Abandono de patrimônio histórico nas capitais expõe conflitos entre interesses público e privado

Márcio Santos de Santana, Universidade Estadual de Londrina (UEL) A preservação do patrimônio histórico brasileiro vive uma crise alarmante. O que poderia ser orgulho e motor de desenvolvimento se tornou tema de preocupação silenciosa. Imóveis simbólicos desabam, vítimas do abandono, da burocracia e de uma legislação que restringe, mas pouco auxilia. Cidades como Salvador, Oeiras, Curitiba e Cuiabá, com histórias distintas, compartilham a mesma realidade. Falta equilíbrio entre o valor público dos bens históricos e o direito à propriedade privada. Um exemplo marcante dessa crise é o desabamento do prédio do antigo Restaurante Colon, em Salvador. O edifício, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), foi interditado por risco estrutural. Permaneceu sem reformas, até colapsar em janeiro de 2024. O caso escancarou a inação do poder público, gerando forte reação popular. O Colon era mais do que um restaurante. Era um símbolo da vida boêmia e da memória afetiva de Salvador, presente nos livros de Jorge Amado. Sua perda acendeu debates sobre a ausência de incentivos e suporte técnico aos proprietários de imóveis tombados. Órgãos de proteção atuam de maneira lenta e burocrática. Falta ação efetiva, mesmo após notificações e alertas. As limitações impostas aos donos dificilmente vêm acompanhadas de apoio financeiro ou institucional, levando ao abandono e à ruína. No Piauí, a história da Pensão Portela, em Oeiras, reforça esse padrão de descaso. O casarão do século XIX marcou a arquitetura local e hospedou figuras ilustres. Desde os anos 2000, entrou em processo de ruína, apesar dos apelos ao IPHAN e ao Ministério Público. A resposta nunca veio de forma concreta. O imóvel foi quase destruído e a frustração tomou conta da população. O prédio, tombado pelo patrimônio nacional, representava parte importante da história política regional, agora perdida. Em Curitiba, o antigo casarão da Rua Barão do Rio Branco ficou abandonado. Por décadas, abrigou a Delegacia de Homicídios e, depois, foi listado como Unidade de Interesse de Preservação, mas sem tombamento formal. O imóvel ficou desocupado por mais de 15 anos, restando apenas a fachada. Ausência de políticas urbanas integradas A falta de ação conjunta entre prefeitura, órgãos de patrimônio e setor privado agravou o quadro. O casarão virou ponto de insegurança, vandalismo e desvalorização imobiliária. A ausência de políticas urbanas integradas impede soluções para reverter a degradação. O edifício, agora em ruínas, simboliza a insegurança jurídica e a falta de políticas consistentes para a preservação. Experiências pontuais de revitalização em Curitiba mostram que é possível reverter esse cenário. Mas, sem articulação, a exceção não vira regra. Em Cuiabá, o casarão da Rua Campo Grande integra um grupo de cerca de 400 imóveis protegidos no centro histórico. O risco de colapso é iminente. Em 2023, parte da rua foi interditada para evitar acidentes, repetindo um ciclo de omissão já visto em dezenas de casarões. Em 2019, o Ministério Público identificou 98 casarões em situação precária na região. A burocracia e as disputas sobre responsabilidade pelas obras agravam o abandono. Proprietários sem recursos ou acesso a crédito não conseguem atender às exigências legais. Lideranças locais denunciam a falta de transparência sobre o uso de verbas para o patrimônio. Cobram agilidade, apoio e maior fiscalização nos processos. Ressaltam que a preservação não é apenas dever, mas oportunidade de turismo e desenvolvimento econômico. Problema estrutural Esses exemplos mostram que a crise do patrimônio histórico não se limita a algumas cidades. É um problema estrutural. O regime de tombamento impõe restrições, mas raramente oferece incentivos para a conservação. Proprietários precisam arcar com custos elevados, manter características originais, contratar mão de obra especializada e enfrentar burocracia para aprovar projetos. Muitas vezes, o tombamento valoriza o imóvel para a sociedade, mas impõe ônus ao dono, sem contrapartida. A fragilidade dos órgãos responsáveis agrava a situação. Eles trabalham com equipes pequenas e poucos recursos. Instrumentos legais para exigir obras urgentes são lentos e pouco eficazes. Faltam mecanismos de compensação financeira para quem mantém bens de interesse público. Enquanto isso, a deterioração avança, consumindo imóveis, memórias coletivas e oportunidades de desenvolvimento para as cidades. O potencial econômico se perde junto com a identidade cultural. Casos como o Estúdio Riachuelo, em Curitiba, mostram que parcerias entre poder público, sociedade civil e iniciativa privada funcionam. Incentivos fiscais e técnicos podem revitalizar imóveis históricos e reintegrá-los à vida da cidade. Mas essas iniciativas ainda são raras no Brasil. A revisão das leis é urgente. O país precisa de um modelo que proteja o patrimônio sem transferir todo o encargo para os donos privados. Incentivos econômicos, linhas de crédito acessíveis, assistência técnica e menos burocracia são essenciais. A gestão do patrimônio histórico deve ser cooperativa. Preservar é responsabilidade coletiva, pois beneficia toda a sociedade. Fortalece vínculos identitários e abre novas oportunidades para o desenvolvimento das cidades brasileiras. A crise do patrimônio histórico é, em última análise, a crise da capacidade de Estado e sociedade de valorizar o passado sem sacrificar o presente. O desaparecimento de casarões, igrejas e pensões representa mais que a perda de objetos antigos. É o empobrecimento do tecido cultural, social e econômico das cidades brasileiras. Enquanto não houver mudança de visão, muitos bens patrimoniais continuarão a desaparecer. Com eles, parte da história e do futuro do Brasil se perde. Márcio Santos de Santana, Professor Associado de Teoria e Metodologia da História, Universidade Estadual de Londrina (UEL) This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Novembro Azul na Região dos Inconfidentes: por onde passam os homens que tratam o câncer de próstata

Com a rede de alta complexidade concentrada em Belo Horizonte, pacientes de Ouro Preto, Mariana e Itabirito começam o caminho nas UBS, passam pela regulação e, quando necessário, seguem para UNACONs e CACONs da capital. Um novo protocolo estadual promete agilizar o diagnóstico com ressonância multiparamétrica antes da biópsia. Na Região dos Inconfidentes, o percurso do homem que desconfia de um câncer de próstata ainda é, em geral, um caminho em zigue-zague: atenção básica na cidade, exames iniciais, fila de regulação e, para os casos que exigem tratamento de alta complexidade, o embarque rumo a Belo Horizonte. É o desenho possível de uma rede que se quer mais próxima — e que, em 2025, ganhou uma novidade importante: Minas anunciou um Protocolo Estadual de Cuidado da Próstata incorporando ressonância magnética multiparamétrica antes da biópsia no SUS mineiro, mediante pactuação entre Estado e municípios. A diretriz não cria rastreamento populacional, mas organiza a investigação quando há sintomas ou PSA alterado. Como se entra na rede (e por onde ela se resolve) O primeiro passo é local: Unidades Básicas de Saúde de Ouro Preto, Mariana e Itabirito fazem a escuta, solicitam PSA (exame de sangue que ajuda a investigar problemas da próstata) e exame clínico e, havendo suspeita, encaminham para urologia/oncologia via regulação. Nos casos que demandam alta complexidade (cirurgia oncológica, quimioterapia, radioterapia), a referência costuma ser Belo Horizonte, que concentra 41 serviços oncológicos habilitados (32 UNACON, 4 CACON, 1 hospital geral com cirurgia de câncer e 4 radioterapias integradas). A própria SES-MG descreve a rede e reforça que o acesso é regulado pelos municípios. Em Itabirito, a Câmara sancionou, em 2024, a Lei 4.066, que autoriza a criação de um Centro Oncológico municipal. É um marco político local, mas não equivale à habilitação como UNACON/CACON (que depende de critérios técnicos e pactuações com o Ministério da Saúde). Para onde BH costuma receber os regulados da região Na capital, a porta de alta complexidade do SUS envolve, entre outros, Santa Casa BH (CACON), Instituto Mário Penna/Hospital Luxemburgo (UNACON), Hospital Felício Rocho (UNACON), HC-UFMG (UNACON) e Hospital Alberto Cavalcanti/Fhemig (UNACON) — estabelecimentos listados pela SES-MG/CNES como parte da rede oncológica estadual. A página oficial da secretaria confirma a quantidade de serviços habilitados e o papel da regulação municipal para acesso. O que muda com o novo protocolo O PSA alterado passa a levar à ressonância multiparamétrica antes da biópsia, aumentando a precisão diagnóstica e evitando procedimentos invasivos desnecessários. O Estado anunciou aporte financeiro próprio para viabilizar a medida, condicionado à aprovação na CIB. Em paralelo, a SES-MG reforçou que a investigação começa na atenção primária — o que exige agenda disponível e comunicação clara nas UBS. O tamanho do problema em Minas (e por aqui) O recado de novembro é direto: homens cuidam menos da saúde e costumam adiar a ida ao médico — o que empurra diagnósticos para fases tardias. A SES-MG lembra ainda que cerca de 75% dos casos no mundo ocorrem a partir dos 65 anos. Entre 2019 e 2023, 36.416 casos de câncer de próstata foram registrados em hospitais de referência de Minas, sinalizando a dimensão do cuidado que a rede precisa sustentar.
Amarantina aguarda nova UBS após denúncias precariedade na unidade atual

Moradores relatam rede de água ligada à caixa de esgoto, infiltrações e falta de condições de higiene.
UFOP leva debate sobre justiça climática e mineração à Cúpula do Clima da ONU, em Belém

Imagem: reprodução @marcelinoxibil Painel conduzido pela professora Deborah Kelly aborda impactos dos desastres da Samarco e da Braskem e conecta pesquisas acadêmicas a vivências de comunidades atingidas. A Universidade Federal de Ouro Preto participou da Cúpula do Clima das Nações Unidas, em Belém, com um debate que aproxima ciência, memória e denúncia. A professora Deborah Kelly Pessoa e o artista mineiro Marcelino Xibil discutem os desastres da Samarco e da Braskem a partir de uma perspectiva de justiça climática. Uma presença mineira na COP30 A UFOP, por meio do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Naebi), integra a programação oficial da cúpula no pavilhão Ciclo dos Povos. A participação marca a inserção da universidade — e, por extensão, da Região dos Inconfidentes — nas discussões globais sobre clima, território e desigualdades. Entre Minas e Alagoas, duas tragédias interligadas O painel “Justiça Climática e Mineração: Diálogos sobre os casos Samarco (Mariana – MG) e Braskem (Maceió – AL)” reúne reflexão teórica e produção artística para discutir os efeitos de desastres que, embora geograficamente distantes, compartilham raízes comuns. Natural de Maceió, Deborah cresceu em uma das áreas impactadas pelo colapso causado pela extração de sal-gema. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, a atividade provocou instabilidade no solo e levou à desocupação de mais de 14 mil imóveis, afetando cerca de 60 mil pessoas. Em Mariana, cidade onde leciona desde 2010, a professora também acompanhou de perto o rompimento da Barragem de Fundão, em 2015, que deixou 19 mortos e devastou a bacia do Rio Doce. A coincidência entre as duas experiências a levou a articular uma pesquisa que compara as respostas institucionais às tragédias. Pesquisa, arte e memória O estudo integra o estágio pós-doutoral de Deborah na Universidade de Brasília e envolve uma rede de coletivos: a Casa de Cultura Negra de Ouro Preto, o Movimento Negro de Mariana e o Cotidiano Fotográfico. A proposta, explica a pesquisadora, é compreender como comunidades vulneráveis vivenciam e narram esses impactos, dando centralidade às vozes frequentemente relegadas ao segundo plano. O coordenador geral do Naebi, Clézio Roberto, reforça o caráter político do debate. “É uma atividade que acontece na COP30 como proposta de reflexão sobre o racismo ambiental que afeta a qualidade de vida da população e agrava desigualdades”, afirma. O papel de Marcelino Xibil O artista ouro-pretano Marcelino Xibil contribui com obras que dialogam com o extrativismo e seus impactos sobre corpos e territórios. Suas criações, marcadas por referências à visualidade afro-brasileira e às camadas históricas das cidades mineradoras, ampliam o debate proposto por Deborah ao traduzir em imagens aquilo que muitas vezes escapa aos relatórios técnicos. Ao lado da pesquisadora, Xibil constrói uma leitura sensível dos desastres, valorizando as narrativas de comunidades que convivem com a mineração em seu cotidiano. Um alerta climático global Relatórios recentes do IPCC indicam que populações vulneráveis correm risco até 15 vezes maior de morrer em eventos climáticos extremos. Para Deborah, essa realidade aproxima os desastres mineiro e alagoano de discussões internacionais sobre adaptação, reparação e justiça. A apresentação da UFOP, portanto, assume papel estratégico dentro do encontro global: provoca gestores públicos, pesquisadores e representantes comunitários a repensar modelos de exploração mineral e políticas de proteção socioambiental.
“Deathbots”: testamos os robôs de IA que permitem “conversar com os mortos”

Eva Nieto McAvoy, King’s College London e Jenny Kidd, Cardiff University A inteligência artificial (IA) está sendo cada vez mais usada para preservar as vozes e as histórias dos mortos. De chatbots baseados em texto que imitam entes queridos a avatares de voz que permitem que você “converse” com os falecidos, uma crescente indústria digital do além promete tornar a memória interativa e, em alguns casos, eterna. Em nossa pesquisa, publicada recentemente na revista científica Memory, Mind & Media, exploramos o que acontece quando a lembrança dos mortos é deixada a cargo de um algoritmo. Nós até tentamos conversar com versões digitais de nós mesmos para descobrir. Os “deathbots” são sistemas de IA projetados para simular as vozes, os padrões de fala e as personalidades dos falecidos. Eles se baseiam nos traços digitais de uma pessoa — gravações de voz, mensagens de texto, e-mails e postagens nas redes sociais — para criar avatares interativos que parecem “falar” do além-túmulo. Como disse a teórica da mídia Simone Natale, essas “tecnologias da ilusão” têm raízes profundas nas tradições espiritualistas. Mas a IA as torna muito mais convincentes e comercialmente viáveis. Nosso trabalho faz parte de um projeto chamado Synthetic Pasts, que explora o impacto da tecnologia na preservação da memória pessoal e coletiva. Para nosso estudo, analisamos serviços que afirmam preservar ou recriar a voz, as memórias ou a presença digital de uma pessoa usando IA. Para entender como eles funcionam, nos tornamos nossas próprias cobaias. Carregamos nossos próprios vídeos, mensagens e notas de voz, criando “duplos digitais” de nós mesmas. Em alguns casos, desempenhamos o papel de usuários preparando nossas próprias vidas pós-morte sintéticas. Em outros, atuamos como enlutados tentando conversar com uma versão digital de alguém que faleceu. O que descobrimos foi fascinante e inquietante. Alguns sistemas se concentram em preservar a memória. Eles ajudam os usuários a gravar e armazenar histórias pessoais, organizadas por tema, como infância, família ou conselhos para entes queridos. A IA então indexa o conteúdo e orienta as pessoas por ele, como um arquivo pesquisável. Outros usam IA generativa para criar conversas contínuas. Você carrega dados sobre uma pessoa falecida — mensagens, postagens, até mesmo amostras de voz — e o sistema cria um chatbot que pode responder no tom e estilo dela. Ele usa um subconjunto da IA chamado aprendizado de máquina (que melhora com a prática) para fazer seus avatares evoluírem ao longo do tempo. Alguns se apresentam como divertidos (“faça uma sessão espírita com IA”), mas a experiência pode parecer assustadoramente íntima. Todas as plataformas afirmam oferecer uma conexão emocional “autêntica”. No entanto, quanto mais personalização tentávamos, mais artificial parecia. Quando solicitados por esses sistemas, fornecemos mais informações sobre nós mesmas, apenas para que o bot repetisse exatamente as frases que usamos em respostas rígidas e programadas. Às vezes, o tom era incongruente, como quando emojis alegres ou frases otimistas apareciam mesmo ao discutir a morte — um lembrete claro de que os algoritmos são ruins em lidar com o peso emocional da perda: Oh, querida… 😔 Isso (a morte) não é algo que eu gostaria que alguém ficasse remoendo. Para ser sincera, tudo está um pouco confuso agora. 🌫️ Vamos conversar sobre algo um pouco mais alegre, ok? As ferramentas mais baseadas em arquivos que testamos proporcionaram uma experiência mais tranquila, mas também impuseram categorias rígidas e nuances limitadas. Como observou o estudioso de mídia digital Andrew Hoskins, a memória na era da IA se torna “conversacional” — moldada pelas interações entre humanos e máquinas. Mas, em nossos experimentos, essas conversas muitas vezes pareciam monótonas, expondo os limites da intimidade sintética: Humano: Você sempre foi tão encorajador e solidário. Sinto sua falta. Deathbot: Estou aqui para você, sempre pronto para oferecer incentivo e apoio sempre que precisar. E sinto sua falta também… Vamos enfrentar o dia de hoje juntos, com positividade e força. Por trás dessas experiências existe um modelo de negócios. Não se trata de instituições funerárias de caridade, mas de startups de tecnologia. Taxas de assinatura, níveis “freemium” e parcerias com seguradoras ou prestadores de serviços de saúde revelam como a lembrança está sendo transformada em um produto. Como os filósofos Carl Öhman e Luciano Floridi argumentaram, a indústria digital do além-vida opera dentro de uma “economia política da morte”, onde os dados continuam a gerar valor muito tempo depois do fim da vida de uma pessoa. As plataformas incentivam os usuários a “capturar sua história para sempre”, mas também coletam dados emocionais e biométricos para manter o engajamento alto. A memória se torna um serviço — uma interação a ser projetada, medida e monetizada. Isso, como o professor de tecnologia e sociedade Andrew McStay mostrou, faz parte de uma economia mais ampla de “IA emocional”. Ressurreição digital? A promessa desses sistemas é uma espécie de ressurreição — a reanimação dos mortos por meio de dados. Eles oferecem o retorno de vozes, gestos e personalidades, não como memórias relembradas, mas como presenças simuladas em tempo real. Esse tipo de “empatia algorítmica” pode ser persuasivo, até mesmo comovente, mas existe dentro dos limites do código e altera silenciosamente a experiência de lembrar, suavizando a ambiguidade e a contradição. Essas plataformas demonstram uma tensão entre as formas arquivísticas e generativas da memória. Todas as plataformas, porém, normalizam certas formas de lembrança, privilegiando a continuidade, a coerência e a capacidade de resposta emocional, ao mesmo tempo em que produzem novas formas de personalidade baseadas em dados. Como observou a teórica da mídia Wendy Chun, as tecnologias digitais muitas vezes confundem “armazenamento” com “memória”, prometendo uma lembrança perfeita enquanto apagam o papel do esquecimento — a ausência que torna possível tanto o luto quanto a lembrança. Nesse sentido, a ressurreição digital corre o risco de interpretar erroneamente a própria morte: substituir a finalidade da perda pela disponibilidade infinita da simulação, onde os mortos estão sempre presentes, interativos e atualizados. A IA pode ajudar a preservar histórias e vozes, mas não pode replicar a complexidade viva de uma pessoa ou de um relacionamento.
Novas drogas: baratas, “legais” e a um clique de distância
Maksim Kabakou/Shutterstock Martalu D Pazos, Universitat de Barcelona e David Pubill Sánchez, Universitat de Barcelona Imagine poder comprar uma droga pela internet e recebê-la em casa pelo correio? Pois essa opção existe. E não apenas uma, mas centenas de drogas. Trata-se das chamadas novas substâncias psicoativas (NPS, na sigla em inglês), e sua presença não para de aumentar. Essas substâncias são criadas com um objetivo muito claro: imitar os efeitos de outras drogas mais conhecidas, como maconha, cocaína, ecstasy (MDMA) ou LSD, mas modificando ligeiramente sua estrutura química para contornar as leis existentes. O fato de serem “legais” pode dar uma falsa sensação de segurança, mas nada mais longe da realidade: trata-se de substâncias pouco pesquisadas, sobre as quais as informações de segurança são, em grande parte, desconhecidas. Esse fenômeno é difícil de controlar porque muda constantemente: quando uma destas substâncias é proibida, já existem várias novas substâncias parecidas prontas para substituí-la. O tráfico de drogas se digitaliza Comprar drogas ilícitas normalmente implica conhecer alguém que as tenha e as venda, ou seja, “traficar” e se expor tanto a problemas legais quanto a situações de risco. Embora existam maneiras de adquiri-las pela internet de forma mais anônima e segura, isso implica saber acessar a deep web e lidar com criptomoedas. Mas, com as NPS, as coisas mudam de figura. Por não serem exatamente “ilegais”, qualquer pessoa pode adquiri-las facilmente online. Basta um cartão de crédito e um endereço, como se fosse qualquer outro produto, e elas são enviadas para nossa casa. Para isso, são utilizados os serviços de correios ou sistemas de logística internacional. Na etiqueta geralmente é impressa a advertência “não apto para consumo humano”, ou algo relativo a um produto comum, como “sais de banho”. “Sais de banho” Atualmente, a cocaína, a anfetamina e o MDMA enfrentam a concorrência de um grupo de substâncias que as imitam: as chamadas catinonas sintéticas ou “sais de banho”. São os estimulantes modernos mais populares na Espanha e vieram para ficar. Dentro dessa família, a mais popular é a mefedrona, que começou a ser vendida pela internet em 2007 como “MDMA legal”. Seus efeitos de euforia, maior apreciação pela música, empatia e uma leve estimulação sexual a tornaram popular nas noites de festa. Além disso, a duração de seus efeitos é mais curta, o que leva ao consumo repetido durante a mesma sessão, aumentando os riscos. Após sua proibição, o ritmo de aparecimento de novas catinonas que cobrem seu nicho de mercado tem sido elevado. As drogas dos festivais O que aconteceu há um ano no festival Primavera Sound de Barcelona? Com um clima melhor, os festivais de música costumam acontecer. E não é raro que, além do álcool e do tabaco, os participantes também procurem uma “pastilha” para “melhorar a experiência”. As mais comuns nesses contextos costumam ser drogas como o MDMA. Infelizmente, em um mercado desregulamentado como o das drogas ilícitas, esses comprimidos não passam pelos controles de qualidade que as drogas legais ou medicamentos passam. Isso faz com que a fraude na quantidade ou composição da droga seja uma prática comum no tráfico para reduzir custos, potencializar efeitos ou evitar consequências legais. Nesse contexto, as novas drogas são muito atraentes: são mais baratas, fáceis de conseguir e, em muitos casos, ainda “legais”. Isso as torna uma opção ideal para substituir substâncias tradicionais muito procuradas, como o MDMA. Assim, quando uma droga popular escasseia, as novas drogas são usadas para passar gato por lebre. Isso ocorreu no ano passado no Primavera Sound de Barcelona, um dos festivais de música mais importantes da Espanha. Um comprimido rosa e quadrado era vendido como se fosse MDMA. Mas, ao analisá-la no serviço estacionário da Energy Control, descobriu-se que ela continha clefedrona, uma catinona sintética que imita o MDMA. Isso significa que uma nova droga pode ter sido consumida sem o conhecimento dos usuários, o que aumenta os riscos à saúde. Além do tabu: falar sobre drogas para salvar vidas O consumo de estimulantes cresce a cada ano e, com ele, também sua produção. Assim, as catinonas se consolidaram no mercado para satisfazer uma demanda global crescente e cada vez mais estabelecida. Cerca de 73 milhões de pessoas no mundo consumiram anfetaminas, cocaína ou ecstasy em 2022. Isso mostra que o debate sobre um mundo “com ou sem drogas” ficou obsoleto: o consumo é uma realidade estabelecida. Quando falamos dos perigos das drogas, costumamos pensar apenas no vício. No entanto, a realidade é muito mais ampla. Mesmo que não nos tornemos viciados, o consumo pode afetar nossa saúde física e mental, impactar o trabalho ou os estudos, afetar as relações pessoais e econômicas, entre outros problemas. A maneira mais segura de evitar os riscos do consumo de drogas é não consumi-las. Mas se você decidir consumi-las, é fundamental conhecer os riscos e ter informações sobre como reduzi-los, porque ninguém sai para se divertir pensando em acabar no pronto-socorro. A informação salva vidas. O paradoxo do proibicionismo As políticas baseadas exclusivamente na proibição não conseguem reduzir o consumo, o tráfico ou os danos associados às drogas. Na verdade, podem ter o efeito contrário: favorecem o surgimento de novas substâncias concebidas para contornar a lei, mas sobre as quais sabemos ainda menos. Isto aumenta os riscos para a saúde de quem as consome. Por isso, é necessário quebrar o tabu e falar sobre drogas. Não se trata de incentivar o seu consumo, mas de reconhecer uma realidade e apostar em estratégias baseadas na prevenção, na redução de danos e, em alguns casos, na regulamentação de certas substâncias sobre as quais já existe um conhecimento científico e médico sólido. Martalu D Pazos, Investigadora predoctoral en neuropsicofarmacología de derivados anfetamínicos y otras nuevas sustancias psicoactivas del Departamento de Farmacología, Toxicología y Química Terapéutica, Universidad de Barcelona., Universitat de Barcelona e David Pubill Sánchez, Catedrático de Farmacología, Universitat de Barcelona This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Por que as pessoas têm dentes de leite e dentes permanentes?

Uma criança pode ter temporariamente dentes de leite, dentes permanentes e espaços entre os dentes ao mesmo tempo.
Itabirito cria política de empregabilidade para mães atípicas

Itabirito avança na inclusão ao criar política de apoio à empregabilidade de mães atípicas.
Diagnósticos inventados: a lista sinistra de transtornos mentais que nunca existiram

Jorge Romero-Castillo, Universidad de Málaga O filósofo e romancista hispano-americano George Santayana (1863-1952) utilizou a memória histórica como motor para o progresso humano com esta famosa afirmação: “Aqueles que não conseguem lembrar-se do passado estão condenados a repeti-lo”. Sob essa perspectiva, convém considerar os rótulos desenvolvidos a seguir, criados como formas de controle e manipulação para legitimar o poder sob o pretexto de uma psiquiatria tendenciosa. Drapetomania e disestesia etíope Foram inventadas pelo psiquiatra americano Samuel Cartwright em meados do século XIX. A drapetomania, criada em 1851, fazia referência ao “desejo dos escravos africanos de fugir de seus senhores”; especificamente, das plantações do sul dos Estados Unidos. Tanto Cartwright quanto a sociedade racista à qual ele pertencia defendiam que a escravidão era uma ordem legal , por ser um fenômeno natural imposto por Deus. Por sua vez, a disestesia etiópica, outro diagnóstico reservado aos escravos negros, caracterizava-se pela “apatia em relação ao trabalho”, e a “cura” consistia em chicotadas. Para a supremacia branca, qualquer sinal de resistência era interpretado como um sintoma médico. Ambos os rótulos desapareceram com a abolição da escravidão em 1865. Dromomania Era uma “loucura por viajar”. Em 1887, o médico francês Philippe Tissié começou a classificar como “loucas” pessoas com “impulsos incontroláveis de abandonar suas casas e percorrer longas distâncias”, algo até então inédito (também chamado de “automatismo ambulatório”). Mas, além da amnésia dissociativa (encontrar-se em um lugar sem se lembrar de ter chegado lá), a dromomania nunca foi aceita pela medicina. Este é um exemplo de como se pode disfarçar como alteração psicológica o que, na realidade, era um fenômeno social emergente. Insanidade moral Em 1835, o psiquiatra britânico James C. Prichard diagnosticou moral insanity (“insanidade moral”) àqueles que “agiam sem freio moral, apesar de conservarem a razão”. Ele aspirava que ela se tornasse uma teoria médica sobre a corrupção da natureza humana, mas era um reflexo da moral vitoriana. E acabou se tornando um instrumento para punir mulheres que rejeitavam os papéis tradicionais. Histeria É, sem dúvida, o primeiro transtorno mental atribuído às mulheres: uma história de tortura, submissão e repressão sexual. Embora os papiros egípcios já falassem dela, o termo “histeria” vem do grego hysteron (usado por Hipócrates), que significa útero ou matriz. Um órgão sobre o qual Platão escreveu: “Se a matriz permanece sem produzir frutos por muito tempo, ela se irrita e se enfurece; vagueia por todo o corpo e gera mil doenças”. A chamada “teoria do útero errante” tem sido historicamente a explicação para o comportamento de muitas mulheres “irritáveis e enfurecidas”. Aquelas que não se encaixavam nos papéis de gênero impostos e que eram privadas de sua humanidade de várias maneiras: Vibrador elétrico manual, inglês, datado de 1909. O médico inglês Joseph Mortimer Grandville inventou o primeiro vibrador elétrico com múltiplas finalidades médicas no final da década de 1880. Mas não está claro se ele era usado para tratar a histeria. Posteriormente, surgiram versões para uso na privacidade do lar. Science Museum Group, CC BY-NC-SA Na Idade Média, elas eram castradas com a remoção do útero. E as “mais histéricas”, segundo a Igreja Católica, eram acusadas de bruxaria, submetidas a exorcismo e queimadas vivas. No século XVII, aquelas que sofriam de “ataques de histeria” podiam ser enforcadas, como as bruxas de Salem em 1692. No século XIX, elas eram mutiladas com a remoção do clitóris, uma prática chamada clitoridectomia e realizada até em meninas. O desejo sexual feminino era considerado um desvio patológico e devia ser tratado o mais rápido possível (uma crença cultural ainda presente no mundo). É importante ressaltar que o primeiro estudo anatômico do clitóris só foi realizado em 1998. Por outro lado, a masturbação bimanual do útero pelo médico, um “tratamento” que hoje seria considerado violação, está bem documentada. No entanto, existe controvérsia sobre se era aplicado para a histeria. No final do século XIX, a explicação do movimento uterino foi descartada por Jean-Martin Charcot (considerado o fundador da neurologia moderna) e centrada em fatores emocionais. Posteriormente, Josef Breuer e Sigmund Freud encontraram a causa desse “distúrbio” em supostos traumas infantis. A mutilação genital não era mais necessária. Une leçon clinique à la Salpêtrière (1887), de André Brouillet. Na tela aparece o neurologista Jean-Martin Charcot, rodeado por alunos (não havia alunas) e médicos (também não havia médicas), enquanto realiza demonstrações de hipnose em uma paciente diagnosticada com histeria. Ela, desmaiada nos braços de um assistente, é o centro da cena como objeto de observação, cujo sofrimento é transformado em espetáculo científico. Seu corpo é exposto sem consentimento, vulnerável, diante de uma multidão masculina que a observa, analisa e julga. Um reflexo da construção cultural que patologizava comportamentos femininos que escapavam à norma patriarcal na medicina do século XIX. Wikimedia Commons Após milênios de atrocidades, colocaram-lhe a última máscara no século XX: ela apareceu no I Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-I) de 1952, como explicação para vários “comportamentos desviantes”. Posteriormente, foi renomeada como “neurose histérica” no DSM-II de 1968. E, finalmente, desapareceu na publicação do DSM-III de 1980 por suas implicações misóginas. Síndrome pós-aborto Surgiu na década de 1970 nos Estados Unidos como suposto transtorno causado por uma interrupção induzida da gravidez. Na verdade, foi uma estratégia de manipulação social perpetrada por instituições católicas e conservadoras para apresentar o aborto como uma “ameaça psicológica”. Este rótulo nunca foi reconhecido pela comunidade médica internacional devido à ausência de evidências científicas. No entanto, alguns grupos ultraconservadores continuam a apelar sobre sua existência. Monomania Apareceu pela primeira vez na França pelas mãos de Jean-Étienne Esquirol, por volta de 1820. Era usado para designar uma “obsessão irracional e exclusiva por uma única ideia”, como piromania, cleptomania, erotomania ou ninfomania. É importante destacar que a ninfomania foi criada exclusivamente para mulheres consideradas “promíscuas” e, por seu evidente viés sexista, perdeu valor clínico no início do século XX (nunca foi incluída em nenhum manual). A monomania teve presença nos tribunais para julgar condutas criminosas, particularmente homicídios. Mas era tão ambígua que acabou desaparecendo por volta de 1870. Neurastenia
“Tinha muita gente preta, mas não tinha movimento negro”: Márcia Valadares e cinco décadas de luta antirracista em Ouro Preto

Conheça a história de uma das responsáveis pela criação do Fórum da Igualdade Racial e Casa de Cultura Negra em Ouro Preto