Foto: Correio do Estado
Ouro Preto participa, neste domingo, às 15h, da mobilização nacional do Levante Mulheres Vivas, que convoca atos simultâneos em todo o país pelo fim da violência contra a mulher. Na cidade, o encontro acontece na Praça Tiradentes, em um chamado aberto às mulheres e à comunidade para denunciar o feminicídio e reforçar redes de cuidado.
Um ato nacional que chega ao coração de Minas
O Levante Mulheres Vivas surgiu como resposta ao avanço da violência de gênero no Brasil. A mobilização — que reúne coletivos, movimentos sociais e organizações feministas — propõe ocupar ruas e praças para denunciar a escalada dos feminicídios e cobrar políticas públicas de proteção e prevenção.
Em Ouro Preto, a ação ganha força simbólica ao ocupar a Praça Tiradentes, espaço central da vida política e cultural da cidade. A expectativa é reunir moradoras de diferentes bairros e distritos, além de estudantes e trabalhadoras da cultura, áreas historicamente engajadas em causas de direitos humanos na região.
A violência contra a mulher na Região dos Inconfidentes
Embora o ato seja nacional, o tema atravessa diretamente o cotidiano local. Dados compilados por pesquisas acadêmicas e por registros da segurança pública mostram que Ouro Preto registrou, nos últimos anos, centenas de casos notificados de violência contra a mulher. Entre 2019 e 2021, por exemplo, mais de 600 ocorrências anuais foram registradas na cidade — números que, segundo especialistas, representam apenas parte da realidade, devido à forte subnotificação.
Estudos realizados na UFOP indicam que a violência na região se expressa em múltiplas formas: agressões físicas e psicológicas, ameaças, violências sexuais, perseguição e, em casos extremos, feminicídio. Em muitas situações, a dependência econômica, o medo, a pressão familiar ou comunitária e a dificuldade de acesso a serviços fazem com que mulheres não formalizem a denúncia.
A Região dos Inconfidentes, que inclui também Mariana e Itabirito, acompanha esse quadro: levantamento de instituições locais mostra que essas cidades registram variações anuais nos atendimentos, mas mantêm índices considerados altos para municípios de porte semelhante.
A inauguração de uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) em Ouro Preto — uma demanda antiga dos movimentos locais — foi um avanço, mas ainda não supre todas as necessidades das vítimas. Pesquisas regionais apontam carências na cobertura territorial, no acesso imediato ao atendimento e na integração entre saúde, assistência social e segurança pública.
Praça Tiradentes como território de escuta e reivindicação
O ato deste domingo se propõe a transformar a Praça Tiradentes em espaço de escuta e acolhimento, reunindo mulheres de diversas realidades. A mobilização também faz parte da construção de uma rede regional que articula grupos de Ouro Preto, Mariana e distritos vizinhos, fortalecendo estratégias coletivas de proteção — especialmente para mulheres negras, periféricas, LGBTQIA+, rurais e quilombolas, que estão entre as mais vulnerabilizadas.
Redes de apoio e serviços
Além da mobilização, organizadoras e apoiadoras reforçam a importância de acessar serviços existentes. O canal Ligue 180 funciona 24 horas e orienta mulheres em risco. No município, unidades de saúde, centros de referência e a própria DEAM fazem parte do fluxo de atendimento, embora ainda haja desafios na articulação desses serviços.