A história dos Reis Magos e da Estrela de Belém na visão de um astrônomo

Ilustração dos Três Reis Magos seguindo a Estrela de Belém: história bíblica tem muito pouca informação sobre o tema. Dimol/Unlimphotos Alexandre Cherman, Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro O Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro, é dia de desmontar o presépio, guardar a árvore de Natal e, enfim, dar por encerradas as comemorações do nascimento de Jesus. Para quem não é muito íntimo das tradições católicas, vale perguntar: por que 6 de janeiro? E, também, quem são esses reis? A resposta da segunda pergunta costuma estar na ponta da língua de muita gente: “são os Reis Magos!”. Mas, convenhamos, isso é só um nome; não explica muita coisa. Voltaremos a ela em instantes. Antes, porém, falemos do 6 de janeiro. Por que essa data foi consagrada como o Dia de Reis? Embora ninguém saiba com exatidão histórica a data do nascimento de Jesus Cristo (nem o dia, nem o mês e, incrivelmente, nem o ano!), a tradição cristã fixou essa efeméride em 25 de dezembro. É o Natal. Essa data, o 25 de dezembro, veio emprestada de tradições mais antigas, que celebravam o solstício de inverno do Hemisfério Norte, a noite mais longa do ano. Era o “Dia do Sol Invencível”. As noites iam ficando cada vez mais longas com a chegada do inverno. E no dia do solstício ocorria a mais longa de todas as noites. Ou seja, no dia seguinte o Sol começava a “se recuperar” em sua luta contra a escuridão. Daí o termo “sol invencível”. Uma vez que a Igreja se apropriou do dia para celebrar o nascimento do Salvador, outras datas começaram a ficar amarradas. O início do ano foi fixado em 1º de janeiro, no que chamamos “estilo da circuncisão”: Jesus, como todo menino judeu, foi circuncidado sete dias depois do seu nascimento. E, seguindo o texto canônico do Evangelho de Mateus, pouco depois disso o Filho de Deus foi visitado por três reis vindos de muito longe, para saudá-lo e lhe dar presentes. São os Reis Magos, que assim o teriam feito no dia 6 de janeiro do primeiro ano da Era Cristã. (Importante relembrar: nada sabemos sobre essas datas do ponto de vista histórico. Repito: ninguém sabe quando Jesus nasceu!) Pouca informação, muita invenção E assim como não sabemos a data correta, também não sabemos quem foram esses reis. A única passagem da Bíblia que os menciona, o Evangelho de Mateus, na verdade não nos diz nem quantos eram. A dedução de que eram três fica por conta da inferência criativa de Orígenes de Alexandria, teólogo do século III. Ele supôs que, por terem trazido três presentes (ouro, incenso e mirra), os magos citados por Mateus eram três. Mas em nenhum lugar da Bíblia é dito isso: “Depois de Jesus ter nascido em Belém da Judéia, no tempo do Rei Herodes, chegaram a Jerusalém magos do oriente que perguntaram: ‘Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo’” Mateus, 2: 1-2 Percebam que não há nenhuma alusão a quantos eram esses Reis Magos. Além disso, em nenhum lugar da Bíblia eles são chamados de “reis”. Essa denominação é bem posterior, do século VII provavelmente, por uma interpretação retroativa do Salmo 72: 10: “Os reis de Társis e as ilhas ofertaram presentes…”. Não eram três, não eram reis. E mesmo assim sabemos seus nomes: Baltazar, Gaspar e Melchior. Mas sabemos mesmo? O leitor atento já deve estar captando um padrão: não, não sabemos. No século VIII começaram a surgir pinturas retratando três ilustres, e ricos, visitantes nas cenas da Natividade. Foi-se consolidando a ideia de “três reis”. E reis não podiam ficar no anonimato! Começaram, então, a surgir os primeiros nomes, sem fonte certa: Bithisarea, Melchior e Gathaspa. Segundo o padre Miguel Fuentes, do Instituto do Verbo Encarnado, “os nomes atuais de Gaspar, Melchior e Baltazar, foi-lhes atribuído no século IX pelo historiador Agnello, em sua obra Pontificalis Ecclesiae Ravennatis”. E assim ficamos com os Três Reis Magos, Baltazar, Melchior e Gaspar. A Nebulosa do Caranguejo, um exemplo de remanescente de uma supernova, vista pelo Telescópio Espacial James Webb: até hoje não foi encontrada nenhum objeto como este que indique um explosão do tipo na época do nascimento de Jesus. NASA, ESA, CSA, STScI, Tea Temim (Princeton University) E a Estrela de Belém? Uma pergunta justa, que não foi feita na abertura deste artigo, mas nos parece óbvia agora, após a citação de Mateus é: que estrela foi essa que surgiu no oriente? É a Estrela de Belém, claro! Mas o que de fato teria sido esse astro? A Astronomia tenta responder isso há séculos, sem sucesso. Há basicamente três possibilidades de eventos astronômicos que poderiam ser percebidos como uma “anunciação”, um augúrio. A Estrela de Belém poderia ser uma supernova. A Estrela de Belém poderia ser um cometa. A Estrela de Belém poderia ser uma conjunção planetária. Uma supernova é um astro que surge no céu depois da explosão de uma estrela gigante. Tem esse nome porque geralmente esse astro aparece de repente, como uma “nova estrela” no céu. Nestes casos, a estrela original, que explodiu, apesar de grande, costuma estar tão distante que não era visível antes de explodir! Explosões desse tipo deixam restos, as nebulosas, e até hoje não foi encontrada nenhuma nebulosa remanescente de supernova que traga evidências de uma explosão desse tipo na época do nascimento de Jesus. Próxima hipótese, então… Cometas são objetos que vêm do Sistema Solar profundo, formados por gelo e poeira, que quando se aproximam do Sol (por aqui onde a Terra está) formam uma bela cauda que chama a atenção no céu. Cometas podem ser periódicos ou não. Se a Estrela de Belém tivesse sido um cometa periódico, provavelmente este cometa já teria voltado à nossa região e teríamos calculado a sua órbita. Não há cometa periódico que se encaixe nessa narrativa. Se fosse um cometa aperiódico, que passa apenas uma vez e nunca mais, deveríamos ao menos encontrar relatos em

Folia de Reis em Ouro Preto: tradição segue viva nos distritos e tem encontros confirmados nesta segunda (6)

Fotos: Ane Souz Entre o Natal e o Dia de Reis, Ouro Preto volta a ouvir um som antigo e sempre atual: o das folias que percorrem comunidades, renovam promessas e mantêm viva uma das manifestações mais fortes do ciclo natalino. Ligada à celebração dos Três Reis Magos, a Folia de Reis é também encontro, memória e pertencimento — um ritual comunitário que atravessa gerações e continua pulsando em bairros e distritos do município. Um dos símbolos dessa continuidade está no Padre Faria. Jésus Eduardo Floretino, o Jésus Boi, conta que faz parte da Folia de Santos Reis do Padre Faria desde o começo. “A primeira saída dela foi dia 25 de dezembro de 1974”, lembra. Ele explica que, no início, o grupo tocava até repertório sertanejo: “Começamos tocando música sertaneja”. À época, Jésus já era do Congado de Saramenha, mas precisou se afastar por um problema de saúde. “Dei problema de saúde, na coluna. Aí formei a folia com uma turminha, com apoio do Dom Barroso, que deu alguns instrumentos, e assim começamos. Eu não deixei ela acabar”, afirma. Em Amarantina, a tradição também se reforça com novas etapas de organização e permanência. Leandro da Costa Filho, da Folia de São Gonçalo de Amarantina, diz que o grupo atua há anos como parte ativa da cultura do distrito. “Já há alguns bons anos estamos fazendo parte desse movimento cultural do nosso distrito”, diz. Para ele, a folia é também um gesto de continuidade: “Estamos resgatando alguns valores e estamos firmes, sempre, sempre com a música”. Além de preservar cantos, instrumentos e a simbologia das bandeiras, as folias mantêm um tipo de cultura que não depende de palco: ela acontece no corpo a corpo, na visita, na roda, na rua — e por isso segue sendo um patrimônio vivo. Folias e grupos tradicionais em Ouro Preto O município reúne diferentes expressões do ciclo de Reis, com grupos reconhecidos nas comunidades: Agenda confirmada nesta segunda (6) Por que isso importa culturalmente Mais do que uma tradição religiosa, a Folia de Reis é um patrimônio vivo: ela preserva músicas, versos, modos de tocar e de cantar, além de costumes de visitação e acolhida que ajudam a formar a memória das comunidades. Em cidades históricas como Ouro Preto — onde o patrimônio material é muito visível — a folia lembra que o patrimônio também existe no que é cantado, celebrado e transmitido de pessoa para pessoa. As pastorinhas, por sua vez, integram esse mesmo universo do ciclo natalino com apresentações que combinam canto, encenação e devoção, reforçando a participação de diferentes gerações e mantendo uma linguagem popular que atravessa o tempo.

Devo, não nego, pago com o meu escravo – Como pessoas escravizadas viravam garantia de crédito

Fragmento de lista de proprietários de escravos da fregesia de Itapecerica, em 1850. Autor desconhecido. Igor Martins, Lund University Uma questão antiga permanece relevante: por que a escravidão se expandiu e persistiu em sociedades coloniais do Atlântico? Por que durou décadas, mesmo diante de alternativas e transformações econômicas? A resposta comum é simples: a escravidão persistiu porque era lucrativa. Mas aqui está a pergunta mais importante: lucrativa para quem e por quais mecanismos? Parte da resposta vai além do trabalho forçado. A escravidão foi um sistema de produção e coerção, mas também operou como infraestrutura financeira. Garantia ampliou o crédito e sustentou investimentos Em economias escravistas a possibilidade de transformar pessoas em propriedade juridicamente reconhecida gerou um tipo específico de garantia. Essa garantia ampliou o crédito e sustentou investimentos. Em pesquisa recente, eu e meu colega Erik Green comparamos o Brasil, Estados Unidos e a Colônia do Cabo, atual África do Sul. A comparação aponta uma regularidade: em diferentes economias coloniais, pessoas escravizadas foram usadas como garantia em operações de crédito. Nos Estados Unidos, fazendeiros hipotecavam pessoas escravizadas para financiar expansão territorial e compra de equipamentos. Na Louisiana e Virgínia, mais de 40% das hipotecas após a independência envolviam garantia humana. Na Colônia do Cabo, o primeiro registro é de 1731: um fazendeiro hipotecou pessoas escravizadas junto à Igreja Reformada Holandesa. A prática se generalizou: no século XIX, pessoas escravizadas eram o principal ativo hipotecável da colônia. Pessoas concentravam mais valor que qualquer outro ativo No Brasil, o mecanismo aparece com nitidez pela escassez de liquidez. No Nordeste, a terra agrícola valia cerca de um décimo do preço de uma pessoa escravizada. Pessoas concentravam mais valor que qualquer outro ativo e, por isso, viraram a base para garantias. Mas valor não basta. Para o credor, o essencial é poder tomar e vender a garantia. Regras anteriores dificultavam separar pessoas escravizadas das fazendas onde permaneciam. Isso enfraquecia a garantia e restringia o crédito. O ponto de inflexão está numa mudança legal. Em 1864, reformas na legislação hipotecária mudaram esse cenário. As novas leis facilitaram liquidações envolvendo pessoas escravizadas como garantia. Em termos práticos, a lei tornou mais fácil transformar garantia em venda. Em termos substantivos, fortaleceu a capacidade legal de deslocar e vender seres humanos para satisfazer obrigações financeiras. Banco do Brasil aceitava escravizados como parte da garantia Quando a execução fica mais simples, o mecanismo se formaliza. Em 1866, no acordo com o governo, o Banco do Brasil criou a primeira estrutura formal do país para empréstimos com garantia. O banco aceitou pessoas escravizadas como parte dessa garantia, convertendo 25 mil contos (25 bilhões de réis), de dívidas existentes em empréstimos lastreado por escravizados. A partir daí, esse uso de pessoas como garantia deixa de ser apenas uma prática dispersa e passa a integrar operações financeiras de grande escala. Registros regionais reforçam essa centralidade. Em Campinas, os valores hipotecados de 1865 a 1869 ultrapassaram 2,2 bilhões de réis e, dentro das hipotecas rurais, pessoas escravizadas eram a garantia central. Essa lógica também aparece nos contratos. Em 1866, Francisco Vilela tomou meio bilhão de réis emprestados com uma casa comissária. Como garantia, ofereceu sua fazenda, seu cafezal e 250 pessoas escravizadas. Na prática, isso significava listar, avaliar e vincular pessoas a dívidas. A comparação atlântica é decisiva para o alcance teórico porque reposiciona a própria pergunta sobre a persistência do regime escravista. Se a escravidão durou tanto porque era rentável, tanto a exploração laboral quanto a financeira contribuíram para tal. O ponto comum não é a violência em si, mas transformar pessoas em garantia vendável. Outros sistemas coercitivos eram violentos, mas não convertiam pessoas em ativos financeiros mobilizáveis. Essa diferença sustenta a proposta de reconceituar a escravidão também como sistema de direitos de propriedade, e não apenas como arranjo de trabalho. A relevância contemporânea está em reconhecer que uma parte da arquitetura do crédito no Brasil se consolidou quando o Banco do Brasil aceitou pessoas escravizadas como garantia e quando o Estado ajudou a tornar essa garantia mais fácil de liquidar. Isso não foi um detalhe periférico. Foi um modo de definir o que podia ser transformado em riqueza líquida, quem podia acessar crédito em grande escala e quais tipos de propriedade eram consideradas seguras. Arranjo permitia que dívidas podiam ser pagas com o corpo de outras pessoas Enxergar a escravidão como garantia em operações de crédito muda a leitura da própria violência do sistema. Não era apenas trabalho extraído no cotidiano. Era também um arranjo em que dívidas de uma pessoa podiam ser pagas com o corpo de outra. A consequência é direta: o crédito não era apenas financiado pela escravidão. Ele era garantido pela possibilidade legal de separar pessoas de suas fazendas, deslocá-las e vendê-las para liquidar obrigações assumidas por terceiros. Essa dimensão financeira explica a persistência do sistema. A escravidão não era apenas trabalho forçado. Era também a base dos sistemas de crédito no Atlântico. Igor Martins, Senior lecturer, Lund University This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Luzes, cores, microplásticos e metais poluentes: conheça o lado nem tão cintilante da purpurina

Tatiana Dillenburg Saint’Pierre, PUC-Rio Demorou mas chegou. A festa mais esperada do ano no Brasil começou oficialmente nesta sexta-feira, último dia de fevereiro, enchendo as ruas do país de música, brilho e alegria. E do bloco de rua à escola de samba, um dos itens mais usados para dar um toque especial a qualquer fantasia de carnaval é a purpurina. Também conhecida como glitter, a purpurina é um conjunto de partículas minúsculas que refletem a luz e se prendem a praticamente qualquer superfície. Mas, além da dificuldade em se livrar dela depois da folia, esse pozinho cintilante esconde um lado obscuro: é nocivo ao meio ambiente e levanta preocupações sobre impactos à saúde humana. Nossa equipe de pesquisadores, do Departamento de Química da PUC-Rio, conduziu um estudo detalhado sobre o glitter, publicado no Journal of Trace Elements in Medicine and Biology. Investigamos as concentrações de metais e outros elementos químicos presentes nesse material, além de como acontece a sua absorção pelo corpo quando entra em contato com a pele, e qual seu comportamento em ambientes aquáticos. Afinal, o que é o glitter? A ideia para o estudo surgiu da preocupação com os microplásticos no ambiente, pois a maioria das purpurinas é composta, basicamente, por plásticos com dimensões menores que 5 milímetros. Ela é feita principalmente de polímeros como o polietileno (PE) e o cloreto de polivinila (PVC). Mas, como esse pó é tão colorido e cintilante, pensamos que também poderia conter corantes à base de metais, que refletem a luz e por isso costumam dar esse efeito vibrante. O problema desses pigmentos é que eles adicionam um risco extra de contaminação, tanto para o ecossistema quanto para a saúde humana, pelo contato com a pele. Embora os estudos sobre os impactos de microplásticos no ambiente ainda sejam relativamente novos, os efeitos nocivos de certos metais já são amplamente documentados. No entanto, a regulação desses compostos ainda é limitada para muitos produtos, e mesmo quando há legislação, a fiscalização pode não ser efetiva, considerando a grande quantidade de novos itens lançados no mercado a todo instante. Assim, para esse estudo, compramos amostras de glitter vermelho, azul e verde em lojas comerciais no Rio de Janeiro, que analisamos no laboratório. De acordo com nosso estudo, a composição química do glitter depende, principalmente, da cor. De fato, são usados metais e outros elementos químicos refletores. As amostras de cor verde tiveram maior concentração de bromo (123 mg/kg), enquanto as vermelhas continham mais titânio (116 mg/kg). Embora o metal titânio não seja responsável pela cor vermelha, ele tem um alto índice de refração, aumentando a intensidade e brilho. Além disso, o titânio, especialmente na forma de dióxido de titânio (TiO₂), é muito empregado como corante branco, bloqueador solar e aditivo de alimentos, mas seus efeitos tóxicos a humanos ainda são pouco conhecidos, sendo considerado atualmente como um poluente emergente, afetando principalmente ambientes marinhos. Apesar disso, os níveis de todos os metais encontrados nas amostras de glitter analisadas estavam dentro dos limites de segurança estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Porém, é importante ressaltar que, mesmo elementos considerados inofensivos ou de baixa toxicidade, ainda podem causar desequilíbrios em ecossistemas e organismos quando estão presentes em excesso, pois podem interagir com outros elementos, causando desequilíbrios químicos nos sistemas vivos. Também simulamos situações comuns de exposição, como o contato com a pele e com o suor humano. As concentrações de metais e metalóides liberadas pelo glitter nesse cenário não foram suficientes para apresentar um risco imediato à saúde, principalmente porque a quantidade usada por cada pessoa não costuma ser muito grande. Porém, não se pode garantir que não existam riscos de intoxicação caso alguém pinte uma grande área do corpo com glitter. Além disso, a possibilidade de outras vias de exposição, como a ingestão acidental ou a inalação de partículas, ainda precisam ser mais estudadas. O destino invisível do brilho Depois que o Carnaval acaba, o glitter também sai de cena. Mas para onde ele vai? Geralmente, ao lavar o rosto, o corpo ou as roupas, a purpurina é levada para o sistema de esgoto. Por serem partículas muito pequenas, elas passam despercebidas pelos sistemas de tratamento de água convencionais e são liberadas diretamente em rios, lagos e oceanos. Essas partículas podem persistir no ambiente por décadas, fragmentando-se em pedaços ainda menores, mas sem desaparecer completamente. No ambiente aquático, o glitter contribui para o sufocamento desse ecossistema e pode agir como uma esponja de poluentes. Ele pode adsorver substâncias químicas – tóxicas ou não –, como antibióticos, pesticidas, hidrocarbonetos e metais potencialmente tóxicos, transportando-as por longas distâncias. Quando ingeridas por organismos aquáticos, essas partículas podem causar o acúmulo dessas substâncias no organismo. Ao longo do tempo, esses contaminantes podem ser passados adiante na cadeia alimentar e chegar até os humanos, em frutos do mar ou peixes contaminados. Apesar de nosso estudo indicar que o glitter não representa um risco significativo à saúde humana por contato com a pele e que a quantidade usada individualmente seja considerada segura, o volume total descartado durante o Carnaval pode causar uma contaminação ambiental aguda significativa. Muito provavelmente, a purpurina desempenha um papel relevante na poluição plástica global, contribuindo para a acumulação de microplásticos em humanos. Portanto, é importante evitar seu uso e promover alternativas mais sustentáveis. O que fazer? Principais cuidados O ideal realmente é não usar. Mas, se alguma purpurina de origem desconhecida ficar grudada em você nesse Carnaval, não enxágue diretamente na pia ou no chuveiro. Tente removê-la ao máximo com lenços de papel ou algodão seco e os descarte no lixo. Embora isso não garanta que os resíduos não acabem em aterros e, eventualmente, no meio ambiente, ao menos evita a liberação direta pelo sistema de esgoto. Já existem opções no mercado que oferecem o mesmo brilho, mas com menor impacto ambiental. O glitter biodegradável, feito de celulose vegetal ou minerais naturais, é uma alternativa promissora. Ele se degrada rapidamente no ambiente, sem liberar poluentes tóxicos. Os efeitos ecológicos do glitter tradicional são preocupantes e

“Não tem vaga, só se conhecer alguém”: as dificuldades das refugiadas congolesas para acessar o SUS no Brasil Paula Colodetti, UERJ e Francisco Ortega, ICREA O The Conversation Brasil e a revista Cadernos de Saúde Pública/Reports in Public Health (CSP) fizeram uma parceria para trazer ao público artigos inéditos sobre estudos científicos, pesquisas originais e revisões críticas em diversas áreas da saúde coletiva. A revista CSP é publicada desde 1985 com suporte da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e reúne artigos científicos originais voltados à produção de conhecimento no campo da Saúde Coletiva e disciplinas afins. No artigo abaixo, os resultados do estudo que identificou as dificuldades que refugiados de países africanos residentes no Brasil – especialmente mulheres – experimentam ao tentar acessar os serviços do SUS. E entre estes problemas, estão o racismo, o machsimo e a xenofobia. O Sistema Único de Saúde (SUS) nasceu com a promessa de atender a todos de forma integral e gratuita. Na prática, porém, grupos vulneráveis seguem enfrentando barreiras para transformar esse direito em realidade. É o caso de mulheres congolesas refugiadas no Rio de Janeiro, que fazem parte da segunda maior comunidade de refugiados de guerra na cidade. Elas relataram, em estudo realizado pelo pesquisador Francisco Ortega e por mim, a percepção de que, sem conhecer alguém dentro da instituição de saúde, não se consegue marcar uma consulta ou um exame. A frase que dá título ao nosso estudo — “Não tem vaga, só se conhecer alguém” — foi dita por uma das interlocutoras que, mesmo com dificuldades de idioma, conseguiu captar rapidamente uma das principais barreiras de acesso: a falta de capital social. Em outras palavras, sem vínculos ou conhecidos dentro do sistema, essas mulheres sentem-se ainda mais distantes do cuidado. O trabalho sobre o tema foi publicado na revista científica Cadernos de Saúde Pública. Essas mulheres refugiadas chegam ao Brasil após deixarem seu país, na África Central, por causa de conflitos armados, violência política ou risco à vida. Aqui, enfrentam uma nova batalha: superar a desconfiança das instituições, lidar com o racismo, a barreira da língua e a falta de recursos financeiros. As entrevistas reunidas pela pesquisa revelam situações corriqueiras que, somadas, apresentam um retrato dessa exclusão. De novo, em situações de risco Uma das participantes contou que conseguiu marcar exames apenas porque uma senhora, com quem conversou e que estava na fila, conhecia alguém dentro da unidade. Outra relatou que levou a filha com problemas de pele à Clínica da Família, mas foi informada de que só teria atendimento com pediatra após seis meses de espera. Em muitos casos, as mulheres descreveram atendimentos rápidos, superficiais e sem explicação adequada dos procedimentos, o que reforça a sensação de descaso e desigualdade. Além disso, a falta de domínio do português intensifica o sentimento de impotência. Muitas relatam que são interrompidas ou simplesmente ignoradas pelos profissionais do SUS ao tentarem explicar sintomas. “Você aponta e eles dizem: tá, já sei onde está com dor, vou te dar o remédio. Nem fazem a receita direito”, disse uma das entrevistadas. Em outro caso, a própria funcionária da farmácia ajudou a interpretar a prescrição e indicar o antibiótico necessário. A pesquisa também destaca o papel do território. A maioria dessas mulheres vive em favelas ou áreas periféricas da cidade do Rio de Janeiro, onde a violência cotidiana se soma ao racismo estrutural e institucional. Elas compararam a violência urbana carioca à guerra que deixaram no Congo, relatando medo de circular à noite e se expor a novas situações de risco. Os relatos das mulheres congolesas foram ouvidos no cotidiano da Cáritas RJ, instituição de acolhimento a refugiados, por meio da observação das atividades, de conversas em grupo e entrevistas. A pesquisadora Paula Colodetti participou de aulas de ioga e de rodas de conversa com as mulheres refugiadas para conhecer suas experiências e discutir temas como o acesso à saúde. Foram feitas oito entrevistas em profundidade, com apoio de tradutoras. Os relatos coletados serviram de base para identificar padrões e percepções comuns nas vivências dessas mulheres. As narrativas foram analisadas com métodos qualitativos amplamente usados nas ciências sociais. Narrativas sobre solidão e solidariedade Outro ponto importante revelado por esse grupo de mulheres é a solidão. Muitas chegaram ao Brasil sem marido ou filhos, com famílias separadas no processo de refúgio. Essa ausência de rede de apoio local aumenta a vulnerabilidade, já que o capital social – a confiança e as conexões estabelecidas com pares, vizinhos e instituições – é fundamental para acessar serviços de saúde. Sem essas ligações, as chances de conseguir atendimento se reduzem. Apesar das dificuldades, também há experiências positivas. Algumas mulheres contaram ter recebido ajuda inesperada de vizinhos ou desconhecidos, seja oferecendo carona até uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), doando roupas ou ajudando a lidar com a burocracia. Esses relatos mostram que solidariedade e acolhimento existem, mas aparecem de forma pontual, dependendo da boa vontade individual, e não como resultado de políticas institucionais consistentes. O estudo chama atenção ainda para um choque cultural: no Congo, o sistema de saúde funciona mediante pagamento após a consulta, e casos graves são absorvidos pelo Estado. Já no Brasil, apesar de gratuito, o SUS tem uma lógica burocrática que sobrecarrega as unidades de Saúde e confunde essas mulheres estrangeiras que não falam português. Muitas não entendem por que precisam esperar tanto tempo por uma consulta, ou por que não são atendidas rapidamente em casos aparentemente urgentes. O que aparece em comum nos depoimentos é a sensação de desconfiança e descrédito em relação ao SUS. As longas filas, a demora para conseguir especialistas, as negativas por suposta falta de documentos, além da percepção de racismo nos atendimentos, constroem uma barreira simbólica e concreta. Para muitas, a solução tem sido recorrer a redes intracomunitárias, como igrejas e grupos de conterrâneos, que oferecem apoio emocional e prático – mas que, ao mesmo tempo, reforçam o isolamento em relação à sociedade brasileira. A pesquisa conclui que, se o capital social é essencial para acessar serviços de saúde,

Após pacote de 2025, sindicato prevê negociações mais duras em Ouro Preto

Sindisfop chama acordo coletivo deste ano de “histórico”, mas aponta queda de arrecadação e ciclo político como fatores que podem limitar reajustes em 2026 e 2027 O acordo coletivo dos servidores municipais de Ouro Preto firmado em 2025 foi considerado “histórico” pelo Sindicato dos Servidores e Funcionários Públicos Municipais de Ouro Preto (Sindsfop). Em entrevista, o presidente da entidade, Leandro Andrade, afirma que o resultado deste ano reuniu reajuste salarial, ampliação de benefícios e mudanças em regras de férias-prêmio que, segundo ele, ampliam a margem de planejamento financeiro para quem está na ativa. Ao mesmo tempo, o sindicato já projeta um cenário menos favorável para os próximos dois anos. A avaliação de Leandro é que 2026 e 2027 tendem a trazer negociações “mais duras”, diante de um contexto de retração de receitas e de mudanças nacionais ligadas à mineração. “A gente tem que ter o pé no chão. Saber que em 2026 e 2027 o nosso acordo coletivo vai ser um pouco inferior ao que foi o de 2025”, disse. Reajuste, vale e bônus natalino Entre os pontos destacados pelo sindicato, está o reajuste de 10% no vencimento em 2025. Leandro classifica o percentual como um dos maiores em comparação regional, mas a afirmação é apresentada como avaliação do próprio sindicato. “Conseguimos um reajuste de 10%, que foi o maior da região”, declarou. Outro item citado é a elevação do vale-alimentação de R$ 900 para R$ 1.200. O presidente do Sindsfop também aponta mudança na gratificação natalina, que passou a acompanhar o valor do benefício. “A gratificação natalina passa a ser o valor do vale-alimentação… mais 1.200 para o servidor poder fazer sua ceia”, afirmou. Férias-prêmio: regra mudou em 2024 e foi ampliada em 2025 A entrevista também recupera alterações negociadas no acordo coletivo do ano anterior. Segundo Leandro, em 2024 o período aquisitivo para férias-prêmio foi reduzido: antes, seriam necessários 10 anos ininterruptos para ter direito a cinco meses; depois da mudança, o servidor passaria a ter direito a três meses ao completar cinco anos sem interrupção. “A cada 10 anos ele vai ter o direito a seis meses”, explicou, ao comparar a regra nova com a anterior. Já em 2025, o sindicato diz ter avançado na possibilidade de conversão da licença em dinheiro. O presidente relata que, até então, a venda era limitada a um mês por ano, no mês de aniversário do servidor. Com o acordo deste ano, ele afirma que passou a ser possível vender até três meses, entre fevereiro e novembro, “um mês por mês”. “Isso ajuda… a evitar que ele pegue empréstimo para quitar algum débito”, argumentou. Concurso público e “efeito atração” de novos servidores Leandro também relaciona as conquistas trabalhistas ao interesse de candidatos de outras cidades e estados em concursos da Prefeitura. Ele afirma que, nos acordos coletivos de 2021 e 2022, o sindicato inseriu cláusulas que reforçavam o compromisso do Município com a realização do concurso, executado em 2023, e que em 2025 houve previsão de prorrogação por mais dois anos. “Um número significativo de servidores novos… vem de outros estados, outras cidades”, disse, atribuindo esse movimento à busca por melhores condições de trabalho e remuneração. Por que o sindicato prevê acordos “inferiores” em 2026 e 2027 Ao projetar os próximos anos, o presidente do Sindsfop aponta queda de arrecadação e incertezas ligadas à mineração como fatores que podem reduzir a margem de negociação. Entre os motivos citados por ele estão impactos de paralisações/fechamentos em operações e a expectativa de mudanças na forma de distribuição de receitas relacionadas ao setor mineral, em discussão nacional. “A Prefeitura passa por uma queda na sua arrecadação… e isso tem impacto direto na capacidade de negociar”, afirmou, ao explicar por que não espera repetição do patamar de 2025. Além do cenário econômico, Leandro também menciona a dinâmica política dos ciclos eleitorais. Na leitura dele, é comum que gestões tenham mais disposição para conceder reajustes maiores em anos próximos ao fim do mandato. “A lógica da política… prevalece. O prefeito deixa para dar um aumento maior no último ano de governo”, disse, acrescentando que vê possibilidade de acordos mais robustos em um horizonte posterior, “dependendo do contexto”. O que fica e o que depende de nova negociação O sindicato reforça que o acordo coletivo é o instrumento anual em que são negociados reajustes e benefícios, além de cláusulas que podem alterar regras internas — como as que envolvem férias-prêmio. Para 2026 e 2027, porém, a entidade diz que a prioridade será preservar conquistas recentes e buscar avanços “possíveis” diante do orçamento. A reportagem procurou a Prefeitura de Ouro Preto para comentar as projeções apresentadas pelo sindicato e informar se há estimativa oficial de impacto orçamentário para os próximos acordos coletivos. (Inserir aqui a resposta do Executivo, quando houver.)

Transforme sua rotina e torne a vida mais interessante – três estratégias para ajudá-lo a alcançar uma vida plena

Abordar seu dia normal com uma nova mentalidade pode levá-lo a uma direção interessante. d3sign/Moment via Getty Images Lorraine Besser, Middlebury College Imagine que é segunda-feira de manhã, muito frio e muito escuro, mas assim que o despertador toca, você sabe que precisa se mobilizar. As crianças precisam ir para a escola. Você tem que ir para o trabalho. E, é claro, sua lista de tarefas cada vez maior paira sobre sua cabeça como uma nuvem escura, de alguma forma ameaçadora demais para ser ignorada e ameaçadora demais para iniciar suas tarefas. Em dias assim, você pode se sentir grato simplesmente por ter conseguido sobreviver. Mas aí começa tudo de novo. Embora não seja possível escapar da rotina, você pode transformá-la. As mais recentes pesquisas psicológicas sobre uma boa vida aponta o caminho: Ao mudar sua mentalidade, você pode tornar seu dia a dia mais interessante e criar riqueza psicológica em sua vida. A riqueza psicológica descreve uma forma robusta de engajamento cognitivo. Ela é diferente de felicidade e sentido, mas igualmente importante para uma vida plena. Em colaboração com Shigehiro Oishi e seu laboratório de pesquisa, investiguei se o campo da psicologia positiva tem negligenciado amplamente uma dimensão importante para uma vida boa. Como filósofa de nossa equipe, eu tinha duas diretrizes. Primeiro, ajudei a definir o conceito de riqueza psicológica e a entender o que o distingue da felicidade e do sentido de viver. Em segundo lugar, comecei a explorar por que a riqueza psicológica é valiosa. Nossos estudos iniciais descobriram que as pessoas valorizam experiências que estimulam suas mentes, desafiam-nas e geram uma série de emoções. Muitos escolheriam uma vida repleta dessas experiências, que descrevemos como psicologicamente ricas, em vez de uma vida feliz ou uma vida significativa. Essa percepção aponta para o importante papel que a riqueza psicológica pode desempenhar numa vida boa, mas não chega a explicar por que ela é boa e por que as pessoas devem abrir espaço para a riqueza psicológica em suas vidas. Essas são perguntas carregadas de valores que não podem ser respondidas por meio de pesquisas empíricas. Em vez disso, suas respostas são encontradas por meio da análise filosófica. Minha análise filosófica sugere que a riqueza psicológica é boa para você porque é interessante. Meu livro, “The Art of the Interesting: What We Miss in Our Pursuit of the Good Life and How to Cultivate It”, mostra como acrescentar riqueza psicológica à sua vida, tornando-a mais interessante. Uma das maneiras mais fáceis de fazer isso é adotar uma mentalidade caracterizada pela curiosidade, criatividade e o que eu chamo de “mindfulness 2.0” (ou atenção plena 2.0). Quando você traz essas três perspectivas para o seu dia a dia, transforma a rotina em oportunidades infinitas de vivenciar o mundo como algo interessante. Você desenvolve a capacidade de melhorar sua própria vida. Mindfulness 2.0: Observar sem julgar O que chamo de “mindfulness 2.0” significa trazer a consciência não avaliativa para o mundo ao seu redor – prestar atenção sem julgar. Conhecida das práticas de mindfulness, é uma forma de percepção que traz à tona detalhes que você normalmente ignora: a textura das folhas de uma planta de casa, os rostos dos estranhos que passam na calçada, as diferentes alturas das latas na prateleira de uma loja. Ao trazer esses detalhes à sua atenção, você estimula sua mente, permitindo que você se envolva mentalmente com o ambiente ao seu redor de maneira ativa. Perceber as coisas por meio da atenção plena 2.0 é o primeiro passo para ter uma experiência interessante. Um bom lugar para praticar a atenção plena 2.0 é durante seu trajeto matinal. Por ser uma rotina, você provavelmente não sentirá a necessidade de se envolver muito com os detalhes do que está fazendo. Em vez disso, você encontrará outras maneiras de passar o tempo, como ouvir as notícias ou seu podcast favorito. Essas atividades o distraem do trajeto que, de outra forma, seria entediante, pois o desvinculam dele. Notar um padrão intrigante quando os pássaros se reúnem no alto pode envolver sua mente enquanto você se desloca pelo mundo. Menahem Kahana/AFP via Getty Images Mas você também pode se envolver com o trajeto de modo a torná-lo menos entediante. É aqui que entra em ação o poder da atenção plena 2.0. Ao observar ativamente as coisas ao seu redor – sejam as pessoas aglomeradas no ponto de ônibus, os padrões de tráfego criados por um semáforo ou um bando de pássaros voando sobre sua cabeça – você envolve sua mente e se prepara para vivenciar o interessante. Curiosidade: Explorar por meio de perguntas A curiosidade não é apenas para crianças. Não importa o quanto você saiba, sempre há algo para se ter curiosidade, especialmente se você aprendeu a perceber os detalhes por meio da atenção plena 2.0. Digamos que você tenha notado, durante seu trajeto, o grupo de pessoas reunidas no ponto de ônibus. Agora, deixe sua curiosidade decolar: Esse ponto de ônibus sempre esteve lá? Há quanto tempo aquele anúncio imobiliário excepcionalmente estranho está preso no encosto do banco? Tantas pessoas fizeram fila nessa manhã fria. Você pode se perguntar se não se sentiria um pouco mais conectado se estivesse com elas. Mas então você percebe que ninguém está falando. Será que elas pegam o mesmo ônibus juntas, todos os dias, sem se reconhecerem? Ao fazer perguntas, você pede à sua mente que considere algo que ela não considerou antes. Você cria novos pensamentos e, se deixar a mente seguir em frente, terá uma experiência interessante, enquanto faz o mesmo trajeto. Melhor ainda, você terá criado essa experiência interessante por conta própria. Você aproveitou uma capacidade de melhorar sua vida, uma capacidade que está totalmente sob seu controle. Criatividade: Experimentar algo novo Embora as pessoas geralmente pensem na criatividade como um talento, nativo apenas de artistas ou inventores, todos têm a capacidade de ser criativos. A criatividade é uma habilidade que envolve formar novas conexões com sua mente. Você é criativo sempre que faz algo novo ou diferente.

O que fazer quando a meta de ano novo não dá certo

Autora: Janina SteinmetzProfessora de Marketing, Bayes Business School, City St George’s, University of London Todos os anos, muitos de nós anunciamos com coragem nossas resoluções de Ano-Novo. Uma taça de champanhe na virada pode aumentar nossa confiança de que seremos capazes de fazer melhor no ano que começa — economizar mais, gastar menos, comer melhor, malhar mais ou maratonar menos séries. Mas a maioria das resoluções fracassa. Mesmo nas primeiras semanas após o Réveillon, grande parte das pessoas já desistiu delas. Ainda assim, nem toda história de fracasso é igual, porque a forma como você fala sobre o fracasso importa — para a sua própria motivação e para a confiança das outras pessoas na sua capacidade de tentar de novo. Então, o que podemos fazer depois de desistir da resolução? Nós anunciamos boas intenções para amigos e familiares e agora precisamos admitir o fracasso. Pesquisas mostram que o jeito como você formula uma resolução que não deu certo pode influenciar como as pessoas a enxergam. E compreender por que a maioria das resoluções não se concretiza pode ajudar a levá-las adiante no futuro. De fato, dá para falar sobre suas resoluções de um modo que torne seu fracasso mais compreensível e mantenha sua motivação para seguir em frente. Uma forma construtiva de discutir uma resolução que falhou é focar no quanto esse fracasso era controlável. Pesquisas indicam que a maioria das resoluções exige algum investimento de tempo e de dinheiro. Por exemplo, entrar em forma leva tempo para se exercitar e, normalmente, também requer dinheiro para uma academia ou para equipamentos de treino. Como esses dois recursos são essenciais para perseguirmos nossos objetivos, muitas resoluções fracassam por falta de tempo ou de dinheiro — ou dos dois. Ao falar de uma resolução que falhou no passado, minhas próprias pesquisas mostram que é melhor destacar como a falta de dinheiro contribuiu para esse fracasso, em vez da falta de tempo. Em um estudo meu de 2024, as pessoas leram sobre participantes de painéis — fictícios e reais — que falharam por falta de dinheiro ou por falta de tempo. A maioria considerou que a pessoa cujo fracasso foi causado por falta de dinheiro teria mais autocontrole dali em diante e seria mais confiável na busca pelos próprios objetivos. Esse efeito ocorreu porque a falta de dinheiro é vista como algo que não pode ser controlado com tanta facilidade; então, se foi isso que causou o fracasso, não havia muito o que a pessoa poderia ter feito. Nessa pesquisa, a maior parte das resoluções que não deram certo estava relacionada a perda de peso, alimentação mais saudável ou treino na academia. Os participantes avaliaram da mesma forma quando a pessoa que falhou era homem ou mulher — provavelmente porque é plausível que todo mundo precise de algum tempo e de algum dinheiro para perseguir objetivos diversos, independentemente do gênero ou do tipo de resolução. O papel da “controlabilidade” aparece de um jeito diferente quando pensamos em como fazer melhor na próxima vez. O papel do tempo As pesquisas também mostram que a maneira como enxergamos o tempo importa quando se trata de fracasso. Para o passado, é melhor pensar em fatores fora do nosso controle, o que ajuda a reduzir a carga negativa do fracasso e reforça a crença de que podemos fazer melhor. Isso pode significar, por exemplo, considerar que seu fracasso ocorreu por falta de dinheiro ou por outros recursos fora do seu alcance. Para o futuro, porém, adote uma perspectiva ativa sobre o tempo. Olhe para a sua agenda e tome decisões ativas sobre como alocar tempo para perseguir seu objetivo — marcando idas à academia ou reservando um horário para preparar refeições saudáveis. Isso pode nos dar motivação para tentar de novo, porque não somos vítimas de agendas lotadas. Mulher desabada sobre uma bola de exercícios na sala de estar.Definitivamente não é a única. Lopolo/Shutterstock Um estudo publicado em outubro de 2025, que analisou como a falta de tempo contribui para fracassos, mostrou que as pessoas recuperam a sensação de controle quando falam em “arrumar tempo” (ou “criar tempo”), em vez de “ter tempo”. Quem descreveu suas falhas como resultado de não ter arrumado/criado tempo sentiu que poderia fazer diferente no futuro — e ficou mais motivado para isso. Isso acontece porque “arrumar/criar tempo” sugere controle ativo sobre o próprio tempo e a própria rotina, enquanto “ter tempo” nos coloca numa posição passiva. Por exemplo: se você diz que não arrumou tempo para treinar, isso significa que pode arrumar tempo no futuro, se decidir fazê-lo. Já se você diz que não teve tempo para treinar, parece que essa falta de tempo está fora do seu controle e pode acontecer de novo, impedindo você de alcançar suas metas de exercício. Encontre alegria Outro motivo para tanta gente ter dificuldade em manter a resolução de Ano-Novo pode ser o excesso de ambição — ou o fato de ignorar que alegria e prazer são o que nos mantém em movimento. Não basta apenas ter um objetivo em mente. Encontrar alegria no caminho e acreditar na capacidade de mudar também é importante. Por exemplo, alguém pode querer entrar em forma e treinar mais, mas, quando tenta ir à academia, não tem confiança para se inscrever numa aula. Sem algum componente de diversão, é difícil cumprir uma resolução, mesmo quando realmente queremos alcançar o objetivo. Então, tente pensar em formas de tornar a meta mais prazerosa de trabalhar — e lembre a si mesmo que você é capaz. A tendência das resoluções de Ano-Novo não é ruim em si. Embora possa parecer paradoxal começar hábitos virtuosos logo depois de uma grande noite de bebida e exageros, pesquisas mostram que podemos, sim, nos beneficiar do chamado “efeito do recomeço”, no qual um novo marco no calendário oferece uma sensação de página em branco para iniciar hábitos melhores. Mas não precisamos esperar o calendário nos dar um recomeço. Podemos escolher fazer nossa própria resolução (talvez uma resolução de Dia dos Namorados ou de Páscoa?)