Ouro Preto, sexta-feira, junho 5, 2026 22:16

Na Copa do Mundo, a paixão pelo futebol terá uma forte concorrente: a obsessão pelas apostas

David Nemer, University of Virginia Desde 1958, a Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo para o Brasil. Faz parte da identidade do país. Mas a partir do próximo dia 11 de junho, quando começar a Copa dos EUA, México e Canadá, as dezenas de milhões de brasileiros que acompanharão os jogos pela TV e internet vão compartilhar – pela primeira vez em larguíssima escala – um outro tipo de emoção além da felicidade das vitórias e a frustração das derrotas: a perigosa roleta-russa emocional e financeira das apostas. Durante a maior parte da história do futebol, torcedores de todo o mundo comemoravam gols, grandes defesas, jogadas habilidosas, viradas e vitórias. Agora, plataformas online dividiram o jogo em centenas de pequenas apostas financeiras. Os torcedores podem apostar no placar final, mas também em cartões amarelos e vermelhos, escanteios, laterais, chutes a gol, defesas, faltas e quase todas as estatísticas que o jogo produz. Essa mudança altera o que o futebol significa emocionalmente para muitos de seus torcedores. Por exemplo: alguém pode torcer por um escanteio contra o próprio time se isso ajudar na aposta. Pode-se torcer para que um zagueiro receba um cartão amarelo, mesmo que isso seja ruim para o time. Alguns podem se importar menos com como o Brasil está jogando e mais com quanto tempo de acréscimo haverá para ter outra chance de ganhar uma aposta. Não se trata simplesmente de tornar a partida mais divertida. Isso transforma a paixão pelo esporte em uma transação. A magia do futebol vem de todos compartilharem a mesma esperança por um gol. As apostas quebram esse vínculo. Agora, uma falta não é apenas uma falta, é uma chance de ganhar dinheiro. Um escanteio se torna uma forma de lucrar. Apostas e custos sociais Isso é especialmente importante no Brasil, onde as apostas online agora fazem parte do dia a dia de muitas pessoas. As apostas com odds fixas se tornaram legais em 2018, mas a regulamentação de verdade só veio muito depois. Entre 2018 e 2024, as empresas cresceram rapidamente em uma área cinzenta da regulamentação, enchendo o futebol e as redes sociais com anúncios de apostas. Quando o mercado foi regulamentado em 2025, as apostas já estavam em toda parte. Os números revelam o quão grande isso se tornou. Em 2025, o Brasil ficou em quinto lugar no mundo em receita de apostas online — os Estados Unidos ficaram em primeiro, seguidos pelo Reino Unido, Itália e Rússia. Integrantes de cerca de 26,3% dos lares brasileiros fizeram algum tipo de aposta esportiva. No ano passado, 39,5 milhões de brasileiros utilizaram plataformas de apostas. Só no primeiro trimestre de 2025 os sites de apostas no Brasil registraram mais de 5 bilhões de visitas — mais de 650 por segundo. Dados do Banco Central mostraram que os brasileiros movimentavam até R$ 30 bilhões (US$ 6 bilhões) por mês por meio dessas plataformas. Os custos sociais são evidentes. Dezenove por cento dos apostadores, cerca de 7,5 milhões de pessoas, afirmaram ter gasto dinheiro com jogos de azar de forma a comprometer sua renda de subsistência. Quarenta e um por cento abriram mão de outras compras para apostar. Dezessete por cento deixaram de pagar uma conta para jogar. Vinte e nove por cento acabaram em listas de inadimplentes por causa das apostas. O gasto médio mensal foi de R$ 187, e para os apostadores de baixa renda, foi de R$ 151,98. Para famílias pobres, esse dinheiro poderia ter sido melhor gasto em alimentação, transporte, fraldas, luz ou aluguel. E isso não é um problema exclusivamente brasileiro. Uma pesquisa nos EUA descobriu que quase um terço dos apostadores da Pensilvânia está em risco de desenvolver problemas com o jogo. Na Austrália, os danos causados pelo jogo provavelmente são subnotificados, enquanto no Reino Unido uma pesquisa mostrou que os jogadores não compreendem o verdadeiro custo das chamadas “apostas grátis” — ofertas como bônus de boas-vindas no primeiro depósito e outros incentivos financeiros. Ligações com a masculinidade Nas favelas do Brasil, apostar raramente é apenas um passatempo, como observei durante dois anos de trabalho de campo em comunidades carentes da cidade de Vitória, capital do Espírito Santo. As pessoas veem isso como uma esperança — uma maneira de esticar um pouco o dinheiro quando os salários não são suficientes. Um jovem me contou que começou a apostar porque um colega de trabalho disse que um aplicativo “dava dinheiro”. Ele resumiu assim: “quem não quer ganhar dinheiro hoje em dia?”. Outro destacou que as pessoas só compartilham seus ganhos, não suas perdas. Muitos sabiam que as probabilidades estavam contra eles. Como disse uma pessoa: “quem realmente ganha são os donos das plataformas”. As apostas em futebol também estão ligadas a noções de masculinidade. Muitos dos jovens com quem conversei viam as apostas esportivas como uma forma de mostrar seu conhecimento, controle e habilidade sobre o tema. Apostar no futebol era prova de que você entendia de times, desempenho, posse de bola, rivalidades e odds. Barbearias e grupos do WhatsApp se tornaram lugares onde os homens compartilham dicas e conselhos. Uma pessoa me disse que apostar era mais comum entre os homens porque se trata de futebol; outra disse que os jovens “vão mais fundo”, arriscando mais dinheiro para ganhos maiores. Não é que as mulheres não apostem; elas apostam. Mas as apostas em futebol costumam carregar uma imagem masculina: o homem como especialista, estrategista e provedor. Quando o dinheiro está curto, as apostas dizem aos jovens que eles podem transformar conhecimento de futebol em dinheiro, e dinheiro em orgulho. Perder é vergonhoso, então os ganhos são exibidos, e prejuízos são mantidos em segredo. Essa demonstração de controle esconde o fato de que a plataforma é quem realmente manda. Regras e regulamentações mais rígidas A Copa do Mundo de 2026 tornará tudo isso ainda maior. Haverá jogos diários, orgulho nacional, anúncios com celebridades, dicas de influenciadores, links de apostas, transferências instantâneas de dinheiro via pix e mercados ao vivo durante os jogos. O