Projetos de liberdade: pesquisas recuperam trajetória de famílias de mães escravizadas

Alexandra Lima da Silva, UERJ O mundo celebra neste 25 de março o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão, data criada pela ONU em 2007. No Brasil, um dos legados mais perversos desse período é a dificuldade de reconstruir as histórias e genealogias das famílias dos escravizados. Em muita medida, isso se deve à ausência – ou mesmo ao apagamento – da filiação nos registros de nascimento e batismo. Mas a escuta atenta das vozes negras, seus relatos e ações, permite compreender as experiências cotidianas das famílias de escravizados nos séculos 18 e 19 como um projeto ancestral de liberdade – contrariando a premissa de total impotência das mães escravizadas. Há algum tempo, a historiografia brasileira evidencia o protagonismo das mulheres negras que, de diferentes maneiras, resistiram à escravidão. Após a alforria, a Escolha de Luíza Em minhas pesquisas na linha de gênero, raça e interseccionalidades, no programa de Pós-Graduação em Educação e no Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), tenho acompanhado de perto as experiências de liberdade de uma família negra, cuja matriarca era uma africana escravizada. Luíza foi mãe de dois filhos, nascidos na escravidão, no Rio de Janeiro. Após conquistar a própria alforria, Luíza precisou escolher qual filho deveria libertar. De forma consciente, e combatendo a ideia de que “árvores genealógicas não florescem entre os escravizados”, Luíza decidiu salvar a filha. Ela mirou no futuro: acreditou que ao libertar a filha mulher, libertaria toda a família da escravidão. Sua previsão tardou algumas décadas, mas de fato aconteceu. Apesar de liberta, e de ter libertado a filha, Luíza conviveu até o fim da vida com a dor de não ter conseguido libertar seu filho: “Lembro-me que às vezes pegava-me na cabeça e me estreitava no colo, dizendo estas palavras que nunca mais poderei esquecer: ‘pobre filho’, eu não posso te libertar!”, lembra o filho de Luíza, Israel Antonio Soares, em seu relato autobiográfico publicado no livro “Rascunhos e perfis: notas de um repórter”, do amigo e jornalista Ernesto Sena, publicado em 1900. Ainda que não tenha conseguido comprar a alforria do filho mais novo, ele próprio conseguiu libertar-se, algumas décadas depois. Israel Antonio Soares nasceu no Rio de Janeiro. Em 1843, se tornou um abolicionista e, ao lado da companheira Antonia Botelho Soares (1858-1945), uma mulher negra e escravizada, conquistaram a liberdade em parceria e comunhão. Autodidata e ainda na condição de escravizado, Israel Antonio Soares criou, por volta da década de 1870, uma escola noturna para instruir escravizados e libertos, no Rio de Janeiro. Ele também formou uma sociedade de dança com o título Bella Amante, que teria existido por mais de dez anos. Teria sido um caso isolado? Poderia um escravizado ensinar e ainda abrir uma escola para educar pessoas negras? Israel Soares não agia sozinho. Ele integrava a rede de sociabilidade de José do Patrocínio, uma das figuras mais importantes do movimento abolicionista no país. Além da importante atuação como jornalista e escritor, Patrocínio também atuou como professor de primeiras letras na Escola da Cancella, instituição criada pela fundação da Caixa Libertadora José do Patrocínio, e presidida pelo próprio Israel Antonio Soares. Escolas noturnas e clandestinas Outra experiência voltada para a educação dos filhos de pessoas libertas da escravidão que coexistiu com a escola de Israel Soares foi a escola liderada pelo professor negro conhecido como Zózimo, ou “Zé Índio”. Fundada em 1871, a escola funcionava num alpendre na Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, esquina de um logradouro na época conhecido como “Beco do Buraco”. Para frequentá-la, os alunos pagavam “meia pataca”, que era o equivalente a uma moeda de 160 Réis, a moeda brasileira na época. Outro caso bastante emblemático foi o de Preto Cosme, nascido na escravidão no Maranhão, em 1830. Alfabetizado, conquistou a alforria e abriu uma escola de primeiras letras, além de ter liderado a Revolta da Balaiada. Pesquisas realizadas em diferentes países da diáspora africana evidenciam inúmeros casos de escolas negras, muitas das quais secretas, noturnas e clandestinas, lideradas por pessoas escravizadas. A experiência de Israel Soares, portanto, não foi um caso isolado. Seu projeto de liberdade passava pela educação e pela constituição de uma família completa, com a presença tanto da mãe quanto do pai. Aos 22 anos, o filho do casal, Israel Antonio Soares Júnior, tinha uma formação concluída em Farmácia. E em 1913, aos 25 anos, formou-se em Medicina. A pesquisa localizou também a neta do casal, Eugênia Luíza Soares, com formação em Obstetrícia. Duas irmãs de Eugênia, nascidas na primeira década do século XX, cursaram magistério, sendo que uma delas foi professora de piano. E o bisneto de Israel Soares e Antonia Botelho Soares, nascido em 1921, foi um notável tenor negro na cena musical carioca. O projeto ancestral arquitetado no sacrifício e na dramática escolha de uma mãe floresceu nos netos, netas e bisnetas. Mas o choro de Luíza ecoou por gerações. A busca da ancestralidade dos escravizados brasileiros que gerou este artigo foi possível graças ao apoio de agências como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), e Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes). Alexandra Lima da Silva, Professora Titular e líder do grupo de pesquisa Eleko: Direitos Humanos, Educação e Interseccionalidades, UERJ This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Por que algumas pessoas ainda acreditam que alienígenas moldaram civilizações antigas

Narrativas modernas apresentam a Humanidade como parte de um grande desígnio guiado por seres superiores, e assim sítios arqueológicos como as Pirâmides do Egito tornam-se adereços de um drama cósmico. Mas o extraordinário nunca foi alienígena, e sempre foi humano. Stefan Baumann Stephan Blum, University of Tübingen e Stefan Baumann, KU Leuven Humanos antigos realmente construíram as pirâmides sem ajuda extraterrestre? Ou será que essas perguntas revelam mais sobre as ansiedades modernas do que sobre o próprio passado? A ideia de que alienígenas ajudaram os construtores de monumentos antigos foi promovida pelo autor suíço Erich von Däniken em seu livro best-seller Eram os Deuses Astronautas? — publicado em 1968. Von Däniken faleceu em janeiro de 2026, mas sua visão dos antigos astronautas ainda cativa milhões de pessoas. O autor apontou estruturas antigas, como as pirâmides, juntamente com artefatos antigos enigmáticos, como supostas evidências de que seres de fora da Terra moldaram as civilizações do passado. Embora essas ideias tenham sido repetidamente refutadas, programas de televisão como Alienígenas do Passado, do History Channel, continuam a veicular narrativas semelhantes. As teorias de Erich von Däniken surgiram em um momento histórico específico. Elas se cristalizaram durante a Guerra Fria, em meio a temores de aniquilação nuclear, à corrida espacial e às rápidas mudanças tecnológicas. Enquanto os humanos se preparavam para deixar a Terra, ao mesmo tempo em que enfrentavam seu próprio poder destrutivo, a ideia dos “antigos astronautas” ofereceu tanto um consolo cósmico quanto um drama existencial. O passado se tornou um palco para as esperanças e ansiedades modernas. A razão pela qual algumas pessoas se sentem capazes de acreditar em teorias completamente sem fundamentos está relacionada à própria natureza da arqueologia. A disciplina trabalha com evidências fragmentárias, depósitos em camadas e interpretações que raramente levam a conclusões simples. Sítios como Gizé, no Egito, Göbekli Tepe (um assentamento neolítico na Turquia moderna conhecido por seus pilares monumentais decorados com relevos esculturais) e Tróia — também na Turquia — não são enigmas não resolvidos, mas o resultado de décadas de escavações e análises sistemáticas. Em Gizé, arqueólogos descobriram assentamentos planejados para trabalhadores, padarias e sistemas organizados de abastecimento de alimentos, demonstrando como milhares de trabalhadores puderam construir as pirâmides ao longo de décadas. Göbekli Tepe mostra que seus pilares de pedra monumentais foram erguidos por comunidades de caçadores-coletores milênios antes da invenção da escrita — não por intervenção alienígena, mas por meio de trabalho coordenado e inovação ritual. Em Tróia, camadas sucessivas de assentamentos revelam séculos de reconstrução, adaptação e intercâmbio regional, em vez de uma anomalia tecnológica repentina. As conclusões arqueológicas são cautelosas, probabilísticas e fundamentadas em evidências materiais. Para quem está de fora, no entanto, a cautela pode parecer hesitação. A pseudociência preenche essa lacuna percebida com espetáculo: alienígenas construíram as pirâmides; forças misteriosas ergueram Göbekli Tepe; supertecnologias esquecidas moldaram as muralhas de Tróia. Despojadas de contexto, as evidências tornam-se entretenimento. A complexidade é reduzida a insinuação. Um argumento típico dos “alienígenas do passado” ilustra o padrão: as pirâmides são extraordinariamente precisas. A precisão, segundo a alegação, requer tecnologia avançada; portanto, humanos sem máquinas modernas não poderiam tê-las construído. O raciocínio parece lógico — mas repousa sobre um falso dilema. O que desaparece de vista é precisamente o que a arqueologia estuda: logística, organização do trabalho, conjuntos de ferramentas, conhecimento artesanal acumulado — e pequenas imperfeições que revelam mãos humanas em ação. O fascínio do extraordinário Tais explicações satisfazem um impulso psicológico profundo. Onde antes a religião explicava o propósito, a ciência explica o processo. A hipótese dos “antigos astronautas” explora o viés de proporcionalidade — a intuição de que realizações extraordinárias devem ter causas extraordinárias. Assim como as lendas medievais enquadravam as pirâmides como proteção contra catástrofes cósmicas, as narrativas modernas apresentam a Humanidade como parte de um grande desígnio guiado por seres superiores. Os sítios arqueológicos tornam-se adereços de um drama cósmico. Os humanos deixam de ser criadores; o passado se torna extraordinário porque foi “ajudado”. O apelo não se limita a públicos marginais. Pesquisas sugerem que muitas pessoas consideram a vida extraterrestre possível ou até mesmo provável. Muitos cientistas concordam que, dada a vasta escala do Universo, tal vida é estatisticamente plausível. Mas plausibilidade não é prova — e certamente não é evidência de intervenção alienígena na Antiguidade. A desconfiança amplifica o efeito. Universidades, museus e revistas acadêmicas são frequentemente retratados como guardiões que suprimem verdades inconvenientes. A refutação científica torna-se evidência de conspiração. A prosa acadêmica — cuidadosa, qualificada e precisa — tem dificuldade em competir com a certeza dramática. Perguntas como: “Como os humanos poderiam ter construído isso sem a tecnologia moderna?” já contêm a insinuação. As mídias digitais aceleram esse padrão: afirmações visualmente impactantes circulam mais rápido do que explicações metodológicas. A arqueologia enfatiza a mudança gradual e o conhecimento cumulativo; a pseudociência promete revelações. A arqueologia pseudocientífica não é apenas um conjunto de crenças — é uma indústria lucrativa. Livros sobre antigos astronautas vendem milhões de cópias em todo o mundo. Franquias de televisão geram receita constante, e figuras de destaque atraem centenas de milhares de espectadores online. Göbekli Tepe é obra de trabalho humano coordenado, não de extraterrestres. Matyas Rehak Em contrapartida, o trabalho acadêmico circula em uma economia radicalmente diferente: monografias são impressas em pequenas tiragens e geram pouco lucro. Esta não é apenas uma batalha de ideias, mas uma batalha pela atenção: o espetáculo é recompensado de forma mais visível do que a cautela. O gênio retórico de Von Däniken residia na ambiguidade. Ele raramente fazia afirmações definitivas, preferindo perguntas sugestivas e justaposições seletivas que transformavam a incerteza em insinuação. Como ele observou certa vez: “‘Eram os Deuses Astronautas?’ estava cheio de especulações — eu tinha 238 pontos de interrogação. Ninguém leu os pontos de interrogação. Eles disseram: o Sr. von Däniken está dizendo… Eu não disse — eu perguntei”. A estratégia é simples: enquadrar a especulação como indagação e a crítica como mal-entendido. Recuperando a história A popularidade da pseudociência não é simplesmente ignorância. Ela reflete a dificuldade de interpretar
Vender obras de arte roubadas é complicado: especialista explica então por que os ladrões ainda se dão ao trabalho de roubá‑las

Anja Shortland, King’s College London Levou menos de três minutos para que uma quadrilha organizada roubasse um Renoir, um Matisse e um Cézanne, cujo valor total era de cerca de 9 milhões de euros (cerca de R$ 54 milhões), de um museu particular próximo a Parma, na Itália, em março de 2026. Este é o segundo roubo de obras de arte de grande repercussão nos últimos meses, após o furto de joias no valor de € 9,5 milhões (R$ 56,5 milhões) do Louvre, em Paris, em outubro de 2025. Os itens roubados são claramente valiosos. Mas, como especialista em governança de mercados criminosos, posso afirmar que roubar os bens é apenas o primeiro passo. Transformar esse saque em dinheiro é uma tarefa repleta de riscos. O governo italiano leva a sério a proteção de seu patrimônio cultural, com um departamento inteiro da Carabinieri (polícia italiana) dedicado ao roubo de obras de arte e antiguidades. Esse departamento vasculha o comércio global de arte em busca de tesouros falsificados, roubados e exportados ilegalmente, exigindo sua devolução. Há poucas chances de vender as obras-primas roubadas no mercado internacional de arte — mesmo a um preço de banana. Enquanto no passado os negociantes e as casas de leilão podiam fechar os olhos para as origens suspeitas de uma obra de arte excepcional, nas últimas duas décadas as normas e procedimentos do mercado se tornaram consideravelmente mais rigorosos. Qualquer pessoa que compre arte sem verificar se um antigo proprietário registrou seu interesse no objeto não passa no teste de boa-fé. Isso significa que não pode obter um título de propriedade válido e, portanto, o direito de posse legal permanece com a pessoa ou instituição de quem a obra de arte foi roubada. Além disso, as vendas de obras de arte roubadas nas quais o vendedor eludiu a devida diligência podem ser anuladas, o que significa que o dinheiro deve ser devolvido. Por isso, negociantes e leiloeiros de renome levam seu dever de diligência muito a sério. No mínimo, eles consultam o banco de dados da Interpol sobre obras de arte roubadas, de acesso livre, antes da venda. No entanto, bancos de dados privados — como o do Art Loss Register — oferecem maior tranquilidade, listando muito mais objetos perdidos e roubados e limitando a pesquisa àqueles com interesse legítimo em um objeto. Quando um registro constata que alguém está tentando colocar uma obra de arte roubada no mercado aberto, ele coleta e repassa todas as informações que possam levar a polícia à sua localização ou às pessoas envolvidas em sua venda ou armazenamento. Qualquer coisa recém-retirada da parede de um museu é, portanto, invendável — a menos que se trate de joias que possam ser desmontadas e vendidas como sucata (cara). Então, qual poderia ser a motivação financeira por trás desse roubo? Um vilão ao estilo James Bond encomendando pinturas favoritas para adornar seu covil é uma explicação improvável. Sim, pinturas poderiam ser roubadas sob encomenda, mas comprar arte no mercado aberto para lavar dinheiro é menos arriscado. Com altas recompensas por informações ou pela devolução de obras de arte roubadas, a segurança e a omerta (o código de silêncio) teriam que ser totalmente herméticas ao exibir tesouros roubados. Por outro lado, “recompensas por informações” poderiam ser uma motivação para o roubo em si. Em meados do século passado, as seguradoras pagavam regularmente aos “descobridores” com tão pouca fiscalização que o roubo de obras de arte de alto valor se tornou uma ocupação lucrativa e de baixo risco. Instituições como o Art Loss Register romperam essa coexistência confortável e, em vez disso, usam quaisquer pistas para ajudar a polícia a conduzir recuperações e operações secretas. Hoje em dia, só é seguro negociar um acordo sobre uma “comissão de intermediário” quando um objeto roubado já mudou de mãos tantas vezes que a ligação com os ladrões originais se perdeu na névoa do tempo. Mesmo assim, o “intermediário” final teria sorte se conseguisse mais de 10% do valor da pintura, que provavelmente teria de dividir com os ladrões e vários proprietários obscuros do submundo ao longo do caminho. Mas há uma terceira razão para roubar obras de arte. Grupos do crime organizado às vezes usam obras de arte roubadas como moeda de troca para negociar punições mais brandas. Por exemplo, os ladrões de joias de Dresden guardaram algumas peças do seu saque para usar sua recuperação na negociação de penas mais curtas. Os penitentos (“arrependidos”) que querem deixar organizações mafiosas também fornecem, por vezes, informações sobre o paradeiro de tesouros desaparecidos. Se houver a percepção de que obras de arte roubadas podem ser usadas para reduzir uma pena de prisão ou um pacote de compensação financeira, seu valor no submundo pode crescer muito além da recompensa oferecida ao descobridor. Embora seja difícil verificar a afirmação de que obras de arte roubadas são usadas como garantia em negócios de drogas, vários tesouros únicos foram de fato recuperados de propriedades pertencentes a mafiosos de alto escalão. Essas obras não foram encontradas em galerias com temperatura controlada, mas enroladas em locais úmidos que fazem os curadores de museus chorarem de desespero. Esperemos que as belas obras de arte de Parma sejam tratadas com respeito até que as vejamos novamente. Anja Shortland, Reader in Political Economy, King’s College London This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
A história da primeira chamada telefônica: as palavras que mudaram o mundo

Iwan Rhys Morus, Aberystwyth University “Sr. Watson, venha cá. Quero vê-lo”. Meia dúzia de palavras dificilmente memoráveis em português, mas com implicações enormes. Proferidas pelo escocês Alexander Graham Bell em seu laboratório em Boston, em 10 de março de 1876, foram as primeiras palavras inteligíveis a serem transmitidas eletricamente por um fio de um lugar para outro. Com isso, começou a era do telefone. Thomas Watson, assistente de Bell, recebeu essa ligação não muito longe, na sala ao lado, mas as ambições de Bell iam muito além. O professor de fisiologia vocal de 29 anos da Universidade de Boston tinha certeza de que havia inventado uma tecnologia que mudaria a história. Agora, ele só precisava convencer o resto do mundo. Um esboço de 1876 de Alexander Graham Bell mostrando sua tecnologia telefônica. Biblioteca do Congresso dos EUA Bell vinha trabalhando no projeto de um “telégrafo harmônico”, como ele o chamava, há vários anos. Originalmente, o aparelho foi concebido como uma forma de enviar várias mensagens telegráficas simultaneamente pelo mesmo cabo. Mas Bell não foi o único a ter essa ideia. O engenheiro elétrico americano Elisha Grey estava trabalhando em algo semelhante, e os dois homens apresentaram reservas de patente – um aviso de sua intenção de depositar um pedido completo – com uma diferença de uma hora entre um e outro, em 14 de fevereiro de 1876. Seguiu-se uma comunicação frenética entre Bell, em Boston, e seu agente em Washington DC para garantir que os pedidos não se sobrepusessem. A patente de Bell (US174465A) foi finalmente emitida em 7 de março. Três dias depois, ele fez história ao pronunciar aquelas palavras simples. Grey abandonou sua reserva de patente, e suas tentativas futuras de contestar a patente de Bell fracassaram no tribunal. Como funcionava o telefone de Bell A chave para essa nova tecnologia telefônica foi desenvolver uma maneira de transformar as oscilações acústicas geradas pela voz humana em oscilações elétricas que pudessem ser transmitidas por um cabo telegráfico. (Nessa época, cabos submarinos já conectavam a Irlanda à América do Norte e a Inglaterra à Europa continental.) Bell e seu assistente Watson já haviam demonstrado que sons bastante complexos, como notas musicais, podiam ser transmitidos eletricamente. Em 1875, eles construíram um transmissor feito de pergaminho esticado como a pele de um tambor, com um pedaço de ferro magnetizado preso que podia se mover entre os polos de um eletroímã. O som fazia o pergaminho vibrar. Isso, por sua vez, fazia o pedaço de ferro se mover para frente e para trás entre os polos do eletroímã, criando uma corrente oscilante que podia ser transformada de volta em som com um aparelho semelhante na outra extremidade. O projeto de telefone de Alexander Graham Bell tinha um transmissor feito de pergaminho esticado como a pele de um tambor. Everett Collection/Shutterstock Essa foi a tecnologia que Bell patenteou em 7 de março de 1876. Mas não foi a tecnologia que ele usou em sua primeira demonstração três dias depois. Na verdade, suas palavras foram transmitidas usando um transmissor líquido cheio de água acidificada que conduzia eletricidade. Esse dispositivo era semelhante aos que Grey vinha usando. Esse fato causou alguma controvérsia quando veio a público, fazendo parte das tentativas de Grey de contestar a patente de Bell. Ainda hoje, às vezes se afirma que Grey, e não Bell, foi o verdadeiro inventor do telefone. Mas Bell não voltou a utilizar o transmissor líquido nas suas experiências – era difícil ver como essa estrutura poderia ser transformada em um produto comercial. E, nos primeiros meses após a demonstração, o telefone parecia não ter qualquer futuro. Todos concordavam que era um dispositivo maravilhoso e engenhoso – mas para que servia, exatamente? Não era concorrência para o telégrafo. Afinal, para quem se iria ligar? Vendedor e showman Quando o novo dispositivo de Bell foi exibido na Exposição Centenária da Filadélfia em 1876, ele ficou praticamente perdido no meio da multidão de expositores – embora o então imperador do Brasil, Dom Pedro II, tenha exclamado: “Meu Deus, ele fala!”. Mas dois dos juízes, os eminentes cientistas Joseph Henry e William Thomson, concederam a Bell uma das cobiçadas medalhas da exposição. Thomson, nascido na Irlanda – o primeiro cientista a ser elevado à Câmara Alta do Parlamento Britânico como Lord Kelvin – mais tarde contaria aos cientistas de seu país sobre “a coisa mais maravilhosa da América… a maior de todas as maravilhas do telégrafo elétrico se deve a um jovem compatriota nosso, o Sr. Graham Bell”. Enquanto isso, Bell trabalhava arduamente para vender sua invenção. Como todos os inventores vitorianos, ele também precisava ser um showman. Em uma apresentação em Salem, Massachusetts, em fevereiro de 1877, ele usou o telefone para se comunicar com seu assistente Watson, que estava longe, em Boston. Primeiro, eles tocaram o código Morse pela linha em notas musicais, e “o público explodiu em aplausos”, de acordo com relatos. Em seguida, um “órgão telefônico” em Boston tocou as músicas Auld Lang Syne e Yankee Doodle para o público extasiado de Salem. Em Londres, fios foram instalados entre teatros para permitir um “concerto telefônico, no qual o público de um teatro ouviria a música tocada no outro”. É claro que tudo isso custou dinheiro, e Bell tinha investidores para apoiá-lo — incluindo seu futuro sogro Gardiner Greene Hubbard, um rico advogado e financista americano, e fundador da National Geographic Society. Em 1877, eles formalizaram a transformação da Bell Patent Association em uma sociedade por ações, a Bell Telephone Company, para desenvolver as possibilidades comerciais da invenção de Bell. Logo eles estavam fabricando equipamentos telefônicos com o design de Bell e, dois anos depois, fundaram a International Bell Telephone Company para comercializar os equipamentos na Europa. Em 1885, ela se tornaria a American Telephone and Telegraph Company, mais conhecida hoje como AT&T. Em um nível mais individual, Bell fez fortuna, enquanto seu rival Grey foi relegado a uma nota de rodapé na história das tecnologias elétricas. Na virada do século XX, o telefone havia encontrado seu
Sarampo preocupa profissionais da saúde, mas retorno da doença ao Brasil pode ser evitado

Mônica Levi, Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Os registros de 38 casos de sarampo em 2025, entre adultos e crianças, e de dois casos em 2026, todos importados de outros países, evidenciam o risco de a doença voltar ao Brasil. Esse retrocesso não seria novidade. Em 2019, após 12 meses de transmissão sustentada da enfermidade em território nacional, o certificado de eliminação da doença conquistado em 2016 foi revogado. À época, a reintrodução do vírus foi resultado da combinação entre as baixas coberturas vacinais, sobretudo em algumas regiões do país que concentraram bolsões de indivíduos não vacinados, e a entrada de pessoas não imunizadas vindas do exterior. Os índices de vacinação evoluíram de forma significativa desde então, em especial se comparados aos de 2020 e 2021, auge da pandemia de Covid-19. No entanto, até hoje não conseguimos alcançar a meta de 95% para as duas doses da vacina tríplice viral, que além do sarampo previne a caxumba e a rubéola. Isso deixa o Brasil suscetível à doença, notadamente em um contexto de alta circulação do vírus em países próximos. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), entre 2025 e a segunda semana de 2026 foram confirmados 15.922 casos de sarampo nas Américas, alta de 32 vezes em relação a 2024. Quase 95% dos episódios (15.084) ocorreram nos Estados Unidos, México e Canadá, sedes da próxima Copa do Mundo, em junho de 2026. Estima-se que a competição receberá 7 milhões de pessoas, incluindo milhares de brasileiros. A Bolívia, origem dos casos recentes no Brasil, ocupa a quarta posição no ranking. Cenário exige atenção Para evitar possíveis surtos e a eventual perda do status de país livre do sarampo, é necessário atuar em três frentes: aumento da vacinação (incluindo o resgate de adultos com esquemas irregulares), vigilância epidemiológica e resposta rápida diante de casos suspeitos. Nesse sentido, embora sempre seja possível evoluir, vale elogiar o trabalho desenvolvido pelo Ministério da Saúde nos últimos anos. A pasta tem investido em campanhas de multivacinação para a atualização da caderneta de crianças e adolescentes, busca ativa de não vacinados, vacinação escolar e em comunicação, item fundamental para aumentar a adesão. A presença na internet se tornou mais forte, com linguagem próxima do público jovem, e o Zé Gotinha passou a participar de grandes eventos e protagonizar estratégias nas redes sociais. A identificação e resposta a casos também têm sido efetiva. Entre outras ações, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) manteve por três semanas uma equipe no município de Campos Lindos, no Tocantins, que concentrou aproximadamente 60% dos casos de sarampo no Brasil em 2025. O trabalho em parceria com as equipes locais, que incluiu a identificação de comunicantes e vacinação de bloqueio, impediu que a cadeia de transmissão se expandisse. Medidas semelhantes foram adotadas em outros episódios. O sarampo já esteve entre as principais causas de mortalidade infantil no país, mas foi controlado progressivamente a partir da década de 1990 e eliminado em duas ocasiões: 2016 e 2024. Por estar entre os vírus mais contagiosos — uma pessoa infectada pode transmitir para até 18 pessoas suscetíveis —, o risco de reintrodução é real. A vacinação é a principal ferramenta preventiva. O SUS oferece a vacina gratuitamente, em duas doses, para crianças a partir de 12 meses a para adultos com menos de 30 anos de idade. Dos 30 aos 59 anos, é disponibilizada uma dose. Quem não tem certeza se já foi vacinado ou têm dúvidas se completou o esquema deve regularizar o calendário de acordo com a faixa etária. Mais do que a proteção individual, a vacinação é um ato de cuidado com quem não pode se vacinar, como crianças menores de 6 meses e imunodeprimidos. Colabore com esta causa. Mônica Levi, Presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e Membro da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização do Programa Nacional de Imunizações, Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Por que os chatbots de IA em saúde não vão ajudar você a se autodiagnosticar melhor

Rebecca Payne, Bangor University; University of Oxford Milhões de pessoas estão recorrendo a chatbots de inteligência artificial (IA) para obter orientação sobre tudo, desde culinária até declarações de Imposto de Renda. E também cada vez mais elas estão consultando os chatbots sobre sua saúde. Mas, como o diretor médico do Reino Unido alertou recentemente, isso pode não ser sensato quando se trata de decisões médicas. Em um estudo recente, meus colegas e eu testamos até que ponto os chatbots com modelos de linguagem de grande escala (LLM) ajudam o público a lidar com problemas de saúde comuns. Os resultados foram impressionantes. Os chatbots que testamos não estavam prontos para atuar como médicos. Uma resposta comum a estudos como este é que a IA avança mais rápido do que as publicações acadêmicas. Quando um artigo é publicado, os modelos testados podem já ter sido atualizados. Mas estudos que utilizam versões mais recentes desses sistemas para triagem de pacientes sugerem que os mesmos problemas permanecem. Fornecemos aos participantes breves descrições de situações médicas comuns. Eles foram designados aleatoriamente para usar um dos três chatbots amplamente disponíveis ou para recorrer às fontes que normalmente usariam em casa. Após interagir com o chatbot, fizemos duas perguntas: qual condição poderia explicar os sintomas? E onde eles deveriam procurar ajuda? As pessoas que usaram chatbots tiveram menos chances de identificar a condição correta do que aquelas que não os usaram. Elas também não foram melhores em determinar o local certo para procurar atendimento do que o grupo de controle. Em outras palavras, interagir com um chatbot não ajudou as pessoas a tomarem melhores decisões de saúde. Conhecimento sólido, resultados fracos Isso não significa que os modelos careçam de conhecimento médico, pois os LLMs conseguem passar em exames de licenciamento médico com facilidade. Quando removemos o elemento humano e apresentamos os mesmos cenários diretamente aos chatbots, seu desempenho melhorou drasticamente. Sem o envolvimento humano, os modelos identificaram condições relevantes na grande maioria dos casos e, muitas vezes, sugeriram níveis adequados de atendimento. Então, por que os resultados se deterioraram quando as pessoas realmente usaram os sistemas? Quando analisamos as conversas, os problemas vieram à tona. Os chatbots frequentemente mencionavam o diagnóstico relevante em algum momento da conversa, mas os participantes nem sempre percebiam ou se lembravam disso ao resumir sua resposta final. Em outros casos, os usuários forneceram informações incompletas ou o chatbot interpretou mal detalhes importantes. A questão não era simplesmente uma falha de conhecimento médico – era uma falha de comunicação entre humano e máquina. O estudo mostra que os formuladores de políticas precisam de informações sobre o desempenho da tecnologia no mundo real antes de introduzi-la em ambientes de alto risco, como a linha de frente da assistência médica. Nossas descobertas destacam uma limitação importante de muitas avaliações atuais da IA na medicina. Modelos de linguagem costumam ter um desempenho extremamente bom em questões de exames estruturadas ou em interações simuladas “modelo a modelo”. Mas o uso no mundo real é muito mais complexo. Pacientes descrevem sintomas de maneira vaga ou incompleta e podem interpretar mal as explicações. Eles fazem perguntas em sequências imprevisíveis. Um sistema que tem um desempenho impressionante em testes de benchmark pode se comportar de maneira muito diferente quando pessoas reais começam a interagir com ele. A IA talvez seja mais adequada como secretária médica. ST_Travel/Shutterstock Isso também ressalta uma questão mais ampla sobre o atendimento clínico. Como clínico geral, meu trabalho envolve muito mais do que apenas relembrar fatos. A medicina é frequentemente descrita como uma arte, e não como uma ciência. Uma consulta não se resume simplesmente a identificar o diagnóstico correto. Envolve interpretar a história do paciente, explorar incertezas e negociar decisões. Os educadores médicos há muito reconhecem essa complexidade. Durante décadas, os futuros médicos foram ensinados usando o modelo Calgary–Cambridge. Isso significava construir um relacionamento com o paciente, coletar informações por meio de perguntas cuidadosas, compreender as preocupações e expectativas do paciente, explicar os resultados com clareza e chegar a um acordo sobre um plano conjunto de tratamento. Todos esses processos dependem da conexão humana, da comunicação personalizada, do esclarecimento, da investigação delicada, do julgamento moldado pelo contexto e da confiança. Essas qualidades não podem ser facilmente reduzidas ao reconhecimento de padrões. Um papel diferente para a IA No entanto, a lição de nosso estudo não é que a IA não tenha lugar na área da saúde. Longe disso. O segredo está em compreender em que esses sistemas são bons atualmente e onde estão suas limitações. Uma maneira útil de pensar sobre os chatbots de hoje é que eles funcionam mais como secretárias do que como médicos. Eles são notavelmente eficazes na organização de informações, no resumo de textos e na estruturação de documentos complexos. Esses são os tipos de tarefas em que os modelos de linguagem já estão se mostrando úteis nos sistemas de saúde, por exemplo, na elaboração de notas clínicas, no resumo de prontuários de pacientes ou na geração de cartas de encaminhamento. A promessa da IA na medicina continua real, mas seu papel provavelmente será mais de apoio do que revolucionário no curto prazo. Não se deve esperar que os chatbots atuem como porta de entrada para a assistência médica. Eles não estão prontos para diagnosticar condições ou encaminhar pacientes para o nível adequado de atendimento. A inteligência artificial pode ser capaz de passar em exames médicos. Mas, assim como passar em uma prova teórica não faz de você um motorista competente, a prática da medicina envolve muito mais do que responder corretamente a perguntas. Ela requer discernimento, empatia e a capacidade de lidar com a complexidade que está por trás de cada encontro clínico. Pelo menos por enquanto, isso requer pessoas, e não bots. Rebecca Payne, Clinical Senior Lecturer, Bangor University; University of Oxford This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Sala de reabilitação sensorial de Ouro Preto completa um ano atendendo pessoas com autismo

Serviço atende pacientes com TEA enquanto aguardam vaga no SER de Itabirito; CAPS foi desonerado
Por que demorou tanto para a Humanidade voltar à Lua?

Domenico Vicinanza, Anglia Ruskin University Às 13h24m59s no horário padrão central dos EUA do dia 19 de dezembro de 1972, o módulo de comando da Apollo 17 amerissou no Oceano Pacífico, a cerca de 350 milhas náuticas a sudeste de Samoa, encerrando a última missão tripulada americana à Lua. Durante sua carreira, o comandante da Apollo 17, Eugene A. Cernan, registrou 566 horas e 15 minutos no espaço, das quais mais de 73 horas foram passadas na superfície da Lua. Cernan foi o segundo americano a caminhar no espaço e a última pessoa a deixar suas pegadas na superfície da Lua. A conclusão da jornada da Apollo 17 marcou não apenas o fim de uma missão, mas o fim de uma era. Entre 1969 e 1972, 12 astronautas caminharam na Lua em seis pousos distintos. Meio século depois, a Nasa está retornando à Lua, com seu programa Artemis. Para a missão Artemis II, que foi lançada no dia 1º de abril de 2026, quatro astronautas farão um sobrevoo do lado oculto da Lua dentro de uma cápsula tripulada – a Órion . Mais de 50 anos é um longo intervalo, e é natural perguntar: se os americanos conseguiam chegar à Lua rotineiramente no início da década de 1970, por que demoraram tanto para tentar voltar? A missão Apollo 17, em 1972, marcou a última vez que humanos pisaram na Lua. Nasa A resposta não é simples. Tem pouco a ver com tecnologia e muito mais com a forma como a política, o dinheiro e o apoio global funcionam. O ponto de partida é o próprio programa Apollo: seu modelo de exploração não foi construído para durar, e claramente não era sustentável. Em 25 de maio de 1961, perante uma sessão conjunta do Congresso americano, o presidente John F. Kennedy comprometeu os EUA com a meta de levar um homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança à Terra antes do fim daquela década. Após o assassinato de Kennedy em 1963, o presidente Lyndon B. Johnson garantiu que essa meta de pouso na Lua fosse cumprida. Mas os custos crescentes da Guerra do Vietnã e das reformas internas reduziram o interesse em novos investimentos espaciais. O discurso de John F. Kennedy na Universidade Rice em 1962 reafirmou o compromisso dos Estados Unidos com chegar à Lua. JFK Library Na verdade, o orçamento da Nasa atingiu seu pico em 1966 e começou a cair mesmo antes do sucesso do programa Apollo, prejudicando as perspectivas de uma exploração sustentável. O financiamento adicional foi rechaçado, missões planejadas foram canceladas e o programa Apollo chegou ao fim em 1972 – não porque tivesse fracassado, mas porque havia cumprido sua missão. A exploração sustentável (tanto no espaço quanto na Terra) requer um compromisso político estável, financiamento previsível e um objetivo claro de longo prazo. Após o Apollo, os EUA tiveram dificuldades para manter esses três aspectos simultaneamente. Os formuladores de políticas começaram a questionar qual direção a Nasa deveria tomar a seguir. Em 1972, o então presidente Richard Nixon instruiu a agência espacial a iniciar a construção do ônibus espacial. Isso levaria a Nasa a mudar seu foco da exploração do espaço profundo para operações na baixa órbita terrestre. ‘Caminhão espacial’: o ônibus espacial foi promovido como uma forma de acesso acessível à baixa órbita da Terra, mas a realidade se mostrou um tanto diferente. Nasa Divulgado como um “caminhão espacial” reutilizável, o ônibus espacial tinha como objetivo tornar o acesso à órbita da Terra algo rotineiro e relativamente barato. Mas ele acabaria se revelando um veículo de incrível complexidade, marcado por falhas técnicas e tragédias humanas – os acidentes com o Challenger e o Colúmbia, nos quais 14 astronautas perderam a vida. Oito anos após o início do programa do ônibus espacial, alguns integrantes da comunidade aeroespacial acreditavam que era hora dos EUA voltarem a mirar a Lua – e a perspectiva tentadora de um pouso em Marte. Em 20 de julho de 1989, no 20º aniversário do primeiro pouso lunar da Apollo 11, o presidente George H.W. Bush anunciou a Iniciativa de Exploração Espacial (SEI). O plano visava um compromisso de longo prazo para construir a Estação Espacial Freedom, levar astronautas de volta à Lua “para ficar” e, finalmente, enviar humanos ao planeta vermelho. Mas os altos custos estimados da SEI, que chegavam a centenas de bilhões de dólares, levaram ao seu fracasso. O fraco apoio no Congresso, juntamente com outros fatores, levou ao seu cancelamento durante o governo do presidente Bill Clinton. Durante a década de 1990, o projeto da Estação Espacial Internacional (ISS) consolidou a baixa órbita terrestre como prioridade para a exploração humana. O ônibus espacial foi o meio utilizado pelos EUA para construir a estação e transportar tripulações de e para o posto avançado em órbita. A ISS tornou-se um símbolo de cooperação científica internacional e de proeza técnica. As experiências realizadas na estação geraram insights valiosos em tudo, desde a pesquisa médica até a ciência de materiais. Mas também consumiram recursos que, de outra forma, poderiam ter apoiado a exploração do espaço profundo. O desastre do Colúmbia em 2003 – no qual o ônibus espacial se desintegrou sobre o Texas, causando a morte de toda a tripulação – levou a uma nova reflexão sobre a direção da exploração espacial nos Estados Unidos. Como resultado, o presidente George W. Bush anunciou a Visão para a Exploração Espacial. O objetivo dessa proposta, que daria origem ao que ficou conhecido como Programa Constellation, era reconstruir a capacidade da Nasa de chegar à Lua, tendo Marte como meta de longo prazo. Mas análises independentes alertaram que os custos e cronogramas eram irreais. O Congresso americano nunca deu apoio financeiro total ao Constellation, levando ao seu cancelamento em 2010, durante a Presidência de Barack Obama. Esse ciclo repetido de projetos espaciais cancelados expõe algumas limitações inerentes ao sistema de financiamento da exploração lunar. Um programa lunar sustentável precisa de um forte compromisso multissetorial e de mecanismos para garantir financiamento por várias décadas.
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Lei que inseriu o símbolo do autismo em Ouro Preto completa oito anos

Lei aprovada pela então vereadora em 2018 determinou inserção do símbolo do autismo nas placas de atendimento prioritário do município Em 2018, a vereadora Regina Braga assinou a Lei Municipal 1.097, que determinou a inserção do símbolo do autismo nas placas de atendimento prioritário de estabelecimentos públicos e privados de Ouro Preto. Supermercados, bancos e comércios passaram a ser obrigados a exibir o lacinho colorido ao lado dos demais símbolos de prioridade. A lei não criou um novo direito — o atendimento preferencial a pessoas com autismo já era garantido — mas tornou esse direito visível. Sete anos depois, a autora da lei é a vice-prefeita do município. E o Abril Azul, mês internacional de conscientização sobre o autismo marcado pelo Dia Mundial em 2 de abril, trouxe a oportunidade de olhar para o que mudou — e para o que ainda falta. “É uma data importante para reforçarmos o respeito, a inclusão e o direito das pessoas autistas a uma vida digna e com oportunidades”, disse Regina Braga. Sobre a lei de 2018, ela reconhece o limite do gesto: “Foi um gesto simples, mas que representa respeito e dignidade.” A legislação municipal acompanhou uma mudança mais ampla no reconhecimento dos direitos das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil. A Lei Berenice Piana, de 2012, foi o marco federal que estabeleceu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Em Ouro Preto, iniciativas como a lei de 2018 e, mais recentemente, a instalação da sala de reabilitação sensorial pela Secretaria Municipal de Saúde fazem parte do mesmo caminho. 📋 A lei Lei Municipal 1.097/2018 — Ouro Preto O que determina: Inserção do símbolo do autismo (lacinho colorido) nas placas de atendimento prioritário de estabelecimentos públicos e privados Autora: Regina Braga, então vereadora, atual vice-prefeita de Ouro Preto Abril Azul: Mês de conscientização sobre o autismo — Dia Mundial em 2 de abril