Ouro Preto teve, no século XIX, o primeiro sistema de tratamento de esgoto da América Latina. Os tanques ainda estão lá — na região da Barra, ao fim do Beco da Mãe Chica. Mas estão desativados há mais de um século.
Até agosto de 2025, apenas 0,67% do esgoto coletado no município era tratado. O resto? 99,33% direto para os rios. Banheiro, cozinha, pia — tudo despejado sem tratamento.
A primeira ETE: Parque da Lagoa já funciona
No dia 22 de agosto de 2025, a Saneouro — concessionária responsável pelo saneamento em Ouro Preto — inaugurou a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Parque da Lagoa, em Cachoeira do Campo.
É uma estação pequena. Trata 4,2 litros de esgoto por segundo. Beneficia 2.280 moradores do bairro de mesmo nome. O efluente tratado é lançado em um afluente do córrego Holanda, que integra a bacia do Rio das Velhas.

“É a primeira ETE de muitas que a Saneouro vai entregar ao município. Este é o legado que a Saneouro deixará: o tratamento de esgoto para a população ouro-pretana”, disse o superintendente da Saneouro, Evaristo Bellini, durante a inauguração.
A estação não é nova. Foi construída a partir de 2014, quando o sistema era operado pela Prefeitura Municipal. Mas nunca operou. Ficou parada por uma década. Em março de 2025, a Saneouro iniciou as obras de revitalização. O investimento: R$ 820 mil.
Com a ete Parque da Lagoa em funcionamento, Ouro Preto saltou de 0,67% para 2,69% de esgoto tratado. Ainda é muito pouco. Mas é um começo.
A grande aposta: ETE Osso de Boi

A ETE Parque da Lagoa é importante. Mas a que realmente vai mudar o jogo é outra: a Estação de Tratamento de Esgoto Osso de Boi, na sede de Ouro Preto.
Quando ficar pronta, ela vai tratar 100% do esgoto coletado na sede.
As obras começaram em março de 2025 e já chegaram aos 40% de avanço. Segundo a Saneouro, os tanques de contato e de lodo — estruturas essenciais do processo de descontaminação — chegam à cidade nesta semana. Paralelamente, as equipes trabalham na construção da subestação de energia, do prédio administrativo e das salas de sopradores e desidratação.
“É um verdadeiro canteiro de obras“, descreve Evaristo Bellini. “Uma unidade que entrará para a história por devolver o tratamento de esgoto a Ouro Preto.”
A primeira etapa das obras está prevista para julho de 2026. Se cumprir o prazo, faltam menos de 10 meses.
Os números da ETE Osso de Boi
Capacidade: 125 litros de esgoto por segundo
Destino do efluente tratado: Ribeirão Funil
Investimento: R$ 36,5 milhões (só na estação)
Prazo: Primeira etapa em julho de 2026
Benefício: 100% do esgoto da sede tratado
Além da estação, há custos de implantação de redes, estações elevatórias e interceptores.
“Além de melhorar a qualidade de vida da população, o esgoto tratado vai permitir a despoluição do ribeirão“, afirma Evaristo Bellini.
Por que isso importa?
Esgoto não tratado causa doenças. Muitas.
Disenteria, diarreia, viroses, cólera, leptospirose, esquistossomose, hepatite A, febre tifóide — a lista é longa. E essas doenças não são abstratas. São crianças com diarreia crônica, adultos com hepatite, famílias inteiras adoecendo porque o rio que passa perto está contaminado.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, cada R$ 1,00 investido em saneamento economiza R$ 9,00 em saúde pública. Menos doença significa menos internações, menos consultas médicas, menos gente sofrendo.
E significa, também, dignidade. Porque jogar esgoto sem tratamento no rio não é só problema ambiental. É desrespeito com quem vive rio abaixo.
O marco legal e os prazos

A Saneouro chegou em Ouro Preto em 2020. É uma concessão de 35 anos. Isso significa que a empresa vai estar aqui até 2055.
O Marco Legal do Saneamento, lei federal de 2020, estipula que até 31 de dezembro de 2033 todos os municípios brasileiros devem atender pelo menos 90% de sua população com coleta e tratamento de esgoto.
Ouro Preto tem oito anos para sair de 2,69% para 90%.
É um caminho longo. Mas pela primeira vez em décadas, há movimento concreto: uma estação funcionando, outra sendo construída, prazos estabelecidos.
O detalhe importante
Estamos em setembro de 2025. A primeira etapa da ete Osso de Boi foi prometida para julho de 2026. Faltam ainda 60% de avanço.
É importante acompanhar se esses prazos se cumprem — porque em obras, especialmente as ambientais, atrasos são comuns.
O que vem depois
Se a ETE Osso de Boi funcionar como prometido, Ouro Preto terá dado um salto histórico. De quase zero para 100% de tratamento na sede.
Mas ainda faltarão os distritos. Cachoeira do Campo tem a Parque da Lagoa. São Bartolomeu já tem uma estação em operação. Mas há outros distritos, outras comunidades, outros rios recebendo esgoto sem tratamento.
A promessa é clara: mudar o panorama do saneamento na cidade. O que muda na vida das pessoas começa com essas obras.
Até 2033, o Brasil inteiro — incluindo Ouro Preto — precisa ter 90% de esgoto tratado. Faltam oito anos. E muito trabalho.
O primeiro sistema da América Latina
Ouro Preto teve, no século XIX, o primeiro sistema de tratamento de esgoto da América Latina. Foi construído na região da Barra, ao fim do Beco da Mãe Chica.
Os tanques ainda estão lá. Mas estão desativados há mais de um século.
É um símbolo curioso: a cidade que foi pioneira no tratamento de esgoto ficou décadas sem tratar nada. Agora, finalmente, está voltando a fazer o que fazia há 150 anos.
Para saber mais:
