Ouro Preto, quarta-feira, abril 15, 2026 00:34

A história da primeira chamada telefônica: as palavras que mudaram o mundo

Iwan Rhys Morus, Aberystwyth University “Sr. Watson, venha cá. Quero vê-lo”. Meia dúzia de palavras dificilmente memoráveis em português, mas com implicações enormes. Proferidas pelo escocês Alexander Graham Bell em seu laboratório em Boston, em 10 de março de 1876, foram as primeiras palavras inteligíveis a serem transmitidas eletricamente por um fio de um lugar para outro. Com isso, começou a era do telefone. Thomas Watson, assistente de Bell, recebeu essa ligação não muito longe, na sala ao lado, mas as ambições de Bell iam muito além. O professor de fisiologia vocal de 29 anos da Universidade de Boston tinha certeza de que havia inventado uma tecnologia que mudaria a história. Agora, ele só precisava convencer o resto do mundo. Um esboço de 1876 de Alexander Graham Bell mostrando sua tecnologia telefônica. Biblioteca do Congresso dos EUA Bell vinha trabalhando no projeto de um “telégrafo harmônico”, como ele o chamava, há vários anos. Originalmente, o aparelho foi concebido como uma forma de enviar várias mensagens telegráficas simultaneamente pelo mesmo cabo. Mas Bell não foi o único a ter essa ideia. O engenheiro elétrico americano Elisha Grey estava trabalhando em algo semelhante, e os dois homens apresentaram reservas de patente – um aviso de sua intenção de depositar um pedido completo – com uma diferença de uma hora entre um e outro, em 14 de fevereiro de 1876. Seguiu-se uma comunicação frenética entre Bell, em Boston, e seu agente em Washington DC para garantir que os pedidos não se sobrepusessem. A patente de Bell (US174465A) foi finalmente emitida em 7 de março. Três dias depois, ele fez história ao pronunciar aquelas palavras simples. Grey abandonou sua reserva de patente, e suas tentativas futuras de contestar a patente de Bell fracassaram no tribunal. Como funcionava o telefone de Bell A chave para essa nova tecnologia telefônica foi desenvolver uma maneira de transformar as oscilações acústicas geradas pela voz humana em oscilações elétricas que pudessem ser transmitidas por um cabo telegráfico. (Nessa época, cabos submarinos já conectavam a Irlanda à América do Norte e a Inglaterra à Europa continental.) Bell e seu assistente Watson já haviam demonstrado que sons bastante complexos, como notas musicais, podiam ser transmitidos eletricamente. Em 1875, eles construíram um transmissor feito de pergaminho esticado como a pele de um tambor, com um pedaço de ferro magnetizado preso que podia se mover entre os polos de um eletroímã. O som fazia o pergaminho vibrar. Isso, por sua vez, fazia o pedaço de ferro se mover para frente e para trás entre os polos do eletroímã, criando uma corrente oscilante que podia ser transformada de volta em som com um aparelho semelhante na outra extremidade. O projeto de telefone de Alexander Graham Bell tinha um transmissor feito de pergaminho esticado como a pele de um tambor. Everett Collection/Shutterstock Essa foi a tecnologia que Bell patenteou em 7 de março de 1876. Mas não foi a tecnologia que ele usou em sua primeira demonstração três dias depois. Na verdade, suas palavras foram transmitidas usando um transmissor líquido cheio de água acidificada que conduzia eletricidade. Esse dispositivo era semelhante aos que Grey vinha usando. Esse fato causou alguma controvérsia quando veio a público, fazendo parte das tentativas de Grey de contestar a patente de Bell. Ainda hoje, às vezes se afirma que Grey, e não Bell, foi o verdadeiro inventor do telefone. Mas Bell não voltou a utilizar o transmissor líquido nas suas experiências – era difícil ver como essa estrutura poderia ser transformada em um produto comercial. E, nos primeiros meses após a demonstração, o telefone parecia não ter qualquer futuro. Todos concordavam que era um dispositivo maravilhoso e engenhoso – mas para que servia, exatamente? Não era concorrência para o telégrafo. Afinal, para quem se iria ligar? Vendedor e showman Quando o novo dispositivo de Bell foi exibido na Exposição Centenária da Filadélfia em 1876, ele ficou praticamente perdido no meio da multidão de expositores – embora o então imperador do Brasil, Dom Pedro II, tenha exclamado: “Meu Deus, ele fala!”. Mas dois dos juízes, os eminentes cientistas Joseph Henry e William Thomson, concederam a Bell uma das cobiçadas medalhas da exposição. Thomson, nascido na Irlanda – o primeiro cientista a ser elevado à Câmara Alta do Parlamento Britânico como Lord Kelvin – mais tarde contaria aos cientistas de seu país sobre “a coisa mais maravilhosa da América… a maior de todas as maravilhas do telégrafo elétrico se deve a um jovem compatriota nosso, o Sr. Graham Bell”. Enquanto isso, Bell trabalhava arduamente para vender sua invenção. Como todos os inventores vitorianos, ele também precisava ser um showman. Em uma apresentação em Salem, Massachusetts, em fevereiro de 1877, ele usou o telefone para se comunicar com seu assistente Watson, que estava longe, em Boston. Primeiro, eles tocaram o código Morse pela linha em notas musicais, e “o público explodiu em aplausos”, de acordo com relatos. Em seguida, um “órgão telefônico” em Boston tocou as músicas Auld Lang Syne e Yankee Doodle para o público extasiado de Salem. Em Londres, fios foram instalados entre teatros para permitir um “concerto telefônico, no qual o público de um teatro ouviria a música tocada no outro”. É claro que tudo isso custou dinheiro, e Bell tinha investidores para apoiá-lo — incluindo seu futuro sogro Gardiner Greene Hubbard, um rico advogado e financista americano, e fundador da National Geographic Society. Em 1877, eles formalizaram a transformação da Bell Patent Association em uma sociedade por ações, a Bell Telephone Company, para desenvolver as possibilidades comerciais da invenção de Bell. Logo eles estavam fabricando equipamentos telefônicos com o design de Bell e, dois anos depois, fundaram a International Bell Telephone Company para comercializar os equipamentos na Europa. Em 1885, ela se tornaria a American Telephone and Telegraph Company, mais conhecida hoje como AT&T. Em um nível mais individual, Bell fez fortuna, enquanto seu rival Grey foi relegado a uma nota de rodapé na história das tecnologias elétricas. Na virada do século XX, o telefone havia encontrado seu

Sarampo preocupa profissionais da saúde, mas retorno da doença ao Brasil pode ser evitado

Mônica Levi, Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Os registros de 38 casos de sarampo em 2025, entre adultos e crianças, e de dois casos em 2026, todos importados de outros países, evidenciam o risco de a doença voltar ao Brasil. Esse retrocesso não seria novidade. Em 2019, após 12 meses de transmissão sustentada da enfermidade em território nacional, o certificado de eliminação da doença conquistado em 2016 foi revogado. À época, a reintrodução do vírus foi resultado da combinação entre as baixas coberturas vacinais, sobretudo em algumas regiões do país que concentraram bolsões de indivíduos não vacinados, e a entrada de pessoas não imunizadas vindas do exterior. Os índices de vacinação evoluíram de forma significativa desde então, em especial se comparados aos de 2020 e 2021, auge da pandemia de Covid-19. No entanto, até hoje não conseguimos alcançar a meta de 95% para as duas doses da vacina tríplice viral, que além do sarampo previne a caxumba e a rubéola. Isso deixa o Brasil suscetível à doença, notadamente em um contexto de alta circulação do vírus em países próximos. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), entre 2025 e a segunda semana de 2026 foram confirmados 15.922 casos de sarampo nas Américas, alta de 32 vezes em relação a 2024. Quase 95% dos episódios (15.084) ocorreram nos Estados Unidos, México e Canadá, sedes da próxima Copa do Mundo, em junho de 2026. Estima-se que a competição receberá 7 milhões de pessoas, incluindo milhares de brasileiros. A Bolívia, origem dos casos recentes no Brasil, ocupa a quarta posição no ranking. Cenário exige atenção Para evitar possíveis surtos e a eventual perda do status de país livre do sarampo, é necessário atuar em três frentes: aumento da vacinação (incluindo o resgate de adultos com esquemas irregulares), vigilância epidemiológica e resposta rápida diante de casos suspeitos. Nesse sentido, embora sempre seja possível evoluir, vale elogiar o trabalho desenvolvido pelo Ministério da Saúde nos últimos anos. A pasta tem investido em campanhas de multivacinação para a atualização da caderneta de crianças e adolescentes, busca ativa de não vacinados, vacinação escolar e em comunicação, item fundamental para aumentar a adesão. A presença na internet se tornou mais forte, com linguagem próxima do público jovem, e o Zé Gotinha passou a participar de grandes eventos e protagonizar estratégias nas redes sociais. A identificação e resposta a casos também têm sido efetiva. Entre outras ações, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) manteve por três semanas uma equipe no município de Campos Lindos, no Tocantins, que concentrou aproximadamente 60% dos casos de sarampo no Brasil em 2025. O trabalho em parceria com as equipes locais, que incluiu a identificação de comunicantes e vacinação de bloqueio, impediu que a cadeia de transmissão se expandisse. Medidas semelhantes foram adotadas em outros episódios. O sarampo já esteve entre as principais causas de mortalidade infantil no país, mas foi controlado progressivamente a partir da década de 1990 e eliminado em duas ocasiões: 2016 e 2024. Por estar entre os vírus mais contagiosos — uma pessoa infectada pode transmitir para até 18 pessoas suscetíveis —, o risco de reintrodução é real. A vacinação é a principal ferramenta preventiva. O SUS oferece a vacina gratuitamente, em duas doses, para crianças a partir de 12 meses a para adultos com menos de 30 anos de idade. Dos 30 aos 59 anos, é disponibilizada uma dose. Quem não tem certeza se já foi vacinado ou têm dúvidas se completou o esquema deve regularizar o calendário de acordo com a faixa etária. Mais do que a proteção individual, a vacinação é um ato de cuidado com quem não pode se vacinar, como crianças menores de 6 meses e imunodeprimidos. Colabore com esta causa. Mônica Levi, Presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e Membro da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização do Programa Nacional de Imunizações, Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.