A meia hora de Ouro Preto, descendo uma estrada que dobra o relevo e o tempo, Antônio Pereira parece suspenso entre 1693 e 2025. É sertão minerário e bairro operário; casarões e casas de tábua; poeira de caminhão e o barulho da barragem no fundo da cabeça. Nesse entrelugar, quem segura o cotidiano — sobretudo nas casas — são as mulheres negras.
O que o levantamento encontrou

Entre dez/2022 e mar/2025, o estudo PEREIRA.DOC entrevistou 171 moradoras e moradores do distrito; 58,2% eram mulheres. O retrato que emerge confirma o que a experiência local já sabe — agora com números:
- Sofrimento mental: 85,9% das mulheres apresentam sinais de ansiedade, depressão e/ou insônia (entre homens, 35,4%). 15,2% relataram ideação suicida, com maior frequência entre mulheres negras e idosas.
- Escolaridade e trabalho: a faixa etária mais comum entre as entrevistadas vai de 50 a 59 anos; apenas 13% concluíram o ensino médio e 2% chegaram à universidade. 83,3% nunca trabalharam na mineração; atuam em comércio, serviços domésticos, bicos — vínculos frágeis, rendas baixas.
- Renda: 19,8% das mulheres vivem com menos de R$ 500/mês.
- Qualidade de vida (WHOQOL-BREF):
- Físico: 3,38 (homens: 3,73).
- Psicológico: 3,66 (homens: 3,98); entre mulheres lésbicas, 2,5.
- Meio ambiente: 2,97 (homens: 3,26) — o pior domínio, puxado por poluição, ruído, moradia precária e medo da barragem.
- Físico: 3,38 (homens: 3,73).
- Percepções de risco:
- Poluição: 70% das mulheres classificam como muito grave (homens: 67%).
- Barragem/rompimento: 67% veem a presença como muito grave; entre mulheres pardas, 62,7% avaliam o risco de rompimento como muito grave.
- Álcool na comunidade: 43,43% das mulheres consideram muito grave (homens: 36,92%).
- Poluição: 70% das mulheres classificam como muito grave (homens: 67%).
O estudo chama atenção para o “mito da mulher negra forte” — uma couraça que vira cobrança silenciosa: “A ideia de força sobre-humana atribuída às mulheres negras, embora travestida de positividade, tem servido para perpetuar violências e opressões.” Apesar disso, 94,94% das entrevistadas relatam estratégias de enfrentamento e redes de cuidado — como o coletivo Mulheres Guerreiras de Antônio Pereira.
Quem elas são: um retrato possível
Ela tem entre 50 e 59 anos, não concluiu o ensino médio, não trabalhou na mineração e se vira entre trabalhos informais. Quase uma em cada cinco vive com menos de R$ 500.
Posicionamento da Samarco
- Investimentos voluntários (2024): R$ 26 milhões, sendo R$ 18 milhões na construção de um gabião (contenção de erosão) em Antônio Pereira e R$ 8 milhões em ações socioinstitucionais.
- Previsão 2025 (R$ 6,5 milhões):
- Culinária Sustentável (capacitação e empreendedorismo alimentar em distritos da região, incluindo Antônio Pereira);
- Caminhos Samarco (oficinas itinerantes de tecnologia e inclusão digital — robótica, IA, apps — com plantão de RH e workshop de currículo);
- Café Sustentável (qualificação de produtores rurais e mapeamento produtivo no entorno das operações).
- Culinária Sustentável (capacitação e empreendedorismo alimentar em distritos da região, incluindo Antônio Pereira);
- Medidas compensatórias e infraestrutura local: CEDASF (viveiro com capacidade de até 220 mil mudas/ano para compensação e reflorestamento); pavimentação da Estrada da Purificação (condicionante de licença), com blocos contendo 33% de rejeito reaproveitado; umectação da MG-129 em regime de revezamento com terceirizadas para reduzir poeira.
- Apoio a entidades locais (2025): projetos de associações (ex.: costureiras, banda de música da Lapa, esporte feminino, ações para idosos, reestruturação de sede comunitária, mobiliário para casa de apoio, festa do Dia das Crianças).
- Diálogo e monitoramento: participação em fóruns comunitários; 513 interações de diálogo social (jan–jun/2025); PMISE (monitoramento de indicadores socioeconômicos) e ouvidoria 24h.
- Parcerias institucionais: Prefeitura de Ouro Preto, UFOP e Fundação Gorceix em agendas de infraestrutura, educação ambiental (PEA) e desenvolvimento local.
O que diz a Prefeitura de Ouro Preto (saúde mental no território)
A Prefeitura informa que acompanha os indicadores de sofrimento psíquico no distrito e que está ampliando/qualificando a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), com medidas que atingem diretamente quem vive em Antônio Pereira:
Atendimento e estrutura local
- Equipe exclusiva no distrito: 2 psicólogos + 1 assistente social, 30h semanais, para acompanhamento psicossocial e matriciamento da UBS.
- Financiamento reparatório: a equipe é custeadа pela Vale, no âmbito de ações de reparação ligadas às barragens.
- UBS ampliada: funcionamento 7h–19h, com sala de estabilização para urgências, reforçando a retaguarda aos casos de saúde mental.
- Transporte sanitário: oferta de locomoção municipal para quem precisa se deslocar aos CAPS.
Integração à RAPS
- CAPS para todos os perfis: atendimento contínuo nos três CAPS de Ouro Preto, com modalidades intensiva, semi-intensiva e ambulatorial.
- Acesso facilitado: segunda a sexta, 7h–17h, sem encaminhamento prévio — qualquer morador de Antônio Pereira pode procurar diretamente.
- Reabilitação psicossocial: participação em oficinas, grupos terapêuticos e outros dispositivos da rede.
- Territorialização: equipes dos CAPS mantêm agenda fixa na UBS do distrito, com apoio matricial à Atenção Primária.