Epistemicídio computacional: o que a história de Frankenstein nos ensina sobre as falhas dos sistemas atuais de reconhecimento facial

Nina da Hora, Instituto da Hora (IDH); Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Foi em 1818 que a escritora inglesa Mary Shelley publicou Frankenstein, a história hoje universal da criatura costurada a partir de partes dissecadas de corpos diferentes. O que me assombra no romance não é o monstro, e sim o procedimento: um criador – um cientista – que a partir de fragmentos humanos gera uma nova forma de vida inteligente, mas depois se recusa a se responsabilizar por ela. Como pesquisadora na área de computação, passei os últimos anos estudando uma tecnologia que repete esse procedimento: o reconhecimento facial, hoje instalado em estações de metrô, estádios, aeroportos e sistemas de segurança pública em todo o Brasil. A investigação resultou na minha dissertação de mestrado, defendida em maio de 2026 no Instituto de Computação da Unicamp, e no artigo derivado dela, Frankenstein in the Pipeline, publicado nos anais da ACM FAccT, principal conferência internacional revisada por pares sobre justiça e responsabilidade em sistemas algorítmicos, este ano realizada em Montreal, Canadá. Neste texto, que inaugura a parceria de produção de conteúdo e divulgação científica celebrada entre o The Conversation Brasil e o nosso Instituto da Hora, gostaria de explicar o que encontrei e por que dei a esse fenômeno o nome de “epistemicídio computacional”. O que um sistema desses realmente faz Um sistema de reconhecimento facial não “vê” pessoas. Ele executa uma sequência fixa de operações que a computação chama de pipeline, uma linha de montagem em que cada estação transforma o material recebido da anterior. Na primeira estação, a detecção, o sistema varre a imagem e decide se ali existe algo classificável como rosto. Na segunda, o recorte, isola essa região. Na terceira, o alinhamento, ajusta o recorte a um molde padronizado, com olhos, nariz e boca em posições esperadas. Na última, a vetorização, converte o resultado em um vetor, uma lista de centenas de números que passa a representar aquela pessoa dentro do sistema. Duas consequências desse desenho estruturam a minha pesquisa. Tudo depende da primeira estação: um rosto que a detecção não encontra é uma pessoa que deixa de existir para o sistema. E o alinhamento exige um molde, o que pressupõe uma norma. Para encaixar qualquer rosto em posições esperadas, o sistema precisa ter aprendido, com as milhões de imagens que analisou durante o seu treinamento, o que seria um “rosto típico”. Chamo essa norma implícita presente no processo de “rosto canônico”. Minha pesquisa sobre o tema nasce daí: os rostos que se afastam dessa norma são processados com a mesma confiabilidade? O que a Ciência já sabia A existência de disparidades raciais nessas tecnologias não são hipótese nova. Em 2018, o estudo Gender Shades, das cientistas da computação Joy Buolamwini e Timnit Gebru, mostrou que sistemas comerciais de análise facial erravam muito mais para mulheres de pele escura do que para homens de pele clara. No ano seguinte, o NIST, o instituto nacional de padrões e tecnologia dos Estados Unidos, avaliou centenas de algoritmos e documentou diferenças de desempenho entre grupos demográficos na maioria deles. A resposta da indústria a esses achados costuma seguir um raciocínio único: as disparidades seriam limitações de modelos antigos, corrigíveis com arquiteturas mais modernas e bases de treinamento maiores. Trata-se de uma hipótese legítima, e testável. Faltava submetê-la a um teste controlado, comparando famílias diferentes de modelos sob condições idênticas para verificar se as disparidades desaparecem com o avanço técnico. Foi o que decidi fazer. Três criaturas, uma prova Desenhei o experimento para isolar variáveis. Quando tudo se mantém constante e apenas a arquitetura muda, diferenças de resultado só podem vir da arquitetura, enquanto semelhanças apontam para algo anterior a todas elas. Escolhi três modelos de famílias tecnológicas distintas. Os dois primeiros pertencem à linhagem YOLO, sigla em inglês para “você só olha uma vez”, modelos de detecção de objetos muito usados em câmeras e sistemas de vigilância por serem rápidos o bastante para operar em tempo real. O YOLOv11 se apoia em redes neurais convolucionais, algoritmos inspirados no sistema visual humano que varrem a imagem com pequenos filtros em busca de bordas, texturas e formas, e que dominaram a visão computacional na última década. O YOLOv12 acrescenta a essa base os mecanismos de atenção, que permitem ao modelo dar mais peso às regiões da imagem consideradas relevantes. O terceiro, o RT-DETRv2, vem da família dos Transformers, arquitetura que processa a imagem relacionando todas as suas partes entre si ao mesmo tempo, serve de base a sistemas como o ChatGPT e costuma ser apresentada como o ‘estado da arte’ desta tecnologia. Os três foram avaliados sobre o mesmo conjunto de dados, o Casual Conversations v2, construído pela Meta para avaliações de equidade. São 26.467 vídeos de 5.567 participantes pagos, que consentiram com o uso das imagens de seus rostos em pesquisas de justiça algorítmica, gravados em sete países, entre eles o Brasil. Os participantes autodeclararam atributos como idade e gênero. Anotadores treinados classificaram o tom de pele aparente em escalas padronizadas. E as condições de captura, inclusive variações de iluminação, estão documentadas. Esse desenho me permitiu medir as taxas de falha de detecção separadamente para cada grupo, em vez de diluí-las numa média geral. O resultado central: as três arquiteturas apresentam os mesmos padrões de disparidade por tom de pele, falhando de forma consistente para os mesmos grupos. Se três máquinas de anatomias distintas erram nos mesmos rostos, o problema não pertence a nenhuma delas individualmente. Pertence ao que compartilham: o método de fabricação, com seus dados, seus moldes e sua definição implícita de rosto. Na prática, a promessa de que a próxima geração de modelos resolverá as disparidades não encontra apoio nos dados que recolhi na minha pesquisa. Cada geração herda o problema da anterior. Por que chamo isso de ‘epistemicídio computacional’ Até aqui, o achado é empírico. O passo seguinte da dissertação é conceitual: que nome dar a esse fenômeno? O vocabulário corrente fala em viés algorítmico, sugerindo um desvio técnico corrigível por calibração. Argumento que esse enquadramento