Ouro Preto, terça-feira, abril 14, 2026 22:24

Projetos de liberdade: pesquisas recuperam trajetória de famílias de mães escravizadas

Alexandra Lima da Silva, UERJ O mundo celebra neste 25 de março o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão, data criada pela ONU em 2007. No Brasil, um dos legados mais perversos desse período é a dificuldade de reconstruir as histórias e genealogias das famílias dos escravizados. Em muita medida, isso se deve à ausência – ou mesmo ao apagamento – da filiação nos registros de nascimento e batismo. Mas a escuta atenta das vozes negras, seus relatos e ações, permite compreender as experiências cotidianas das famílias de escravizados nos séculos 18 e 19 como um projeto ancestral de liberdade – contrariando a premissa de total impotência das mães escravizadas. Há algum tempo, a historiografia brasileira evidencia o protagonismo das mulheres negras que, de diferentes maneiras, resistiram à escravidão. Após a alforria, a Escolha de Luíza Em minhas pesquisas na linha de gênero, raça e interseccionalidades, no programa de Pós-Graduação em Educação e no Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), tenho acompanhado de perto as experiências de liberdade de uma família negra, cuja matriarca era uma africana escravizada. Luíza foi mãe de dois filhos, nascidos na escravidão, no Rio de Janeiro. Após conquistar a própria alforria, Luíza precisou escolher qual filho deveria libertar. De forma consciente, e combatendo a ideia de que “árvores genealógicas não florescem entre os escravizados”, Luíza decidiu salvar a filha. Ela mirou no futuro: acreditou que ao libertar a filha mulher, libertaria toda a família da escravidão. Sua previsão tardou algumas décadas, mas de fato aconteceu. Apesar de liberta, e de ter libertado a filha, Luíza conviveu até o fim da vida com a dor de não ter conseguido libertar seu filho: “Lembro-me que às vezes pegava-me na cabeça e me estreitava no colo, dizendo estas palavras que nunca mais poderei esquecer: ‘pobre filho’, eu não posso te libertar!”, lembra o filho de Luíza, Israel Antonio Soares, em seu relato autobiográfico publicado no livro “Rascunhos e perfis: notas de um repórter”, do amigo e jornalista Ernesto Sena, publicado em 1900. Ainda que não tenha conseguido comprar a alforria do filho mais novo, ele próprio conseguiu libertar-se, algumas décadas depois. Israel Antonio Soares nasceu no Rio de Janeiro. Em 1843, se tornou um abolicionista e, ao lado da companheira Antonia Botelho Soares (1858-1945), uma mulher negra e escravizada, conquistaram a liberdade em parceria e comunhão. Autodidata e ainda na condição de escravizado, Israel Antonio Soares criou, por volta da década de 1870, uma escola noturna para instruir escravizados e libertos, no Rio de Janeiro. Ele também formou uma sociedade de dança com o título Bella Amante, que teria existido por mais de dez anos. Teria sido um caso isolado? Poderia um escravizado ensinar e ainda abrir uma escola para educar pessoas negras? Israel Soares não agia sozinho. Ele integrava a rede de sociabilidade de José do Patrocínio, uma das figuras mais importantes do movimento abolicionista no país. Além da importante atuação como jornalista e escritor, Patrocínio também atuou como professor de primeiras letras na Escola da Cancella, instituição criada pela fundação da Caixa Libertadora José do Patrocínio, e presidida pelo próprio Israel Antonio Soares. Escolas noturnas e clandestinas Outra experiência voltada para a educação dos filhos de pessoas libertas da escravidão que coexistiu com a escola de Israel Soares foi a escola liderada pelo professor negro conhecido como Zózimo, ou “Zé Índio”. Fundada em 1871, a escola funcionava num alpendre na Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, esquina de um logradouro na época conhecido como “Beco do Buraco”. Para frequentá-la, os alunos pagavam “meia pataca”, que era o equivalente a uma moeda de 160 Réis, a moeda brasileira na época. Outro caso bastante emblemático foi o de Preto Cosme, nascido na escravidão no Maranhão, em 1830. Alfabetizado, conquistou a alforria e abriu uma escola de primeiras letras, além de ter liderado a Revolta da Balaiada. Pesquisas realizadas em diferentes países da diáspora africana evidenciam inúmeros casos de escolas negras, muitas das quais secretas, noturnas e clandestinas, lideradas por pessoas escravizadas. A experiência de Israel Soares, portanto, não foi um caso isolado. Seu projeto de liberdade passava pela educação e pela constituição de uma família completa, com a presença tanto da mãe quanto do pai. Aos 22 anos, o filho do casal, Israel Antonio Soares Júnior, tinha uma formação concluída em Farmácia. E em 1913, aos 25 anos, formou-se em Medicina. A pesquisa localizou também a neta do casal, Eugênia Luíza Soares, com formação em Obstetrícia. Duas irmãs de Eugênia, nascidas na primeira década do século XX, cursaram magistério, sendo que uma delas foi professora de piano. E o bisneto de Israel Soares e Antonia Botelho Soares, nascido em 1921, foi um notável tenor negro na cena musical carioca. O projeto ancestral arquitetado no sacrifício e na dramática escolha de uma mãe floresceu nos netos, netas e bisnetas. Mas o choro de Luíza ecoou por gerações. A busca da ancestralidade dos escravizados brasileiros que gerou este artigo foi possível graças ao apoio de agências como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), e Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes). Alexandra Lima da Silva, Professora Titular e líder do grupo de pesquisa Eleko: Direitos Humanos, Educação e Interseccionalidades, UERJ This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Cientista conta o que vivenciou e como sobreviveu quando se viu acidentalmente dentro de um tornado

Cientista conta o que vivenciou e como sobreviveu quando se viu acidentalmente dentro de um tornado Os tornados podem ser imprevisíveis e extremamente perigosos, como experimentou em primeira mão Perry Samson, cientista atmosférico da Universidade de Michigan, EUA. Brent Koops/NOAA Weather in Focus Photo Contest 2015, CC BY Perry Samson, University of Michigan Eu vi o centro de um monstro. A maioria das pessoas descreve o som de um tornado como o de um trem de carga, mas, de perto, é mais parecido com mil motores a jato gritando. Sou uma das poucas pessoas no mundo que dirigiu dentro de um tornado e sobreviveu para contar a história. Embora possa parecer uma cena de um filme blockbuster de Hollywood envolvendo um caminhão blindado de alta tecnologia, minha experiência foi muito mais perigosa e aterrorizante. Sou um cientista atmosférico que estuda tornados, mas só estou vivo hoje graças a decisões tomadas em frações de segundo e a uma enorme dose de sorte. Acredite, não quero nunca mais passar por essa situação. Os tornados variam em tamanho e intensidade. Hank Schyma, usado com permissão O dia em que o céu se abriu Tudo começou no noroeste do Kansas, onde eu estava estudando supercélulas de tempestade – do tipo que produz tornados – com uma equipe de estudantes da Universidade de Michigan. Estávamos posicionados sob uma tempestade tão escura que tivemos que ligar os faróis dos nossos veículos no meio do dia. De repente, um tornado se formou e começou a avançar diretamente em nossa direção. A tempestade que o autor sobreviveu, filmada por estudantes que estavam em veículos próximos naquele momento. Os estudantes estavam em outros veículos e conseguiram escapar, mas meu carro foi rapidamente engolido por uma nuvem de detritos voadores tão densa que eu não conseguia ver o próprio capô. Com minhas opções se esgotando, fiz uma manobra desesperada: virei o carro diretamente contra o vento, na esperança de que a aerodinâmica do veículo nos mantivesse presos ao chão, em vez de sermos virados como um brinquedo. A física do medo Quando você está dentro do vórtice de um tornado, seu corpo passa por coisas que as câmeras dos canais de notícias não conseguem capturar: A mudança de pressão: Um tornado é uma área localizada de mudança rápida de pressão. Seus ouvidos não apenas “estalam” – eles doem, como se sua cabeça estivesse sendo apertada por mãos gigantes. O vento sólido: Medimos velocidades de vento de quase 241 km/h nas proximidades, mas dentro do vórtice elas provavelmente eram muito maiores. A essas velocidades, o ar atinge você com a força de um objeto sólido. A sopa de escuridão: Nos filmes, o “olho” é um espaço claro. Na realidade, é uma bola de detritos – uma sopa marrom-escura de solo pulverizado, árvores e prédios. Estava tão escuro que minha câmera nem conseguiu registrar uma imagem. Os ventos de um tornado podem atingir 482 km/h. Os detritos voando em alta velocidade são parte do maior perigo. Hank Schyma, usado com permissão Enquanto os detritos batiam no meu para-brisa, eu estava apavorado com a possibilidade de ser esmagado por materiais voadores – tornados podem levantar cercas, madeira e metal de prédios, galhos de árvores e até vacas. Os manuais recomendam entrar em uma vala para ficar deitado e ficar mais protegido contra detritos voadores. Mas o vento era tão violento que eu nem conseguia abrir a porta do carro. Eu apenas me mantive agachado e rezei. A formação de um monstro Como uma tempestade tão severa chega a acontecer? É necessária uma receita perfeita e violenta de ingredientes atmosféricos: Combustível: Um tornado precisa de ar quente e úmido (vapor de água) próximo ao solo, com ar seco acima dele. Isso cria o potencial para a ascensão do ar, mas somente se a atmosfera estiver instável o suficiente para superar “a tampa de contenção”. A tampa de contenção: Uma fina “camada de inversão” de ar estável age como uma tampa sobre esse ar quente e úmido, prendendo-o até que o ar úmido consiga romper. A linha seca: A linha seca é onde o ar quente e úmido do Golfo do México e o ar seco do oeste se encontram. O ar quente e seco que avança é, na verdade, mais pesado do que o ar abafado, e esse ar seco empurra o ar úmido para cima, rompendo a tampa de contenção. Cisalhamento do vento: Os ventos superficiais vindos do sul e os ventos em altitude vindos do oeste criam um movimento de rotação horizontal na atmosfera. Quando o ar é empurrado para cima, essa rotação torna-se vertical, criando o que é conhecido como mesociclone. A corrente de jato: A cerca de 8 a 11 quilômetros de altitude, a corrente de jato é um rio de ar que se move rapidamente. Perturbações dentro dela podem criar áreas que puxam o ar para cima a partir de baixo e reduzem a pressão na superfície. Como a cisalhamento do vento faz com que os ventos se enrolem e formem tornados. NOAA. Juntos, esses ingredientes podem criar o vórtice rotativo e poderoso que você conhece como tornado. Essas tempestades podem ter ventos de até 482 km/h e deixar um longo rastro de destruição, às vezes com mais de 1,6 km de largura. Elas podem permanecer no solo por segundos ou muitos minutos, destruindo prédios e árvores em seu caminho. É difícil prever para onde elas se deslocarão, portanto, buscar um local seguro deve ser uma prioridade. A lição do monstro Quando a tempestade passou, o silêncio era assustador. Meu carro alugado estava atolado na lama, a antena estava dobrada ao meio e pedaços de palha estavam cravados em cada costura da carroceria do carro. Tornados são extremamente perigosos. Sessenta e uma pessoas foram mortas por tornados nos EUA em 2025, e muitas outras ficaram feridas por detritos voadores. Certifique-se de saber o que fazer quando um alerta de tornado soar – siga as orientações do alerta e procure um local seguro imediatamente. Cientistas do Laboratório Nacional de Tempestades