Educação menstrual nas escolas: como a Maleta Menstrual está mudando a conversa em Ouro Preto

Programa da UFOP leva dignidade menstrual para salas de aula através de ferramenta pedagógica inovadora
Foto de Jiljana Isidoro

Jiljana Isidoro

Quando Isabel Prado recebeu uma maleta antiga de uma amiga artista plástica em 2019, não imaginava que aquele objeto cheio de memórias se tornaria uma ferramenta de transformação nas escolas de Ouro Preto. Mas em 2025, a maleta passou a circular por escolas públicas do município, carregando absorventes, coletores menstruais, útero, ovários, cordéis sobre ciclo menstrual, chá de camomila e vulva — tudo pensado para falar sobre menstruação de forma diferente.

Prado é doutoranda em Saúde da Mulher e da Criança pela Fiocruz e coordena o Programa Ciclo Saudável: cuidado e dignidade menstrual na UFOP. O programa funciona em duas frentes: distribui absorventes gratuitamente para estudantes da universidade e realiza ações de educação menstrual em escolas do município.

A Maleta Menstrual é a metodologia que ela desenvolveu para essas ações. Não é um material estático. É uma técnica pedagógica viva, que se adapta aos grupos e aos contextos.

O que as crianças não sabem

Entre janeiro e novembro de 2025, Prado realizou quatro oficinas em três escolas públicas de Ouro Preto com estudantes do ensino fundamental. Os dados que colheu revelam um desconhecimento preocupante.

Quando perguntou às crianças o que era menstruação, as respostas foram diretas: “por que a mulher menstrua?”, “para que serve a menstruação?”, “o que é menstruação?” Eram dúvidas básicas de crianças que em breve enfrentariam esse fenômeno em seus próprios corpos.

Mas a idade faz diferença. Segundo Prado, “as adolescentes já compreendem melhor o que é a menstruação pois a maioria já passou pela menarca (a primeira menstruação), diferente das meninas crianças que demonstraram medo dela”. Com os meninos, a situação era outra: demonstravam “vergonha, porém curiosidade em relação à menstruação”.

O estigma também aparecia nas falas. “Algumas falas mais estigmatizadas, como nojo do sangue menstrual e aversão à TPM, foram relatadas por eles”, relata Prado sobre os meninos.

Medo, vergonha e silêncio

Uma das crianças escreveu em papel anônimo durante a oficina: “eu tô com medo da minha descer, tenho vergonha de ter menstruação”. Outra disse: “menstruação é uma coisa muito normal, mas para nós é um pouco vergonhoso, porque somos iniciantes”.

Para Prado, essas falas são reveladoras. “O tema da menstruação precisa ser abordado de forma mais aberta e profunda, para que essas meninas se sintam seguras e tenham conhecimentos sobre um fenômeno que acontece em média 450 vezes na vida de uma pessoa com útero que menstrua, mas que social e culturalmente está associada a algo ruim.”

A falta de conhecimento não é neutra. Está ligada à pobreza menstrual — falta de acesso a produtos básicos de higiene e informação sobre o próprio corpo. De acordo com dados da UNICEF que Prado cita em seu artigo, as meninas pretas e pardas representam 66,1% das que não têm acesso a papel higiênico, 13% das que têm mais probabilidade de não ter acesso a saneamento básico, e 62,6% das meninas que não têm acesso a pia e sabão na escola são pretas e pardas.

Considerando que “o município de Ouro Preto tem cerca de 70% da sua população autodeclarada preta ou parda nos dados do IBGE”, Prado observa que “é possível que a desigualdade em relação ao acesso, não apenas aos produtos de gestão menstrual, mas também a informações sobre ciclo menstrual, seja observada”.

Como funciona a Maleta Menstrual

A metodologia é simples, mas potente. A oficina acontece em roda — sem carteiras, apenas cadeiras. Prado começa pedindo que cada pessoa se apresente e diga o que é menstruação para ela. Essas falas iniciais são registradas. Depois, abre a maleta.

Cada participante escolhe um objeto e comenta por que escolheu aquele. A partir dessa escolha, Prado explora o tema: o protótipo de órgãos genitais leva à conversa sobre anatomia; o coletor menstrual e absorventes descartáveis e de pano levam à discussão sobre produtos de gestão menstrual; a bolsa térmica de ervas leva à gestão não-farmacológica da dor; o livro “Seu sangue é ouro” leva ao tabu menstrual.

No final, cada participante diz o que vai levar do encontro — o que aprendeu, para onde vai levar esse conhecimento.

“A técnica da maleta permite mais ludicidade e diversão na abordagem de um tema milenarmente silenciado”, explica Prado. Essa diversão não é superficial. “No início da roda as emoções observadas são de medo e vergonha e, com o desenvolvimento da técnica, as emoções passam a ser de alegria e segurança, trazendo bom humor e diversão para a oficina.”

O que muda depois

Prado reconhece que medir mudanças de comportamento requer tempo. “Para medir esses impactos seria necessário um estudo longitudinal, que acompanhe esses estudantes por mais tempo.” Mas o que ela observa é imediato: “O que eu consegui identificar mais de imediato foi a satisfação dos estudantes ao final das oficinas, sorrisos, e muitos deles vieram me abraçar e agradecer pelas informações. Entendo isso como sementes de transformação que estão sendo plantadas.”

Os meninos também mudaram suas falas ao longo das oficinas. Na quarta oficina realizada, alguns rapazes já expressavam compreensões mais elaboradas: “é um renascimento da mulher”, “é a descamação do útero”.

Prado enfatiza a importância da participação masculina. “A participação dos meninos é muito importante pois eles devem ser co-responsáveis no cuidado. Sempre digo que todos eles ou tem mãe, irmã, namorada ou amiga que menstrua.” Além disso, “quem sabe algum dia um deles pode estar uma posição de poder, seja na política ou na gestão, para decidir sobre os corpos das pessoas que menstruam. Quem sabe terão filhas e precisarão saber sobre menstruação para apoiá-las. Menstruação também é coisa de homem.”

Políticas públicas que não chegam

Uma descoberta preocupante emerge das oficinas: praticamente ninguém conhece o Programa de Dignidade Menstrual do Governo Federal.

“Praticamente todas as crianças e adolescentes que conversamos desconhecíamos o Programa de Dignidade Menstrual do Governo Federal, mesmo sendo elegíveis para retirarem os absorventes gratuitamente por serem estudantes de escolas públicas”, relata Prado. E completa: “As ações do governo federal precisam de pontes fortes com os municípios.”

Essa lacuna — entre a política pública que existe e as pessoas que poderiam acessá-la — é real. Para Prado, falta mais que distribuição. “É preciso informação, diálogo e ações de promoção da saúde menstrual nas escolas.”

Para além da biologia

A educação menstrual não é apenas sobre ciclos hormonais. Prado vê a menstruação como “um fenômeno multidimensional” que “precisa ser tratada de maneira ampliada. Aspectos culturais, sociais, políticos, econômicos, emocionais e espirituais, também estão atrelados a esse fenômeno, além dos aspectos biológicos.”

Por isso, a Maleta Menstrual “pretende dar conta dessa complexidade e amplitude que o tema da menstruação merece, abrindo o diálogo e possibilitando uma compreensão mais ampla do tema através de ferramentas lúdicas e participativas.”

Prado também vê a educação menstrual como porta de entrada para outros temas urgentes. “Vemos a educação menstrual como uma porta de entrada para abordar outros temas sensíveis e necessários, como a gravidez na adolescência, cujos números no Brasil são altíssimos, bem como sobre violência sexual, misoginia, sexualidade, diversidade de gênero e inclusão.”

Replicação com responsabilidade

A Maleta Menstrual é uma técnica que pode ser reproduzida. Mas Prado deixa claro o que é essencial para que isso funcione com qualidade.

“Primeiro é necessário que os gestores públicos reconheçam a importância de tratar a menstruação como um tema de saúde e políticas públicas, para então criarem ações e estratégias intersetoriais de promoção da saúde e da dignidade menstrual, ações estas que, ao meu ver, devem incluir a educação menstrual nas escolas, porque acesso à informação e conhecimento é direito, cidadania e dignidade.”

A técnica continua em desenvolvimento. “Assumimos que a maleta menstrual continuará em pleno desenvolvimento e aperfeiçoamento, com a inclusão de jogos pedagógicos menstruais e outros materiais que a tornem ainda mais lúdica e artística para uma educação menstrual libertadora.”

Uma cultura diferente de menstruar

Prado conhece experiências bem-sucedidas que vão além de Ouro Preto. Em sua pesquisa de doutorado, conversou com estudantes de uma escola em Porto Alegre que realizam um projeto chamado Garotas de Vermelho, focado em educação e dignidade menstrual.

O que ela descobriu é inspirador: “As participantes do projeto apresentaram outras narrativas em relação a menstruação, como por exemplo, de que a menstruação é um sinal de saúde, um momento de autocuidado e autoconhecimento, e da importância de falar sobre menstruação como uma porta de entrada para se falar de outros temas como o combate à violência sexual e de gênero, saúde mental e cuidado coletivo.”

Naquela escola, “elas aprenderam a fazer uma bolsa térmica e a própria escola disponibiliza um micro-ondas para aquecer as bolsas das meninas com cólica. Elas me disseram que a bolsa térmica já é uma cultura na escola, que também disponibiliza absorventes. Assim, por acolher as meninas menstruadas, essa escola não tem problemas de evasão escolar por questões de menstruação.”

É uma visão diferente da menstruação — não como problema, mas como ciclo natural do corpo que merece cuidado e respeito.

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