Há três décadas, as cidades históricas de Minas vivem uma transformação discreta, quase sem ruído. Ano após ano, nascem menos crianças. Os números são duros; as perguntas, insistentes.
Entre 1996 e 2024, Ouro Preto perdeu quase metade dos nascimentos: de 1.244 para 675 — queda de 45,7%. Em 2024, o município registrou o menor total de toda a série. Em Itabirito, a redução foi de 14,7% (de 621 para 531), e em Mariana a contração foi menor, mas real: 8,2% (de 1.060 para 975). Os dados são do SINASC/DATASUS – TabNet (série municipal 1996–2024; 2024 é preliminar, base atualizada em outubro de 2025).
Um país que tem menos filhos e mais tarde
A inflexão local espelha o que se passa no Brasil. De 2000 a 2023, a taxa de fecundidade total caiu de 2,32 para 1,57 filho por mulher, e as projeções indicam que a população atinge o pico e para de crescer em 2041, segundo o IBGE (ver também síntese em Agência Brasil). A idade média à maternidade subiu, de 25,3 anos (2000) para 27,7 anos (2020), conforme levantamentos divulgados pelo IBGE e repercutidos pela CNN Brasil.
A demógrafa Izabel Marri (IBGE) resume o pano de fundo: “Vários fatores contribuíram: urbanização, entrada das mulheres no mercado de trabalho, escolaridade feminina e popularização da pílula anticoncepcional.” A declaração consta no próprio material do IBGE e em entrevistas recentes (exemplo). Em síntese: mais estudo e autonomia, mais inserção laboral — e filhos mais tarde, em menor número.
O que é específico daqui?
Há um traço local a exigir investigação. O rompimento da Barragem de Fundão (5/11/2015), em Mariana, paralisou a Samarco e revirou a economia regional (MPF – Caso Samarco). Estudos e relatórios públicos apontam queda relevante de receitas vinculadas à mineração (ICMS/CFEM) no período pós-desastre, com efeitos sobre as finanças municipais — ver análise acadêmica para Ouro Preto e evidências para Mariana.
Quando a curva virou? Um ano fora da curva
Há uma anomalia estatística: 2015 — justamente o ano do desastre — marcou picos de nascimentos em Mariana e Itabirito (973 e 911). Em 2016, veio o tombo: −9,5% em Mariana e −4,7% em Itabirito. Em Ouro Preto, a queda é mais linear desde os anos 1990, sem sobressaltos em 2015–2016. Os números derivam de consultas ao SINASC/DATASUS – TabNet; 2024 é preliminar e passível de revisão. Correlação não é causalidade: a oscilação pode refletir políticas de saúde, migração ou fatores administrativos.
O fator silencioso: saúde mental
Dois anos após o rompimento, um estudo da UFMG encontrou prevalências elevadas entre atingidos: depressão em 28,9% e transtorno de ansiedade generalizada em 32% — taxas muito acima das médias nacionais (Agência Brasil; relato técnico UFMG – PDF). A Fiocruz registrou, em Barra Longa (MG), aumento de 25 vezes nos registros de ansiedade ao comparar 2014 (pré-rompimento) e 2016 (sete meses depois) (matéria de síntese; ver também estudo em SciELO).
Esses números importam porque, segundo a literatura, a percepção prolongada de risco, perdas materiais e luto — somadas a falhas na assistência — elevam transtornos depressivos e ansiosos, o que pode postergar ou reduzir projetos de maternidade e paternidade.
E agora?
Os vetores nacionais — mais estudo, mais trabalho — empurram a fecundidade para baixo. Aqui, somam-se choques econômicos e traumas coletivos. O resultado aparece no berçário: a queda em Ouro Preto é longa e consistente; em Mariana e Itabirito, houve um pico em 2015 e quedas abruptas logo depois. Se a fecundidade não se estabilizar, alertam demógrafos, o país como um todo entra na fase de crescimento negativo a partir de 2041 — com impactos sobre escolas, orçamento e a própria dinâmica das cidades (IBGE).