Ouro Preto, segunda-feira, abril 27, 2026 15:29

Diagnósticos inventados: a lista sinistra de transtornos mentais que nunca existiram

Jorge Romero-Castillo, Universidad de Málaga O filósofo e romancista hispano-americano George Santayana (1863-1952) utilizou a memória histórica como motor para o progresso humano com esta famosa afirmação: “Aqueles que não conseguem lembrar-se do passado estão condenados a repeti-lo”. Sob essa perspectiva, convém considerar os rótulos desenvolvidos a seguir, criados como formas de controle e manipulação para legitimar o poder sob o pretexto de uma psiquiatria tendenciosa. Drapetomania e disestesia etíope Foram inventadas pelo psiquiatra americano Samuel Cartwright em meados do século XIX. A drapetomania, criada em 1851, fazia referência ao “desejo dos escravos africanos de fugir de seus senhores”; especificamente, das plantações do sul dos Estados Unidos. Tanto Cartwright quanto a sociedade racista à qual ele pertencia defendiam que a escravidão era uma ordem legal , por ser um fenômeno natural imposto por Deus. Por sua vez, a disestesia etiópica, outro diagnóstico reservado aos escravos negros, caracterizava-se pela “apatia em relação ao trabalho”, e a “cura” consistia em chicotadas. Para a supremacia branca, qualquer sinal de resistência era interpretado como um sintoma médico. Ambos os rótulos desapareceram com a abolição da escravidão em 1865. Dromomania Era uma “loucura por viajar”. Em 1887, o médico francês Philippe Tissié começou a classificar como “loucas” pessoas com “impulsos incontroláveis de abandonar suas casas e percorrer longas distâncias”, algo até então inédito (também chamado de “automatismo ambulatório”). Mas, além da amnésia dissociativa (encontrar-se em um lugar sem se lembrar de ter chegado lá), a dromomania nunca foi aceita pela medicina. Este é um exemplo de como se pode disfarçar como alteração psicológica o que, na realidade, era um fenômeno social emergente. Insanidade moral Em 1835, o psiquiatra britânico James C. Prichard diagnosticou moral insanity (“insanidade moral”) àqueles que “agiam sem freio moral, apesar de conservarem a razão”. Ele aspirava que ela se tornasse uma teoria médica sobre a corrupção da natureza humana, mas era um reflexo da moral vitoriana. E acabou se tornando um instrumento para punir mulheres que rejeitavam os papéis tradicionais. Histeria É, sem dúvida, o primeiro transtorno mental atribuído às mulheres: uma história de tortura, submissão e repressão sexual. Embora os papiros egípcios já falassem dela, o termo “histeria” vem do grego hysteron (usado por Hipócrates), que significa útero ou matriz. Um órgão sobre o qual Platão escreveu: “Se a matriz permanece sem produzir frutos por muito tempo, ela se irrita e se enfurece; vagueia por todo o corpo e gera mil doenças”. A chamada “teoria do útero errante” tem sido historicamente a explicação para o comportamento de muitas mulheres “irritáveis e enfurecidas”. Aquelas que não se encaixavam nos papéis de gênero impostos e que eram privadas de sua humanidade de várias maneiras: Vibrador elétrico manual, inglês, datado de 1909. O médico inglês Joseph Mortimer Grandville inventou o primeiro vibrador elétrico com múltiplas finalidades médicas no final da década de 1880. Mas não está claro se ele era usado para tratar a histeria. Posteriormente, surgiram versões para uso na privacidade do lar. Science Museum Group, CC BY-NC-SA Na Idade Média, elas eram castradas com a remoção do útero. E as “mais histéricas”, segundo a Igreja Católica, eram acusadas de bruxaria, submetidas a exorcismo e queimadas vivas. No século XVII, aquelas que sofriam de “ataques de histeria” podiam ser enforcadas, como as bruxas de Salem em 1692. No século XIX, elas eram mutiladas com a remoção do clitóris, uma prática chamada clitoridectomia e realizada até em meninas. O desejo sexual feminino era considerado um desvio patológico e devia ser tratado o mais rápido possível (uma crença cultural ainda presente no mundo). É importante ressaltar que o primeiro estudo anatômico do clitóris só foi realizado em 1998. Por outro lado, a masturbação bimanual do útero pelo médico, um “tratamento” que hoje seria considerado violação, está bem documentada. No entanto, existe controvérsia sobre se era aplicado para a histeria. No final do século XIX, a explicação do movimento uterino foi descartada por Jean-Martin Charcot (considerado o fundador da neurologia moderna) e centrada em fatores emocionais. Posteriormente, Josef Breuer e Sigmund Freud encontraram a causa desse “distúrbio” em supostos traumas infantis. A mutilação genital não era mais necessária. Une leçon clinique à la Salpêtrière (1887), de André Brouillet. Na tela aparece o neurologista Jean-Martin Charcot, rodeado por alunos (não havia alunas) e médicos (também não havia médicas), enquanto realiza demonstrações de hipnose em uma paciente diagnosticada com histeria. Ela, desmaiada nos braços de um assistente, é o centro da cena como objeto de observação, cujo sofrimento é transformado em espetáculo científico. Seu corpo é exposto sem consentimento, vulnerável, diante de uma multidão masculina que a observa, analisa e julga. Um reflexo da construção cultural que patologizava comportamentos femininos que escapavam à norma patriarcal na medicina do século XIX. Wikimedia Commons Após milênios de atrocidades, colocaram-lhe a última máscara no século XX: ela apareceu no I Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-I) de 1952, como explicação para vários “comportamentos desviantes”. Posteriormente, foi renomeada como “neurose histérica” no DSM-II de 1968. E, finalmente, desapareceu na publicação do DSM-III de 1980 por suas implicações misóginas. Síndrome pós-aborto Surgiu na década de 1970 nos Estados Unidos como suposto transtorno causado por uma interrupção induzida da gravidez. Na verdade, foi uma estratégia de manipulação social perpetrada por instituições católicas e conservadoras para apresentar o aborto como uma “ameaça psicológica”. Este rótulo nunca foi reconhecido pela comunidade médica internacional devido à ausência de evidências científicas. No entanto, alguns grupos ultraconservadores continuam a apelar sobre sua existência. Monomania Apareceu pela primeira vez na França pelas mãos de Jean-Étienne Esquirol, por volta de 1820. Era usado para designar uma “obsessão irracional e exclusiva por uma única ideia”, como piromania, cleptomania, erotomania ou ninfomania. É importante destacar que a ninfomania foi criada exclusivamente para mulheres consideradas “promíscuas” e, por seu evidente viés sexista, perdeu valor clínico no início do século XX (nunca foi incluída em nenhum manual). A monomania teve presença nos tribunais para julgar condutas criminosas, particularmente homicídios. Mas era tão ambígua que acabou desaparecendo por volta de 1870. Neurastenia

Análise: Dados sugerem que o calendário eleitoral da disputa presidencial de 2026 foi antecipado

Fábio Vasconcellos, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) “O Brasil tem duas opções. Se você quer o Lula e o Maduro, fica com eles. Se quer a seriedade e a lei, fica conosco”. A declaração do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União-Brasil), pré-candidato à Presidência da República, é mais um sinal do que muitos têm apontado como uma antecipação indevida da campanha eleitoral de 2026. Dois dias após a operação policial mais letal da história do Brasil e do Rio, Caiado foi à capital Fluminense com outros colegas manifestar apoio ao governador, Cláudio Castro (PL). A operação ganhou as manchetes e se transformou em oportunidade para governadores do campo da direita. Na crônica política do país, contudo, outro episódio recente reforça a hipótese da antecipação da disputa do próximo ano. Na primeira semana de outubro, a Câmara dos Deputados deixou caducar a Medida Provisória que ampliava tributos sobre aplicações financeiras, bets e fintechs. Se aprovada, a MP contribuiria para o equilíbrio das contas do governo, com um aumento de arrecadação de até R$ 20,5 bilhões. Após a derrota, lideranças do governo e analistas políticos apontaram a antecipação da disputa presidencial como a principal razão da decisão dos deputados – sobretudo daqueles que formam o Centrão, como o PL, Republicanos, PSD, PP e União Brasil. Na tribuna da Câmara, o líder do PL, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), confirmou que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), potencial candidato à Presidência,trabalhou pela derrubada da MP. Embora as críticas sobre a antecipação do calendário eleitoral tenha ganhado volume, elas parecem pouco esclarecedoras. Em uma democracia representativa, é esperado que atores políticos trabalhem de olho no próximo ciclo eleitoral, e isso vale tanto para a oposição quanto para a situação. Ainda que o propósito do debate seja denunciar o quanto a disputa eleitoral antecipada prejudica o andamento do governo e a execução de políticas públicas, é justamente o horizonte eleitoral que impulsiona governo e oposição a agirem. Ambos procuraram responder às demandas das suas bases que, ao fim, também pode traduzir-se em ganhos político-eleitorais. Nesse sentido, do ponto de vista prático, o argumento da antecipação eleitoral parece ter baixa validade, pois tanto o governo quanto a oposição se orientam pelas oportunidades político-eleitorais que identificam no curto e no médio prazos. Portanto, talvez a questão a ser examinada seja a frequência com que a disputa eleitoral é levada para a agenda do debate público, limitando a inclusão de outros temas e, por consequência, influenciando os atores políticos. Mais de 407 mil menções às eleições Para tentar responder a essa pergunta, ainda que de forma exploratória, coletamos dados de publicações em mais de 1,4 mil veículos digitais de imprensa entre 2011 e 2025 (até 16 de outubro). A busca consistiu em identificar reportagens, notas de colunistas, artigos de opinião, entre outros gêneros jornalísticos de veículos digitais que tenham mencionado “eleições ou reeleição” combinado com “presidencial ou presidente”, e que fizessem referência à Dilma, Temer, Lula, Bolsonaro, Aécio, Ciro Gomes ou Marina. Antes, uma ponderação: os dados tendem a ser mais precisos quanto mais recentes, em razão da qualidade do sistema de busca e da indexação dos conteúdos. Embora o debate eleitoral não ocorra exclusivamente na imprensa, ela é um termômetro que ajuda a compreender como o assunto circula entre as elites econômicas, partidárias e intelectuais do país. A imprensa tanto pode estimular a agenda ao propor pautas e análises sobre a reeleição presidencial, quanto também pode servir de canal para dar vazão aos argumentos e posições de partidos e lideranças. Diferentemente do calendário oficial das eleições definido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é pela imprensa, portanto, que o calendário político informal da disputa se organiza. O mapeamento identificou mais de 407 mil menções às eleições presidenciais entre 2011 e 2025 (até o início de outubro), das quais 26% estão concentradas em 2022. Como esperado, anos eleitorais tendem a inflacionar os dados, já que a imprensa se empenha em cobrir a agenda dos pré-candidatos, a campanha, as pesquisas e o dia da eleição. Lula 3 lidera no 1º e 2º ano de mandato Ainda considerando os dados absolutos, reorganizamos os casos por ano de mandato para examinar a frequência do tema “eleições” na imprensa. A primeira conclusão é que em números absolutos, o 1º e o 2º anos do mandato de Lula 3 apresentam mais menções às eleições presidenciais. O 3º ano – véspera do período eleitoral – contudo, é liderado pelo mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mais de 44,7 mil menções no ano de 2021 trataram de eleições presidenciais, mencionando o ex-presidente e/ou seus adversários. É importante observar que essa frequência tem relação com eventos políticos significativos da história recente do país. Em 2019, Lula conseguiu a liberdade por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), fato que estimulou o debate sobre sucessão presidencial. No ano de 2021, o STF anulou os processos do ex-presidente na Operação Lava Jato, devolvendo a Lula seus direitos políticos. Quase imediatamente, a medida potencializou a discussão sobre a sucessão de Bolsonaro. O grande número de menções à eleição presidencial de 2022 – mais de 107 mil casos – tem, por sua vez, relação com o ineditismo do caso. Pela primeira vez, um ex-presidente e um presidente da República disputaram o principal cargo político do país. Talvez essa seja também uma das explicações para o alto número de menções no primeiro ano do mandato de Lula 3. Naquele ano, houve um total de 37 mil menções às eleições presidenciais, muito provavelmente influenciadas por dois fatores interligados. O primeiro como reflexo da acirrada disputa do ano anterior; o segundo por conta da decisão do TSE de tornar Bolsonaro inelegível até 2030, fato que despertou a discussão sobre a sucessão no campo da direita. Na distribuição relativa, Lula 3 lidera em todos os recortes Como dados absolutos tendem a distorcer os comparativos, já que são fortemente influenciados pelos contextos políticos, produzimos a distribuição relativa das menções, considerando cada ano de mandato de cada presidente. Exemplo: do total identificado durante

Saneouro divulga nota sobre processo societário; posicionamento confirma que venda global da controladora segue em andamento com conclusão prevista para 2026

Após a repercussão internacional da venda da GS Inima — uma das controladoras da Saneouro — para a estatal de Abu Dhabi TAQA, por cerca de US$ 1,2 bilhão, a concessionária divulgou uma nota oficial sobre o tema. Sem entrar em detalhes sobre a operação global, a Saneouro afirma que o processo de inclusão de um novo acionista na estrutura societária da GS Inima já está em curso e que pode ser concluído apenas em 2026. O que diz a nota da Saneouro No comunicado, a empresa informa que: A nota não nega a negociação noticiada pela imprensa internacional; apenas esclarece que, no âmbito da Saneouro, nenhuma mudança societária se efetivou até o momento, o que é compatível com o estágio da operação global, que depende de aprovações formais, como informado anteriormente pelo Vintém. (leia aqui a matéria completa) Contexto internacional: venda da GS Inima foi anunciada em agosto A operação envolvendo a GS Inima foi anunciada no dia 25 de agosto de 2025 por veículos internacionais como Reuters, El País / CincoDías, Korea Economic Daily e pela própria TAQA, por meio de comunicado distribuído via PR Newswire. O valor divulgado é de aproximadamente US$ 1,2 bilhão, e o negócio faz parte da estratégia da TAQA de ampliar sua presença global no setor de água — da dessalinização ao saneamento. A GS Inima opera cerca de 50 projetos em 10 países, incluindo concessões de longo prazo na América Latina, Europa e Oriente Médio. Por que a conclusão depende de 2026 Como mostrado anteriormente, o acordo global está sujeito a: No Brasil, qualquer mudança de controle que afete a Saneouro — mesmo que indiretamente — depende de anuência prévia da Prefeitura de Ouro Preto, conforme previsto no contrato de concessão. A Prefeitura informou que ainda não recebeu comunicado sobre eventual pedido de anuência. Situação atual