Foto: Ane Souz
Em Antônio Pereira, distrito ouro-pretano espremido entre serras e barragens, a conversa corre fácil e o medo permanece. Em cada dez moradores abordados na rua principal, seis relatam ansiedade, tristeza contínua ou aquela aflição sem nome que ocupa a casa por dentro. Não é impressão: é dado.
Segundo as duas fases do estudo PEREIRA.DOC, conduzido pelo programa de pesquisa e extensão De Mãos Dadas com Antônio Pereira (UFOP), 171 moradores foram entrevistados entre 2022 e 2025 com o SRQ-20, instrumento de triagem da OMS para transtornos mentais comuns. O resultado é direto: 59,85% apresentaram sofrimento mental significativo.
As desigualdades dentro da crise
Mulheres e homens: um abismo de 50 pontos percentuais
Entre as mulheres, 85,9% relataram sofrimento mental. Entre os homens, 35,4%.
São 50,5 pontos de diferença — uma disparidade que fala mais sobre estrutura do que sobre biologia.
Uma mulher de Antônio Pereira tem três vezes mais probabilidade de adoecer mentalmente do que um homem do mesmo lugar.
Negros e brancos: o racismo adoece
Entre pessoas negras (pretas e pardas), 59,85% apresentaram sofrimento mental; entre brancos, 40%.
O próprio estudo aponta: “Esses dados evidenciam a prevalência das enfermidades mentais entre a população negra, sugerindo que esses índices podem ser reflexo de fatores estruturais, como discriminação racial e desigualdade social.”
Em um distrito onde 71,6% da população é negra, isso significa que a maioria carrega, além do peso do medo, o fardo histórico da exclusão.
Mulheres negras: a intersecção invisível
O cruzamento de gênero e raça não foi detalhado pelo estudo. Uma lacuna que, segundo as pesquisadoras, pode esconder a face mais vulnerável da crise: as mulheres negras, duplamente expostas às desigualdades sociais e emocionais.
O silêncio que dói
Entre as pessoas entrevistadas, 15,2% relataram vontade de acabar com a própria vida — o equivalente a cerca de 750 moradores.
O perfil mais vulnerável, segundo o estudo, reúne mulheres, idosas e negras. O dado não é apenas alarmante: é um pedido coletivo de socorro.
Barragem, medo e solidão
Antônio Pereira vive sob a sombra da Barragem de Doutor, da mineradora Vale.
Segundo o estudo, 67,3% da população consideram a presença da barragem “muito grave”, e 54,4% avaliam o risco de rompimento da estrutura com o mesmo grau de gravidade.
Em 2023, 1.220 pessoas deixaram o distrito — um quarto de seus moradores — durante o processo de descomissionamento da barragem.
Para quem ficou, a sensação é de espera constante: o medo de uma tragédia que nunca termina.
Além do risco, há a poeira. 69% consideram a poluição “muito grave”. Ela está nas roupas, no ar, nas paredes, nas conversas.
E há o vazio. 47,4% relatam falta de espaços de lazer, o que significa infância sem brincar, adolescência sem lugar, velhice sem descanso.
Os mais vulneráveis
Mulheres lésbicas
No domínio psicológico do WHOQOL-BREF (escala de qualidade de vida da OMS), mulheres lésbicas marcaram 2,5 em 5 — o menor índice entre todos os grupos.
O estudo atribui o resultado a “barreiras sociais e discriminação que restringem o acesso a redes de apoio adequadas”.
Estar em Antônio Pereira e ser mulher lésbica é, muitas vezes, estar duplamente invisível.
Idosos
85,7% dos idosos acima de 80 anos consideram o risco de rompimento da barragem “muito grave”. O medo, para eles, é mais forte que a falta de lazer ou emprego.
Adolescentes
Entre adolescentes, 69,6% apresentam sofrimento mental.
Quase metade enxerga o abuso de drogas e álcool como problemas “muito graves”. São jovens que cresceram entre o pó do minério e a ansiedade do futuro.
O mundo em torno também adoece
Nos indicadores da OMS, o domínio ambiental teve os piores resultados.
Entre mulheres, a média foi de 2,97 em 5 — uma forma numérica de dizer: “o lugar onde vivo me causa medo.”
Pessoas com maior escolaridade relataram pior qualidade de vida, talvez por enxergarem com mais clareza a gravidade do que as cerca.
Mineração e responsabilidade: o que dizem Samarco e Vale
Samarco
Eixos informados pela empresa
- Investimento social (PIIS): em 2024, R$ 26 milhões em iniciativas voluntárias — R$ 18 milhões no gabião de contenção em Antônio Pereira (obras de drenagem/erosão para períodos de chuva) e R$ 8 milhões em ações socioinstitucionais. Para 2025, previsão de R$ 6,5 milhões.
- Capacitação e geração de renda:
- Culinária Sustentável (empreendedorismo e aproveitamento integral de alimentos; alcance regional, incluindo Antônio Pereira).
- Caminhos Samarco (oficinas itinerantes de tecnologia e inclusão digital — robótica, IA, apps — e ações de empregabilidade como plantão de RH e oficina de currículo).
- Café Sustentável (qualificação de produtores rurais e mapeamento de áreas produtivas no entorno do mineroduto e das unidades).
- Meio ambiente e território: CEDASF (viveiro com capacidade anual de até 220 mil mudas nativas para plantios compensatórios e reflorestamento).
- Governança e impactos cumulativos: participação em fóruns coletivos com outras empresas e lideranças do distrito; exemplo citado de umectação da MG-129 (revezamento com parceiras) para reduzir poeira.
- Diretrizes a terceiros: Manual de Investimentos Sociais para empresas contratadas; em 2025, sete projetos comunitários apoiados (p. ex., Associação Mãos que Brilham; Sementes do Amor; musical, costureiras, associação de moradores; futebol feminino).
- Diálogo e licenciamento: cooperação com a Prefeitura (ex.: pavimentação da Estrada da Purificação, condicionante da LOC).
- Educação ambiental e diálogo social: PEA com projetos participativos nas comunidades; Programa de Comunicação e Responsabilidade Social (escuta e mediação social); 513 interações de diálogo social entre jan–jun/2025.
- Monitoramento social: PMISE (indicadores socioeconômicos como emprego, renda, educação e percepção comunitária); ouvidoria 24h (0800 e e-mail) e equipe dedicada a demandas.
Vale
- Plano de Compensação e Desenvolvimento de Antônio Pereira: R$ 57 milhões previstos (mais de R$ 30 milhões já executados), incluindo reforço de equipamentos na UBS, apoio ao CRAS, iniciativas de promoção de bem-estar e obras comunitárias (quadra, praça e capela).
- Equipe psicossocial dedicada no distrito (2 psicólogos + 1 assistente social, 30h semanais), financiada pela empresa, para acompanhamento psicossocial e matriciamento da UBS.
O que está chegando: um novo capítulo do cuidado
Depois de anos sem estrutura própria para acolher quem sofre, Antônio Pereira começa a ver nascer uma rede de cuidado mais próxima e contínua. A Prefeitura de Ouro Preto informou que vem ampliando a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) com ações específicas para o distrito, combinando investimento público e medidas reparatórias ligadas à mineração.
A equipe interdisciplinar financiada pela Vale — já mencionada — atua diretamente no território. A Unidade Básica de Saúde (UBS) local também ganhou fôlego: o horário foi ampliado (das 7h às 19h), e o espaço passou a contar com sala de estabilização para atendimentos de urgência, reforçando a retaguarda em casos de crise emocional.
Para quem precisa de acompanhamento especializado, o município oferece transporte até os CAPS de Ouro Preto.
A Prefeitura destaca que a população de Antônio Pereira é atendida pelos três CAPS municipais, nas modalidades intensiva, semi-intensiva e ambulatorial, “sem necessidade de encaminhamento prévio”. E há novidades à vista: está em fase de implantação um CAPS III 24 horas, que funcionará de forma ininterrupta para acolher emergências em saúde mental, evitando deslocamentos e internações psiquiátricas desnecessárias.
Também foi habilitado um Centro de Convivência, espaço voltado à inclusão social e à reabilitação psicossocial — um lugar para que o cuidado volte a ter rosto e comunidade.