Quando confiar vira risco: como amigos e familiares ajudam a espalhar notícias falsas nas redes sociais

Giuliana Isabella, Insper Você confiaria mais em uma informação porque foi enviada por alguém próximo? Se a resposta for “sim”, isso pode ser parte de um problema. A desinformação não se espalha apenas porque parece convincente, mas porque chega até nós por meio de pessoas em quem confiamos. Um estudo publicado em abril na Online Information Review investigou por que pessoas comuns compartilham desinformação em aplicativos de mensagens. O artigo, intitulado “My friend sent it, I fell for it: investigating misinformation and sender credibility” (Meu amigo mandou, e eu caí na armadilha: investigando a desinformação e a credibilidade do remetente), foi conduzido por Eduardo Mesquita, Evandro Luiz Lopes, Júlio Araújo Carneiro da Cunha e por mim. Essa é a principal conclusão do estudo, que analisa como mensagens falsas circulam em ambientes digitais, especialmente em espaços privados como WhatsApp. Diferentemente das redes sociais abertas, esses ambientes são marcados por relações próximas, amigos, familiares, colegas, o que muda a forma como avaliamos o que recebemos. O papel da confiança No dia a dia, ninguém tem tempo (ou disposição) para verificar tudo o que chega no celular. Diante do excesso de informação, o cérebro busca atalhos. Um dos mais comuns é confiar na fonte: “se foi essa pessoa que enviou, deve ser verdade”. O estudo mostra que esse atalho tem consequências importantes. Em três experimentos com mais de 900 participantes, os pesquisadores apresentaram mensagens falsas variando apenas um elemento: quem teria enviado a informação. O resultado foi direto. Quando a mensagem vinha de alguém considerado confiável, a intenção de compartilhamento aumentava significativamente, mesmo sendo falsa. Ou seja, não é só o conteúdo que importa. Quem envia pode ser ainda mais decisivo. Quando algo “parece” verdadeiro Por que isso acontece? Segundo o estudo, a credibilidade do emissor faz com que a mensagem pareça mais verdadeira. Em situações de atenção limitada, como ao rolar rapidamente o celular, as pessoas não analisam os detalhes da informação. Em vez disso, usam sinais rápidos para julgar o que é confiável. A identidade de quem envia a mensagem é um desses sinais. Isso explica por que conteúdos duvidosos continuam circulando mesmo quando há dúvidas sobre sua veracidade. A confiança no remetente acaba “substituindo” a verificação dos fatos. O fator social: compartilhar para ajudar Mas acreditar não é tudo. O estudo identificou um segundo fator que aumenta ainda mais o compartilhamento: a relevância social. Em termos simples, trata-se da sensação de que aquela informação pode ser útil para outras pessoas. Pode ser um alerta de saúde, uma mudança em regras públicas ou qualquer conteúdo que pareça importante para amigos e familiares. Quando uma mensagem é percebida como relevante para os outros, a chance de compartilhamento cresce, especialmente se ela vier de alguém confiável. Isso ajuda a entender um comportamento comum: compartilhar algo “por precaução”, mesmo sem ter certeza se é verdade. Nesse caso, a motivação não é enganar, mas ajudar. O efeito dos grupos privados O ambiente onde a mensagem circula também faz diferença. Em aplicativos como WhatsApp, as interações acontecem em grupos fechados, com pessoas conhecidas. Isso aumenta a confiança entre os participantes e reduz o nível de questionamento. Ao mesmo tempo, há menos exposição pública, o que diminui o risco de ser corrigido ou criticado por compartilhar algo errado. Resultado: decisões são tomadas mais rapidamente e com menos verificação. Por que isso importa Essas conclusões mudam a forma como pensamos a desinformação. O problema não está apenas em conteúdos falsos ou em quem os cria, mas também em como pessoas comuns os distribuem. Muitas vezes, o compartilhamento acontece de boa-fé. A pessoa acredita na mensagem e acha que está fazendo algo útil ao repassá-la. Isso torna o fenômeno mais difícil de combater. O que pode ser feito? Nós sugerimos que estratégias contra desinformação precisam ir além da checagem de fatos. É importante alertar as pessoas sobre o papel da confiança nas decisões de compartilhamento. Confiar em quem envia não garante que a informação seja verdadeira. Outro ponto importante é a relevância social. Quanto mais uma mensagem parece urgente ou importante para os outros, maior deveria ser o cuidado antes de compartilhá-la e não o contrário. Esse é um dos aspectos mais contraintuitivos do estudo. No fim das contas, o estudo traz uma conclusão desconfortável: qualquer pessoa pode contribuir para a disseminação de desinformação. Não é preciso intenção de enganar. Basta confiar demais, verificar de menos e querer ajudar. Em um ambiente digital baseado em conexões pessoais, a confiança é um dos principais motores da circulação de informação. E, como mostra a pesquisa, pode ser também um dos principais caminhos para que conteúdos falsos se espalhem. Giuliana Isabella, Professora e pesquisadora de marketing, Insper This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Entenda como a mineração ilegal de ouro na Amazônia é causa direta de surtos de malária entre indígenas

Daniela de Angeli Dutra, Bangor University e Riley Casagrande, Stanford University Os preços do ouro estão em níveis recordes e estamos muito preocupados. Como ecólogos de doenças, não é a instabilidade econômica que nos preocupa, mas sim o fato de que um aumento na mineração ilegal de ouro pode ter um impacto devastador na saúde humana. Nossa equipe de pesquisadores da Universidade Stanford, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estabeleceu e quantificou os efeitos da mineração ilegal de ouro no aumento recente de casos de malária no território Yanomami, na Amazônia brasileira. Esse surto de malária mergulhou essa população indígena isolada em uma devastadora crise de saúde no início da década de 2020. Governo em prol do garimpo Quando Jair Bolsonaro assumiu a presidência em 2019, fez da desregulamentação ambiental um pilar central do seu governo, alegando que as proteções ambientais e de terras indígenas prejudicavam o desenvolvimento econômico do Brasil. Ele também transferiu a autoridade de demarcação de terras indígenas da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) para o Ministério da Agricultura. Além disso, o então presidente emitiu decretos com o objetivo de desregulamentar a mineração do ouro na região amazônica. Esses decretos não faziam distinção entre a mineração regulamentada (portanto, legal), fora do território indígena, e a mineração dentro de terras indígenas, que é universalmente ilegal. Assim, garimpeiros ilegais invadiram o território Yanomami. Em janeiro de 2023, quando Lula assumiu a presidência, o número de garimpeiros ilegais no território Yanomami, o maior território indígena da Amazônia, havia subido para 20 mil, aproximadamente dois terços da população Yanomami. Malária e a crise de saúde dos Yanomami Semanas após Lula assumir a presidência, o veículo de notícias independente Sumaúma divulgou uma reportagem citando números alarmantes de doenças e desnutrição entre os Yanomami. Repleta de imagens do sofrimento do povo indígena, a reportagem motivou o presidente a declarar estado de crise humanitária. André Siqueira, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e membro da equipe de médicos enviada ao território após a declaração da crise, relatou: “As condições da população eram devastadoras”. Quase todas as pessoas testadas apresentaram resultado positivo para malária. Pequeno aumento na atividade mineração, grande aumento nos casos de malária A publicação da Sumaúma e o relatório do Instituto Socioambiental relacionavam o influxo de garimpeiros ilegais durante o governo Bolsonaro à crise sanitária dos Yanomami e à proliferação da malária. Como pesquisadores que se dedicam a estudar como as modificações de uso do solo contribuem para a disseminação de parasitas, suspeitávamos que a mineração ilegal de ouro e a malária não eram fatores isolados que contribuíam para a mesma crise, mas sim parte de um sistema de causa e efeito que devastava o território e sua população. A mineração ilegal de ouro pode disseminar a malária de diversas maneiras. Primeiro, quando os garimpeiros derrubam florestas e abrem clareiras nas margens dos rios para acessar os depósitos de ouro, criam o ambiente ideal para a proliferação do mosquito transmissor da malária na Amazônia. Segundo, quando os garimpeiros viajam para o território, possivelmente vindos de áreas endêmicas de malária na América do Sul, podem transportar o parasita e aumentar sua transmissão. Por fim, garimpeiros ilegais frequentemente utilizam mercúrio para extrair partículas de ouro de forma barata e fácil. Esse mercúrio é despejado nos cursos d’água da região, envenenando as pessoas que dependem dos rios para obter água e peixes, enfraquecendo seus sistemas imunológicos e tornando-as mais suscetíveis à infecção por malária. Os dados detalhados sobre as condições de saúde e ambientais na Amazônia, coletados pelo Ministério da Saúde, permitiram não apenas estabelecer com segurança essa ligação entre garimpo e malária de que os povos indígenas suspeitavam há muito tempo, mas também quantificar essa relação, tornando-a concreta e passível de ação. Ficamos chocados com os resultados: a relação era muito mais forte do que suspeitávamos. Descobrimos que cada aumento de 0,03% na mineração levava a um aumento de 20 a 46% nos casos de malária um a dois anos depois, resultando em um aumento de 300% nos casos de malária no território Yanomami entre 2016 e 2023. Compreender a associação entre a mineração de ouro e a malária, que está na base da crise de saúde dos Yanomami, é apenas uma parte da solução. Queremos que nosso estudo seja uma ferramenta que permita que ativistas indígenas influenciem a intervenção e as políticas governamentais. Afinal, nossos resultados mostram que prevenir a mineração ilegal em áreas indígenas gera consequências importantes para a saúde dessa população vulnerabilizada. Ações em muitas frentes pela saúde global O governo Lula está empenhado em importantes esforços para expulsar os garimpeiros ilegais e estabelecer centros de saúde no território. Embora as hospitalizações por malária tenham diminuído ligeiramente desde 2023, a incidência de malária entre os Yanomami permanece alta, devido ao efeito retardado que identificamos em nossa pesquisa e à dificuldade de acesso a diagnósticos e tratamentos oportunos em regiões remotas. Pesquisadores estão avançando para reduzir essa lacuna de acesso. Uma equipe internacional desenvolveu os “malakits”, que capacitam membros da comunidade sem formação médica formal a diagnosticar e tratar a malária no local. Esses esforços são de importância crucial, visto que os efeitos tardios da mineração ilegal de ouro continuarão causando incidência elevada de malária, a menos que as comunidades tenham amplo acesso ao tratamento. Também é importante garantir os plenos direitos territoriais das populações indígenas e capacitá-las a defender suas terras. Essa é, comprovadamente, uma das maneiras mais eficazes de combater o desmatamento e proteger os ecossistemas. Para enfrentar os surtos de malária, é também necessário diversificar a economia rural da Amazônia com foco na sustentabilidade, de modo que as pessoas tenham opções além da mineração e da exploração madeireira. Consumidores informados também podem contribuir para a solução do problema, priorizando a compra de ouro reciclado ou abster-se de comprar ouro, enviando um sinal de que a extração de ouro não justifica o custo humano, a exemplo do que já foi feito com os diamantes nos anos 2000. Os apelos para