O que é evidência científica e o que é especulação sobre o El Niño que vem por aí

Regina Célia dos Santos Alvalá, CEMADEN; José Antônio Marengo, CEMADEN e Marcelo Seluchi, Universidad de Buenos Aires O El Niño é um fenômeno amplamente estudado e cada vez mais associado a impactos no clima e no meio ambiente em diversas áreas. Para este ano, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), uma das principais referências mundiais no diagnóstico e prognóstico do fenômeno, aponta uma probabilidade de 60% de desenvolvimento do “El Niño”, para o trimestre maio-junho-julho, chances que se elevam a mais de 90% a partir da próxima primavera, em setembro. Em outras palavras, é praticamente certo que o fenômeno se desenvolverá na segunda metade do ano. Atualmente vários jornais vêm noticiando a previsão de um El Niño de forte intensidade para o período 2026-2027. Mas é possível prever a intensidade do fenômeno com tanta antecedência? A verdade é que a previsão da intensidade do El Niño para a próxima primavera de 2026, atualmente, é motivo de especulações e, às vezes, de informações sensacionalistas. Os modelos acoplados de última geração permitem prever a evolução do El Niño com meses de antecedência, estimando as anomalias na temperatura do ar e seus possíveis impactos, o que possibilita a adoção de ações preventivas em áreas estratégicas. Por outro lado, modelos complexos que simulam o oceano e a atmosfera permitem prever, com antecedência de 1 a 3 meses, os possíveis impactos com precisão. Mas previsões com prazos maiores podem apresentar mais incertezas e levar a prognósticos incorretos. Primeiras observações do El Niño No século XIX, pescadores do norte do Peru e do Equador observaram, em algumas ocasiões próximas ao Natal, que um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial impactava a pesca, o que foi interpretado como um “sinal” para deixar de trabalhar e celebrar o nascimento do “El Niño” Jesus, dando, assim, nome ao fenômeno. Mais tarde, na década de 1920, o cientista Gilbert Thomas Walker (1868-1958) identificou que este fenômeno estava associado a diferenças na pressão atmosférica observadas entre regiões do Oceano Pacífico, bem como a mudanças na velocidade dos ventos na região equatorial, que, por sua vez, alteravam as correntes oceânicas que regulam a temperatura do mar. A partir da década de 1980, o fenômeno passou a ser extensamente estudado, após o El Niño intenso de 1982-83. O que é El Niño? El Niño é um fenômeno climático-oceânico que ocorre no Oceano Pacífico tropical, quando as águas da região equatorial centro-leste do oceano ficam mais quentes do que o normal. Ele faz parte de um ciclo natural chamado El Niño – Oscilação Sul (ENOS) e pode afetar o clima em todo o mundo. Neste ciclo ENOS, o oposto do El Niño é a La Niña, que consiste no resfriamento das águas superficiais no centro-leste do Oceano Pacífico tropical. Na América do Sul, o ENSO também causa alterações na precipitação e na temperatura, embora de forma distinta em cada região. Entre os vários impactos do El Niño, destacam-se o aumento das chuvas no sul do Brasil e ao longo do litoral do Peru e do Equador; secas na Amazônia e no Nordeste brasileiro; maior frequência de ondas do calor no centro do Brasil; menor frequência de furacões no Atlântico Norte; e aumento das temperaturas globais. Grandes secas na Amazônia ocorreram durante anos de El Niño: 1877-79, 1925, 1972-73, 1983, 1986, 1992-93, 1998, 2010, 2015-16 e 2023-24. No entanto, secas também ocorreram na ausência do El Niño, como em 1963 e 2005 na região amazônica e em 2012 no Nordeste do Brasil, estas relacionadas à variabilidade da temperatura da superfície do mar (TSM) no Atlântico tropical Norte. Estudos conduzidos na década de 1990 precisam ser atualizados, considerando o El Niño e a nova realidade das mudanças climáticas. Além disso, o monitoramento contínuo torna-se fundamental para compreender o que está acontecendo no presente e, portanto, o que pode acontecer no futuro. El Niño e desastres relacionados ao clima O El Niño não causa desastres climáticos diretamente, mas aumenta ou reduz a probabilidade de eventos extremos no Brasil, o que permite subsidiar a elaboração de previsões de risco com antecedência. Chuvas intensas ou ondas de calor podem ocorrer com ou sem atuação do El Niño, embora o estabelecimento deste fenômeno possa aumentar as chances e os impactos, como aconteceu em 2023 e 2024, quando eventos combinados de calor e seca intensificaram a quantidade de incêndios de vegetação na Amazônia e no Pantanal, e quando mais de 200 botos-cor-de-rosa morreram devido ao estresse térmico. No Sul do Brasil, inundações generalizadas impactaram o estado do Rio Grande do Sul na primavera de 2023 e no outono de 2024. Ressalta-se que os riscos de desastres dependem não somente da ameaça de fatores climáticos extremos, mas também da exposição e da vulnerabilidade da população, bem como da capacidade de proteção e das ações de mitigação. El Niño em 2026-2027 Atualmente, a previsão indica que haverá a atuação de um novo El Niño entre a primavera de 2026 e o verão de 2027. Mas no momento as previsões sobre a sua intensidade ainda carecem de confiabilidade. Segundo fontes oficiais e autorizadas, atualmente há 25% de chance de ocorrer um El Niño de intensidade forte e outros 25% de probabilidade de se configurar um fenômeno de intensidade muito forte, o que ocorre quando a temperatura na porção central do Oceano Pacífico supera em mais de 2°C o valor normal. Contudo, o Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI), outro dos institutos internacionais mais renomados no tema, destaca que as previsões feitas nesta época do ano apresentam alta incerteza quanto à intensidade do ENOS. Desta forma, será necessário aguardar até o próximo inverno para dispor de previsões mais precisas sobre a intensidade e os possíveis impactos do El Niño em desenvolvimento. Finalmente, é importante ressaltar que a previsão climática sazonal para o trimestre de maio a julho não indica uma influência clara do El Niño nas precipitações no Brasil. Outro aspecto relevante é que não há relação direta entre a intensidade do fenômeno e a gravidade

Menos horas, mais vida: debate sobre escala 5×2 também envolve mudanças climáticas e desigualdade

Carol Tomaz, Universidade de Brasília (UnB) A proposta de reduzir a jornada de trabalho voltou ao centro do debate público brasileiro. Mas, além das discussões sobre produtividade, custos e competitividade, existe uma pergunta que raramente aparece nesse debate: o que a jornada de trabalho tem a ver com a crise climática? Nas últimas semanas, discussões sobre o fim da escala 6×1 e a adoção de modelos que garantam mais tempo de descanso mobilizaram sindicatos, empresários, parlamentares e milhões de trabalhadores. Grande parte das análises tem se concentrado nos impactos econômicos da medida: empresas conseguirão se adaptar? A produtividade cairá? Os custos aumentarão? Mas reside aí um outro ponto pouco discutido, para além da questão da saúde e do bem estar dos trabalhadores: o que a jornada de trabalho tem a ver com a crise climática? À primeira vista, nada. Afinal, trabalho, produtividade e mudança do clima costumam ser tratados como temas separados. No entanto, um relatório internacional lançado recentemente sugere exatamente o contrário. O Global Justice Report, elaborado por uma coalizão internacional de pesquisadores ligados ao World Inequality Lab, de Thomas Piketty, propõe um caminho para enfrentar simultaneamente três dos maiores desafios do século XXI: a emergência climática, a desigualdade extrema e a perda de qualidade de vida. E uma das conclusões mais provocativas do estudo é que trabalhar menos pode ser parte da solução. Isso porque vivemos em uma época de enorme capacidade produtiva. Hoje, a tecnologia permite produzir mais alimentos, mais bens e mais serviços do que em qualquer outro momento da história. Além da inteligência artificial que avança rapidamente e a automação com as máquinas que substitui tarefas repetitivas. Com isso, a produtividade cresce em diversos setores. Diante desse cenário, seria razoável imaginar que, com esses avanços, as pessoas estariam trabalhando menos e desfrutando mais tempo livre. E essas novas variáveis deveriam entrar na equação de como estamos nos organizando economicamente. Mas não é isso que acontece. Em muitos países, inclusive no Brasil, milhões de pessoas continuam enfrentando jornadas longas, deslocamentos exaustivos, dificuldade para conciliar trabalho e família e uma crescente sensação de falta de tempo. Paradoxalmente, quanto mais produtiva a economia se torna, mais escasso parece ser o tempo, e o relatório parte justamente dessa contradição. Ele propõe que em vez de utilizar os ganhos de produtividade para ampliar continuamente a produção e o consumo, empregadores poderiam direcionar parte desses ganhos para algo cada vez mais raro: oferecer tempo livre. Tempo para cuidar dos filhos, dos pais idosos, da própria saúde, da participação comunitária, do aprendizado e do descanso. Conceito de suficiência Mas o que isso tem a ver com o clima? A resposta está no conceito de suficiência. Em termos simples, uma economia que depende menos da expansão contínua da produção e do consumo tende a exigir menos extração de recursos, menos energia e menos emissões para sustentar o bem-estar da população. Durante décadas, as estratégias econômicas foram construídas em torno de uma lógica simples: crescer continuamente. O que significa: produzir mais, consumir mais, e extrair mais recursos. Expandir mais mercados. Essa lógica ajudou a gerar riqueza, mas também contribuiu para a crise climática, para a perda de biodiversidade e para o aumento das desigualdades. O Global Justice Report propõe outra pergunta: quanto é suficiente para garantir uma vida boa para todos? Por mais que a mudança de pergunta pareça pequena, ela altera profundamente a forma como entendemos desenvolvimento. Já que em vez de perseguir o crescimento material infinito, a proposta é garantir que todas as pessoas tenham acesso a condições dignas de vida dentro dos limites ecológicos do planeta. Nesse cenário, prosperidade deixa de ser sinônimo de acumulação permanente e passa a ser medida pela capacidade de viver bem. O relatório mostra que essa transição não depende apenas de energias renováveis ou tecnologias mais eficientes. Ela exige mudanças na forma como distribuímos renda, riqueza e também tempo. Carol Tomaz, Doutoranda em Novas Economias e Inovação Social, Universidade de Brasília (UnB) This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.