Pesquisa derruba mito: quem mais compra livro no Brasil é mulher negra da classe C

Pesquisa CBL/Nielsen mostra que mulheres negras da classe C são o maior grupo comprador do país Quem compra livro no Brasil não é quem a maioria imagina. A pesquisa Panorama do Consumo de Livros, divulgada em março pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData, desfaz alguns estereótipos de uma vez por todas: o maior grupo consumidor de livros no país são mulheres negras da classe C. Não a elite. Não os universitários de grandes centros. Mulheres negras, classe C, 15% de todos os compradores de livros brasileiros. O estudo entrevistou 16 mil pessoas com 18 anos ou mais, em outubro de 2025, cobrindo todas as regiões e faixas de renda. O resultado: 18% da população adulta brasileira comprou ao menos um livro nos últimos 12 meses — um crescimento de 2 pontos percentuais sobre 2024, o que representa cerca de 3 milhões de novos compradores num único ano. As mulheres respondem por 61% de todos os consumidores. Pessoas pretas e pardas, somadas, são 49% do total. O outro dado que quebra paradigmas é o crescimento entre jovens. As faixas de 18 a 24 e 25 a 34 anos avançaram juntas 3,4 pontos percentuais em relação ao ano anterior. O canal que explica boa parte desse movimento é o TikTok e o Instagram — os chamados BookTok e bookstagram, onde perfis dedicados à literatura acumulam milhões de visualizações. “As redes sociais se tornaram uma porta de entrada importante para novos leitores. Criadores de conteúdo, recomendações online e comunidades virtuais têm ampliado o alcance da literatura, especialmente entre os mais jovens”, afirmou Sevani Matos, presidente da CBL. O dado confirma: 56% dos consumidores de livros costumam fazer compras por redes sociais. Parte do crescimento tem explicação mais prosaica. Em 2025, os livros de colorir viraram febre — cerca de 11 milhões de pessoas, 7,1% dos adultos, compraram ao menos um exemplar. É um número que pode superestimar o interesse por leitura de longo prazo: alguém que compra um livro de colorir numa fila de supermercado não necessariamente vai para a livraria na semana seguinte. A economista Mariana Bueno, da Nielsen, faz a ressalva sem rodeios: “Os livros de colorir são, sem dúvida, um fator relevante para esse crescimento. Mas os dados do varejo indicam que os títulos de ficção, especialmente os Young Adult, tiveram papel decisivo nessa alta.” Se o crescimento é real, os obstáculos também são. Cerca de 35 milhões de brasileiros que não compraram livros em 2025 apontaram como principal razão a falta de livrarias físicas próximas. Outros 35% disseram que o preço é alto demais. E 16% admitiram ter acessado PDFs gratuitos ou livros digitais ilegais — o que o setor lê como “demanda reprimida”: há gente que quer ler e não quer, ou não pode, pagar. “Pirataria é demanda. São pessoas que estão, de alguma maneira, lendo mas não comprando”, disse Bueno. Quanto ao formato, o livro impresso segue dominante: 80% das últimas compras foram de exemplares físicos. Mas 53% das vendas totais já acontecem em plataformas online — o que significa que a livraria física perdeu o canal sem perder o valor simbólico. Para 53% dos compradores, a livraria é um espaço para relaxar e explorar sem pressa. Para 46%, é conexão com cultura. O lugar ainda importa — só que a compra muitas vezes acontece em outro lugar. 📚 Quem compra livro no Brasil — dados CBL/Nielsen 2025 18% da população adulta comprou ao menos um livro em 2025 3 milhões de novos compradores em relação a 2024 61% dos compradores são mulheres 49% são pessoas pretas ou pardas Maior grupo: mulheres negras da classe C — 15% do total de compradores Maior crescimento: jovens de 18 a 34 anos (+3,4 pp) 80% compraram livro impresso na última compra 53% das vendas totais já são online 56% dos compradores costumam comprar por redes sociais 16% dos não-compradores admitiram acessar pirataria Metodologia: 16 mil entrevistas, outubro de 2025, todas as regiões e faixas de renda, margem de erro 0,8%