Foto: Gilson Antunes
Entre os dias 7 e 9 de novembro, a Festa da Jabuticaba de Cachoeira do Campo chega à sua 34ª edição, ocupando novamente a Praça Felipe dos Santos. O evento gratuito reúne produtores locais, chefs, artistas e famílias em torno de um fruto que molda a identidade agrícola e cultural da região — a apenas 15 quilômetros de Ouro Preto.
Nascida em 1992 como iniciativa comunitária para valorizar pequenos produtores e divulgar derivados artesanais, a festa tornou-se um símbolo de resistência. Após a pausa forçada pela pandemia, retorna fortalecida, mantendo o acesso livre e o caráter popular.
A jabuticaba como patrimônio vivo
A fruta abundante na região sustenta uma economia familiar e artesanal que vai além do cultivo. Pequenos produtores mantêm pomares que abastecem o mercado regional de doces, geleias, licores e molhos. Para muitos deles, a festa representa uma oportunidade essencial de renda — é durante o evento que vendem praticamente toda a safra transformada em produtos finais.
Essa estrutura, porém, enfrenta desafios reais. A falta de políticas públicas específicas, oscilações climáticas e a dificuldade em ampliar canais de comercialização pressionam esses produtores. A celebração anual funciona, assim, também como ferramenta de sustentação econômica e de manutenção de tradições que correm risco de se perder.
Em abril deste ano, um passo importante foi dado nessa direção. A jabuticaba e seus derivados de Cachoeira do Campo receberam o registro de Indicação Geográfica (IG) concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O lançamento dos Signos Distintivos aconteceu em cerimônia realizada pela Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado de Minas Gerais (Federaminas), no SESI Ouro Preto, reunindo lideranças políticas, empresários, produtores e entidades apoiadoras.

A IG funciona como um selo de autenticidade que identifica a origem do produto e certifica sua qualidade. Com o reconhecimento, a jabuticaba de Cachoeira do Campo cumpriu a 5ª etapa de um processo de doze fases para alcançar o status definitivo junto ao INPI.
Para o prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, o registro reforça o significado cultural e econômico da fruta. “A jabuticaba pode ser geleia, licor, tempero. Pode ser tudo, porque a jabuticaba é, como se diz em Cachoeira do Campo, essa pérola negra que nos dá um festival anual e um arranjo produtivo local intensamente criativo e que se multiplica sempre mais”, afirmou o gestor à época.
Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Tecnologia de Ouro Preto, Felipe Guerra, a certificação abre novas oportunidades. “A certificação garante capacitações para produtores rurais, empresários e empreendedores, abrangendo não apenas Cachoeira do Campo, mas também Glaura, Santo Antônio do Leite e São Bartolomeu. Essa ação valoriza o produtor rural, o turismo e coloca Ouro Preto no mapa das Indicações Geográficas”, explicou.
A iniciativa é parte do Movimento Indicações Geográficas de Minas Gerais (IGMG), instituído em 2023 durante o 2º Fórum Regional de Diversificação Econômica. O Movimento abrange onze municípios do Quadrilátero Ferrífero e já identificou outros 19 produtos com potencial para reconhecimento. A jabuticaba e a geleia de pimenta biquinho de Bento Rodrigues marcam as duas primeiras IGs da Região dos Inconfidentes.
Gastronomia como expressão cultural
A Cozinha Show será um dos destaques da edição. Chefs locais e convidados apresentarão receitas que exploram a versatilidade da jabuticaba, desde pratos salgados até sobremesas gourmet. Os visitantes encontrarão licor de jabuticaba, bombons artesanais, geleias premiadas e molhos agridoce — produtos que condensam gerações de conhecimento culinário transmitido nas famílias.
Além das apresentações culinárias, o evento oferecerá oficinas temáticas, degustações e exposição de produtos típicos. As atividades educativas abordam sustentabilidade, aproveitamento integral da fruta e valorização do patrimônio local.
Impacto no turismo e na economia local

A expectativa é de milhares de visitantes ao longo dos três dias. A proximidade com Ouro Preto e a acessibilidade pela BR-356 facilitam o acesso de moradores da região, turistas de Belo Horizonte e cidades vizinhas. Há diversas opções de hospedagem entre pousadas locais e hotéis na sede municipal.
O impacto econômico transcende os produtores de jabuticaba. O evento impulsiona comércio local, bares, restaurantes e serviços turísticos. Mais significativo talvez seja o fortalecimento do senso de pertencimento comunitário e o reposicionamento de Cachoeira do Campo no mapa cultural de Minas Gerais — uma localidade que transformou um fruto regional em símbolo de identidade compartilhada.