Sob o manto do Rosário: o Reinado que nasceu na APAE

Em Ouro Preto, o Congado de Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Graças prepara mais uma edição de
Foto de Jiljana Isidoro

Jiljana Isidoro

Foto: Ane Souz

Entre os dias 30 de outubro e 9 de novembro, o bairro Bauxita vive dias de fé e tambor com o Reinado de Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Graças, promovido pelo Congado de Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Graças — grupo que nasceu na APAE de Ouro Preto e mantém ali sua sede afetiva e espiritual.

A novena, que se encerra nesta sexta-feira (7), vem sendo rezada em homenagem às duas santas que inspiram o terno desde sua criação, há mais de vinte anos.

Neste sábado (8), às 18h, a capitã Silvania Santos e sua guarda conduzem a recitação do terço, o levantamento dos mastros e o momento de louvor, abrindo a parte festiva do Reinado.


No domingo (9), o dia amanhece em ritmo de devoção: às 7h, chegada das guardas e café da manhã; às 9h, procissão para buscar as imagens de Nossa Senhora; às 11h, celebração com o diácono Fábio; e às 12h30, o almoço comunitário. À tarde, haverá entrega de lembranças, apresentações das guardas visitantes e, às 15h, o descimento dos mastros, encerrando o ciclo com cânticos e emoção.

A festa conta com apoio da APAE de Ouro Preto, da Prefeitura Municipal, da Paróquia Cristo Rei e da Comissão Ouro-pretana de Folclore — parcerias que fortalecem o propósito de fé, inclusão e tradição que marcam o grupo.

O lema, que ecoa nas vozes e nos passos dos congadeiros, sintetiza o sentimento que move a celebração:
“Oh mamãe, não deixe seu filho chorar, oh não deixe a coroa cair, oh não deixe essa festa acabar!”

Nascimento do Congado

Foto: Ane Souz

A história dessa guarda começou em agosto de 2002, durante a Semana do Excepcional na APAE. A professora Silvania Santos, movida por uma lembrança de infância, propôs uma apresentação de Congado. Convidou colegas e buscou orientação de mestres da tradição — Toninho, capitão do Congado de Nossa Senhora do Rosário e São Cristóvão; seu Jesus, da Folia de Reis do Padre Faria; e José Lourenço, antigo dançante.
“Chegou o dia da apresentação e foi um sucesso. Ali nasceu o Congado de Nossa Senhora das Graças”, recorda Silvania.

Os convites se multiplicaram, e em 2006 veio o divisor de águas. “A professora e historiadora Solange Palazzi nos deu um ultimato: deixaríamos de ser parafolclóricos e assumiríamos nossa condição de Congado. Não pensei duas vezes e aceitei o chamado de Nossa Senhora do Rosário”, conta.

Desde então, o grupo passou a servir ao Reinado do Rosário e das Graças, integrando a rede de ternos da cidade.

Fé e inclusão

Silvania é firme ao falar de pertencimento:
“Dentro da nossa guarda não tem PCD — tem congadeiro. Somos conhecidos, reconhecidos e aceitos em Minas inteira.”

A formação atual reúne família e comunidade: sete congadeiros com deficiência, além de filhos, netos e vizinhos. A entrada se dá pelo compromisso: “Basta demonstrar interesse. Conversamos sobre respeito e devoção. Deus e a Mãe do Rosário são o mais importante. As decisões — entrada, saída, quebra de regras — são tomadas em conjunto.”

Para a capitã, o sucesso da festa está em “receber bem as guardas, contagiar no louvor e derramar graças sobre todos.”

Ensaio é encontro

Os ensaios deixaram de ter local fixo. “A maioria das vezes é na minha casa. Quando viajamos, todos dormem lá e vira um grande ensaio. Também ensaiamos quando nos encontramos — na escola, nas vans. Graças a Deus, estamos sempre juntos.”

A Comissão Ouro-pretana de Folclore (COF) colabora com oficinas, e os reinados visitados são verdadeiras escolas vivas. “Aprendemos danças, músicas — nosso toque não muda — e a etiqueta diante de reis e rainhas.”

Memória e continuidade

Foto: Ane Souz

O grupo mantém um portfólio, página no Facebook e perfil no Instagram, administrados por familiares e amigos. “As roupas, cada um cuida das suas. O estandarte eu guardo, e na véspera a professora da APAE que pintou nossa primeira bandeira retoca e deixa bonito para o grande dia.”

Silvania resume com afeto o elo entre o Congado e a instituição que o viu nascer:
“Deixamos de ser Congado da APAE, mas a APAE é a sede do Congado. Foi lá que ele foi idealizado, nasceu e se tornou o que é hoje. Vejo o Congado como um filho que sai e volta para o colo da mãe — e a APAE é a casa da mãe.”

Um reinado de fé

De acordo com o Dossiê de Registro da Festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, elaborado pela Prefeitura de Ouro Preto, o Reinado contemporâneo foi retomado em 2009 e registrado como patrimônio cultural imaterial em 2019.  É nessa rede de guardas, danças e rezas que o Congado da APAE se insere, mantendo viva a herança afrocatólica e o espírito comunitário do Rosário.

Neste novembro, quando o som dos tambores ecoar pela Bauxita, Ouro Preto verá mais que uma festa: verá a prova de que a fé e a inclusão dançam juntas — e que o Congado que nasceu na APAE continua ensinando que tradição é amor em movimento.

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