A GS Inima, uma das donas da Saneouro, foi vendida por US$ 1,2 bilhão (aproximadamente R$ 6,42 bilhões) para a TAQA, holding estatal de Abu Dhabi. O anúncio foi feito em 25 de agosto de 2025, mas a transação ainda depende de aprovações regulatórias, com conclusão prevista para 2026.
A Saneouro é a concessionária responsável pelos serviços de água e esgoto em Ouro Preto (MG).
Entenda a venda
A TAQA disse que usará a Inima como plataforma de expansão global em água, da dessalinização ao esgoto. A companhia afirmou que a transação será paga com recursos próprios.
A GS Inima opera cerca de 50 projetos em aproximadamente 10 países, sendo perto de 30 concessões de longo prazo com parcerias público-privadas — um portfólio com receitas estáveis e indexadas à inflação, segundo a compradora.
Por que os coreanos venderam?
A vendedora é a GS Engineering & Construction (GS E&C), conglomerado sul-coreano que controlava a GS Inima. A decisão de venda se insere em um movimento de reestruturação e reforço de liquidez após perdas relevantes e revisão de portfólio, segundo a imprensa econômica da Coreia e análises de mercado.
Em suma: embora rentável, a Inima não era ativa estratégica para a GS E&C diante das prioridades de capital do grupo; a venda por ~US$ 1,2 bi ofereceu liquidez imediata e melhora de indicadores financeiros.
Quem comprou?
A compradora, Abu Dhabi National Energy Company (TAQA), é controlada pelo governo de Abu Dhabi e atua em mais de 11 países em geração e transmissão de energia, dessalinização e utilidades públicas. Ao adquirir a Inima, a TAQA reforça sua estratégia de crescer em água e elevar a participação de osmose reversa a dois terços da capacidade até 2030.
Trata-se, portanto, de investimento estatal estratégico do Golfo em infraestrutura hídrica global, com efeitos potenciais sobre padrões técnicos, metas ambientais e financiamento de projetos em mercados como o Brasil.
O que falta para fechar o processo de compra?
Segundo a Reuters, o acordo ainda depende de aprovações regulatórias e de outras condições precedentes, com fechamento esperado em 2026. Em operações desse porte, o trâmite costuma envolver análise de autoridades de concorrência e reguladores setoriais em países onde a Inima atua, além de potenciais controles de investimento estrangeiro.
No Brasil, além de eventuais notificações concorrenciais quando cabíveis, concessões municipais exigem anuência do poder concedente local em caso de mudança de controle da SPE que presta o serviço — etapa essencial para a efetividade da transferência no âmbito do contrato.
Depois da venda: o que muda em Ouro Preto
O Contrato de Concessão da Saneouro prevê regras específicas para mudança de controle societário da concessionária:
- Anuência prévia obrigatória: o controle societário efetivo da concessionária só pode ser transferido com anuência prévia do Município de Ouro Preto (Poder Concedente), mediante comprovação de habilitação jurídica, técnica, econômico-financeira e fiscal pelo pretendente — sob pena de caducidade. (Cláusulas 13.8 e 13.9 do Contrato).
- Prazos de análise: o Poder Concedente tem até 30 dias, prorrogáveis por mais 30, para examinar o pedido e solicitar documentos adicionais. (Cláusula 13.13 do Contrato).
- Aprovação tácita: se não houver manifestação dentro do prazo, o(s) pedido(s) da concessionária é(são) considerado(s) aceito(s). (Cláusula 13.14 do Contrato).
Em termos práticos, após a conclusão global da operação entre TAQA e GS Inima (se aprovada por todas as autoridades), a Saneouro deve formalizar o pedido de anuência à Prefeitura de Ouro Preto para refletir a alteração indireta de controle.
— Se a Prefeitura aprovar, a transferência fica autorizada;
— Se negar, abre-se espaço para discussão contratual e risco de caducidade;
— Se não se manifestar no prazo, vale a aprovação automática (tácita), conforme cláusula contratual.
Em nota a Prefeitura de Ouro Preto informou que não recebeu nenhum comunicado da empresa.