Miniaturas em caixa de fósforo vence juri técnico do 53º Concurso Nacional de Presépios da FAOP

Obra “Fiat Lux”, da bióloga e artista visual Natália Aia, conquistou júri técnico com jardim brasileiro em escala microscópica; concurso

Foto de Jiljana Isidoro

Jiljana Isidoro

Obra “Fiat Lux”, da bióloga e artista visual Natália Aia, conquistou júri técnico com jardim brasileiro em escala microscópica; concurso criado por Murilo Rubião completa mais de cinco décadas valorizando tradição e contemporaneidade

A bióloga e artista visual Natália Aia conquistou o primeiro lugar do júri técnico do 53º Concurso Nacional de Presépios da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP) com uma obra que cabe na palma da mão. “Fiat Lux” recria o nascimento de Cristo dentro de uma caixa de fósforos, cercado por um jardim de espécies brasileiras em mini-esculturas de papel. O prêmio de R$ 4.500 foi anunciado no dia 12 de dezembro, data de abertura da exposição que segue em cartaz até 24 de janeiro de 2026.

“Elaborei este presépio utilizando papel, composto por Jesus, Maria e José e um pequeno jardim dentro de uma insignificante caixinha de fósforo que contém a expressão em latim ‘FIAT LUX’, ou seja, faça-se a luz”, descreve a artista. “Da caixinha trivial espera-se encontrar palitos, mas permitindo-se uma contemplação consciente do detalhe, novos espaços são iluminados.”

Formada pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) em Biologia e pela Universidade do Vale do Paraíba (UNIVAP) em Artes Visuais, Natália possui uma trajetória marcada pela investigação poética da micro-natureza. Sua técnica une elementos da ecologia às mini-esculturas em papel, representando jabuticabeiras e bromélias em escala minuciosa.

“Para mim é muito significativo ganhar o Concurso Nacional de Presépios da FAOP, pois tenho uma memória afetiva de elaborar presépios ao longo das férias escolares na casa da minha avó”, conta a artista. “Me sinto honrada, pois essa premiação renova meu propósito como artista, que é um convite para que as pessoas possam experienciar, a partir da lupa que completa o trabalho, uma pequena via da natureza exterior para o interior.”

Com a vitória, a obra passa a integrar o acervo permanente da FAOP, que ao longo de mais de 50 anos reuniu peças de artistas de todo o território nacional.

54 anos valorizando saberes e fazeres

Presépio vencedor do Júri Popular do 52º Concurso Nacional de Presépios é o número 12, intitulado “Imagem e Semelhança” | Foto: Ascom FAOP

O Concurso Nacional de Presépios foi criado em 1970, apenas dois anos após a fundação da FAOP, por iniciativa do então presidente Murilo Rubião, escritor mineiro e um dos fundadores da instituição ao lado de Vinicius de Moraes, Domitila do Amaral e Affonso Ávila.

“Foi uma ação de uma preocupação de valorizar os saberes e fazeres do Estado de Minas Gerais, que depois se alargou para todo o território nacional”, explica César Teixeira de Carvalho, responsável pelo Concurso de Presépios da FAOP. “Foi uma das primeiras ações que a Fundação de Arte de Ouro Preto teve como proposta enquanto política pública.”

No início, o concurso tinha um foco marcante na tradição ouro-pretana. “No primeiro momento, com um foco muito marcante na tradição ouro-pretana, principalmente naquilo que lhe tange a feitura e a produção de madeira e também a produção de pedra sabão”, destaca César Teixeira. “E ao longo desses anos a gente vem cada vez mais fortalecendo essa ação do concurso, e que se torna uma referência nacional.”

De 28 a 30 presépios por edição, de todo o Brasil

A cada edição, o concurso recebe entre 25 e 30 presépios de diferentes regiões do país. “A gente já teve presépios encaminhados do Rio Grande do Sul, São Paulo, principalmente seu interior. Já recebemos também presépios do Espírito Santo, presépios do Nordeste”, relata o responsável pelo concurso. “Isso vem demarcando cada vez mais a capilarização do território em relação ao concurso.”

Para César Teixeira, a surpresa se renova a cada ano: “Para cada edição e para cada momento, sempre nos sentimos surpreendidos ao recebermos os presépios, ao abrir os presépios, que vai cada vez mais nos instigando e nos possibilitando entender o quanto que é grande a capacidade criativa do ser humano.”

A diversidade se manifesta “pelo uso dos materiais, pelo conceito trabalhado, pela apropriação de tradições, pela interlocução entre tradição e contemporaneidade”, destaca. “Cada edição deixa marcas daquela época, daquele momento, das questões que estão postas na política, em termos sociais. Pelo próprio uso do material, a gente vai demarcando o ano.”

Criatividade e inventividade são os critérios

Os critérios de avaliação fogem do convencional. “Os critérios de avaliação estão muito relacionados com a criatividade, com a leitura que o artista ou a artista fez do tema, a inventividade, a imaginação”, explica César Teixeira. “São critérios que estão relacionados muito com o processo criativo e com a temática proposta, que é a cena da natividade de Jesus Cristo.”

Apesar das raízes católicas, o concurso busca amplitude: “Apesar de ser algo que é muito forte da tradição católica, a própria temática tem uma abrangência mais universal, respeitando o entendimento dos povos, das etnias e assim por diante.”

O concurso possui duas premiações distintas. O júri técnico é “definido a partir da experiência e da trajetória dos membros. Geralmente, são pessoas que têm vinculação com a arte, com a cultura, com a preservação do patrimônio cultural, formado basicamente de cinco componentes, somados aos suplentes.”

Já o júri popular envolve toda a comunidade. “Quando nós identificamos o primeiro lugar do júri técnico, nós apresentamos para toda a comunidade esse vencedor. E, a partir do momento, a gente prepara toda uma estrutura virtual, principalmente, e também uma estrutura física”, descreve César. Os visitantes podem votar presencialmente na Galeria Nello Nuno ou através de formulário online.

Ambos os prêmios pagam R$ 4.500 e as obras são adquiridas pela FAOP. “Algumas edições, a gente também dá o título de menção honrosa. Mesmo que o presépio não vença, mas dentro das considerações da equipe julgadora, algumas menções honrosas são direcionadas”, complementa César Teixeira.

Acervo impulsionou carreiras nacionais

O acervo reunido ao longo de mais de cinco décadas guarda histórias importantes da arte brasileira. “Como nós temos um acervo significativo, é muito importante ter em mente que o concurso nacional de presépio tem proporcionado para alguns participantes o demarcador de trajetória”, destaca o responsável pelo concurso.

Entre os nomes que passaram pelo concurso, César Teixeira cita com especial carinho Arthur Pereira, de Cachoeira do Brumado: “Um grande lenhador. E a partir do momento que ele começa a trabalhar com a madeira para além da lenha, mas com o material artístico, ele foi um dos primeiros participantes do concurso nacional de presépios e depois ele começa a criar toda uma trajetória artística, conhecido não só no território mineiro, mas em todo o território nacional. E desbrava esse universo da arte com as suas alegorias, com os seus sonhos, com suas inventividades. E o concurso nacional de presépio foi desbravador.”

Também integram o acervo: Adão de Lourdes, discípulo de Arthur Pereira; Cirico, “ouro-pretano, um grande trabalhador do Museu da Inconfidência”; Cor Maria, “grande artesã de pedra sabão, que ainda vive em Ouro Preto e tem uma banquinha lá na feira de pedra sabão, com todos os seus elementos escultóricos, que remetem muito a uma reinvenção do barroco”; Paula Lima; Willi Carvalho, “grande artista do Norte de Minas”; e Maria Amélia, “super importante em termos do cenário nacional da arte, uma grande articuladora das questões de moda, porque ela tinha essa característica de trazer para a moda todos aqueles elementos recicláveis.”

Exposições percorrem o país

O acervo não fica restrito à sede da FAOP. “Ao longo desse tempo todo, a Fundação de Arte de Ouro Preto tem promovido exposições. O acervo não fica só na nossa sede, mas também ele tem percorrido várias oportunidades, desde exposições em espaços institucionais, exposições até, por exemplo, em espaços não muito convencionais”, conta César Teixeira.

Uma das mais marcantes foi realizada no CCBB de Belo Horizonte. “Na segunda etapa da exposição, a gente apresentou o nosso acervo categorizado em três salas. Na primeira sala, a gente tinha um pouco da trajetória do concurso, desde a sua instituição. Na segunda sala, a gente fez uma homenagem à madeira e à pedra sabão, porque a gente tem um acervo muito significativo com o uso desses dois suportes. E na terceira sala, a gente apresenta a diversidade do uso dos materiais e as propostas dentro da singularidade.”

Parte do acervo ficou exposto por 15 anos no Centro de Arte Popular, que integra o Circuito Liberdade, e já visitou cidades como Guaxupé. A FAOP também publicou catálogos com alguns dos presépios premiados.

Votação popular segue aberta

A exposição com os 28 presépios selecionados para a edição 2025 está aberta ao público na Galeria de Arte Nello Nuno, na Rua Getúlio Vargas, 185, bairro Rosário. O funcionamento é de segunda a sexta, das 9h às 12h e das 13h às 18h, e aos sábados, das 9h às 13h.

A votação para o 1º Lugar Júri Popular permanece aberta até 7 de janeiro de 2026. O público pode votar presencialmente, através de cédulas disponíveis junto ao Livro de Visitação na galeria, ou online, através do formulário disponível no site da FAOP.

O presidente da FAOP, Wirley Rodrigues Reis, reforça o convite: “A FAOP convida a comunidade ouro-pretana, visitantes e turistas a visitarem a exposição do 53º Concurso Nacional de Presépios. A mostra reúne obras de artistas de diversas cidades brasileiras que, com talento, graça e criatividade, recriam a cena do nascimento de Cristo. A participação do público, por meio da votação popular, é essencial para fortalecer o concurso e reconhecer o trabalho dos artistas.”

César Teixeira encerra com entusiasmo: “Para nós, da Fundação de Arte de Ouro Preto, o Concurso Nacional de Presépios é uma marca registrada. Com mais de 50 anos de ação, nós temos implementado essa política pública de forma rigorosa e efetivando todo esse legado artístico-cultural da celebração da natividade do Menino Jesus.”

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