Quantas pessoas você conhece que descobriram ser autistas depois dos 30 anos? Provavelmente mais do que deveria. No Brasil, o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) em adultos e idosos permanece como lacuna estrutural na saúde pública — e a razão é menos misteriosidade do autismo em si e mais a invisibilidade histórica dessa população.
Durante décadas, autismo foi discutido e diagnosticado principalmente em crianças. Adultos e idosos autistas que não receberam diagnóstico na infância frequentemente passaram a vida tendo seus sintomas reinterpretados como ansiedade, depressão, esquizofrenia ou distúrbios de personalidade. Alguns procuraram ajuda psicológica durante anos sem nunca ouvir a palavra “autismo” como explicação para suas experiências.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA — número que experts concordam estar subestimado, especialmente entre adultos. A mudança legislativa recente que incluiu incentivo ao diagnóstico em adultos e idosos como diretriz da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista reconhece um fato simples mas negligenciado: diagnóstico tardio ainda é diagnóstico. E pode mudar vidas.
Acessar redes de apoio específicas, compreender padrões de comportamento próprios, ajustar estratégias de trabalho e relacionamento — essas possibilidades abrem portas apenas quando alguém finalmente sabe o que está acontecendo. É por isso que profissionais que trabalham com autismo defendem a expansão do diagnóstico além da infância. Não é sobre descobrir uma epidemia oculta. É sobre reconhecer que pessoas já estavam lá.
A implementação ainda dependerá de regulamentação, capacitação de profissionais e alocação de recursos — obstáculos conhecidos no sistema de saúde brasileiro. Mas o reconhecimento legislativo de que adultos e idosos autistas precisam e merecem diagnóstico marca mudança de perspectiva que, ao menos em papel, já começou.