Uma patroa acusa a empregada doméstica de furtar uma joia. A patroa se chama Carolina e a trabalhadora, Samara. Como Samara diz não saber onde estava o tal anel, Carolina prepara-lhe uma emboscada sádica: chama um amigo policial, Michael, para torturá-la.
Ambas estão grávidas: Carolina de três meses e Samara de cinco. Mesmo assim, Carolina e Michael começam a agredir Samara com socos, pisões e coronhadas, até que o policial passa a arrastá-la pelos cabelos em todos os cômodos da casa para que ela encontre o tal anel. Samara tenta proteger a barriga com o filho, carregando junto a certeza de que não sairá dali viva.
Esta cena aconteceu no dia 17 de abril de 2026, em Paço do Lumiar, no Maranhão. Mas poderia ter sido em qualquer dia, em qualquer cidade, desde que o Brasil é um país com patrões, joias e trabalhadores explorados.
Uma patroa mandar surrar a empregada, infelizmente, não é uma cena rara no imaginário de atrocidades trabalhistas de que o país é capaz de produzir. Vale lembrar que, durante a pandemia, os sindicatos da categoria chegaram a relatar um aumento de mais de 80% das denúncias de agressões físicas e maus tratos de patrões contra empregadas domésticas.
Da vida real para os livros
Essa também é uma cena recorrente na literatura brasileira. Apesar de serem praticamente invisibilizadas na nossa história literária, e de quase nunca surgirem como personagens dignas de enredo, nomeação ou pontos de vista próprios, as trabalhadoras domésticas sempre figuraram em descrições de espancamento por patrões em contos e romances históricos.
Algumas acontecem de uma forma tão parecida com a que Samara fez com Carolina que levei um susto quando li as notícias no último mês, justamente quando lancei o livro “Quirinas: a trabalhadora brasileira como protagonista na literatura brasileira contemporânea”, pela Editora Pangeia.
O livro é fruto direto da minha tese de doutorado, trabalho contemplado no Prêmio Capes de Tese 2025, e traz um levantamento inédito e a análise de 37 personagens trabalhadoras brasileiras na história da ficção nacional, de 1859 até 2024.
E elas apanharam muito, mesmo em cenas que usavam a violência como instrumento de denúncia.
Como não lembrar do menino Brás Cubas, do clássico Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, dando uma pedrada na cabeça de uma mucama só porque ela não quis lhe dar uma colherada do doce de coco que ainda esfriava no tacho da cozinha?
A saga da negra Fulô nas letras e na música
Uma das obras que lembrei no momento em que tomei conhecimento do calvário de Samara foi o poema “Essa negra Fulô”, de Jorge de Lima, escrito em 1928 e reeditado em 1947, quando se tornou seu poema mais conhecido. O poema é um diálogo entre a patroa Sinhá, o patrão Sinhô e a Negra Fulô, a mulher escravizada que serve ao casal. A Sinhá pede que a Negra Fulô a atenda de todas as formas possíveis, remontando ao tipo de servidão clássico da escravidão, quando as sinhás eram ainda tratadas como crianças pelas mucamas.
“Essa negra Fulô/ Ó Fulô! Ó Fulô !/ vem me ajudar, ó Fulô, / vem abanar o meu corpo/ que eu estou suada/ Fulô!/ vem coçar minha coceira, / vem me catar cafuné, / vem balançar minha rede, / vem me contar uma história, / que eu estou com sono, Fulô! […] Cadê meu lenço de rendas/ cadê meu cinto, meu broche, / cadê meu terço de ouro/ que teu Sinhô me mandou?/ Ah! foi você que roubou. / Ah! foi você que roubou”.
Percebendo o roubo, Sinhá manda o marido, Sinhô, espancar a Negra Fulô. No ato violento, no entanto, Sinhô acaba seduzido pela empregada, de acordo com o olhar do narrador:
O Sinhô foi açoitar/ sozinho a negra Fulô./ A negra tirou a saia/ e tirou o cabeção,/ de dentro dele pulou/ nuinha a negra Fulô.
Se pensarmos que o poema foi escrito em 1928, republicado em 1947; e que ainda seria musicado em 1978, pelo músico negro Paulo Diniz, que transformou o suplício de Negra Fulô num samba-rock funkeado que fez enorme sucesso nas rádios, temos pelo menos 50 anos em que a cena foi vista, revista, e afinal cantada. Sem ser contestada.
Mas a revanche de Negra Fulô viria, antes tarde do que mais tarde: em 1998, 70 anos depois da primeira versão do poema, o escritor Oliveira Silveira publicaria uma sátira na publicação Cadernos Negros, intitulada “A outra Nega Fulô”, em que a personagem é quem dá uma surra no patrão:
O sinhô foi açoitar a outra nega Fulô / – ou será que era a mesma?/ A nega tirou a saia a blusa/ e se pelou/ O sinhô ficou tarado, largou o relho e se engraçou./ A nega em vez de deitar/ pegou um pau e sampou / nas guampas do sinhô./ – Essa nega Fulô!/ Esta nossa Fulô!
Décadas depois, um novo protagonismo
A revanche vem, de uma forma ou de outra. Há menos de dez anos, as personagens trabalhadoras domésticas começaram a figurar como protagonistas de contos e romances brasileiros, algo inédito na nossa história literária, em cenas muito mais diversas do que as usuais cenas de espancamento, estupro e abusos.
Desde 2018, já foram lançados mais de 10 romances com empregadas como protagonistas, a exemplo de “Perifobia” e “O céu para os bastardos”, de Lilia Guerra; “Vera”, de José Falero; “Como se fosse um monstro’, de Fabiane Guimarães; ”[A mulher que atravessa a ponte]“(https://mariawilliane.com/a-mulher-que-atravessa-a-ponte), de Ana Cardoso, e ”Com armas sonolentas“, de Carola Saavedra, entre outros.
Em 2024, o romance ”Louças de família“, de Eliane Marques, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura – o primeiro romance brasileiro com uma empregada doméstica como protagonista a ganhar uma láurea deste porte.
A revanche tem muitas formas. A última pesquisa da Câmara Brasileira do Livro revelou que 30% dos leitores no Brasil hoje são mulheres pretas e pardas; e que a classe C concentra o maior contingente de compradores de livros no país. Ou seja, mais mulheres pretas estão não só sendo representadas nos enredos, como também estão comprando e lendo mais livros.
Vale lembrar que a categoria das trabalhadoras domésticas, uma das maiores do Brasil, segundo o IBGE, é formada majoritariamente por mulheres pretas, pardas e pobres. Exatamente como a maranhense Samara Regina Dutra.
A esta altura, a maior revanche é saber que ela e seu bebê estão bem, que a prefeitura de Paço do Lumiar a contratou como recepcionista da instituição, com carteira assinada, e que a sua ex-patroa Carolina Stela Ferreira dos Anjos está presa, assim como o policial Michael Lopes Santos, seu algoz.
E o anel, afinal, foi encontrado dentro de um cesto de roupas sujas.![]()
Mariana Filgueiras, Jornalista e doutora em literatura, Universidade Federal Fluminense (UFF)
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