculose diminuiu apenas 6,3% e a mortalidade, 11,9%. Estamos avançando, mas muito mais lentamente do que o necessário. Se mantivermos esse ritmo, será muito difícil atingir as metas estabelecidas para 2035. Nem todos avançam no mesmo ritmo Além disso, o progresso tem sido desigual. Alguns países alcançaram avanços notáveis, graças a estratégias inovadoras como a busca ativa de casos, o uso de tecnologias mais rápidas de diagnóstico ou programas de apoio social para garantir que os pacientes concluam o tratamento. Mas esses exemplos continuam sendo a exceção, não a regra. Também há diferenças entre as populações. Por exemplo, dados mostram que os avanços têm sido mais rápidos em crianças, mas lentos em idosos, que correm maior risco de morrer de tuberculose. Isso é relevante porque a população mundial está envelhecendo rapidamente e porque, se não forem adotadas estratégias de controle, esse grupo poderá se tornar um foco crescente da doença. Fatores que continuam a impulsionar a doença Parte do desafio reside no fato de que a tuberculose não depende apenas da bactéria, mas também de fatores que aumentam o risco de desenvolvê-la. Entre eles destacam-se o tabagismo, o consumo de álcool e o diabetes. De fato, estimativas recentes sugerem que uma proporção significativa das mortes por tuberculose poderia ser evitada se esses fatores fossem reduzidos. Isso reforça a ideia de que a doença não pode ser abordada de forma isolada: requer uma abordagem integral que combine intervenções médicas, sociais e de saúde pública. A este cenário soma-se um problema ainda mais preocupante: a tuberculose resistente aos antibióticos. O tratamento padrão é longo e complexo, e exige adesão estrita. Quando esses tratamentos não são concluídos adequadamente, ou quando os sistemas de saúde não garantem o acesso contínuo aos medicamentos, podem surgir cepas resistentes. Essas formas de tuberculose são muito mais difíceis de tratar: exigem terapias mais prolongadas, mais caras e com mais efeitos adversos. E o mais preocupante é que já estão presentes em várias regiões do mundo. O desafio de implementar o conhecimento de forma equitativa Além dos números, a tuberculose nos fala de algo mais profundo: fala de desigualdade, de sistemas de saúde que nem sempre chegam àqueles que mais precisam, de condições de vida que facilitam a transmissão de doenças que podemos prevenir. Mas também nos fala de oportunidades. A tuberculose pode ser prevenida. É diagnosticável e tratável. Sabemos o que funciona e como reduzir seu impacto. O problema não é a falta de conhecimento, é a falta de implementação equitativa desse conhecimento. Reduzir seu impacto na América Latina, especialmente nas populações mais vulneráveis da região, exige uma resposta global coordenada, equitativa e ambiciosa. As doenças que acreditamos estarem distantes costumam ser as que mais nos surpreendem quando reaparecem. Luis Felipe Reyes, Profesor de muy alto prestigio en Enfermedades Infecciosas, Universidad de La Sabana This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Por que o BRICS ainda não se manifestou sobre a guerra contra o Irã?

Luis Gouveia Junior, Universidade de Coimbra Semanas após o Irã ser atacado numa clara violação do direito internacional, o BRICS permanece em silêncio. Essa falta de posicionamento enquanto grupo é ainda mais significativa pelo Irã ser Estado-membro do BRICS desde 2023. No ano passado, durante a Guerra dos Doze Dias, o grupo emitiu uma declaração em que criticava os ataques de Israel e dos EUA contra o território iraniano. Em suas reuniões de cúpula, o BRICS sempre declarou apoio ao direito internacional, defendendo que intervenções estrangeiras devem estar sob autorização do Conselho de Segurança da ONU. Como explicar, então, que um grupo que defende o direito internacional e surgiu para restringir a hegemonia norte-americana ainda não tenha emitido uma declaração conjunta sobre os ataques sofridos pelo Irã, membro desta organização? A resposta a essa pergunta passa por compreender como o BRICS funciona e seu processo de expansão. O BRICS funciona por consenso. Sem aprovação de todos os seus Estados-membros, o bloco não se posiciona. Conversações lideradas pela Índia, detentora da presidência do grupo, estão sendo realizadas na busca por uma declaração conjunta sobre os ataques sofridos pelo Irã. Relação direta de alguns membros com o conflito O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores indiano, Randhir Jaiswal, afirmou recentemente que seu país está tentando obter essa declaração, mas tem encontrado dificuldade devido à relação direta que alguns membros do BRICS têm com o conflito. Essa relação passa diretamente pelo processo de expansão do grupo. Em 2023, o BRICS anunciou um processo de expansão com o ingresso de novos membros, incluindo o Irã, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e a Arábia Saudita. Esse processo de expansão não foi consensual no grupo. Por anos, a China tentou aumentar o número de Estados-membros, mas enfrentou resistência principalmente do Brasil e da Índia. Os dois países temiam perder influência no grupo e, principalmente, que se tornaria mais difícil obter consenso sobre questões que consideram cruciais, tais como a reforma no Conselho de Segurança da ONU. Após anos de negociações, em 2023, a Índia cedeu e passou a aceitar a expansão. O Brasil seguiu a maioria. Se o BRICS já tinha rivalidades internas (Índia e China têm conflitos territoriais na região dos Himalaias), os países escolhidos para integrar o grupo aumentaram ainda mais o número de rivalidades entre os membros. Irã, EAU e Arábia Saudita têm históricos conflitos que remetem não apenas à distinção entre sunitas (Arábia Saudita e EAU) e xiitas (Irã), mas também às disputas por liderança regional. No Iêmen, por exemplo, o Irã apoia os Houtis, enquanto os sauditas apoiaram grupos ligados ao antigo governo de Abedrabbo Mansour Hadi, expulso de Sanaa em 2015. No ano passado, o Irã foi atacado por Israel e pelos Estados Unidos, sem retaliar contra os seus vizinhos, o que permitiu a declaração do BRICS criticando os ataques ocidentais. Desta vez, a retaliação iraniana atingiu o território dos EAU e da Arábia Saudita. Enquanto a Arábia Saudita ainda não formalizou a adesão ao bloco e, por isso, é considerada um “país membro convidado”, os EAU são membros plenos do grupo, assim como o Irã. Por funcionar por consenso, para haver uma declaração conjunta do grupo, é preciso encontrar um texto com o qual o Irã e os EAU concordem, o que não será fácil. Caso contrário, o silêncio perdurará. Crescente proximidade da Índia com Israel Se já não bastasse a dificuldade de encontrar convergências entre os seus membros muçulmanos, o BRICS também enfrenta outra dificuldade: a crescente proximidade da Índia com Israel. Por décadas, nenhum primeiro-ministro indiano visitou Israel. Desde Jawaharlal Nehru, primeiro primeiro-ministro do país, a Índia era uma forte defensora da causa palestina. O país votou contra a partilha da Palestina na ONU em 1947 e só normalizando suas relações com Israel nos anos 90. Isso tem mudado desde que Narendra Modi assumiu o poder em 2014. O atual primeiro-ministro indiano, o primeiro a visitar Israel em 2017, defende uma ideologia hindu nacionalista que o aproxima da extrema-direita israelita. Ideologicamente próximo de Benjamin Netanyahu, Modi visitou Israel nos dias 25 e 26 de fevereiro, pouco antes dos ataques ao Irã. Nesta visita, ao mencionar os ataques de 7 de outubro, afirmou: “A Índia está ao lado de Israel, firmemente, com plena convicção, neste momento e além.” Por presidir o BRICS em 2026, cabe à Índia buscar uma posição conjunta do grupo. Devido à aproximação com Israel, dificilmente Modi medirá grandes esforços para obter uma declaração conjunta muito crítica a Israel e aos EUA. Da mesma forma, o Irã e seus aliados no bloco, como a Rússia, dificilmente aceitarão uma declaração que critique a retaliação iraniana. Por isso, o BRICS tem hoje um impasse: o processo de expansão dificultou o alcance de consensos, como o Brasil temia, e o governo indiano é cada vez mais um ator desalinhado em relação a algumas posições dos demais membros do BRICS. Porém, sendo difícil encontrar consensos, o bloco se arrisca a deixar de se posicionar sobre temas fraturantes. Sem posicionamentos políticos, o risco do BRICS perder relevância internacional é real. Luis Gouveia Junior, PhD Candidate in International Relations, Universidade de Coimbra This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.