Risco de crises alimentares se agrava em todo o mundo

José Miguel Soriano del Castillo, Universitat de València Em 12 de novembro de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (WFP) publicaram um relatório que volta a soar os alarmes sobre o estado da segurança alimentar global. Ambos organismos alertam que a “janela para evitar que milhões de pessoas caiam em insegurança alimentar aguda está se fechando rapidamente”. O documento identifica especificamente 16 regiões do mundo onde o risco de crises alimentares graves não só continua a crescer, mas também pode desencadear emergências humanitárias de grande magnitude se não forem tomadas medidas urgentes e coordenadas. Conflitos bloqueiam acesso a alimentos e paralisam economias Os conflitos armados continuam sendo a causa central de insegurança alimentar na maioria dos países apontados. A violência prolongada, a destruição de terras cultiváveis, os deslocamentos em massa e o bloqueio de corredores humanitários reduzem drasticamente o acesso a alimentos. O Sudão aparece como um dos cenários mais críticos: após meses de intensificação dos combates, milhões de pessoas ficaram presas em zonas onde mercados entraram em colapso e a distribuição de ajuda é praticamente impossível. A FAO alerta que algumas regiões podem se aproximar dos limites técnicos da fome se não for possível estabilizar a situação. O Iêmen apresenta um cenário semelhante, com mais de 40% da população em níveis de crise alimentar grave. Lá, a destruição de infraestruturas essenciais e a falta de combustível dificultam a chegada de importações, das quais depende a maior parte da dieta do país. Na Palestina, o relatório destaca que a instabilidade crônica e as restrições à circulação de bens essenciais reduziram ainda mais a disponibilidade de alimentos, gerando uma rápida deterioração nos indicadores nutricionais. Também é preocupante a situação no Mali e em Burkina Faso, onde a insegurança e o controle instável do território estão gerando interrupções nos mercados, bloqueios ao comércio agrícola e perdas significativas na produção agrícola. Assim, em Burkina Faso, as famílias mais pobres que vivem em zonas afetadas pelo conflito enfrentam “perturbações no mercado e assistência humanitária limitada”, de acordo com a análise mais recente sobre segurança alimentar. Essas dinâmicas também são observadas no Mali, onde as mesmas condições estão provocando “uma rápida deterioração nos níveis locais de consumo alimentar e nutrição”. Esse diagnóstico é reforçado pelos dados do indicador de Consumo Insuficiente de Alimentos (IPC), que situava em cerca de 52% a proporção da população insuficientemente alimentada em setembro de 2025. Choques econômicos multiplicam a vulnerabilidade O segundo fator que contribui para a insegurança alimentar é a instabilidade econômica, que se manifesta através do aumento do preço dos alimentos, da desvalorização das moedas locais e do aumento do preço dos combustíveis e dos insumos agrícolas. No Haiti, essa situação é agravada pela violência e pela interrupção do funcionamento normal dos mercados, o que deixou milhões de pessoas em extrema vulnerabilidade. De fato, cerca de 5,7 milhões de haitianos, mais da metade da população do país, já se encontram em níveis de insegurança alimentar aguda, um número que continua aumentando. Circunstâncias semelhantes são observadas em Mianmar e Etiópia, onde a desvalorização da moeda e a interrupção das atividades econômicas encareceram o preço dos alimentos básicos, reduzindo drasticamente o poder aquisitivo das famílias. Crise climática, um fator estrutural O terceiro grande fator identificado são as mudanças climáticas, que já não atuam como um fenômeno excepcional, mas como um impulsionador estrutural da vulnerabilidade. Secas prolongadas, inundações repentinas, ciclones e ondas de calor afetam recorrentemente regiões cuja agricultura depende em grande medida das precipitações sazonais. O chamado “Chifre da África” é o caso mais evidente: após cinco temporadas consecutivas de chuvas fracas, milhões de pastores e agricultores perderam seus rebanhos e suas colheitas, o que provocou deslocamentos em massa e um aumento drástico da dependência de programas nutricionais. O relatório do WFP destaca que esses fenômenos, intensificados por variações associadas ao El Niño, continuarão se repetindo. Em países como Sudão do Sul, Somália e Etiópia, as chuvas extremas que se seguem às secas destroem infraestruturas básicas, devastam plantações e contaminam fontes de água essenciais. Crise agravada pelo déficit no financiamento de ajuda humanitária O quarto fator, e um dos mais decisivos para compreender a magnitude do problema, é o enorme déficit no financiamento de ajuda humanitária. O WFP alertou que os fundos disponíveis este ano vão rondar os US$ 6,4 bilhões. Este valor é muito inferior ao necessário para sustentar as suas operações globais e está claramente abaixo dos níveis anteriores, o que obriga o fundo a reduzir rações, suspender programas nutricionais e dar prioridade aos beneficiários mais vulneráveis. As consequências desses cortes são diretas: em áreas onde conflitos impedem o acesso a alimentos e os mercados locais entraram em colapso, a ajuda humanitária é a única fonte de sustento. Se o financiamento continuar insuficiente, milhões de pessoas correm o risco de passar rapidamente de uma situação de crise para uma emergência alimentar grave ou mesmo para condições próximas à fome. O próprio WFP assinalou que a falta de recursos está comprometendo gravemente a capacidade de antecipar os picos de fome sazonais ou climáticos, limitando sua margem de manobra em alguns dos ambientes mais frágeis do planeta. Alimentação: indicador de estabilidade global Este relatório demonstra que a alimentação não é apenas uma questão doméstica ou uma questão de hábitos individuais. A insegurança alimentar torna-se tanto um sintoma quanto uma causa de instabilidade, com efeitos sobre a saúde pública, o funcionamento das economias locais e os movimentos migratórios. A interdependência dos mercados globais implica que as crises alimentares nos 16 pontos críticos de fome identificados repercutem em regiões muito distantes deles, gerando tensões adicionais em países importadores e economias vulneráveis. Apesar do tom de alerta, o relatório da FAO-WFP conclui que ainda é possível evitar a deterioração maciça prevista para 2026. Ele aponta que investir em meios de subsistência, resiliência e proteção social antes que a fome atinja seu pico será “um investimento inteligente em paz e estabilidade a longo prazo”. O relatório também destaca que o
Devo, não nego, pago com o meu escravo – Como pessoas escravizadas viravam garantia de crédito

Fragmento de lista de proprietários de escravos da fregesia de Itapecerica, em 1850. Autor desconhecido. Igor Martins, Lund University Uma questão antiga permanece relevante: por que a escravidão se expandiu e persistiu em sociedades coloniais do Atlântico? Por que durou décadas, mesmo diante de alternativas e transformações econômicas? A resposta comum é simples: a escravidão persistiu porque era lucrativa. Mas aqui está a pergunta mais importante: lucrativa para quem e por quais mecanismos? Parte da resposta vai além do trabalho forçado. A escravidão foi um sistema de produção e coerção, mas também operou como infraestrutura financeira. Garantia ampliou o crédito e sustentou investimentos Em economias escravistas a possibilidade de transformar pessoas em propriedade juridicamente reconhecida gerou um tipo específico de garantia. Essa garantia ampliou o crédito e sustentou investimentos. Em pesquisa recente, eu e meu colega Erik Green comparamos o Brasil, Estados Unidos e a Colônia do Cabo, atual África do Sul. A comparação aponta uma regularidade: em diferentes economias coloniais, pessoas escravizadas foram usadas como garantia em operações de crédito. Nos Estados Unidos, fazendeiros hipotecavam pessoas escravizadas para financiar expansão territorial e compra de equipamentos. Na Louisiana e Virgínia, mais de 40% das hipotecas após a independência envolviam garantia humana. Na Colônia do Cabo, o primeiro registro é de 1731: um fazendeiro hipotecou pessoas escravizadas junto à Igreja Reformada Holandesa. A prática se generalizou: no século XIX, pessoas escravizadas eram o principal ativo hipotecável da colônia. Pessoas concentravam mais valor que qualquer outro ativo No Brasil, o mecanismo aparece com nitidez pela escassez de liquidez. No Nordeste, a terra agrícola valia cerca de um décimo do preço de uma pessoa escravizada. Pessoas concentravam mais valor que qualquer outro ativo e, por isso, viraram a base para garantias. Mas valor não basta. Para o credor, o essencial é poder tomar e vender a garantia. Regras anteriores dificultavam separar pessoas escravizadas das fazendas onde permaneciam. Isso enfraquecia a garantia e restringia o crédito. O ponto de inflexão está numa mudança legal. Em 1864, reformas na legislação hipotecária mudaram esse cenário. As novas leis facilitaram liquidações envolvendo pessoas escravizadas como garantia. Em termos práticos, a lei tornou mais fácil transformar garantia em venda. Em termos substantivos, fortaleceu a capacidade legal de deslocar e vender seres humanos para satisfazer obrigações financeiras. Banco do Brasil aceitava escravizados como parte da garantia Quando a execução fica mais simples, o mecanismo se formaliza. Em 1866, no acordo com o governo, o Banco do Brasil criou a primeira estrutura formal do país para empréstimos com garantia. O banco aceitou pessoas escravizadas como parte dessa garantia, convertendo 25 mil contos (25 bilhões de réis), de dívidas existentes em empréstimos lastreado por escravizados. A partir daí, esse uso de pessoas como garantia deixa de ser apenas uma prática dispersa e passa a integrar operações financeiras de grande escala. Registros regionais reforçam essa centralidade. Em Campinas, os valores hipotecados de 1865 a 1869 ultrapassaram 2,2 bilhões de réis e, dentro das hipotecas rurais, pessoas escravizadas eram a garantia central. Essa lógica também aparece nos contratos. Em 1866, Francisco Vilela tomou meio bilhão de réis emprestados com uma casa comissária. Como garantia, ofereceu sua fazenda, seu cafezal e 250 pessoas escravizadas. Na prática, isso significava listar, avaliar e vincular pessoas a dívidas. A comparação atlântica é decisiva para o alcance teórico porque reposiciona a própria pergunta sobre a persistência do regime escravista. Se a escravidão durou tanto porque era rentável, tanto a exploração laboral quanto a financeira contribuíram para tal. O ponto comum não é a violência em si, mas transformar pessoas em garantia vendável. Outros sistemas coercitivos eram violentos, mas não convertiam pessoas em ativos financeiros mobilizáveis. Essa diferença sustenta a proposta de reconceituar a escravidão também como sistema de direitos de propriedade, e não apenas como arranjo de trabalho. A relevância contemporânea está em reconhecer que uma parte da arquitetura do crédito no Brasil se consolidou quando o Banco do Brasil aceitou pessoas escravizadas como garantia e quando o Estado ajudou a tornar essa garantia mais fácil de liquidar. Isso não foi um detalhe periférico. Foi um modo de definir o que podia ser transformado em riqueza líquida, quem podia acessar crédito em grande escala e quais tipos de propriedade eram consideradas seguras. Arranjo permitia que dívidas podiam ser pagas com o corpo de outras pessoas Enxergar a escravidão como garantia em operações de crédito muda a leitura da própria violência do sistema. Não era apenas trabalho extraído no cotidiano. Era também um arranjo em que dívidas de uma pessoa podiam ser pagas com o corpo de outra. A consequência é direta: o crédito não era apenas financiado pela escravidão. Ele era garantido pela possibilidade legal de separar pessoas de suas fazendas, deslocá-las e vendê-las para liquidar obrigações assumidas por terceiros. Essa dimensão financeira explica a persistência do sistema. A escravidão não era apenas trabalho forçado. Era também a base dos sistemas de crédito no Atlântico. Igor Martins, Senior lecturer, Lund University This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Luzes, cores, microplásticos e metais poluentes: conheça o lado nem tão cintilante da purpurina

Tatiana Dillenburg Saint’Pierre, PUC-Rio Demorou mas chegou. A festa mais esperada do ano no Brasil começou oficialmente nesta sexta-feira, último dia de fevereiro, enchendo as ruas do país de música, brilho e alegria. E do bloco de rua à escola de samba, um dos itens mais usados para dar um toque especial a qualquer fantasia de carnaval é a purpurina. Também conhecida como glitter, a purpurina é um conjunto de partículas minúsculas que refletem a luz e se prendem a praticamente qualquer superfície. Mas, além da dificuldade em se livrar dela depois da folia, esse pozinho cintilante esconde um lado obscuro: é nocivo ao meio ambiente e levanta preocupações sobre impactos à saúde humana. Nossa equipe de pesquisadores, do Departamento de Química da PUC-Rio, conduziu um estudo detalhado sobre o glitter, publicado no Journal of Trace Elements in Medicine and Biology. Investigamos as concentrações de metais e outros elementos químicos presentes nesse material, além de como acontece a sua absorção pelo corpo quando entra em contato com a pele, e qual seu comportamento em ambientes aquáticos. Afinal, o que é o glitter? A ideia para o estudo surgiu da preocupação com os microplásticos no ambiente, pois a maioria das purpurinas é composta, basicamente, por plásticos com dimensões menores que 5 milímetros. Ela é feita principalmente de polímeros como o polietileno (PE) e o cloreto de polivinila (PVC). Mas, como esse pó é tão colorido e cintilante, pensamos que também poderia conter corantes à base de metais, que refletem a luz e por isso costumam dar esse efeito vibrante. O problema desses pigmentos é que eles adicionam um risco extra de contaminação, tanto para o ecossistema quanto para a saúde humana, pelo contato com a pele. Embora os estudos sobre os impactos de microplásticos no ambiente ainda sejam relativamente novos, os efeitos nocivos de certos metais já são amplamente documentados. No entanto, a regulação desses compostos ainda é limitada para muitos produtos, e mesmo quando há legislação, a fiscalização pode não ser efetiva, considerando a grande quantidade de novos itens lançados no mercado a todo instante. Assim, para esse estudo, compramos amostras de glitter vermelho, azul e verde em lojas comerciais no Rio de Janeiro, que analisamos no laboratório. De acordo com nosso estudo, a composição química do glitter depende, principalmente, da cor. De fato, são usados metais e outros elementos químicos refletores. As amostras de cor verde tiveram maior concentração de bromo (123 mg/kg), enquanto as vermelhas continham mais titânio (116 mg/kg). Embora o metal titânio não seja responsável pela cor vermelha, ele tem um alto índice de refração, aumentando a intensidade e brilho. Além disso, o titânio, especialmente na forma de dióxido de titânio (TiO₂), é muito empregado como corante branco, bloqueador solar e aditivo de alimentos, mas seus efeitos tóxicos a humanos ainda são pouco conhecidos, sendo considerado atualmente como um poluente emergente, afetando principalmente ambientes marinhos. Apesar disso, os níveis de todos os metais encontrados nas amostras de glitter analisadas estavam dentro dos limites de segurança estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Porém, é importante ressaltar que, mesmo elementos considerados inofensivos ou de baixa toxicidade, ainda podem causar desequilíbrios em ecossistemas e organismos quando estão presentes em excesso, pois podem interagir com outros elementos, causando desequilíbrios químicos nos sistemas vivos. Também simulamos situações comuns de exposição, como o contato com a pele e com o suor humano. As concentrações de metais e metalóides liberadas pelo glitter nesse cenário não foram suficientes para apresentar um risco imediato à saúde, principalmente porque a quantidade usada por cada pessoa não costuma ser muito grande. Porém, não se pode garantir que não existam riscos de intoxicação caso alguém pinte uma grande área do corpo com glitter. Além disso, a possibilidade de outras vias de exposição, como a ingestão acidental ou a inalação de partículas, ainda precisam ser mais estudadas. O destino invisível do brilho Depois que o Carnaval acaba, o glitter também sai de cena. Mas para onde ele vai? Geralmente, ao lavar o rosto, o corpo ou as roupas, a purpurina é levada para o sistema de esgoto. Por serem partículas muito pequenas, elas passam despercebidas pelos sistemas de tratamento de água convencionais e são liberadas diretamente em rios, lagos e oceanos. Essas partículas podem persistir no ambiente por décadas, fragmentando-se em pedaços ainda menores, mas sem desaparecer completamente. No ambiente aquático, o glitter contribui para o sufocamento desse ecossistema e pode agir como uma esponja de poluentes. Ele pode adsorver substâncias químicas – tóxicas ou não –, como antibióticos, pesticidas, hidrocarbonetos e metais potencialmente tóxicos, transportando-as por longas distâncias. Quando ingeridas por organismos aquáticos, essas partículas podem causar o acúmulo dessas substâncias no organismo. Ao longo do tempo, esses contaminantes podem ser passados adiante na cadeia alimentar e chegar até os humanos, em frutos do mar ou peixes contaminados. Apesar de nosso estudo indicar que o glitter não representa um risco significativo à saúde humana por contato com a pele e que a quantidade usada individualmente seja considerada segura, o volume total descartado durante o Carnaval pode causar uma contaminação ambiental aguda significativa. Muito provavelmente, a purpurina desempenha um papel relevante na poluição plástica global, contribuindo para a acumulação de microplásticos em humanos. Portanto, é importante evitar seu uso e promover alternativas mais sustentáveis. O que fazer? Principais cuidados O ideal realmente é não usar. Mas, se alguma purpurina de origem desconhecida ficar grudada em você nesse Carnaval, não enxágue diretamente na pia ou no chuveiro. Tente removê-la ao máximo com lenços de papel ou algodão seco e os descarte no lixo. Embora isso não garanta que os resíduos não acabem em aterros e, eventualmente, no meio ambiente, ao menos evita a liberação direta pelo sistema de esgoto. Já existem opções no mercado que oferecem o mesmo brilho, mas com menor impacto ambiental. O glitter biodegradável, feito de celulose vegetal ou minerais naturais, é uma alternativa promissora. Ele se degrada rapidamente no ambiente, sem liberar poluentes tóxicos. Os efeitos ecológicos do glitter tradicional são preocupantes e

“Não tem vaga, só se conhecer alguém”: as dificuldades das refugiadas congolesas para acessar o SUS no Brasil Paula Colodetti, UERJ e Francisco Ortega, ICREA O The Conversation Brasil e a revista Cadernos de Saúde Pública/Reports in Public Health (CSP) fizeram uma parceria para trazer ao público artigos inéditos sobre estudos científicos, pesquisas originais e revisões críticas em diversas áreas da saúde coletiva. A revista CSP é publicada desde 1985 com suporte da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e reúne artigos científicos originais voltados à produção de conhecimento no campo da Saúde Coletiva e disciplinas afins. No artigo abaixo, os resultados do estudo que identificou as dificuldades que refugiados de países africanos residentes no Brasil – especialmente mulheres – experimentam ao tentar acessar os serviços do SUS. E entre estes problemas, estão o racismo, o machsimo e a xenofobia. O Sistema Único de Saúde (SUS) nasceu com a promessa de atender a todos de forma integral e gratuita. Na prática, porém, grupos vulneráveis seguem enfrentando barreiras para transformar esse direito em realidade. É o caso de mulheres congolesas refugiadas no Rio de Janeiro, que fazem parte da segunda maior comunidade de refugiados de guerra na cidade. Elas relataram, em estudo realizado pelo pesquisador Francisco Ortega e por mim, a percepção de que, sem conhecer alguém dentro da instituição de saúde, não se consegue marcar uma consulta ou um exame. A frase que dá título ao nosso estudo — “Não tem vaga, só se conhecer alguém” — foi dita por uma das interlocutoras que, mesmo com dificuldades de idioma, conseguiu captar rapidamente uma das principais barreiras de acesso: a falta de capital social. Em outras palavras, sem vínculos ou conhecidos dentro do sistema, essas mulheres sentem-se ainda mais distantes do cuidado. O trabalho sobre o tema foi publicado na revista científica Cadernos de Saúde Pública. Essas mulheres refugiadas chegam ao Brasil após deixarem seu país, na África Central, por causa de conflitos armados, violência política ou risco à vida. Aqui, enfrentam uma nova batalha: superar a desconfiança das instituições, lidar com o racismo, a barreira da língua e a falta de recursos financeiros. As entrevistas reunidas pela pesquisa revelam situações corriqueiras que, somadas, apresentam um retrato dessa exclusão. De novo, em situações de risco Uma das participantes contou que conseguiu marcar exames apenas porque uma senhora, com quem conversou e que estava na fila, conhecia alguém dentro da unidade. Outra relatou que levou a filha com problemas de pele à Clínica da Família, mas foi informada de que só teria atendimento com pediatra após seis meses de espera. Em muitos casos, as mulheres descreveram atendimentos rápidos, superficiais e sem explicação adequada dos procedimentos, o que reforça a sensação de descaso e desigualdade. Além disso, a falta de domínio do português intensifica o sentimento de impotência. Muitas relatam que são interrompidas ou simplesmente ignoradas pelos profissionais do SUS ao tentarem explicar sintomas. “Você aponta e eles dizem: tá, já sei onde está com dor, vou te dar o remédio. Nem fazem a receita direito”, disse uma das entrevistadas. Em outro caso, a própria funcionária da farmácia ajudou a interpretar a prescrição e indicar o antibiótico necessário. A pesquisa também destaca o papel do território. A maioria dessas mulheres vive em favelas ou áreas periféricas da cidade do Rio de Janeiro, onde a violência cotidiana se soma ao racismo estrutural e institucional. Elas compararam a violência urbana carioca à guerra que deixaram no Congo, relatando medo de circular à noite e se expor a novas situações de risco. Os relatos das mulheres congolesas foram ouvidos no cotidiano da Cáritas RJ, instituição de acolhimento a refugiados, por meio da observação das atividades, de conversas em grupo e entrevistas. A pesquisadora Paula Colodetti participou de aulas de ioga e de rodas de conversa com as mulheres refugiadas para conhecer suas experiências e discutir temas como o acesso à saúde. Foram feitas oito entrevistas em profundidade, com apoio de tradutoras. Os relatos coletados serviram de base para identificar padrões e percepções comuns nas vivências dessas mulheres. As narrativas foram analisadas com métodos qualitativos amplamente usados nas ciências sociais. Narrativas sobre solidão e solidariedade Outro ponto importante revelado por esse grupo de mulheres é a solidão. Muitas chegaram ao Brasil sem marido ou filhos, com famílias separadas no processo de refúgio. Essa ausência de rede de apoio local aumenta a vulnerabilidade, já que o capital social – a confiança e as conexões estabelecidas com pares, vizinhos e instituições – é fundamental para acessar serviços de saúde. Sem essas ligações, as chances de conseguir atendimento se reduzem. Apesar das dificuldades, também há experiências positivas. Algumas mulheres contaram ter recebido ajuda inesperada de vizinhos ou desconhecidos, seja oferecendo carona até uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), doando roupas ou ajudando a lidar com a burocracia. Esses relatos mostram que solidariedade e acolhimento existem, mas aparecem de forma pontual, dependendo da boa vontade individual, e não como resultado de políticas institucionais consistentes. O estudo chama atenção ainda para um choque cultural: no Congo, o sistema de saúde funciona mediante pagamento após a consulta, e casos graves são absorvidos pelo Estado. Já no Brasil, apesar de gratuito, o SUS tem uma lógica burocrática que sobrecarrega as unidades de Saúde e confunde essas mulheres estrangeiras que não falam português. Muitas não entendem por que precisam esperar tanto tempo por uma consulta, ou por que não são atendidas rapidamente em casos aparentemente urgentes. O que aparece em comum nos depoimentos é a sensação de desconfiança e descrédito em relação ao SUS. As longas filas, a demora para conseguir especialistas, as negativas por suposta falta de documentos, além da percepção de racismo nos atendimentos, constroem uma barreira simbólica e concreta. Para muitas, a solução tem sido recorrer a redes intracomunitárias, como igrejas e grupos de conterrâneos, que oferecem apoio emocional e prático – mas que, ao mesmo tempo, reforçam o isolamento em relação à sociedade brasileira. A pesquisa conclui que, se o capital social é essencial para acessar serviços de saúde,
Creches são aliadas na promoção da saúde futura e reduzem desigualdades sociais desde a primeira infância
Estudo da alimentação de mais de três mil crianças de 12 a 23 meses em todo o país mostrou que o acesso a uma creche está diretamente associado a uma dieta mais saudável. Foto: Gabriel Rosa/SMCS / Prefeitura de Curitiba Leonardo Silveira, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Camila Fernandes, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Huri Paz, Universidade de São Paulo (USP) As creches públicas não são somente uma política educacional, mas também uma política de saúde pública e de redução das desigualdades. A afirmação está amparada nos dados obtidos pelo estudo Padrões Alimentares e Matrícula em Creche: Uma Análise da Primeira Infância Brasileira. Para chegar a essas conclusões, nós estudamos a alimentação de mais de três mil crianças de 12 a 23 meses em todas as regiões do Brasil a partir de microdados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, conduzida pelo IBGE. As análises foram feitas em 2024 e apresentadas em 2025. Nosso objetivo central foi comparar padrões alimentares entre aquelas com acesso às creches e aquelas que não frequentavam esses equipamentos. Para isso, construímos dois indicadores: um para medir o consumo de alimentos naturais ou minimamente processados — como frutas, verduras, arroz e feijão — e outro reunindo alimentos ultraprocessados, como doces, refrigerantes e biscoitos. Com a ajuda de técnicas estatísticas, identificamos diferenças consistentes entre os grupos e estimamos o peso de variáveis como renda, escolaridade da pessoa responsável e região do país. Os resultados indicam que o acesso a uma creche está diretamente associado a uma dieta mais saudável para o grupo de crianças estudadas. O efeito é ainda mais agudo e importante para famílias com menor renda e escolaridade. A presença dos ultraprocessados As informações obtidas pelo estudo realizado pelo nosso grupo mostraram que crianças em creches mantiveram um consumo um pouco maior de alimentos ultraprocessados, independentemente do nível socioeconômico. Esse efeito, no entanto, foi menor do que o benefício observado no aumento de refeições saudáveis: as crianças que frequentam creches tiveram, em média, uma alimentação mais saudável porque consumiram mais frutas, verduras e comidas típicas do preparo caseiro. O padrão se repetiu em todas as regiões do país, mas nas regiões Norte e Nordeste esta diferença é ainda maior. Outro achado importante é que crianças de famílias mais pobres alcançaram padrão alimentar de famílias mais ricas quando matriculadas em creche. A creche, nesse caso, funcionou como um espaço que garante acesso a alimentos de qualidade, independentemente das condições do domicílio. O aumento do consumo dos ultraprocessados entre as crianças estudadas é um fenômeno mundial e especialmente preocupante, pois é na primeira infância que se formam os hábitos alimentares que acompanharão a pessoa até a idade adulta. Além disso, obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares têm relação direta com o que se come desde cedo. A literatura científica mostra que a má qualidade da dieta é um dos maiores fatores de risco para doenças crônicas no Brasil e no mundo. Consequentemente, a alimentação nos primeiros anos de vida é um preditor da expectativa de vida de um ser humano. Esse contexto tem implicações diretas na saúde pública. Obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares estão relacionadas ao que se come desde cedo, e a literatura científica aponta que a má qualidade da dieta é um dos principais fatores de risco para doenças crônicas no país e no mundo. Consequentemente, a alimentação nos primeiros anos de vida é um preditor da expectativa de vida). Um caminho para ampliar o acesso às políticas sociais O estudo reforça que a creche é mais do que um local de cuidado e educação. Ela também é uma ferramenta de promoção da saúde e acesso a políticas sociais. Garantir alimentação adequada nesse espaço pode atenuar desigualdades que incidem já no início da vida. Esse é, na prática, um dos maiores desafios – garantir que as crianças pequenas tenham acesso regular a refeições de qualidade. Entender como a escola e a creche interferem nesses hábitos é fundamental para desenhar políticas públicas eficazes. Embora seja um direito, o acesso à creche no Brasil ainda é restrito. Apenas 35% das crianças de zero a três anos estão matriculadas. Já o acesso entre crianças brancas e negras é similar, mas as condições estruturais das creches são piores para os negros e nas regiões Norte e Nordeste. Nessas regiões, as crianças costumam ter menos acesso a frutas e verduras, por exemplo. O fato de a creche ajudar a reduzir essas diferenças mostra o potencial do acesso a esse equipamento como política pública de redução de disparidades educacionais, alimentares e no acesso ao mercado de trabalho de mulheres, que tradicionalmente desempenham o trabalho do cuidado das crianças. Além disso, os resultados do estudo destacam a importância de investir em programas que orientem a alimentação oferecida nas instituições. Refeições saudáveis e variadas podem ampliar ainda mais o impacto positivo ao longo dos anos futuros. A mensagem é clara: ampliar o acesso às instituições, é preciso discutir a qualidade dos cardápios, estimular a compra de alimentos locais e formar profissionais para lidar com a educação alimentar das crianças. As creches podem ser aliadas na promoção da saúde e da equidade social. Investir em infraestrutura, em capacitação de profissionais e em compras da agricultura familiar são medidas que podem ampliar os ganhos observados pelo estudo. Outro ponto importante é a integração entre saúde e educação. Nutricionistas, professores e agentes comunitários podem atuar em conjunto para orientar famílias, criar hábitos alimentares saudáveis e combater o excesso de ultraprocessados. Por fim, vale destacar que o Brasil já tem experiência em programas de alimentação escolar. O Programa Nacional de Alimentação Escolar é uma referência mundial por garantir refeições a milhões de estudantes. O Brasil também possui uma das taxas de envelhecimento mais aceleradas do mundo. Por outro lado, registra um percentual ainda baixo de crianças pequenas em creches – apenas 35%. Os resultados do nosso estudo indicam que investir nesse segmento é, também, uma forma de promover um futuro com menos doenças crônicas, menos pobreza, mais oportunidades e contribuir
Museus reabrem após o feriado e retomam visitação em Ouro Preto

Ouro Preto começa janeiro com a agenda cultural girando: museus e espaços de memória já estão de portas abertas para moradores e visitantes. É um roteiro que atravessa o barroco, a arte moderna, coleções sacras e até um sítio arqueológico a céu aberto — ideal para quem quer juntar caminhada, história e paisagem. Abaixo, reunimos os principais espaços com o que cada um guarda, além de endereço e horários de funcionamento. Ecomuseu Morro da Queimada Sítio arqueológico e mirante natural que reúne vestígios ligados à mineração e ao cotidiano do período colonial, com trilhas e uma das vistas mais bonitas do Centro Histórico e do Itacolomi.Endereço: Morro São Sebastião, s/n – Morro São Sebastião (Bar da Nida), Ouro Preto (MG). Museu Casa dos Contos Instalado em um dos casarões mais emblemáticos da cidade, preserva memória ligada à administração colonial e à história econômica de Minas, com exposições e ambientes históricos.Endereço: Rua São José, 12 – Centro Histórico, Ouro Preto (MG).Horário: terça a sábado, 10h–18h | domingo, 10h–16h Museu Boulieu Espaço voltado à arte e ao design, com exposições temporárias e programação cultural que dialoga com a cena contemporânea, em prédio histórico no Centro.Endereço: Rua Padre Rolim, 412 – Centro, Ouro Preto (MG).Horário: seg, qui, sex, sáb, dom – 10h–18h (bilheteria encerra 1h antes) | qua – 13h–21h (bilheteria encerra 1h antes) Museu Casa Guignard Dedicado à obra e ao universo de Alberto da Veiga Guignard, é um respiro para quem quer entender a passagem do modernismo por Minas e o encontro entre arte e cidade histórica.Endereço: Rua Conde de Bobadela, 110 – Centro, Ouro Preto (MG).Horário: terça a sexta – 12h–18h | sábado, domingo e feriado – 9h–15h Museu Aleijadinho Reúne acervo de arte sacra e peças ligadas à tradição barroca de Ouro Preto, com foco na obra e no contexto artístico do período.Endereço (referência): Rua Bernardo Vasconcelos, 179 – Antônio Dias, Ouro Preto (MG).Horário: terça a domingo – 8h–17h Museu da Inconfidência Um dos museus mais visitados de Minas, ocupa um edifício simbólico na Praça Tiradentes e apresenta acervos sobre a história política e social da capitania, com salas dedicadas à Inconfidência e ao período colonial.Endereço: Praça Tiradentes, 139 – Centro Histórico, Ouro Preto (MG).Horário: terça a quinta e domingo: 10h–18h (acesso até 17h) | sexta e sábado: 10h–20h (acesso até 19h) Museu de Arte Sacra do Pilar Instalado no complexo da Basílica do Pilar, guarda peças de arte sacra, imaginária e objetos litúrgicos que ajudam a ler o barroco ouro-pretano por dentro — fé, ouro e ofício.Endereço: Praça Monsenhor João Castilho Barbosa (Basílica do Pilar), Ouro Preto (MG).Horário: 9h–16h45 Museu do Oratório Coleção singular dedicada a oratórios e devoções domésticas, com peças raras que contam como a fé ocupava também as casas e os caminhos — um museu pequeno, delicado e muito forte.Endereço: Adro da Igreja do Carmo, 28 – Centro, Ouro Preto (MG).Horário: seg, qua a sex – 9h30–17h30 (bilheteria encerra 1h antes) | terça – fechado | domingo – 9h30–16h (bilheteria encerra 1h antes)
Após pacote de 2025, sindicato prevê negociações mais duras em Ouro Preto

Sindisfop chama acordo coletivo deste ano de “histórico”, mas aponta queda de arrecadação e ciclo político como fatores que podem limitar reajustes em 2026 e 2027 O acordo coletivo dos servidores municipais de Ouro Preto firmado em 2025 foi considerado “histórico” pelo Sindicato dos Servidores e Funcionários Públicos Municipais de Ouro Preto (Sindsfop). Em entrevista, o presidente da entidade, Leandro Andrade, afirma que o resultado deste ano reuniu reajuste salarial, ampliação de benefícios e mudanças em regras de férias-prêmio que, segundo ele, ampliam a margem de planejamento financeiro para quem está na ativa. Ao mesmo tempo, o sindicato já projeta um cenário menos favorável para os próximos dois anos. A avaliação de Leandro é que 2026 e 2027 tendem a trazer negociações “mais duras”, diante de um contexto de retração de receitas e de mudanças nacionais ligadas à mineração. “A gente tem que ter o pé no chão. Saber que em 2026 e 2027 o nosso acordo coletivo vai ser um pouco inferior ao que foi o de 2025”, disse. Reajuste, vale e bônus natalino Entre os pontos destacados pelo sindicato, está o reajuste de 10% no vencimento em 2025. Leandro classifica o percentual como um dos maiores em comparação regional, mas a afirmação é apresentada como avaliação do próprio sindicato. “Conseguimos um reajuste de 10%, que foi o maior da região”, declarou. Outro item citado é a elevação do vale-alimentação de R$ 900 para R$ 1.200. O presidente do Sindsfop também aponta mudança na gratificação natalina, que passou a acompanhar o valor do benefício. “A gratificação natalina passa a ser o valor do vale-alimentação… mais 1.200 para o servidor poder fazer sua ceia”, afirmou. Férias-prêmio: regra mudou em 2024 e foi ampliada em 2025 A entrevista também recupera alterações negociadas no acordo coletivo do ano anterior. Segundo Leandro, em 2024 o período aquisitivo para férias-prêmio foi reduzido: antes, seriam necessários 10 anos ininterruptos para ter direito a cinco meses; depois da mudança, o servidor passaria a ter direito a três meses ao completar cinco anos sem interrupção. “A cada 10 anos ele vai ter o direito a seis meses”, explicou, ao comparar a regra nova com a anterior. Já em 2025, o sindicato diz ter avançado na possibilidade de conversão da licença em dinheiro. O presidente relata que, até então, a venda era limitada a um mês por ano, no mês de aniversário do servidor. Com o acordo deste ano, ele afirma que passou a ser possível vender até três meses, entre fevereiro e novembro, “um mês por mês”. “Isso ajuda… a evitar que ele pegue empréstimo para quitar algum débito”, argumentou. Concurso público e “efeito atração” de novos servidores Leandro também relaciona as conquistas trabalhistas ao interesse de candidatos de outras cidades e estados em concursos da Prefeitura. Ele afirma que, nos acordos coletivos de 2021 e 2022, o sindicato inseriu cláusulas que reforçavam o compromisso do Município com a realização do concurso, executado em 2023, e que em 2025 houve previsão de prorrogação por mais dois anos. “Um número significativo de servidores novos… vem de outros estados, outras cidades”, disse, atribuindo esse movimento à busca por melhores condições de trabalho e remuneração. Por que o sindicato prevê acordos “inferiores” em 2026 e 2027 Ao projetar os próximos anos, o presidente do Sindsfop aponta queda de arrecadação e incertezas ligadas à mineração como fatores que podem reduzir a margem de negociação. Entre os motivos citados por ele estão impactos de paralisações/fechamentos em operações e a expectativa de mudanças na forma de distribuição de receitas relacionadas ao setor mineral, em discussão nacional. “A Prefeitura passa por uma queda na sua arrecadação… e isso tem impacto direto na capacidade de negociar”, afirmou, ao explicar por que não espera repetição do patamar de 2025. Além do cenário econômico, Leandro também menciona a dinâmica política dos ciclos eleitorais. Na leitura dele, é comum que gestões tenham mais disposição para conceder reajustes maiores em anos próximos ao fim do mandato. “A lógica da política… prevalece. O prefeito deixa para dar um aumento maior no último ano de governo”, disse, acrescentando que vê possibilidade de acordos mais robustos em um horizonte posterior, “dependendo do contexto”. O que fica e o que depende de nova negociação O sindicato reforça que o acordo coletivo é o instrumento anual em que são negociados reajustes e benefícios, além de cláusulas que podem alterar regras internas — como as que envolvem férias-prêmio. Para 2026 e 2027, porém, a entidade diz que a prioridade será preservar conquistas recentes e buscar avanços “possíveis” diante do orçamento. A reportagem procurou a Prefeitura de Ouro Preto para comentar as projeções apresentadas pelo sindicato e informar se há estimativa oficial de impacto orçamentário para os próximos acordos coletivos. (Inserir aqui a resposta do Executivo, quando houver.)
Transforme sua rotina e torne a vida mais interessante – três estratégias para ajudá-lo a alcançar uma vida plena
Abordar seu dia normal com uma nova mentalidade pode levá-lo a uma direção interessante. d3sign/Moment via Getty Images Lorraine Besser, Middlebury College Imagine que é segunda-feira de manhã, muito frio e muito escuro, mas assim que o despertador toca, você sabe que precisa se mobilizar. As crianças precisam ir para a escola. Você tem que ir para o trabalho. E, é claro, sua lista de tarefas cada vez maior paira sobre sua cabeça como uma nuvem escura, de alguma forma ameaçadora demais para ser ignorada e ameaçadora demais para iniciar suas tarefas. Em dias assim, você pode se sentir grato simplesmente por ter conseguido sobreviver. Mas aí começa tudo de novo. Embora não seja possível escapar da rotina, você pode transformá-la. As mais recentes pesquisas psicológicas sobre uma boa vida aponta o caminho: Ao mudar sua mentalidade, você pode tornar seu dia a dia mais interessante e criar riqueza psicológica em sua vida. A riqueza psicológica descreve uma forma robusta de engajamento cognitivo. Ela é diferente de felicidade e sentido, mas igualmente importante para uma vida plena. Em colaboração com Shigehiro Oishi e seu laboratório de pesquisa, investiguei se o campo da psicologia positiva tem negligenciado amplamente uma dimensão importante para uma vida boa. Como filósofa de nossa equipe, eu tinha duas diretrizes. Primeiro, ajudei a definir o conceito de riqueza psicológica e a entender o que o distingue da felicidade e do sentido de viver. Em segundo lugar, comecei a explorar por que a riqueza psicológica é valiosa. Nossos estudos iniciais descobriram que as pessoas valorizam experiências que estimulam suas mentes, desafiam-nas e geram uma série de emoções. Muitos escolheriam uma vida repleta dessas experiências, que descrevemos como psicologicamente ricas, em vez de uma vida feliz ou uma vida significativa. Essa percepção aponta para o importante papel que a riqueza psicológica pode desempenhar numa vida boa, mas não chega a explicar por que ela é boa e por que as pessoas devem abrir espaço para a riqueza psicológica em suas vidas. Essas são perguntas carregadas de valores que não podem ser respondidas por meio de pesquisas empíricas. Em vez disso, suas respostas são encontradas por meio da análise filosófica. Minha análise filosófica sugere que a riqueza psicológica é boa para você porque é interessante. Meu livro, “The Art of the Interesting: What We Miss in Our Pursuit of the Good Life and How to Cultivate It”, mostra como acrescentar riqueza psicológica à sua vida, tornando-a mais interessante. Uma das maneiras mais fáceis de fazer isso é adotar uma mentalidade caracterizada pela curiosidade, criatividade e o que eu chamo de “mindfulness 2.0” (ou atenção plena 2.0). Quando você traz essas três perspectivas para o seu dia a dia, transforma a rotina em oportunidades infinitas de vivenciar o mundo como algo interessante. Você desenvolve a capacidade de melhorar sua própria vida. Mindfulness 2.0: Observar sem julgar O que chamo de “mindfulness 2.0” significa trazer a consciência não avaliativa para o mundo ao seu redor – prestar atenção sem julgar. Conhecida das práticas de mindfulness, é uma forma de percepção que traz à tona detalhes que você normalmente ignora: a textura das folhas de uma planta de casa, os rostos dos estranhos que passam na calçada, as diferentes alturas das latas na prateleira de uma loja. Ao trazer esses detalhes à sua atenção, você estimula sua mente, permitindo que você se envolva mentalmente com o ambiente ao seu redor de maneira ativa. Perceber as coisas por meio da atenção plena 2.0 é o primeiro passo para ter uma experiência interessante. Um bom lugar para praticar a atenção plena 2.0 é durante seu trajeto matinal. Por ser uma rotina, você provavelmente não sentirá a necessidade de se envolver muito com os detalhes do que está fazendo. Em vez disso, você encontrará outras maneiras de passar o tempo, como ouvir as notícias ou seu podcast favorito. Essas atividades o distraem do trajeto que, de outra forma, seria entediante, pois o desvinculam dele. Notar um padrão intrigante quando os pássaros se reúnem no alto pode envolver sua mente enquanto você se desloca pelo mundo. Menahem Kahana/AFP via Getty Images Mas você também pode se envolver com o trajeto de modo a torná-lo menos entediante. É aqui que entra em ação o poder da atenção plena 2.0. Ao observar ativamente as coisas ao seu redor – sejam as pessoas aglomeradas no ponto de ônibus, os padrões de tráfego criados por um semáforo ou um bando de pássaros voando sobre sua cabeça – você envolve sua mente e se prepara para vivenciar o interessante. Curiosidade: Explorar por meio de perguntas A curiosidade não é apenas para crianças. Não importa o quanto você saiba, sempre há algo para se ter curiosidade, especialmente se você aprendeu a perceber os detalhes por meio da atenção plena 2.0. Digamos que você tenha notado, durante seu trajeto, o grupo de pessoas reunidas no ponto de ônibus. Agora, deixe sua curiosidade decolar: Esse ponto de ônibus sempre esteve lá? Há quanto tempo aquele anúncio imobiliário excepcionalmente estranho está preso no encosto do banco? Tantas pessoas fizeram fila nessa manhã fria. Você pode se perguntar se não se sentiria um pouco mais conectado se estivesse com elas. Mas então você percebe que ninguém está falando. Será que elas pegam o mesmo ônibus juntas, todos os dias, sem se reconhecerem? Ao fazer perguntas, você pede à sua mente que considere algo que ela não considerou antes. Você cria novos pensamentos e, se deixar a mente seguir em frente, terá uma experiência interessante, enquanto faz o mesmo trajeto. Melhor ainda, você terá criado essa experiência interessante por conta própria. Você aproveitou uma capacidade de melhorar sua vida, uma capacidade que está totalmente sob seu controle. Criatividade: Experimentar algo novo Embora as pessoas geralmente pensem na criatividade como um talento, nativo apenas de artistas ou inventores, todos têm a capacidade de ser criativos. A criatividade é uma habilidade que envolve formar novas conexões com sua mente. Você é criativo sempre que faz algo novo ou diferente.
O que fazer quando a meta de ano novo não dá certo

Autora: Janina SteinmetzProfessora de Marketing, Bayes Business School, City St George’s, University of London Todos os anos, muitos de nós anunciamos com coragem nossas resoluções de Ano-Novo. Uma taça de champanhe na virada pode aumentar nossa confiança de que seremos capazes de fazer melhor no ano que começa — economizar mais, gastar menos, comer melhor, malhar mais ou maratonar menos séries. Mas a maioria das resoluções fracassa. Mesmo nas primeiras semanas após o Réveillon, grande parte das pessoas já desistiu delas. Ainda assim, nem toda história de fracasso é igual, porque a forma como você fala sobre o fracasso importa — para a sua própria motivação e para a confiança das outras pessoas na sua capacidade de tentar de novo. Então, o que podemos fazer depois de desistir da resolução? Nós anunciamos boas intenções para amigos e familiares e agora precisamos admitir o fracasso. Pesquisas mostram que o jeito como você formula uma resolução que não deu certo pode influenciar como as pessoas a enxergam. E compreender por que a maioria das resoluções não se concretiza pode ajudar a levá-las adiante no futuro. De fato, dá para falar sobre suas resoluções de um modo que torne seu fracasso mais compreensível e mantenha sua motivação para seguir em frente. Uma forma construtiva de discutir uma resolução que falhou é focar no quanto esse fracasso era controlável. Pesquisas indicam que a maioria das resoluções exige algum investimento de tempo e de dinheiro. Por exemplo, entrar em forma leva tempo para se exercitar e, normalmente, também requer dinheiro para uma academia ou para equipamentos de treino. Como esses dois recursos são essenciais para perseguirmos nossos objetivos, muitas resoluções fracassam por falta de tempo ou de dinheiro — ou dos dois. Ao falar de uma resolução que falhou no passado, minhas próprias pesquisas mostram que é melhor destacar como a falta de dinheiro contribuiu para esse fracasso, em vez da falta de tempo. Em um estudo meu de 2024, as pessoas leram sobre participantes de painéis — fictícios e reais — que falharam por falta de dinheiro ou por falta de tempo. A maioria considerou que a pessoa cujo fracasso foi causado por falta de dinheiro teria mais autocontrole dali em diante e seria mais confiável na busca pelos próprios objetivos. Esse efeito ocorreu porque a falta de dinheiro é vista como algo que não pode ser controlado com tanta facilidade; então, se foi isso que causou o fracasso, não havia muito o que a pessoa poderia ter feito. Nessa pesquisa, a maior parte das resoluções que não deram certo estava relacionada a perda de peso, alimentação mais saudável ou treino na academia. Os participantes avaliaram da mesma forma quando a pessoa que falhou era homem ou mulher — provavelmente porque é plausível que todo mundo precise de algum tempo e de algum dinheiro para perseguir objetivos diversos, independentemente do gênero ou do tipo de resolução. O papel da “controlabilidade” aparece de um jeito diferente quando pensamos em como fazer melhor na próxima vez. O papel do tempo As pesquisas também mostram que a maneira como enxergamos o tempo importa quando se trata de fracasso. Para o passado, é melhor pensar em fatores fora do nosso controle, o que ajuda a reduzir a carga negativa do fracasso e reforça a crença de que podemos fazer melhor. Isso pode significar, por exemplo, considerar que seu fracasso ocorreu por falta de dinheiro ou por outros recursos fora do seu alcance. Para o futuro, porém, adote uma perspectiva ativa sobre o tempo. Olhe para a sua agenda e tome decisões ativas sobre como alocar tempo para perseguir seu objetivo — marcando idas à academia ou reservando um horário para preparar refeições saudáveis. Isso pode nos dar motivação para tentar de novo, porque não somos vítimas de agendas lotadas. Mulher desabada sobre uma bola de exercícios na sala de estar.Definitivamente não é a única. Lopolo/Shutterstock Um estudo publicado em outubro de 2025, que analisou como a falta de tempo contribui para fracassos, mostrou que as pessoas recuperam a sensação de controle quando falam em “arrumar tempo” (ou “criar tempo”), em vez de “ter tempo”. Quem descreveu suas falhas como resultado de não ter arrumado/criado tempo sentiu que poderia fazer diferente no futuro — e ficou mais motivado para isso. Isso acontece porque “arrumar/criar tempo” sugere controle ativo sobre o próprio tempo e a própria rotina, enquanto “ter tempo” nos coloca numa posição passiva. Por exemplo: se você diz que não arrumou tempo para treinar, isso significa que pode arrumar tempo no futuro, se decidir fazê-lo. Já se você diz que não teve tempo para treinar, parece que essa falta de tempo está fora do seu controle e pode acontecer de novo, impedindo você de alcançar suas metas de exercício. Encontre alegria Outro motivo para tanta gente ter dificuldade em manter a resolução de Ano-Novo pode ser o excesso de ambição — ou o fato de ignorar que alegria e prazer são o que nos mantém em movimento. Não basta apenas ter um objetivo em mente. Encontrar alegria no caminho e acreditar na capacidade de mudar também é importante. Por exemplo, alguém pode querer entrar em forma e treinar mais, mas, quando tenta ir à academia, não tem confiança para se inscrever numa aula. Sem algum componente de diversão, é difícil cumprir uma resolução, mesmo quando realmente queremos alcançar o objetivo. Então, tente pensar em formas de tornar a meta mais prazerosa de trabalhar — e lembre a si mesmo que você é capaz. A tendência das resoluções de Ano-Novo não é ruim em si. Embora possa parecer paradoxal começar hábitos virtuosos logo depois de uma grande noite de bebida e exageros, pesquisas mostram que podemos, sim, nos beneficiar do chamado “efeito do recomeço”, no qual um novo marco no calendário oferece uma sensação de página em branco para iniciar hábitos melhores. Mas não precisamos esperar o calendário nos dar um recomeço. Podemos escolher fazer nossa própria resolução (talvez uma resolução de Dia dos Namorados ou de Páscoa?)
Saúde em 2025: distritos ganham reforço, rede amplia odontologia e Ouro Preto prepara linha completa contra obesidade

Secretário Leandro Moreira lista entregas e programas: UBS de Glaura ampliada, estabilização em Santa Rita e Antônio Pereira e ambulatório de obesidade