O período chuvoso volta a colocar Ouro Preto em estado de atenção. Alertas do Inmet e da Defesa Civil se tornam frequentes, encostas passam a ser monitoradas intensivamente e famílias que vivem em áreas vulneráveis convivem com a possibilidade de evacuação preventiva. Mas, por trás dessa rotina anual, existe um documento técnico que explica — em profundidade — onde estão os riscos, por que eles existem e o que pode ser feito para reduzir danos e salvar vidas.
Esse documento é o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR), concluído em 2023, resultado de uma parceria entre a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a Coordenação Geral de Prevenção e Projetos Estratégicos do Ministério do Desenvolvimento Regional, a UFOP e a Defesa Civil Municipal. O estudo cobre todo o território de 1.245 km², emprega metodologias avançadas, sobrevoos com drones, análises geotécnicas e três décadas de registros de movimentos de massa. É, hoje, a radiografia mais detalhada já produzida sobre a vulnerabilidade de Ouro Preto.

O mapeamento: diagnósticos por bairros do distrito-sede
O PMRR identificou 156 setores de risco distribuídos pelo distrito-sede e pelos distritos. O mapeamento anterior da CPRM, de 2016, já havia apontado 313 áreas de risco alto e muito alto, sendo 271 na sede municipal — dados confirmados e refinados pelo novo estudo.
São Cristóvão, São Francisco e Água Limpa — A borda entre encosta e cidade
Essas regiões apresentam risco significativo de rolamento de blocos, fenômeno associado a fraturas naturais nas rochas quartzíticas.

O PMRR identifica taludes expostos, blocos instáveis e cortes realizados sem obras de contenção. Chuvas prolongadas aumentam a chance de ruptura.
Padre Faria, Cabeças e Antônio Dias — A ocupação histórica sob pressão
Bairros tradicionais apresentam estruturas antigas: muros de arrimo desgastados, drenagem insuficiente e edificações construídas sobre aterros instáveis.

O PMRR considera trechos desses bairros como de risco moderado a muito alto, destacando pontos onde a pressão urbana supera a capacidade física da encosta.
Morro Santana, Morro da Queimada e Pilar — Alta densidade em encostas frágeis
Esses morros concentram grande número de domicílios e setores classificados como R3 (alto) e R4 (muito alto).

Os fatores agravantes incluem:
- cortes verticais;
- saturação do solo em taludes inclinados;
- canaletas rompidas;
- blocos instáveis.
Saramenha, Taquaral e Vila Aparecida — O avanço da erosão
O PMRR identifica erosões lineares, ravinas e voçorocas que se aproximam da área urbana.

Em períodos de chuva forte, esses processos podem evoluir rapidamente.
Santa Cruz, Dores e setores intermediários — Escorregamentos superficiais
São áreas de risco moderado a alto, onde o encharcamento do solo provoca movimentos lentos mas recorrentes. A degradação da vegetação agrava o quadro.
Os distritos: diferentes realidades, vulnerabilidades semelhantes
Cachoeira do Campo — O caso mais crítico de erosão
O distrito abriga uma das maiores voçorocas da região, com profundidade e extensão significativas.

O PMRR recomenda obras de contenção, canaletas profundas e recuperação ambiental.
Amarantina — Cortes antigos e drenagem deficitária

Diversos pontos apresentam risco de instabilidade por falta de canalização adequada.
Santa Rita e Rodrigo Silva — Encostas urbanizadas sem contenção

Aqui, taludes verticais e cortes antigos representam risco para residências próximas.
Miguel Burnier — Instabilidade agravada por atividades minerárias
Descontinuidades no terreno e vibrações associadas à mineração demandam monitoramento rigoroso.
A síntese cartográfica do risco
O PMRR reúne mapas fundamentais para entender a geodinâmica urbana de Ouro Preto.

As cartas demonstram:
- grande abrangência de áreas suscetíveis;
- estreita relação entre densidade populacional e risco;
- forte influência dos padrões de drenagem urbana.
O que o PMRR propõe: ações estruturais e não estruturais
Obras estruturais
Entre as recomendações estão:
- drenagem superficial e profunda;
- retaludamento;
- muros de contenção;
- obras de estabilização;
- desmonte de blocos.
O plano hierarquiza prioridades usando três critérios: probabilidade, porte do setor e custo-benefício. Essa matriz gera 27 categorias de urgência.
Ações não estruturais
Incluem:
- formação de NUPDECs;
- planos de contingência;
- educação comunitária;
- campanhas permanentes sobre risco;
- materiais educativos (3 mil panfletos);
- criação de política municipal de gerenciamento de riscos.
Capacitação técnica
Servidores passaram por curso com aulas teóricas e práticas, reforçando a autonomia municipal no monitoramento.
Prefeitura afirma executar ações contínuas de prevenção
Em nota enviada à reportagem, a Prefeitura de Ouro Preto informou que tem adotado medidas permanentes para cumprir as diretrizes do Plano Municipal de Redução de Riscos e reduzir os impactos do período chuvoso, especialmente em áreas historicamente vulneráveis a alagamentos e deslizamentos.
Segundo o Executivo municipal, entre as ações em andamento estão a limpeza sistemática de bueiros, manutenção e ampliação de redes de drenagem, além da execução de novas obras de contenção e drenagem em ruas da sede e dos distritos. A administração também cita a realização de operações tapa-buraco, manutenção de calçamentos, limpeza de vias e espaços públicos, patrolamento de estradas vicinais e desassoreamento de cursos d’água.
A Prefeitura destaca ainda a atuação contínua da Defesa Civil Municipal, que realiza vistorias técnicas, monitoramento das áreas de risco e acompanha a evolução de encostas durante o período chuvoso. De acordo com o órgão, as ações preventivas incluem também campanhas educativas realizadas ao longo de todo o ano, com foco na conscientização da população sobre convivência segura com áreas de risco, tanto em pontos estratégicos da cidade quanto nas escolas da rede municipal.
As ações, segundo a administração, buscam mitigar os efeitos imediatos das chuvas e dialogam com as diretrizes do PMRR, que prevê intervenções estruturais e não estruturais como parte de uma política permanente de gerenciamento de riscos.
Documentos nos quais a matéria foi baseada estão disponíveis aqui.
Glossário – Entenda os termos do Plano Municipal de Redução de Riscos
Área de risco
Local onde há possibilidade significativa de ocorrência de deslizamentos, quedas de blocos, erosões ou alagamentos, com potencial de causar danos a pessoas, imóveis ou infraestrutura urbana.
PMRR – Plano Municipal de Redução de Riscos
Documento técnico que identifica, mapeia e classifica áreas de risco no município, além de propor obras, ações preventivas e estratégias de gestão para reduzir danos e salvar vidas.
Movimentos de massa
Processos naturais ou induzidos que envolvem o deslocamento de solo, rochas ou detritos encosta abaixo, como deslizamentos, quedas de blocos, rastejos e desabamentos.
Deslizamento translacional
Tipo de deslizamento em que o solo se movimenta de forma relativamente plana sobre uma superfície de ruptura, comum em encostas íngremes e durante períodos de chuva intensa.
Deslizamento rotacional
Movimento de massa em que o solo desliza em forma curva, geralmente associado a cortes mal executados e à saturação do terreno.
Queda ou rolamento de blocos
Desprendimento de fragmentos rochosos que se soltam da encosta e rolam ou caem livremente, oferecendo alto risco imediato a áreas urbanizadas.
Rastejo
Movimento lento e contínuo do solo, quase imperceptível, que pode provocar trincas em casas, muros e vias ao longo do tempo.
Erosão linear
Desgaste progressivo do solo causado pelo escoamento da água da chuva, formando sulcos que podem evoluir para ravinas ou voçorocas.
Voçoroca
Forma avançada de erosão, caracterizada por grandes valas profundas e instáveis, que podem se expandir rapidamente durante chuvas intensas.
Talude
Superfície inclinada de uma encosta natural ou artificial. Taludes muito íngremes ou sem proteção adequada apresentam maior risco de instabilidade.
Retaludamento
Técnica de engenharia que reduz a inclinação de um talude para aumentar sua estabilidade.
Drenagem superficial
Sistema de canaletas, escadas d’água e dispositivos que conduzem a água da chuva pela superfície, evitando infiltração excessiva no solo.
Drenagem profunda
Sistema subterrâneo que remove a água acumulada no interior do solo, reduzindo a pressão e o risco de ruptura.
Muros de contenção
Estruturas construídas para segurar o solo e evitar deslizamentos em áreas urbanas.
Setor de risco
Trecho específico do território classificado pelo PMRR de acordo com o grau de risco e o número de moradias ameaçadas.
Classificação de risco (R1 a R4)
Escala usada no PMRR:
- R1 – risco baixo
- R2 – risco médio
- R3 – risco alto
- R4 – risco muito alto
NUPDEC – Núcleo Comunitário de Proteção e Defesa Civil
Grupo formado por moradores capacitados para atuar na prevenção, monitoramento e resposta a situações de risco em suas comunidades.
Ações estruturais
Intervenções físicas e obras de engenharia, como contenções, drenagens e estabilização de encostas.
Ações não estruturais
Medidas educativas, de planejamento e gestão, como capacitação técnica, campanhas de conscientização, planos de contingência e organização comunitária.