Ouro Preto, sexta-feira, junho 12, 2026 06:46

Vozes da Amazônia: projeto paraense une conhecimentos indígenas e da academia para enfrentar a crise climática

Helena Pinto Lima, Museu Paraense Emílio Goeldi Já é de conhecimento de todos que a COP 30 em Belém tem como temas fundamentais os desafios da crise climática que incide sobre o planeta e também as estratégias para o seu enfrentamento. Neste contexto, a conservação do bioma amazônico se destaca como estratégica para a regulação do clima global. Mas nós, cientistas e pesquisadores amazônidas, entendemos a importância desse bioma não somente por suas florestas, mas principalmente pelas múltiplas vozes que este território abriga. São vozes de alerta que povos amazônicos e cientistas da região vêm ressoando há tempos. Agora, elas se tornam urgentes de serem ouvidas e levadas à sério. N. da R.: Não foi por acaso que, na noite de terça-feira, dia 11 de novembro, um grupo de indígenas que fazia uma manifestação tentou forçar a entrada num dos pavilhões da COP, gerando confusão e atrito com a polícia. O que eles queriam? Ter as suas vozes ouvidas. À luz desses acontecimentos que são apenas o reflexo de um desequilíbrio de representatividade social da Amazônia que a COP 30 torna mais evidente, este texto tem o propósito de apresentar uma pesquisa que busca unir conhecimentos indígenas e acadêmicos para investigar as origens da diversidade biocultural da Amazônia. A hipótese é que Terras Indígenas com histórias humanas profundas e pouco impactadas pelos padrões capitalistas de uso da terra são refúgios globalmente críticos para uma enorme biodiversidade ainda pouco conhecida pela ciência ocidental. Os conhecimentos indígenas estão profundamente conectados com essa biodiversidade, e são legados milenares de manejo e domesticação de paisagem que respondem às necessidades humanas sem interromper os processos ecológicos essenciais. Portanto, a colaboração simétrica com os povos indígenas é crítica para estratégias de manejo e conservação da biodiversidade e devem ser salvaguardados, divulgados e compartilhados para promover a continuidade de práticas sustentáveis. Vozes da Amazônia Indígena é uma pesquisa que aborda essa biodiversidade amazônica a partir das múltiplas interações entre seres (humanos e não humanos) ao longo do tempo. A pesquisa atua em colaboração com povos indígenas em três territórios ecologicamente distintos: O Alto Rio Negro no Noroeste Amazônico (Amazonas) O Alto Xingu, na Amazônia Meridional (Mato Grosso) O corredor ecológico do Xingu, na Terra Indígena Kayapó (Pará) Estas regiões em estudo compartilham elevadíssima biodiversidade e histórias complexas de ocupação indígena, desde tempos pré- coloniais até o presente. Tribo do povo Kuikuro, no Alto Xingu, uma das nações que fazem parte da pesquisas Vozes da Amazônia. Elas vêm sendo abordadas a partir de metodologias unificadas e multidisciplinares, permitindo conhecer a fauna e flora e entender como diferentes populações originárias utilizaram e transformaram as paisagens ao longo dos séculos. Os eixos específicos de pesquisa em cada uma dessas terras indígenas são co-construídos em conjuntoentre cientistas e comunidades, já que cada um delas possui configurações étnicas, históricas e socioambientais complexas. Assim como desafios e demandas variados. Colaboração e tecnologia Para realizar esta pesquisa, o projeto conta com um equipe interdisciplinar e intercultural, com arqueólogos, antropólogos, biólogos e linguistas, bem como uma estrutura de pesquisa colaborativa, com pesquisadores acadêmicos e pesquisadores indígenas formados para desempenharem tarefas de pesquisa de campo nos territórios. Além do intercâmbio entre pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento e de ações formativas de pesquisadores indígenas num contexto interdisciplinar, o projeto se estrutura a partir de um conjunto de temas transversais que possibilitam de fato a articulação e valorização de diferentes saberes. Na Terra Indígena Alto Xingu, essa é uma continuação das pesquisas arqueológicas realizadas por Michael Heckenberger e os Kuikuro desde os anos 1990, que geraram uma imensa base de dados sobre a ocupação da área que mostraram a longevidade das ocupações e a persistência das práticas culturais ao longo do tempo. As pesquisas evidenciaram um verdadeiro sistema de assentamentos, com aldeias circulares monumentais e evidências de alterações massivas na paisagem. Cientistas do Museu Goeldi trabalhando em conjunto com povos Baniwa e Koripako, no Alto Rio Negro. Pioneiro em mapeamento colaborativo, o projeto vem aplicando tecnologias avançadas, incluindo o uso da tecnologia LiDAR – um sistema óptico de detecção remota que mede propriedades da luz refletida para calcular distâncias – instalada em drones. Essas ferramentas geoespaciais oferecem respostas locais e contextualizadas a desafios ecológicos, climáticos e políticos urgentes, além de promover a ciência colaborativa orientada a problemas, desde o início. Os desafios do Alto Xingu O Alto Xingu guarda a última ilha de floresta no arco do desmatamento do sul da Amazônia e enfrenta desafios urgentes como a perda de florestas relacionadas ao clima e o rápido desmatamento. O mapeamento arqueológico dentro e no entorno do território é ferramenta fundamental para o gerenciamento territorial e oferece uma forma de resistência frente às ameaças e são também um contraponto às abordagens colonialistas e tutelares comumente aplicadas a povos indígenas no Brasil. Já a temática transversal “Káali e a Biodiversidade” foi escolhida como prioritária para a pesquisa o alto rio Negro. Ela toma como ponto de partida a história de tradição oral dos povos Baniwa e Koripako sobre Káali, o “demiurgo” (ou “semideus”) da agricultura. Seu mito orienta pesquisadores indígenas na documentação de diferentes versões dessa narrativa, sistematizando o conhecimento etnobotânico sobre as plantas cultivadas.E como esse conhecimento poderá ser trabalhado pela arqueologia, pela etnologia e pela linguística histórica como forma de compreender as relações dos povos Baniwa e Koripako com as plantas na longa duração. O valor histórico da agricultura no Rio Negro Essa demanda se relaciona ao reconhecimento do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro como patrimônio cultural do Brasil pelo instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ocorrido em 2018. Uma consequência direta do registro é a criação de políticas públicas através de planos de salvaguarda desses patrimônios nacionais, e também o incremento das discussões patrimoniais junto às comunidades locais. O projeto tem a duração de três anos (2025-2028) e é liderado pelo Museu Goeldi, agregando mais de oitenta pesquisadores, estudantes e bolsistas indígenas e não indígenas de diversas instituições amazônicas. O financiamento é da Iniciativa Amazônia+10, que une agências públicas de fomento à pesquisa,

Você é pessoa autista? Conheça seus direitos no comércio

A situação pode acontecer em qualquer lugar: uma pessoa autista entra em pânico na fila do supermercado. Luzes fortes, barulho, pessoas tocando. Precisa sair correndo, envergonhada. Semanas depois, compra tudo pela internet ou viaja para Belo Horizonte. Mas aqui está a notícia que você não conhecia: você, como pessoa autista, tem direito legal de ser atendido de forma inclusiva em qualquer estabelecimento comercial da região. Restaurante, loja, farmácia, salão de beleza. Não é favor. É lei. E se não forem, quem viola esse direito pode ser multado pelo Ministério Público. O que é esse direito, afinal? Pessoas autistas têm o que chamamos de “dupla vulnerabilidade”. Primeiro, porque são consumidoras (e a lei protege todo consumidor). Segundo, porque têm deficiência (e a lei protege quem tem deficiência). Isso significa proteção em dobro. Pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e pelo Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990), todo estabelecimento público ou privado — padaria, barbearia, consultório, hotel — precisa: Atender com humanidade e acolhimento. Sem pressa, sem tom condescendente. Oferecer ambiente sensorial adequado. Isso significa: menos barulho, iluminação controlada, espaço para você se acalmar. Respeitar o atendimento prioritário. Quem é pessoa autista (ou está acompanhado) não fica esperando. Fornecer estacionamento acessível para quem precisa. Treinar a equipe para reconhecer e acolher pessoas autistas. Se tudo isso faltar, não é “falta de educação”. É violação de direito. E tem consequência. Como saber se você está sendo prejudicado Você foi: Se a resposta for sim, houve violação de direito. O que fazer agora Passo 1: Documente tudo Anote a data, hora, nome do estabelecimento, nome de quem atendeu, o que aconteceu. Se puder, tire foto ou vídeo. Passo 2: Tente resolver na hora (se seguro) Converse com o gerente. Muitas vezes é falta de conhecimento, não má vontade. Diga: “Tenho direito de ser atendido com humanidade. Isso está previsto em lei.” Passo 3: Se não resolver, procure o Ministério Público Em Ouro Preto, Mariana e Itabirito, o Ministério Público tem Promotores de Justiça especializados em defesa de pessoas autistas e direitos do consumidor. Eles investigam denúncias e podem: Passo 4: Registre boletim de ocorrência (em casos graves) Se houve discriminação clara, registre na polícia também. Passo 5: Denuncie ao Procon O Procon-MG (órgão de defesa do consumidor) também recebe denúncias de violações de direitos. Funciona por telefone, e-mail e presencialmente. Dica de ouro O Ministério Público de Minas Gerais já criou um protocolo específico chamado “Aprender, Entender para Acolher” que ensina comerciantes como atender pessoas autistas. Existe até um manual pronto. Se um estabelecimento se recusa a melhorar, você pode pedir que o Ministério Público ofereça essa capacitação forçadamente. Além disso: 86% dos consumidores brasileiros preferem marcas que investem em inclusão. Para os comerciantes, incluir pessoas autistas é bom negócio. Eles apenas não sabem disso ainda.