Há 234 anos, em 21 de abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier era enforcado no Rio de Janeiro. Tiradentes, como ficou conhecido, liderava a Inconfidência Mineira — movimento articulado em Vila Rica, nome colonial de Ouro Preto, que buscava a independência do Brasil do domínio português. Não chegou a ver o levante acontecer. A conjuração foi delatada em 1789, os envolvidos foram presos e julgados, e Tiradentes, escolhido como bode expiatório, foi o único condenado à morte. Sua cabeça foi exposta em poste na Praça Tiradentes — a mesma onde, todos os anos desde 1952, Minas Gerais realiza sua maior cerimônia cívica.
Nesta terça-feira, 21 de abril de 2026, Ouro Preto recebe pela 74ª vez a entrega da Medalha da Inconfidência. A honraria é a maior do estado — e uma das poucas no Brasil que mantém sem interrupção um rito criado pelo então governador Juscelino Kubitschek, que em 1952 quis transformar a data em um momento formal de reconhecimento público. A cerimônia começa às 9h na Praça Tiradentes, com ato cívico-militar dos Dragões da Inconfidência, hasteamento da bandeira e salva de 21 tiros. Em seguida, às 10h, as medalhas são entregues no Centro de Artes e Convenções da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
Para o prefeito Angelo Oswaldo, que integra o Conselho Permanente da Medalha, o 21 de abril transforma Ouro Preto em algo que ela já foi de verdade. “É uma verdadeira romaria cívica”, disse, ao chamar atenção para a presença de autoridades e visitantes que chegam à cidade com um compromisso cívico e democrático. “Um momento de reflexão sobre o nosso papel da história, sobre o sentido de uma cidade monumento.” Ouro Preto foi declarada monumento nacional em 1933 e Patrimônio Mundial da UNESCO em 1980 — as duas maiores proteções que um sítio histórico pode receber no Brasil e no mundo.
Nesta edição, 171 pessoas e instituições serão agraciadas em quatro categorias: Grande Colar, Grande Medalha, Medalha de Honra e Medalha da Inconfidência. A cerimônia é conduzida pelo governador Mateus Simões (PSD), que assumiu o cargo em março após a renúncia de Romeu Zema para disputar a presidência da República. Entre os destaques da Grande Medalha estão o ministro do STF André Mendonça, os senadores Rogério Marinho e Carlos Viana, a atriz Débora Falabella, o músico Samuel Rosa, a cantora Paula Fernandes e o atacante do Atlético Mineiro, Hulk. O reitor da UFOP, Luciano Campos da Silva, também está entre os agraciados — uma das indicações que o prefeito de Ouro Preto tem direito a fazer como membro do conselho.
A maior honraria da cerimônia, o Grande Colar, é prerrogativa do governador e vai neste ano para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A escolha gerou reação do prefeito Angelo Oswaldo, que não citou nomes mas foi direto: “O governador escolheu um outro governador. Parece que se parecem. Então que eles se entendam bem.” Oswaldo disse discordar de parte dos agraciados, mas reconheceu que a cerimônia não tem como produzir unanimidade. “Isso faz parte. Nós temos que compreender o mecanismo que funciona na Medalha da Inconfidência e saber quem é quem.”
O prefeito fez cinco indicações para esta edição. Ele conseguiu incluir o cargo de prefeito de Ouro Preto no Conselho Permanente durante o período em que foi secretário de Estado da Cultura — justamente para que pessoas ligadas à cidade pudessem ser reconhecidas pela honraria que acontece dentro de suas fronteiras.
A cerimônia deste ano coincide com dois outros anúncios relevantes para o Museu da Inconfidência: o presidente Lula enviou ao Congresso um projeto de lei para elevar a instituição à categoria de Museu Nacional, e foi anunciada uma parceria entre o mandato do deputado estadual Leleco Pimentel e a Prefeitura de Ouro Preto para a conservação do Panteão dos Heróis da Inconfidência. A véspera do feriado também reuniu visitas importantes à cidade, entre elas a da ex-prefeita de Contagem e pré-candidata ao Senado Marília Campos, que percorreu o Museu da Inconfidência e a Casa de Gonzaga ao lado do prefeito Angelo Oswaldo.