Ouro Preto, segunda-feira, abril 13, 2026 19:49

Hidrocefalia de pressão normal: mudanças no andar e na memória de idosos nem sempre indicam sinais de demência

Fernando Gomes, Universidade de São Paulo (USP) Nem todo idoso que começa a andar um pouco mais devagar, esquecer compromissos e ter escapes urinários está, necessariamente, prestes a receber um diagnóstico de demência, doença de Alzheimer ou Parkinson sem tratamento. Embora sintomas como lentidão ao andar, falhas de memória e incontinência urinária sejam frequentemente associados a doenças neurodegenerativas, há situações em que o quadro tem outra origem. Estudos clínicos mostram que, em alguns casos, os mesmos sintomas podem estar associados a uma outra alteração neurológica: a hidrocefalia de pressão normal (HPN). Pesquisas indicam que em cerca de 0,5% a 10% dos casos dos diagnósticos inicialmente atribuídos à demência, por exemplo, os sintomas estão, na verdade, relacionados a essa alteração neurológica. Nessas situações, diferentemente dos quadros motivados por causas degenerativas, considerados irreversíveis, a presença da HPN e a indicação da terapia adequada sugerem que há boas chances de recuperar funções como mobilidade e equilíbrio, com impacto direto na qualidade de vida. A hidrocefalia de pressão normal afeta principalmente pessoas acima dos 60 anos. Ela se manifesta por três sinais clássicos: dificuldade para andar, alterações cognitivas e problemas urinários. Mas, como disse, parte desses sintomas pode ser reversível. Muitos idosos com HPN passam anos sendo tratados como se tivessem apenas “dificuldade para andar da idade” ou um quadro demencial irreversível. A ciência mostra que, em parte desses casos, há um componente mecânico tratável. Quando não é uma degeneração Como neurocirurgião, neurocientista e pesquisador, sempre me impressiono com o modo como o cérebro depende do funcionamento adequado de várias estruturas para se manter ativo e saudável. É o que se vê nesta condição, em que pequenas alterações na circulação do líquor — o líquido que banha e protege o sistema nervoso — podem impactar redes neurais responsáveis por andar, manter o equilíbrio, planejar movimentos e até organizar pensamentos. Entender esses mecanismos é mais do que uma curiosidade científica: é a chance de devolver autonomia a quem pode estar perdendo a própria mobilidade. Nos casos de HPN, o líquor deixa de circular e de ser reabsorvido adequadamente. Os ventrículos cerebrais — cavidades cheias de líquido — aumentam de tamanho e passam a comprimir estruturas vizinhas. Essa pressão crônica interfere no funcionamento de circuitos neurológicos profundos ligados à marcha, ao controle postural e às funções executivas – as habilidades mentais associadas ao lobo frontal, responsáveis por planejar, manter a atenção, controlar impulsos, reter informações temporariamente e adaptar-se a novas situações. Mas será possível reverter esses sintomas? A questão mobiliza pesquisadores. Nesse contexto, se o diagnóstico for preciso e a realização de uma intervenção cirúrgica específica ocorrer no momento adequado, há boas chances disso acontecer. Um grande ensaio clínico, publicado na renomada revista científica The New England Journal of Medicine, avaliou o efeito da cirurgia de derivação liquórica — procedimento que consiste no implante de uma válvula para drenar o excesso de líquor — em pacientes cuidadosamente selecionados. Os participantes foram previamente submetidos a testes com drenagem temporária de líquor para avaliar a probabilidade de resposta ao tratamento. Nesse contexto, a neurociência não é apenas tecnologia — envolve, sobretudo, uma seleção clínica cuidadosa, orientada pela fisiologia. O principal resultado descrito no estudo citado foi objetivo e mensurável: após três meses, os pacientes que receberam uma válvula funcional para drenar o líquido cerebral apresentaram maior velocidade ao caminhar, enquanto o grupo placebo (tratamento simulado, sem efeito terapêutico real) permaneceu praticamente inalterado. A diferença foi considerada clinicamente relevante pelos pesquisadores. À primeira vista, pode parecer um aspecto mais técnico. No entanto, a velocidade da marcha é um dos indicadores mais consistentes de saúde no envelhecimento porque sintetiza, em uma única medida, o funcionamento integrado de múltiplos sistemas do organismo — neurológico, muscular, cardiovascular e de equilíbrio. Alterações nesse ritmo costumam refletir precocemente perdas nessas funções. Por isso, mais do que “andar melhor”, caminhar mais rápido está associado a menor risco de quedas, maior autonomia e melhor prognóstico funcional. Do ponto de vista cerebral, os resultados sugerem que a drenagem do líquor alivia a disfunção de circuitos fronto-subcorticais — redes de conexão entre o córtex frontal (responsável pelo planejamento e pela tomada de decisões) e estruturas mais profundas do cérebro, como os gânglios da base, que ajudam a dar início aos movimentos e a coordená-los de forma adequada. O estudo também mostrou melhora significativa em testes de equilíbrio e mobilidade global, enquanto os ganhos cognitivos foram mais discretos no curto prazo. Esse descompasso é esperado do ponto de vista neurobiológico: circuitos ligados ao movimento e ao controle da postura tendem a responder mais rapidamente à redução da pressão ventricular, enquanto funções cognitivas — que dependem de redes cerebrais mais amplas e da integração entre diferentes áreas — levam mais tempo para se reorganizar. Em alguns casos, essa recuperação mais lenta pode indicar que parte das alterações no cérebro já não é totalmente reversível, especialmente quando a doença está mais avançada. Em outras palavras, o sistema motor tende a responder de forma mais imediata, como se fosse aliviado de uma sobrecarga, enquanto o funcionamento cognitivo, mais complexo, pode exigir um tempo maior para se recuperar. O que muda no cérebro No estudo referido, as imagens cerebrais obtidas por exames como a ressonância magnética mostraram uma redução do volume dos ventrículos após o início do funcionamento da válvula, indicando que o tratamento não atua apenas sobre os sintomas, mas modifica a mecânica interna do cérebro. Menor distensão ventricular significa menos estiramento de fibras nervosas profundas, especialmente na substância branca periventricular. Essas fibras funcionam como verdadeiras “autoestradas”, conectando regiões frontais a centros motores e ao controle esfincteriano. a comunicação entre essas áreas se torna menos eficiente quando elas são comprimidas. Aliviar essa pressão é, portanto, como desobstruir vias de tráfego neural. Trata-se de um benefício real, mas que também envolve riscos. A neurocirurgia de derivação não é trivial, e o estudo também registrou efeitos adversos, como dor de cabeça por excesso de drenagem e pequenos sangramentos subdurais em parte dos pacientes. Quando a marcha melhora, o impacto vai além do movimento.

Infodemia: como plataformas digitais usam a desinformação e o excesso de informação para lucrar

Gilbergues Santos Soares, Universidade Federal da Paraíba (UFPB) O Dia Internacional da Checagem de Fatos, neste 2 de abril, é mais uma oportunidade para qualificar a discussão sobre desinformação. Ela é uma marca do nosso tempo, assim como a premissa de que poderia ser combatida com mais informação. Essa ideia sustenta que ampliar o acesso a conteúdos neutralizaria as narrativas enganosas e seria suficiente para estimular práticas informacionais adequadas. Mas informação e desinformação são produzidas e disseminadas no mesmo ecossistema informacional. Em uma era dominada pela circulação intensa de conteúdos, pelo negacionismo, pelo revisionismo e por plataformas que monetizam atenção e engajamento, somente ampliar o volume informacional não basta para reduzir o grau de desinformação. É preciso investigar como a desinformação circula nas plataformas digitais e de que modo as práticas desinformacionais estão inscritas em um modelo de negócio que transforma atenção, engajamento e circulação em monetização. Mesmo sufocada pela desinformação, a sociedade trata a era digital e a informação como panaceias para os problemas produzidos nesse ambiente. A informação é entendida como solução em si mesma. Nesse enquadramento, a oposição entre informação e desinformação tende à simplificação: de um lado estaria a verdade; de outro, a mentira. Dessa simplificação emerge uma leitura recorrente do problema: se a desinformação se espalha, o caminho seria ampliar a circulação de informação qualificada para contê-la. Foi nesse contexto que, durante a pandemia de Covid-19, ganhou força a noção de infodemia. Hiperinformação e superdesinformação Durante a pandemia de Covid-19, o termo infodemia se difundiu como o excesso de dados e conteúdos — corretos e/ou incorretos — que circulavam com velocidade pelas plataformas digitais. Cresceu a percepção de que a desinformação poderia ser enfrentada com mais informação. A experiência mostrou que, mesmo com a existência e disponibilização de muitas evidências científicas, conteúdos falsos ou distorcidos prosperam impulsionados pelo volume de circulação. Ainda assim, a “sociedade da informação” oferece uma resposta centrada no indivíduo, privilegiando competências críticas e habilidades individuais para reconhecer narrativas falsas. Em vez de enfrentar as condições em que a desinformação circula, essa abordagem desloca para o sujeito a responsabilidade de distingui-la da informação. Como observa o pesquisador Rodrigo Moreno Marques (UFMG), o foco recai sobre as habilidades individuais, e não sobre o ambiente em que essas narrativas são produzidas, circulam e se fortalecem. A desinformação não pode ser resumida ou atribuída a falhas pessoais de interpretação. Trata-se de um fenômeno que estrutura estratégias de poder: em vez de circular espontaneamente, ela se articula com interesses econômicos e políticos, além de formas de organização da comunicação nas plataformas, como exemplificam as mobilizações da extrema direita no espaço digital. Para compreender esse funcionamento, é preciso relacionar informação e desinformação à crítica da economia política. Conceitos como alienação e fetichismo, formulados pelo filósofo e economista alemão Karl Marx, ajudam a iluminar uma realidade em que narrativas operam como fatos e a circulação de conteúdos se articula a questões econômicas e sociais. Nesse quadro, o regime de informação/desinformação passa a tensionar a própria democracia. Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), Marx demonstrou que o capital provém da exploração dos trabalhadores e da acumulação de riquezas. Essa discussão importa porque essas relações de exploração se reconfiguram no ambiente digital, em que essa tecnologia se tornou a “indústria-base” da acumulação capitalista. Com ela, a informação converte-se em monetização e o modelo de negócio das plataformas aprofunda a acumulação de capitais, ampliando as desigualdades sociais. Enquanto tecnologias digitais expandem mercados e multiplicam fluxos informacionais, novas formas de exploração se consolidam e o capital se concentra cada vez mais. Nesse contexto, o atual regime informacional precisa ser compreendido como parte do capitalismo para podermos falar de desinformação. O novo regime de informação O modo como a vida material e o trabalho são produzidos e organizados influencia a forma como pensamos e nos comunicamos. Em sociedades plataformizadas, em contínua expansão, as redes sociais e as big techs distribuem informação e influenciam a organização e produção da vida social, estruturada a partir de uma base econômica. As condições materiais de existência dão origem a uma superestrutura composta por dimensões sociais, políticas, culturais e intelectuais. Assim, o conceito de alienação ajuda a entender efeitos da informação mediada pelas plataformas. Alienação ocorre quando deixamos de reconhecer ou controlar o produto de nosso trabalho. E isso se intensifica no ambiente das plataformas que retroalimenta a dinâmica de acumulação. Usuários produzem dados e conteúdos que alimentam sistemas econômicos sem que possam controlar o uso dessas informações. Em A Sociedade do Espetáculo, o filósofo e cineasta francês Guy Debord trata do indivíduo alienado pela sociedade moderna. Quanto mais o trabalhador (usuário) produz conteúdos e interações, menos vive essa experiência, se reconhecendo em imagens e narrativas dominantes, sem compreender sua posição no sistema. Quanto mais alienado do resultado de sua atividade, mais assume o papel de espectador. Temos, portanto, a consolidação de um espetáculo alimentado por um estágio avançado de produção de mais-valor (o valor gerado pela atividade do trabalhador/usuário e apropriado economicamente pelas plataformas). Nessas condições, a participação é convertida em matéria-prima. O modelo de negócio plataformizado move-se pela expropriação do tempo real do trabalhador/usuário, que ao mesmo tempo produz e consome, sob uma sensação de liberdade que não corresponde às relações efetivas em que está inserido. Nesse ambiente, atividades antes ligadas ao convívio social e ao lazer passam a ser mediadas pelo consumo e pela visibilidade nas plataformas. O espetáculo descrito por Debord se atualiza: relações sociais são filtradas e organizadas por uma lógica mercantil que transforma experiências em produtos. Informação e desinformação alienam e circulam nas redes como produtos do trabalho social. Essa produção favorece distorção, simplificação e manipulação de conteúdos. O resultado é um ambiente informacional que dificulta uma compreensão crítica da realidade. Sob a lente da economia política No novo regime de informação, mudam os meios e dispositivos e as plataformas se multiplicam, mas o capitalismo segue impondo as regras do jogo. Tecnologias ampliam o alcance e a velocidade dos fluxos informacionais, enquanto as mesmas lógicas de acumulação continuam organizando a produção e circulação