O distrito de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, acaba de ganhar uma nova atração que mistura história militar, cultura e turismo: o Museu Equestre e o Centro Equestre Lusitano do Hotel Vila Galé Collection Ouro Preto, inaugurados em cerimônia que reuniu autoridades estaduais, municipais e o fundador do grupo português, Jorge Rebelo de Almeida.
Instalado no prédio que já foi quartel do Regimento de Cavalaria de Minas Gerais e, mais tarde, Colégio Dom Bosco, o empreendimento consolida a transformação de um imóvel ameaçado de ruína em um resort de alto padrão com vocação cultural.

Patrimônio vivo: do primeiro quartel ao hotel cinco estrelas
Construído no século XVIII para abrigar o 1º Regimento de Cavalaria portuguesa em Minas, o conjunto de Cachoeira do Campo é um marco da presença militar na região das minas de ouro. Ali funcionaram o quartel, a coudelaria (centro de criação de cavalos da Coroa) e, já no século XX, o tradicional Colégio Dom Bosco. Após o fechamento da escola, em 2013, o prédio entrou em rápido processo de degradação.
Na solenidade, o governador Romeu Zema, em mensagem enviada ao evento, resumiu o novo ciclo do edifício:
“Este belíssimo hotel já é um símbolo de hospitalidade, respeito à história e valorização do nosso patrimônio histórico. […] Nada mais justo do que homenagear essas raízes com a criação de um aras e de um museu que celebram a história equestre do Estado.”
O prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo, lembrou que a construção “estava condenada à ruína” e fez um paralelo com uma antiga recomendação do modernista Oswald de Andrade:
“Era muito importante que os mineiros soubessem compatibilizar as arquiteturas herdadas do período colonial com as necessidades do conforto moderno. É exatamente o que aconteceu aqui.”
Hoje, o Vila Galé Collection Ouro Preto ocupa uma área de cerca de 240 hectares, com 311 quartos, três restaurantes, dois bares, cinco piscinas aquecidas, spa e um centro de convenções preparado para receber até mil pessoas em eventos corporativos, culturais e esportivos.
Museu Equestre resgata a memória da cavalaria em Minas

O novo Museu Equestre, instalado em um dos edifícios do conjunto, resgata a história da cavalaria portuguesa em Minas Gerais e do regimento que ocupou o local a partir de 1775, responsável por garantir a ordem na rica região mineradora.
O acervo reúne:
- fardas e fardamentos originais de cavaleiros,
- selas, rédeas, freios e arreios usados pela tropa,
- peças militares e documentos que explicam o papel estratégico do quartel no período colonial.
Para o prefeito Ângelo Oswaldo, quem visita o espaço “vem para uma aula de história de Minas Gerais e do Brasil”.
A secretária de Estado de Cultura e Turismo, Bárbara Botega, destacou que o projeto “transforma patrimônio em patrimônio vivo”:
“É um patrimônio conservado, estruturado, que dá vida e alegria – e é isso que garante a perenidade da nossa história.”
Haras, cavalo lusitano e turismo de experiência

Ao lado do museu, o Centro Equestre Lusitano e o haras do hotel oferecem experiências para diferentes públicos: de aulas de equitação e passeios a cavalo até a possibilidade de hipismo, apresentações de volteio, leilões e campeonatos ligados ao universo equestre.
O espaço abriga cavalos de raças nobres, como o lusitano, de origem portuguesa, além de animais utilizados na lida e em provas funcionais mineiras, como o Mangalarga Marchador, reforçando o elo entre Portugal e Minas Gerais.
Na visão da secretária Bárbara, a aposta na vertente equestre abre uma frente econômica:
“Isso vai trazer uma imensa gama de outros tipos de eventos para o hotel e para a cidade, com um ticket interessante, elevado, das pessoas que movimentam esse mercado em Minas Gerais, que é muito forte.”
Jorge Rebelo de Almeida, fundador e diretor do Grupo Vila Galé, vê no projeto a síntese da filosofia da rede:
“Turismo e cultura têm que andar de mãos dadas. Recuperar patrimônio histórico dá um prazer enorme: é trazer de volta à vida coisas que estavam mortas.”
Minas na rota internacional: Ouro Preto, Brumadinho e além
A chegada do Vila Galé a Ouro Preto é parte de uma estratégia que vem colocando Minas Gerais no radar de operadores internacionais, especialmente do mercado europeu. Em feiras de turismo nos Estados Unidos e na Europa, a presença de uma marca já conhecida por portugueses e espanhóis tem sido apontada como fator decisivo para “descobrir” Minas como destino turístico estruturado.
O grupo Vila Galé é hoje o segundo maior grupo hoteleiro português, com 52 hotéis em operação em Portugal, Brasil, Espanha e Cuba, somando cerca de 11,7 mil acomodações e caminhando para integrar o seleto grupo das 100 maiores redes hoteleiras do mundo.
No Brasil, o plano de expansão inclui, além de Ouro Preto, um novo hotel em Brumadinho, formando o eixo Ouro Preto – Inhotim – Belo Horizonte citado durante a cerimônia. A secretária Bárbara brincou com a possibilidade de uma “tríade perfeita”:
“Ouro Preto com o clássico, Brumadinho com a arte contemporânea de Inhotim e, quem sabe em breve, um hotel na capital. Assim a gente faz o turista ficar mais tempo em Minas Gerais e leva desenvolvimento econômico e emprego.”
Impacto econômico e orgulho local
O investimento na recuperação do antigo colégio e na implantação do resort e do complexo equestre é estimado em cerca de R$ 180 milhões, incluindo obras, mobiliário, equipamentos e estrutura de eventos.
Além da geração de empregos diretos e indiretos, o projeto ainda tem efeito em cadeia sobre:
- o turismo cultural (roteiros pelas cidades históricas, museus e igrejas barrocas),
- o turismo de natureza (trilhas, cachoeiras e atividades ao ar livre dentro da fazenda),
- e o turismo equestre, conectando criadores, atletas e entusiastas de raças como o Mangalarga Marchador e o Campolina, tão presentes em Minas.
Romeu Zema, por mensagem de vídeo, reforçou o papel do empreendimento na estratégia do estado:
“Este projeto com toda certeza vai ajudar a acolher mais turistas em Minas Gerais. Desejo vida longa ao Vila Galé Ouro Preto e parabenizo todos os envolvidos.”
Jorge Rebelo de Almeida respondeu na mesma linha, misturando humor e compromisso:
“Quanto mais somos premiados, mais obrigação temos de ser melhores. Recuperar prédios históricos é um vício bom – e este, em Cachoeira do Campo, é uma peça lindíssima que volta a ter vida.”
Como Ouro Preto entrou no radar do Vila Galé: bastidores da negociação
Fora da solenidade, o secretário de Desenvolvimento Econômico de Ouro Preto, Felipe Guerra, explicou ao Vintém como se deu a aproximação com o grupo português.
Segundo ele, tudo começou com uma prospecção conjunta da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e da Investe Minas. “Visitamos diversos imóveis com potencial para investimentos, entre eles o antigo Colégio Dom Bosco.”
A primeira equipe do Vila Galé enviada a Ouro Preto avaliou o espaço de Cachoeira do Campo e demonstrou interesse imediato. “Eles gostaram muito do imóvel. O passo seguinte foi colocar o grupo em negociação com os salesianos e receber o fundador, Jorge Rebelo.”
Felipe destaca o papel decisivo do prefeito. “O prefeito Ângelo deu uma verdadeira aula sobre a história de Ouro Preto e o potencial cultural e turístico da cidade. Isso foi fundamental para convencer o grupo.”
A negociação, segundo ele, não foi simples. “Não é fácil atrair um hotel desse porte sem cessão de patrimônio público. A governança, os dados econômicos e a segurança institucional que apresentamos foram determinantes.”
A chegada do hotel gerou mais de 150 empregos diretos, além de dezenas de vagas indiretas, todas ofertadas via Sine. “Foi um processo transparente. A rede também tem buscado fornecedores locais e parcerias culturais.”
A expansão futura já está no horizonte: “O centro de convenções está previsto; há estudos para produção de vinho e azeite; e o complexo equestre seguirá crescendo. É um empreendimento que deixa receita na cidade e fortalece nossa política de diversificação econômica.”