O que fazer quando a meta de ano novo não dá certo

Autora: Janina SteinmetzProfessora de Marketing, Bayes Business School, City St George’s, University of London Todos os anos, muitos de nós anunciamos com coragem nossas resoluções de Ano-Novo. Uma taça de champanhe na virada pode aumentar nossa confiança de que seremos capazes de fazer melhor no ano que começa — economizar mais, gastar menos, comer melhor, malhar mais ou maratonar menos séries. Mas a maioria das resoluções fracassa. Mesmo nas primeiras semanas após o Réveillon, grande parte das pessoas já desistiu delas. Ainda assim, nem toda história de fracasso é igual, porque a forma como você fala sobre o fracasso importa — para a sua própria motivação e para a confiança das outras pessoas na sua capacidade de tentar de novo. Então, o que podemos fazer depois de desistir da resolução? Nós anunciamos boas intenções para amigos e familiares e agora precisamos admitir o fracasso. Pesquisas mostram que o jeito como você formula uma resolução que não deu certo pode influenciar como as pessoas a enxergam. E compreender por que a maioria das resoluções não se concretiza pode ajudar a levá-las adiante no futuro. De fato, dá para falar sobre suas resoluções de um modo que torne seu fracasso mais compreensível e mantenha sua motivação para seguir em frente. Uma forma construtiva de discutir uma resolução que falhou é focar no quanto esse fracasso era controlável. Pesquisas indicam que a maioria das resoluções exige algum investimento de tempo e de dinheiro. Por exemplo, entrar em forma leva tempo para se exercitar e, normalmente, também requer dinheiro para uma academia ou para equipamentos de treino. Como esses dois recursos são essenciais para perseguirmos nossos objetivos, muitas resoluções fracassam por falta de tempo ou de dinheiro — ou dos dois. Ao falar de uma resolução que falhou no passado, minhas próprias pesquisas mostram que é melhor destacar como a falta de dinheiro contribuiu para esse fracasso, em vez da falta de tempo. Em um estudo meu de 2024, as pessoas leram sobre participantes de painéis — fictícios e reais — que falharam por falta de dinheiro ou por falta de tempo. A maioria considerou que a pessoa cujo fracasso foi causado por falta de dinheiro teria mais autocontrole dali em diante e seria mais confiável na busca pelos próprios objetivos. Esse efeito ocorreu porque a falta de dinheiro é vista como algo que não pode ser controlado com tanta facilidade; então, se foi isso que causou o fracasso, não havia muito o que a pessoa poderia ter feito. Nessa pesquisa, a maior parte das resoluções que não deram certo estava relacionada a perda de peso, alimentação mais saudável ou treino na academia. Os participantes avaliaram da mesma forma quando a pessoa que falhou era homem ou mulher — provavelmente porque é plausível que todo mundo precise de algum tempo e de algum dinheiro para perseguir objetivos diversos, independentemente do gênero ou do tipo de resolução. O papel da “controlabilidade” aparece de um jeito diferente quando pensamos em como fazer melhor na próxima vez. O papel do tempo As pesquisas também mostram que a maneira como enxergamos o tempo importa quando se trata de fracasso. Para o passado, é melhor pensar em fatores fora do nosso controle, o que ajuda a reduzir a carga negativa do fracasso e reforça a crença de que podemos fazer melhor. Isso pode significar, por exemplo, considerar que seu fracasso ocorreu por falta de dinheiro ou por outros recursos fora do seu alcance. Para o futuro, porém, adote uma perspectiva ativa sobre o tempo. Olhe para a sua agenda e tome decisões ativas sobre como alocar tempo para perseguir seu objetivo — marcando idas à academia ou reservando um horário para preparar refeições saudáveis. Isso pode nos dar motivação para tentar de novo, porque não somos vítimas de agendas lotadas. Mulher desabada sobre uma bola de exercícios na sala de estar.Definitivamente não é a única. Lopolo/Shutterstock Um estudo publicado em outubro de 2025, que analisou como a falta de tempo contribui para fracassos, mostrou que as pessoas recuperam a sensação de controle quando falam em “arrumar tempo” (ou “criar tempo”), em vez de “ter tempo”. Quem descreveu suas falhas como resultado de não ter arrumado/criado tempo sentiu que poderia fazer diferente no futuro — e ficou mais motivado para isso. Isso acontece porque “arrumar/criar tempo” sugere controle ativo sobre o próprio tempo e a própria rotina, enquanto “ter tempo” nos coloca numa posição passiva. Por exemplo: se você diz que não arrumou tempo para treinar, isso significa que pode arrumar tempo no futuro, se decidir fazê-lo. Já se você diz que não teve tempo para treinar, parece que essa falta de tempo está fora do seu controle e pode acontecer de novo, impedindo você de alcançar suas metas de exercício. Encontre alegria Outro motivo para tanta gente ter dificuldade em manter a resolução de Ano-Novo pode ser o excesso de ambição — ou o fato de ignorar que alegria e prazer são o que nos mantém em movimento. Não basta apenas ter um objetivo em mente. Encontrar alegria no caminho e acreditar na capacidade de mudar também é importante. Por exemplo, alguém pode querer entrar em forma e treinar mais, mas, quando tenta ir à academia, não tem confiança para se inscrever numa aula. Sem algum componente de diversão, é difícil cumprir uma resolução, mesmo quando realmente queremos alcançar o objetivo. Então, tente pensar em formas de tornar a meta mais prazerosa de trabalhar — e lembre a si mesmo que você é capaz. A tendência das resoluções de Ano-Novo não é ruim em si. Embora possa parecer paradoxal começar hábitos virtuosos logo depois de uma grande noite de bebida e exageros, pesquisas mostram que podemos, sim, nos beneficiar do chamado “efeito do recomeço”, no qual um novo marco no calendário oferece uma sensação de página em branco para iniciar hábitos melhores. Mas não precisamos esperar o calendário nos dar um recomeço. Podemos escolher fazer nossa própria resolução (talvez uma resolução de Dia dos Namorados ou de Páscoa?)
Saúde em 2025: distritos ganham reforço, rede amplia odontologia e Ouro Preto prepara linha completa contra obesidade

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TRF-6 derruba decisão que suspendia parte do licenciamento do “Projeto Longo Prazo”. Empresa diz que operações continuam normalmente.
Vandalismo compromete sistema automatizado de iluminação na Bauxita

Um ato de vandalismo registrado no dia 27 de dezembro comprometeu o funcionamento do sistema automatizado de iluminação do campinho Society do Pro, na Praça José Marçal, no bairro Bauxita, em Ouro Preto. O painel elétrico e eletrônico responsável pelo controle dos refletores foi danificado. Segundo apuração técnica informada pela Prefeitura, os responsáveis forçaram o painel de controle, danificaram o sensor e acessaram o equipamento internamente. Com isso, o sistema automático foi desativado e substituído por uma ligação direta — o que passou a permitir que as luzes sejam ligadas e desligadas manualmente. O sistema automatizado havia sido implantado para garantir o desligamento das luzes às 23h, atendendo a uma demanda de moradores do entorno. A medida tinha como objetivo preservar o sossego noturno, reduzindo jogos, aglomerações e o impacto da iluminação intensa durante a madrugada. O local conta com câmeras de monitoramento. De acordo com a Prefeitura, as imagens já estão sendo analisadas pela inteligência da Guarda Municipal, com apoio da Polícia Civil e da Polícia Militar, para identificar os responsáveis pelo dano ao patrimônio público. A Prefeitura ressalta que o vandalismo contra bem pertencente ao Município é tipificado como crime. O artigo 163 do Código Penal prevê pena de reclusão de seis meses a três anos, além de multa, quando o dano é qualificado por atingir patrimônio público. Após a constatação do dano, o painel foi vedado provisoriamente com cadeado para impedir novos acessos. A ordem de serviço para o reparo será emitida e os trabalhos deverão ser executados pela Prefeitura de Ouro Preto.
Adoção e licença-maternidade: decisão judicial em Ouro Preto equipara prazo ao de mãe biológica

Ação com apoio do Sindsfop garantiu a uma servidora adotante o direito a 180 dias
Livro registra memórias e revela caminhos da Rota Turística Jaguara em Minas Gerais

Publicação lançada em Acuruí reúne histórias, paisagens e personagens de quatro municípios da região central do estado
Mega da Virada: o que é mito e o que é fato no sorteio mais esperado do fim de ano

Com prêmio estimado em R$ 850 milhões, a Mega da Virada volta a movimentar apostadores e a exigir atenção para boatos que circulam nesta época. O fim do ano chega e, junto dele, a expectativa em torno da Mega da Virada. Em todas as regiões do país, brasileiros aproveitam os últimos dias de dezembro para registrar palpites no concurso que promete transformar a vida de quem acertar os números sorteados. Neste ano, o prêmio estimado é de R$ 850 milhões — valor que pode superar R$ 1 bilhão, segundo a Caixa Econômica Federal. Prêmio recorde e informação confiável As apostas começaram no dia 1º de dezembro e já movimentam lotéricas e plataformas digitais das Loterias CAIXA. Com o valor acumulado, o concurso se aproxima de um dos maiores prêmios da história.Mas, junto do entusiasmo, multiplicam-se boatos sobre o funcionamento do sorteio — alguns deles antigos, outros renovados a cada edição. Para evitar desinformação, a CAIXA divulgou esclarecimentos sobre os rumores mais comuns. As bolinhas têm pesos diferentes? Segundo a instituição, essa é uma das fake news mais recorrentes. Todas as bolinhas utilizadas nos sorteios são feitas de borracha maciça, com peso idêntico de 66 gramas e diâmetro de 50 milímetros.Elas passam por análises técnicas periódicas realizadas por um instituto de metrologia, garantindo que cada número tenha a mesma probabilidade de ser sorteado. Os ganhadores sempre saem das mesmas regiões? Outro mito frequente é o de que os prêmios teriam “destino certo”. A CAIXA reforça que os resultados são determinados exclusivamente pela aleatoriedade.Regiões com mais ganhadores costumam ser aquelas com maior volume de apostas — não por favorecimento, mas por probabilidade simples. Ainda assim, qualquer combinação pode vencer, independentemente do local em que foi registrada. Como acompanhar o sorteio O sorteio da Mega da Virada acontece no dia 31 de dezembro, às 20h, com transmissão ao vivo pela TV, pelo YouTube da CAIXA e pela página das Loterias CAIXA no Facebook.As apostas podem ser feitas até 18h do dia 31, presencialmente ou pelos canais digitais, como Internet Banking e aplicativo Loterias CAIXA. A aposta simples custa R$ 5,00.
A força feminina das favelas: projeto destaca resistência e transformação das mulheres periféricas

Nilza Rogéria de Andrade Nunes, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Alessandra Cruz, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) Norma Maria de Souza nasceu em Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro. Um lugar que não tinha luz e nem ruas pavimentadas. As enchentes eram frequentes e graves. A infância foi marcada por muitas brincadeiras na rua com os amigos, mas também pela pobreza e vulnerabilidade. Aos três anos, perdeu a mãe. Seu pai casou novamente, mas morreu quando ela tinha cerca de 15 anos. A família também foi impactada pela morte prematura de um dos irmãos por bala perdida. As tragédias não acabaram por aí, mas se perpetuaram. Norma teve 3 filhos. Kevin, o terceiro, sofreu sequelas de um parto marcado por várias violações que levaram a uma paralisia cerebral muito severa. Ela sofreu ainda do descaso e da falta de acolhimento. Mas o pior ainda estava por vir… O companheiro não aceitava um filho com deficiência neurológica e se tornou um agressor. Agressões físicas e psicológicas. Norma se separou do marido e foi para a luta. Nessa trajetória, acabou encontrando outras mulheres vivenciando situações semelhantes. Esperança vence desafios Em 2003, essas mulheres se uniram e criaram o grupo Marias – uma rede de mães para defender direito, saúde e dignidade para suas crianças com deficiência. O projeto Marias atende, hoje, cerca de 350 mães de crianças com deficiência. Na união encontram apoio e se ajudam. Nesse processo, muitas mães se formaram. São pedagogas, psicólogas, professora de educação física e enfermeiras. Norma é pedagoga e já concluiu 10 pós-graduações entre saúde e educação, fez mestrado e está terminando o doutorado. Mulher de favela O relato acima faz parte de um projeto do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio, liderado por mim. A ideia foi contar as trajetórias de lideranças femininas que transformam positivamente realidades e contextos favelizados e periféricos. Com esses relatos potentes resolvemos criar o audiolivro “Mulher de Favela”. Nossa proposta é ampliar a visibilidade dessas narrativas, com as histórias sendo contadas na voz das próprias mulheres. A iniciativa, já reúne 30 capítulos com diferentes histórias de vida e luta, cada um dedicado a uma liderança comunitária. Em nossa opinião, ajudam a registrar a atuação de um feminismo negro e periférico, combinando memória, denúncia social e valorização de saberes locais. A opção pelo formato em áudio vem do desejo de abrir espaços para que essas mulheres narrem suas próprias histórias. A distribuição em diferentes plataformas digitais tem o objetivo de permitir a ampla difusão e acesso ao público, contribuindo para o reconhecimento e fortalecimento das vivências de mulheres que atuam como agentes de mudança em seus territórios. Aos 92 anos, Dona Zica e a luta da mulher periférica Entre as 30 mulheres, destaco depoimentos de Dona Zica, que ajudou a fundar o Sindicato das Empregadas Domésticas do Rio de Janeiro e, hoje, mesmo com 92 anos, ainda participa da luta a favor dos direitos de mulheres periféricas. Outro exemplo é a jovem Lua Oliveira, que começou a atuar pela comunidade da Ladeira dos Tabajaras aos 12 anos, quando fundou a biblioteca comunitária Mundo da Lua, dentro de sua própria casa. Atualmente, com 17 anos, ela já ajudou na criação de mais de 120 salas de leitura em favelas e periferias do Rio de Janeiro, e em outros cinco estados brasileiros. Além das histórias de vida das lideranças femininas, o audiolivro “Mulher de Favela” aborda temas diversos, como a violência contra a mulher, acesso à saúde, educação e memória dos territórios. Injustiças sociais No Brasil, as mulheres negras estão na intersecção de múltiplas desigualdades e seus direitos são atacados repetidamente. Nesse sentido, relacionar a atuação dessas lideranças femininas das favelas e periferias e suas experiências frente aos determinantes sociais da saúde é um princípio orientador de nosso projeto de pesquisa. A ideia foi discutir a relação entre saúde e as experiências dessas mulheres nesses territórios urbanos permeados por injustiças sociais e, acreditamos, que isso tem contribuído em nossas pesquisas e intervenções para aprofundar propostas de estratégias e caminhos possíveis para atuar nas dimensões da saúde, conectando-a ao social, cultural e politicamente. A médio e longo prazos, poderemos avançar na implementação atividades de apoios e programas específicos para mulheres reorientarem também atividades geradoras de renda. Os vários tipos de feminismos Nosso projeto se baseou em uma pesquisa-ação participativa. E nos ofereceu uma maneira de ver como se reproduzem as opressões dentro das favelas. No início, nos interessava verificar a participação dessas mulheres nas ações micropolíticas de mobilização e mediação com o poder público. Vale destacar que essas mulheres subvertem a ordem e desenvolvem um modo particular de uma consciência feminista feminina, considerando o que algumas chamam de “feminismo popular”. Esse feminismo difere do feminismo “convencional” de duas maneiras: é frequentemente construído e expresso em lutas que não são feministas a priori e frequentemente desafia os valores políticos do feminismo. Inquieta-nos se tais atuações se refletem sobre o campo feminista que se pode compreender como “feminismo em movimento” ou mesmo o chamado “popular feminismo”. Estávamos atentas às novas representações sobre as favelas que se materializam nas falas, sobretudo, quando os sujeitos que falam são considerados (e se consideram) pessoas de referência. E a ideia foi examinar as tensões, representações e práticas das mulheres nesses contextos de exercício e consolidação do poder no âmbito local. Verificamos que elas utilizam de múltiplas formas de combater as opressões. Acreditamos que correlacionar a interseccionalidade ao mesmo tempo a um “projeto de conhecimento” foi e é uma arma política. Para nós é fundamental pensar conjuntamente as dominações. Acreditamos que isso possa contribuir para a não reprodução, impulsionando sentidos e ecoando vozes. Do Rio para o país Com financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, nosso estudo mostrou que as condições sociais e a precariedade e/ou insuficiência na oferta de serviços públicos correlacionados aos níveis de pobreza acentuam a importância dessas mulheres. Elas percorrem longos caminhos para a reversão das vulnerabilidades
O papel estratégico da nova vacina Butantan-DV, primeira do mundo em dose única contra a dengue

André Ricardo Ribas Freitas, Faculdade de Medicina São Leopoldo Mandic Aprovada no último dia 26 de novembro pela Anvisa para ser utilizada na população brasileira de 12 a 59 anos, a vacina Butantan-DV é o primeiro imunizante contra dengue em dose única do mundo. A notícia é muito auspiciosa, uma vez que a dengue permanece como a arbovirose mais frequente no planeta, e uma das que mais pressionam o sistema de saúde brasileiro. O Brasil já convive com ciclos intensos de dengue há décadas. Eles são agravados pela circulação alternada e simultânea dos quatro sorotipos do vírus causador dessa febre (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4). Essa alternância cria condições para a ocorrência de epidemias maiores, com picos intensos e risco elevado de formas graves em razão da maior prevalência de segundas infecções. Dados do Ministério da Saúde indicam que, até novembro de 2025, foram contabilizados 1,6 milhão de casos prováveis de dengue. São Paulo é o estado mais afetado tanto em número total como proporcionalmente ao tamanho da população. No Brasil, os óbitos já somam 1,6 mil em 2025, e registram uma redução de 72% em comparação com 2024. Esse comportamento viral, associado à forte presença do mosquito Aedes aegypti — o principal vetor da doença — nas áreas urbanas, ajuda a entender por que a dengue segue como um problema estrutural para o país. Nesse contexto, o anúncio recente da aprovação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de uma nova vacina contra a dengue desenvolvida no Brasil pelo Instituto Butantan representa um avanço concreto. A Butantan-DV utiliza tecnologia de vírus vivo atenuado, já amplamente validada em imunizantes contra outros patógenos, como sarampo, caxumba e rubéola, febre amarela e rotavírus. Os vírus atenuados usados em vacinas passam por processos laboratoriais que os impedem de causar doenças. Porém, em contato com o organismo, conseguem estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos e ativar células de defesa. Esse reconhecimento prévio permite uma resposta rápida caso a pessoa seja exposta a estes ao vírus, reduzindo de forma significativa o risco de infecção e de quadros graves. Quanto ao perfil de segurança, os efeitos adversos mais comuns da Butantan-DV foram leves a moderados — como cefaleia, fadiga e exantema (manchas vermelhas na pele). Eventos graves foram raros e consistentes com o que já se conhece do uso de vacinas de vírus vivo atenuado. Diante desses resultados, a Anvisa concluiu que o risco-benefício é favorável, considerando a elevada carga da dengue no país. A agência reguladora prevê ainda o acompanhamento contínuo da segurança e eficácia ao longo dos próximos anos, como ocorre com qualquer imunizante novo introduzido em larga escala. Décadas de pesquisa A Butantan-DV é resultado de pesquisas iniciadas em 2009, quando o país ultrapassou 1 milhão de casos prováveis da doença. A partir de uma colaboração com os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, que cederam as quatro cepas atenuadas do vírus, o Instituto Butantan desenvolveu sua própria formulação após centenas de experimentos. Os ensaios clínicos avançaram da fase 1, conduzida pelo NIH com 113 voluntários e imunogenicidade inicial de 90%, para a fase 2 brasileira, que reuniu 300 adultos e confirmou segurança e resposta imune robustas em apenas uma dose. O passo decisivo ocorreu a partir de 2016, com a fase 3. Foi um dos maiores estudos clínicos já feitos no país, envolvendo 16 mil voluntários de 2 a 59 anos em 16 centros de pesquisa. Após cinco anos de acompanhamento, os resultados mostraram eficácia geral de 74,7% em adolescentes e adultos e proteção de 91,6% contra formas graves. Ao menos três características explicam por que este imunizante representa um avanço importante. Enquanto a vacina atualmente disponível, a QDENGA (Takeda), é dada em duas doses, a Butantan-DV deve ser aplicada em dose única, o que torna a estratégia de vacinação mais simples, com maior potencial de cobertura. A dose única simplifica campanhas, melhora a adesão e permite respostas rápidas em momentos de surto ou em localidades com acesso irregular a serviços de saúde. Além disso, a Butantan-DV apresentou maior eficácia para casos sintomáticos e graves. Nos estudos, a vacina demonstrou boa capacidade de prevenir dengue sintomática — incluindo quadros graves que exigem hospitalização, reduzindo a pressão sobre unidades de emergência. A Butantan-DV também é segura para pessoas que não tiveram exposição anterior ao vírus da dengue. Ao não exigir infecção prévia, o imunizante supera a restrição apresentada pela vacina Dengvaxia (em três doses, da Sanofi-Pasteur), que era indicada somente a quem já havia sido infectado por dengue antes, e reposiciona a vacinação como medida populacional, não apenas individual. Outro ponto relevante é a produção nacional do imunizante: a transferência de tecnologia para o Instituto Butantan para ampliar a produção busca garantir a fabricação em larga escala, fortalecendo a autonomia sanitária do país e reduzindo dependência de importações em momentos críticos. É importante ter clareza de que a vacinação não interromperá a transmissão sozinha. As arboviroses são transmitidas por vetores e influenciadas por fatores ambientais — densidade de mosquitos, chuva, temperatura e condições urbanas. Mesmo uma alta cobertura vacinal não eliminaria totalmente a circulação viral. A indicação para a faixa etária de 12 a 59 anos também limita o impacto populacional máximo. Mas isso não diminui sua importância: o objetivo central é reduzir casos, internações e mortes, o que é um ganho direto para a saúde pública. A disseminação das arboviroses As arboviroses não se limitam à dengue. Elas são doenças causadas por vírus transmitidos principalmente por insetos hematófagos (se alimntam de sangue). Entre os vetores mais relevantes estão o Aedes aegypti e o Aedes albopictus, transmissores de dengue, chikungunya e Zika; o Culicoides paraenses (conhecido como maruim ou mosquito porva) e o Culex quinquefasciatus (pernilongo comum), envolvidos na transmissão do vírus Oropouche. O pernilongo comum também pode transmitir o vírus West Nile. Nos últimos anos, vários desses vírus passaram a ocorrer em novas regiões do Brasil e das Américas, deixando de se concentrar apenas nos territórios historicamente afetados. O vírus Oropouche, antes restrito à Amazônia, hoje provoca surtos