Da medicina milenar chinesa à inovação global, setor farmacêutico do Brasil tem lições a aprender

João Batista Calixto, CIEnP (Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos); Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Nas últimas duas décadas, a China protagonizou uma das mais notáveis transformações científicas da biomedicina contemporânea. Em intervalo curto, o país deixou posição periférica na pesquisa biotecnológica para tornar-se uma potência global. E com isso, transformou áreas como a farmacologia molecular, genômica, inteligência artificial aplicada à saúde. Além de outras como terapia gênica, medicina regenerativa e o desenvolvimento de outras classes de medicamentos inovadores. Parte significativa dessa revolução ocorreu pela integração entre conhecimentos milenares da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) e modernas ferramentas de genômica. A estratégia chinesa demonstra como conhecimentos tradicionais podem ser convertidos em inovação biomédica de ponta. Eles conseguiram isso ao associar investimentos robustos, planejamento de longo prazo e formação de recursos humanos qualificados. Fortalecimento da inovação biomédica A partir da década de 2010, a China implementou políticas de Estado voltadas ao fortalecimento da ciência, tecnologia e inovação. Centenas de milhares de estudantes chineses foram treinados em universidades de excelência nos Estados Unidos e na Europa. Posteriormente, foram atraídos de volta ao país por programas de repatriação científica, como o Thousand Talents Program. Esses programas ofereceram financiamento robusto, infraestrutura moderna, salários competitivos e liberdade para criação de novos grupos de pesquisa. Essa estratégia permitiu rápida formação de uma massa crítica de cientistas altamente qualificados capazes de competir internacionalmente em muitas áreas biomédicas. Vale destacar que isso ocorreu desde a pesquisa básica translacional, incluindo as etapas clínicas até a provação regulatória. Paralelamente, iniciativas estratégicas como Made in China 2025 e Healthy China 2030 direcionaram bilhões de dólares para à saúde e inovação tecnológica incluindo a área farmacêutica. A China passou então a ocupar posição de destaque mundial em publicações científicas em revistas de elevado impacto e prestígio mundial, depósitos de patentes e criação de startups biotecnológicas. Cidades como Pequim, Shenzhen e Xangai transformaram-se em grandes polos globais de inovação biomédica. Atualmente, esses polos integram universidades, hospitais, centros de pesquisa, incubadoras e empresas privadas. Ao mesmo tempo, a modernização da agência regulatória chinesa, a National Medical Products Administration, aproximou o sistema regulatório do país dos padrões internacionais. Com essa ação, conseguiram acelerar a aprovação de medicamentos inovadores e fortalecer toda cadeia de desenvolvimento de novas terapias. E com isso, aumentaram a competitividade da indústria farmacêutica chinesa. Plantas medicinais na origem de medicamentos modernos As plantas medicinais desempenharam papel central no desenvolvimento da medicina moderna. Diversos medicamentos clássicos tiveram origem em produtos naturais utilizados por diferentes civilizações. Entre os exemplos mais conhecidos estão a morfina, derivada de Papaver somniferum e a quinina, obtida de espécies de Cinchona e utilizada para tratamento de angina e taquicardia. Além dessas, a digoxina, derivada de Digitalis purpurea usada para insuficiência cardíaca; e o paclitaxel, isolado de Taxus brevifolia e amplamente usado no tratamento do câncer de mama. O exemplo mais emblemático dessa integração entre medicina tradicional e farmacologia moderna é a artemisinina. Descoberta pela pesquisadora chinesa Tu Youyou a partir da planta Artemisia annua, o composto revolucionou o tratamento da malária. E mais: salvou milhões de vidas em todo o mundo e demonstrou que conhecimentos tradicionais podem gerar descobertas científicas de enorme impacto global. A descoberta rendeu à pesquisadora o Prêmio Nobel de Medicina em 2015. O feito consolidou internacionalmente a relevância científica da Medicina Tradicional Chinesa. Avanços moleculares e genômicos Nas últimas décadas, os chineses passaram a utilizar tecnologias modernas de biologia molecular e inteligência artificial para investigar formulações tradicionais utilizadas há séculos por sua população. Essas abordagens vêm permitindo identificar compostos bioativos, compreender mecanismos de ação moleculares multialvos e explorar novas possibilidades terapêuticas para doenças complexas. Uma ampla revisão científica sobre compostos naturais com potencial antienvelhecimento destacou dezenas de moléculas bioativas derivadas de plantas medicinais da Medicina Tradicional Chinesa. Dois exemplos são o resveratrol – um potente antioxidante extraído das uvas escuras – e a curcumina, derivada da cúrcuma, também conhecida como açafrão-da-terra ou açafrão-da-índia. Segundo os autores, essas moléculas atuam em vias biológicas centrais relacionadas à longevidade, incluindo modulação gênica, proteção contra danos oxidativos ao DNA, entre outras funções. Outro estudo aplicou conceitos de ciência de redes para analisar mais de 59 mil fórmulas da Medicina Tradicional Chinesa registradas ao longo de dois mil anos. Os autores demonstraram que a evolução dessas formulações ocorreu por meio da recombinação de componentes vegetais organizados em redes complexas. O trabalho revelou que combinações simples e frequentemente utilizadas funcionam como “blocos de construção”. Segundo os autores, são fórmulas mais elaboradas e evidenciam notável estabilidade de componentes terapêuticos da Medicina Tradicional Chinesa. Entre as principais áreas terapêuticas investigadas a partir dessa Medicina Tradicional Chinesa destacam-se fibrose hepática, doenças cardiovasculares, lesão pulmonar associada à sepse, processos inflamatórios crônicos, doenças neuropsiquiátricas e vários tipos de câncer. Muitos estudos mostram que compostos naturais presentes nas plantas medicinais chinesas atuam simultaneamente sobre múltiplos alvos biológicos, importantes para doenças multifatoriais e crônicas. A planta Angelica sinensis, tradicionalmente utilizada em doenças ginecológicas e inflamatórias, revelou potencial terapêutico em estudos recentes. Pesquisadores demonstraram que, um de seus principais componentes, apresenta potente efeito antifibrótico hepático. Com isso, reduz processos inflamatórios e mecanismos celulares associados à fibrose do fígado. Outro exemplo envolve Eucommia ulmoides, planta utilizada tradicionalmente em doenças inflamatórias e cardiovasculares. Os chineses desenvolveram nanoformulações do extrato vegetal que foram capazes de reduzir lesão pulmonar aguda associada à sepse. Formulações compostas por associações de várias plantas também são estudadas em doenças cardiovasculares. A formulação Jiedu Yangxin Decoction demonstrou capacidade de reduzir fibrose cardíaca após infarto do miocárdio e modular processos inflamatórios envolvidos no remodelamento cardíaco. Na área neuropsiquiátrica, estudos recentes destacaram o potencial antidepressivo da tradicional fórmula Yueju Pill, utilizada há séculos na Medicina Tradicional Chinesa. A formulação combina cinco plantas medicinais e demonstrou ação multifatorial sobre neurotransmissores cerebrais, neuroplasticidade, neuroinflamação, estresse oxidativo e função mitocondrial. Outra revisão científica destacou o potencial de alcaloides como estratégia complementar no tratamento do câncer colorretal. Esses compostos atuam por múltiplos mecanismos. Entre os quais, estão envolvidos na indução da morte de células tumorais, na inibição da metástase e na modulação da