Ouro Preto, sábado, abril 25, 2026 04:55

Por que demorou tanto para a Humanidade voltar à Lua?

Domenico Vicinanza, Anglia Ruskin University Às 13h24m59s no horário padrão central dos EUA do dia 19 de dezembro de 1972, o módulo de comando da Apollo 17 amerissou no Oceano Pacífico, a cerca de 350 milhas náuticas a sudeste de Samoa, encerrando a última missão tripulada americana à Lua. Durante sua carreira, o comandante da Apollo 17, Eugene A. Cernan, registrou 566 horas e 15 minutos no espaço, das quais mais de 73 horas foram passadas na superfície da Lua. Cernan foi o segundo americano a caminhar no espaço e a última pessoa a deixar suas pegadas na superfície da Lua. A conclusão da jornada da Apollo 17 marcou não apenas o fim de uma missão, mas o fim de uma era. Entre 1969 e 1972, 12 astronautas caminharam na Lua em seis pousos distintos. Meio século depois, a Nasa está retornando à Lua, com seu programa Artemis. Para a missão Artemis II, que foi lançada no dia 1º de abril de 2026, quatro astronautas farão um sobrevoo do lado oculto da Lua dentro de uma cápsula tripulada – a Órion . Mais de 50 anos é um longo intervalo, e é natural perguntar: se os americanos conseguiam chegar à Lua rotineiramente no início da década de 1970, por que demoraram tanto para tentar voltar? A missão Apollo 17, em 1972, marcou a última vez que humanos pisaram na Lua. Nasa A resposta não é simples. Tem pouco a ver com tecnologia e muito mais com a forma como a política, o dinheiro e o apoio global funcionam. O ponto de partida é o próprio programa Apollo: seu modelo de exploração não foi construído para durar, e claramente não era sustentável. Em 25 de maio de 1961, perante uma sessão conjunta do Congresso americano, o presidente John F. Kennedy comprometeu os EUA com a meta de levar um homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança à Terra antes do fim daquela década. Após o assassinato de Kennedy em 1963, o presidente Lyndon B. Johnson garantiu que essa meta de pouso na Lua fosse cumprida. Mas os custos crescentes da Guerra do Vietnã e das reformas internas reduziram o interesse em novos investimentos espaciais. O discurso de John F. Kennedy na Universidade Rice em 1962 reafirmou o compromisso dos Estados Unidos com chegar à Lua. JFK Library Na verdade, o orçamento da Nasa atingiu seu pico em 1966 e começou a cair mesmo antes do sucesso do programa Apollo, prejudicando as perspectivas de uma exploração sustentável. O financiamento adicional foi rechaçado, missões planejadas foram canceladas e o programa Apollo chegou ao fim em 1972 – não porque tivesse fracassado, mas porque havia cumprido sua missão. A exploração sustentável (tanto no espaço quanto na Terra) requer um compromisso político estável, financiamento previsível e um objetivo claro de longo prazo. Após o Apollo, os EUA tiveram dificuldades para manter esses três aspectos simultaneamente. Os formuladores de políticas começaram a questionar qual direção a Nasa deveria tomar a seguir. Em 1972, o então presidente Richard Nixon instruiu a agência espacial a iniciar a construção do ônibus espacial. Isso levaria a Nasa a mudar seu foco da exploração do espaço profundo para operações na baixa órbita terrestre. ‘Caminhão espacial’: o ônibus espacial foi promovido como uma forma de acesso acessível à baixa órbita da Terra, mas a realidade se mostrou um tanto diferente. Nasa Divulgado como um “caminhão espacial” reutilizável, o ônibus espacial tinha como objetivo tornar o acesso à órbita da Terra algo rotineiro e relativamente barato. Mas ele acabaria se revelando um veículo de incrível complexidade, marcado por falhas técnicas e tragédias humanas – os acidentes com o Challenger e o Colúmbia, nos quais 14 astronautas perderam a vida. Oito anos após o início do programa do ônibus espacial, alguns integrantes da comunidade aeroespacial acreditavam que era hora dos EUA voltarem a mirar a Lua – e a perspectiva tentadora de um pouso em Marte. Em 20 de julho de 1989, no 20º aniversário do primeiro pouso lunar da Apollo 11, o presidente George H.W. Bush anunciou a Iniciativa de Exploração Espacial (SEI). O plano visava um compromisso de longo prazo para construir a Estação Espacial Freedom, levar astronautas de volta à Lua “para ficar” e, finalmente, enviar humanos ao planeta vermelho. Mas os altos custos estimados da SEI, que chegavam a centenas de bilhões de dólares, levaram ao seu fracasso. O fraco apoio no Congresso, juntamente com outros fatores, levou ao seu cancelamento durante o governo do presidente Bill Clinton. Durante a década de 1990, o projeto da Estação Espacial Internacional (ISS) consolidou a baixa órbita terrestre como prioridade para a exploração humana. O ônibus espacial foi o meio utilizado pelos EUA para construir a estação e transportar tripulações de e para o posto avançado em órbita. A ISS tornou-se um símbolo de cooperação científica internacional e de proeza técnica. As experiências realizadas na estação geraram insights valiosos em tudo, desde a pesquisa médica até a ciência de materiais. Mas também consumiram recursos que, de outra forma, poderiam ter apoiado a exploração do espaço profundo. O desastre do Colúmbia em 2003 – no qual o ônibus espacial se desintegrou sobre o Texas, causando a morte de toda a tripulação – levou a uma nova reflexão sobre a direção da exploração espacial nos Estados Unidos. Como resultado, o presidente George W. Bush anunciou a Visão para a Exploração Espacial. O objetivo dessa proposta, que daria origem ao que ficou conhecido como Programa Constellation, era reconstruir a capacidade da Nasa de chegar à Lua, tendo Marte como meta de longo prazo. Mas análises independentes alertaram que os custos e cronogramas eram irreais. O Congresso americano nunca deu apoio financeiro total ao Constellation, levando ao seu cancelamento em 2010, durante a Presidência de Barack Obama. Esse ciclo repetido de projetos espaciais cancelados expõe algumas limitações inerentes ao sistema de financiamento da exploração lunar. Um programa lunar sustentável precisa de um forte compromisso multissetorial e de mecanismos para garantir financiamento por várias décadas.

Lei que inseriu o símbolo do autismo em Ouro Preto completa oito anos

Lei aprovada pela então vereadora em 2018 determinou inserção do símbolo do autismo nas placas de atendimento prioritário do município Em 2018, a vereadora Regina Braga assinou a Lei Municipal 1.097, que determinou a inserção do símbolo do autismo nas placas de atendimento prioritário de estabelecimentos públicos e privados de Ouro Preto. Supermercados, bancos e comércios passaram a ser obrigados a exibir o lacinho colorido ao lado dos demais símbolos de prioridade. A lei não criou um novo direito — o atendimento preferencial a pessoas com autismo já era garantido — mas tornou esse direito visível. Sete anos depois, a autora da lei é a vice-prefeita do município. E o Abril Azul, mês internacional de conscientização sobre o autismo marcado pelo Dia Mundial em 2 de abril, trouxe a oportunidade de olhar para o que mudou — e para o que ainda falta. “É uma data importante para reforçarmos o respeito, a inclusão e o direito das pessoas autistas a uma vida digna e com oportunidades”, disse Regina Braga. Sobre a lei de 2018, ela reconhece o limite do gesto: “Foi um gesto simples, mas que representa respeito e dignidade.” A legislação municipal acompanhou uma mudança mais ampla no reconhecimento dos direitos das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil. A Lei Berenice Piana, de 2012, foi o marco federal que estabeleceu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Em Ouro Preto, iniciativas como a lei de 2018 e, mais recentemente, a instalação da sala de reabilitação sensorial pela Secretaria Municipal de Saúde fazem parte do mesmo caminho. 📋 A lei Lei Municipal 1.097/2018 — Ouro Preto O que determina: Inserção do símbolo do autismo (lacinho colorido) nas placas de atendimento prioritário de estabelecimentos públicos e privados Autora: Regina Braga, então vereadora, atual vice-prefeita de Ouro Preto Abril Azul: Mês de conscientização sobre o autismo — Dia Mundial em 2 de abril

Automutilação na adolescência: qual o papel da escola na prevenção deste problema crescente?

Ainda que os cortes sejam feitos pelo adolescente em outros ambientes, como em casa, é na escola que eles com frequência são vistos pela primeira vez. Estudiosos indicam que os profissionais de ensino em geral são os primeiros adultos a perceberem as lesões. Imagem: CVV Gabriela Meireles Macedo, PUC-Rio e Terezinha Féres-Carneiro, PUC-Rio A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou, em 2025, que os problemas de saúde mental no mundo são responsáveis por 16% das doenças e lesões entre adolescentes. No Rio de Janeiro, a Secretaria de Estado de Saúde registrou, em 2023, 13.007 notificações de violência autoprovocada, sendo 25% casos de adolescentes. Os números alarmantes indicam o aumento do fenômeno nas últimas décadas. O psicólogo clínico americano Matthew Nock, em seu estudo de 2010, definiu automutilação como todo comportamento que é realizado intencionalmente e com o conhecimento de que pode ou irá resultar em algum grau de lesão física e/ou psicológica para si mesmo. Trata-se de um dano autoinfligido que pode ser realizado com o uso ou não de objetos perfurocortantes. As áreas mais comuns onde acontecem as lesões são punhos, antebraços, coxas, barriga e pernas. Em 2020, o Ministério da Saúde lançou a “Cartilha para prevenção da automutilação e do suicídio: orientações para educadores e profissionais da saúde”, na qual é ressaltada a diferença entre a autolesão com intenção suicida e a sem intenção suicida (ASIS). As autolesões possuem funções intrapessoais, como buscar alívio da dor emocional, e funções interpessoais, como a finalidade de comunicar o próprio sofrimento e/ou pertencer a grupos. A automutilação surge como um recurso que, paradoxalmente, busca apaziguar uma dor psíquica insuportável por meio do ato de infligir-se uma dor física. Automutilação: um problema para saúde e a educação A adolescência representa um momento de passagem, situando-se na fronteira entre a infância e a vida adulta. Ocorre, nesse período, certo desprendimento do adolescente em relação às figuras parentais e uma busca por inserção nos discursos sociais e nos grupos. Isso coloca em questão a relação dele com a alteridade: movimento que, segundo os estudiosos da área, pode provocar sentimentos de desamparo e angústia. As instituições educativas são fundamentais na construção de laços fora do seio familiar. Diante de tantas transformações corporais e psicossociais, é comum o adolescente transferir para o corpo, em ato, seu sofrimento. Ele faz isso ao invés de utilizar a palavra ou a fala como recurso de expressão. É nesse cenário que costumam aparecer as automutilações. Um fato curioso sobre a automutilação na adolescência, identificado por alguns pesquisadores do campo, é que ainda que os cortes sejam feitos pelo adolescente em outros ambientes, como em casa, é na escola que eles, com frequência, aparecem. Estudiosos indicam que os profissionais da instituição de ensino, comumente, são os primeiros adultos a perceberem as lesões. A escola por estar menos comprometida emocionalmente comparada aos pais, ao observar o adolescente, consegue, muitas vezes, detectar com mais clareza dificuldades no processo de desenvolvimento do aluno. Os professores são capazes de notar mudanças de comportamento repentinas em sala de aula como tristeza e isolamento, que se configuram como um sinal de alerta. Isso aponta a importância de o fenômeno da automutilação na adolescência ser discutido não só na esfera da saúde, mas também no campo da educação. Além disso, a escola acaba sendo um lugar favorável para tratar a problemática porque ela concentra a maior parte da população infantojuvenil e isso possibilita não só identificar riscos e danos psicossociais que assolam esse público, mas também fomentar a educação em saúde em larga escala. O estudo Em nosso projeto, realizado no Laboratório de Estudos em Família e Casal (LEFaC), do Departamento de Psicologia da PUC-Rio, investigamos a questão da autolesão em adolescentes na atualidade, a partir da percepção de profissionais que atuam na escola. Foram entrevistados 10 profissionais da área da psicologia e/ou educação que atuassem diretamente com adolescentes em escolas públicas (municipais, estaduais e federais) do estado do Rio de Janeiro. Dentre eles, professores de diferentes disciplinas, orientadores educacionais, que são pedagogos de formação e psicólogas. Os dados elucidaram como acontece o manejo da escola diante do fenômeno da automutilação na adolescência e os desafios enfrentados pelos educadores. Além disso, os resultados evidenciaram qual é o papel da escola frente a essa questão e a importância de um trabalho de cuidado em rede (família, escola e Estado). O manejo e seus desafios Os entrevistados relataram inicialmente um manejo no sentido de acolher o adolescente por meio de uma escuta empática e sem julgamentos, de modo que o jovem possa expressar seus sentimentos. Em seguida explicitaram a importância de comunicar à família sobre a automutilação, mas de maneira cuidadosa para não desencorajar outras buscas por ajuda. Ressaltaram a necessidade de orientar os responsáveis e realizar encaminhamentos a serviços de saúde mental e/ou assistência social. Por fim, a maioria dos participantes declarou que a escola faz a notificação compulsória ao Conselho Tutelar, seguindo a Lei nº 13.819/2019, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. Curiosamente os entrevistados relataram um manejo que está de acordo com as diretrizes da Cartilha para prevenção da automutilação e do suicídio: orientações para educadores e profissionais da saúde, mesmo sem tê-la mencionado. Isso aponta para um saber-fazer do educador que pode ser lapidado com informações mais consistentes acerca da temática. Essa aquisição de conhecimento sistemática pode funcionar como um amparo para o profissional em sua atuação. Em geral, os entrevistados alegaram se sentirem despreparados para lidar com a problemática da automutilação. Ficou evidente a falta de uma orientação clara e técnica sobre o referido tema e a falta de formação continuada acerca das questões de saúde mental na escola. Esses fatores comumente levam a uma estigmatização do fenômeno. Alguns entrevistados denunciaram que colegas descrevem, pejorativamente, a automutilação como uma atitude do adolescente para “chamar atenção”. Essa é uma percepção pautada no senso comum que pode desembocar numa negligência do adulto face ao episódio. O fato é que o adolescente que se corta está demandando um olhar e uma

Por que o crime organizado está tornando a vida mais cara sem que a gente perceba

Robson Rodrigues, UERJ Há muito a criminalidade organizada deixou de ser um fenômeno restrito às periferias urbanas. Ela atualmente está infiltrada de maneira profunda nos circuitos formais da economia. Nas grandes metrópoles – onde se concentra a infraestrutura financeira, logística e produtiva –, os efeitos sobre o setor privado são particularmente severos. Os custos operacionais sobem, a concorrência é distorcida, investimentos são adiados ou cancelados e o próprio capital institucional se fragiliza. Trata-se, portanto, de um problema que é securitário, econômico e de governança ao mesmo tempo. Para ilustrar, imagine um comerciante observando um concorrente abrir uma loja ao lado da sua, que vende mais barato, não paga impostos e nunca parece ter problemas de caixa. Depois de alguns meses, o comerciante descobre o motivo: a loja existe para lavar dinheiro do crime organizado. Esse cenário, que parece enredo de série policial, é o dia a dia de milhares de empresários brasileiros. Estudos conduzidos por instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o IPEA e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que a criminalidade organizada impõe ao Brasil um custo anual equivalente a cerca de 4,2% do PIB apenas em impactos sobre o setor privado. Em valores absolutos, isso equivale a mais de R$ 450 bilhões — montante suficiente para construir sete vezes o Rodoanel de São Paulo. Custo nacional e transnacional No Rio de Janeiro, essa situação salta aos olhos. Basta a um observador atento percorrer a Avenida Brasil — principal e mais estratégico corredor viário do Estado, mas também um dos mais perigosos — para constatar a deterioração acelerada do ambiente produtivo. Empresas históricas, que durante décadas compuseram um tecido econômico vibrante ao longo da via, vêm desaparecendo de um território que passou a ser, na prática, controlado por organizações criminosas. Diante desse cenário, as respostas do Estado têm seguido um roteiro velho e surrado: reforços pontuais e reativos de policiamento combinadas com operações policiais de grande impacto midiático, mas com baixos resultados estruturais. Além disso, como o cobertor dos recursos públicos é curto, o modelo se exaure nessas ações, abrindo espaço para a expansão dos “crimes de rua”, em especial roubos e furtos de celulares. Importante destacar que o problema está longe de ser uma particularidade brasileira. Na América Latina e no Caribe, o custo médio do crime alcança 3,44% do PIB regional, segundo estimativas do BID (2024). É o equivalente a 78% de todo o orçamento público destinado à educação na região. As cifras estimadas para a região ultrapassam em 42% o custo estimado do crime organizado na Europa. Em escala global, dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) indicam que redes criminosas transnacionais movimentam anualmente cerca de 1,5% do PIB mundial — um volume financeiro que supera, inclusive, toda a ajuda humanitária global combinada. No fim das contas, essa conta não desaparece: ela só se redistribui, chegando, de diferentes formas, a toda a sociedade. O impacto sobre o setor produtivo A criminalidade deixou de ser um risco eventual ao setor privado e tornou-se custo estrutural de operação. Para funcionar, as empresas sustentam uma engrenagem paralela de proteção, que inclui câmeras, vigilância privada, blindagem de veículos, seguros mais caros, rastreamento de cargas e rotinas adicionais de controle. Segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, os gastos diretos com segurança no Brasil já se aproximam de R$ 60 bilhões por ano. A esse valor se somam cerca de R$ 200 bilhões em custos indiretos — perdas, interrupções logísticas e ineficiências operacionais — que se espalham pela cadeia produtiva e acabam repassados ao consumidor. Nesse cenário, não causa espanto que uma em cada três empresas da América Latina registre ao menos um incidente criminal por ano. Tampouco que os gastos com segurança já consumam 2,7% da receita bruta — mais, em muitos casos, do que as perdas causadas por falhas no fornecimento de energia. Mais grave ainda é o custo invisível trazido pela presença do crime organizado. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) mapeou sua atuação em 16 setores da economia formal. Entre eles, nos combustíveis, bebidas, tabaco, construção civil, mineração. Em cada um desses setores, empresas criminosas operam com vantagem competitiva artificial: não maximizam lucros, só precisam lavar dinheiro. Isso destrói a concorrência leal. O resultado? A CNI estima que essa infiltração tenha impedido a criação de 370 mil empregos formais em 2022 e retirado R$ 500 bilhões da economia produtiva — recursos que, em condições normais, poderiam estar gerando renda, impostos e inovação. O que pode ser feito As estatísticas trazem um dado muito interessante sobre o enfrentamento eficiente à violência. O FMI (Fundo Monetário Internacional) mostrou que reduzir as taxas de homicídio ao nível da média global poderia elevar o crescimento anual da América Latina em até meio ponto percentual. Nas economias mais violentas, o ganho poderia chegar a 1 ponto — o equivalente a bilhões de dólares em riqueza adicional gerada a cada ano. Isso muda o enquadramento do problema. Combater o crime organizado não é apenas uma questão de segurança pública. E o setor privado tem um papel importante nessa equação que vai além de contratar vigilantes. As empresas poderiam, por exemplo, exigir rastreabilidade nas cadeias de fornecimento, pressionar por regulação mais rigorosa em setores infiltrados e adotar práticas antilavagem de dinheiro mesmo quando não são instituições financeiras. O Movimento Unidos pelo Combustível Legal é um exemplo concreto disso. Trata-se de uma coalizão de empresas do setor que estimou perdas de cerca de R$ 30 bilhões por ano com sonegação e adulteração de combustíveis — e passou a pressionar ativamente por mudanças regulatórias. Os resultados mostram que esse tipo de articulação funciona. Isso significa que combater o crime organizado não é só uma questão de segurança. É política econômica. É competitividade. É geração de emprego. A conta que ninguém faz No fim das contas, o crime organizado funciona como um imposto invisível. Ele não aparece na nota fiscal, não consta em nenhum CNPJ, mas está embutido em

Hidrocefalia de pressão normal: mudanças no andar e na memória de idosos nem sempre indicam sinais de demência

Fernando Gomes, Universidade de São Paulo (USP) Nem todo idoso que começa a andar um pouco mais devagar, esquecer compromissos e ter escapes urinários está, necessariamente, prestes a receber um diagnóstico de demência, doença de Alzheimer ou Parkinson sem tratamento. Embora sintomas como lentidão ao andar, falhas de memória e incontinência urinária sejam frequentemente associados a doenças neurodegenerativas, há situações em que o quadro tem outra origem. Estudos clínicos mostram que, em alguns casos, os mesmos sintomas podem estar associados a uma outra alteração neurológica: a hidrocefalia de pressão normal (HPN). Pesquisas indicam que em cerca de 0,5% a 10% dos casos dos diagnósticos inicialmente atribuídos à demência, por exemplo, os sintomas estão, na verdade, relacionados a essa alteração neurológica. Nessas situações, diferentemente dos quadros motivados por causas degenerativas, considerados irreversíveis, a presença da HPN e a indicação da terapia adequada sugerem que há boas chances de recuperar funções como mobilidade e equilíbrio, com impacto direto na qualidade de vida. A hidrocefalia de pressão normal afeta principalmente pessoas acima dos 60 anos. Ela se manifesta por três sinais clássicos: dificuldade para andar, alterações cognitivas e problemas urinários. Mas, como disse, parte desses sintomas pode ser reversível. Muitos idosos com HPN passam anos sendo tratados como se tivessem apenas “dificuldade para andar da idade” ou um quadro demencial irreversível. A ciência mostra que, em parte desses casos, há um componente mecânico tratável. Quando não é uma degeneração Como neurocirurgião, neurocientista e pesquisador, sempre me impressiono com o modo como o cérebro depende do funcionamento adequado de várias estruturas para se manter ativo e saudável. É o que se vê nesta condição, em que pequenas alterações na circulação do líquor — o líquido que banha e protege o sistema nervoso — podem impactar redes neurais responsáveis por andar, manter o equilíbrio, planejar movimentos e até organizar pensamentos. Entender esses mecanismos é mais do que uma curiosidade científica: é a chance de devolver autonomia a quem pode estar perdendo a própria mobilidade. Nos casos de HPN, o líquor deixa de circular e de ser reabsorvido adequadamente. Os ventrículos cerebrais — cavidades cheias de líquido — aumentam de tamanho e passam a comprimir estruturas vizinhas. Essa pressão crônica interfere no funcionamento de circuitos neurológicos profundos ligados à marcha, ao controle postural e às funções executivas – as habilidades mentais associadas ao lobo frontal, responsáveis por planejar, manter a atenção, controlar impulsos, reter informações temporariamente e adaptar-se a novas situações. Mas será possível reverter esses sintomas? A questão mobiliza pesquisadores. Nesse contexto, se o diagnóstico for preciso e a realização de uma intervenção cirúrgica específica ocorrer no momento adequado, há boas chances disso acontecer. Um grande ensaio clínico, publicado na renomada revista científica The New England Journal of Medicine, avaliou o efeito da cirurgia de derivação liquórica — procedimento que consiste no implante de uma válvula para drenar o excesso de líquor — em pacientes cuidadosamente selecionados. Os participantes foram previamente submetidos a testes com drenagem temporária de líquor para avaliar a probabilidade de resposta ao tratamento. Nesse contexto, a neurociência não é apenas tecnologia — envolve, sobretudo, uma seleção clínica cuidadosa, orientada pela fisiologia. O principal resultado descrito no estudo citado foi objetivo e mensurável: após três meses, os pacientes que receberam uma válvula funcional para drenar o líquido cerebral apresentaram maior velocidade ao caminhar, enquanto o grupo placebo (tratamento simulado, sem efeito terapêutico real) permaneceu praticamente inalterado. A diferença foi considerada clinicamente relevante pelos pesquisadores. À primeira vista, pode parecer um aspecto mais técnico. No entanto, a velocidade da marcha é um dos indicadores mais consistentes de saúde no envelhecimento porque sintetiza, em uma única medida, o funcionamento integrado de múltiplos sistemas do organismo — neurológico, muscular, cardiovascular e de equilíbrio. Alterações nesse ritmo costumam refletir precocemente perdas nessas funções. Por isso, mais do que “andar melhor”, caminhar mais rápido está associado a menor risco de quedas, maior autonomia e melhor prognóstico funcional. Do ponto de vista cerebral, os resultados sugerem que a drenagem do líquor alivia a disfunção de circuitos fronto-subcorticais — redes de conexão entre o córtex frontal (responsável pelo planejamento e pela tomada de decisões) e estruturas mais profundas do cérebro, como os gânglios da base, que ajudam a dar início aos movimentos e a coordená-los de forma adequada. O estudo também mostrou melhora significativa em testes de equilíbrio e mobilidade global, enquanto os ganhos cognitivos foram mais discretos no curto prazo. Esse descompasso é esperado do ponto de vista neurobiológico: circuitos ligados ao movimento e ao controle da postura tendem a responder mais rapidamente à redução da pressão ventricular, enquanto funções cognitivas — que dependem de redes cerebrais mais amplas e da integração entre diferentes áreas — levam mais tempo para se reorganizar. Em alguns casos, essa recuperação mais lenta pode indicar que parte das alterações no cérebro já não é totalmente reversível, especialmente quando a doença está mais avançada. Em outras palavras, o sistema motor tende a responder de forma mais imediata, como se fosse aliviado de uma sobrecarga, enquanto o funcionamento cognitivo, mais complexo, pode exigir um tempo maior para se recuperar. O que muda no cérebro No estudo referido, as imagens cerebrais obtidas por exames como a ressonância magnética mostraram uma redução do volume dos ventrículos após o início do funcionamento da válvula, indicando que o tratamento não atua apenas sobre os sintomas, mas modifica a mecânica interna do cérebro. Menor distensão ventricular significa menos estiramento de fibras nervosas profundas, especialmente na substância branca periventricular. Essas fibras funcionam como verdadeiras “autoestradas”, conectando regiões frontais a centros motores e ao controle esfincteriano. a comunicação entre essas áreas se torna menos eficiente quando elas são comprimidas. Aliviar essa pressão é, portanto, como desobstruir vias de tráfego neural. Trata-se de um benefício real, mas que também envolve riscos. A neurocirurgia de derivação não é trivial, e o estudo também registrou efeitos adversos, como dor de cabeça por excesso de drenagem e pequenos sangramentos subdurais em parte dos pacientes. Quando a marcha melhora, o impacto vai além do movimento.

Infodemia: como plataformas digitais usam a desinformação e o excesso de informação para lucrar

Gilbergues Santos Soares, Universidade Federal da Paraíba (UFPB) O Dia Internacional da Checagem de Fatos, neste 2 de abril, é mais uma oportunidade para qualificar a discussão sobre desinformação. Ela é uma marca do nosso tempo, assim como a premissa de que poderia ser combatida com mais informação. Essa ideia sustenta que ampliar o acesso a conteúdos neutralizaria as narrativas enganosas e seria suficiente para estimular práticas informacionais adequadas. Mas informação e desinformação são produzidas e disseminadas no mesmo ecossistema informacional. Em uma era dominada pela circulação intensa de conteúdos, pelo negacionismo, pelo revisionismo e por plataformas que monetizam atenção e engajamento, somente ampliar o volume informacional não basta para reduzir o grau de desinformação. É preciso investigar como a desinformação circula nas plataformas digitais e de que modo as práticas desinformacionais estão inscritas em um modelo de negócio que transforma atenção, engajamento e circulação em monetização. Mesmo sufocada pela desinformação, a sociedade trata a era digital e a informação como panaceias para os problemas produzidos nesse ambiente. A informação é entendida como solução em si mesma. Nesse enquadramento, a oposição entre informação e desinformação tende à simplificação: de um lado estaria a verdade; de outro, a mentira. Dessa simplificação emerge uma leitura recorrente do problema: se a desinformação se espalha, o caminho seria ampliar a circulação de informação qualificada para contê-la. Foi nesse contexto que, durante a pandemia de Covid-19, ganhou força a noção de infodemia. Hiperinformação e superdesinformação Durante a pandemia de Covid-19, o termo infodemia se difundiu como o excesso de dados e conteúdos — corretos e/ou incorretos — que circulavam com velocidade pelas plataformas digitais. Cresceu a percepção de que a desinformação poderia ser enfrentada com mais informação. A experiência mostrou que, mesmo com a existência e disponibilização de muitas evidências científicas, conteúdos falsos ou distorcidos prosperam impulsionados pelo volume de circulação. Ainda assim, a “sociedade da informação” oferece uma resposta centrada no indivíduo, privilegiando competências críticas e habilidades individuais para reconhecer narrativas falsas. Em vez de enfrentar as condições em que a desinformação circula, essa abordagem desloca para o sujeito a responsabilidade de distingui-la da informação. Como observa o pesquisador Rodrigo Moreno Marques (UFMG), o foco recai sobre as habilidades individuais, e não sobre o ambiente em que essas narrativas são produzidas, circulam e se fortalecem. A desinformação não pode ser resumida ou atribuída a falhas pessoais de interpretação. Trata-se de um fenômeno que estrutura estratégias de poder: em vez de circular espontaneamente, ela se articula com interesses econômicos e políticos, além de formas de organização da comunicação nas plataformas, como exemplificam as mobilizações da extrema direita no espaço digital. Para compreender esse funcionamento, é preciso relacionar informação e desinformação à crítica da economia política. Conceitos como alienação e fetichismo, formulados pelo filósofo e economista alemão Karl Marx, ajudam a iluminar uma realidade em que narrativas operam como fatos e a circulação de conteúdos se articula a questões econômicas e sociais. Nesse quadro, o regime de informação/desinformação passa a tensionar a própria democracia. Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), Marx demonstrou que o capital provém da exploração dos trabalhadores e da acumulação de riquezas. Essa discussão importa porque essas relações de exploração se reconfiguram no ambiente digital, em que essa tecnologia se tornou a “indústria-base” da acumulação capitalista. Com ela, a informação converte-se em monetização e o modelo de negócio das plataformas aprofunda a acumulação de capitais, ampliando as desigualdades sociais. Enquanto tecnologias digitais expandem mercados e multiplicam fluxos informacionais, novas formas de exploração se consolidam e o capital se concentra cada vez mais. Nesse contexto, o atual regime informacional precisa ser compreendido como parte do capitalismo para podermos falar de desinformação. O novo regime de informação O modo como a vida material e o trabalho são produzidos e organizados influencia a forma como pensamos e nos comunicamos. Em sociedades plataformizadas, em contínua expansão, as redes sociais e as big techs distribuem informação e influenciam a organização e produção da vida social, estruturada a partir de uma base econômica. As condições materiais de existência dão origem a uma superestrutura composta por dimensões sociais, políticas, culturais e intelectuais. Assim, o conceito de alienação ajuda a entender efeitos da informação mediada pelas plataformas. Alienação ocorre quando deixamos de reconhecer ou controlar o produto de nosso trabalho. E isso se intensifica no ambiente das plataformas que retroalimenta a dinâmica de acumulação. Usuários produzem dados e conteúdos que alimentam sistemas econômicos sem que possam controlar o uso dessas informações. Em A Sociedade do Espetáculo, o filósofo e cineasta francês Guy Debord trata do indivíduo alienado pela sociedade moderna. Quanto mais o trabalhador (usuário) produz conteúdos e interações, menos vive essa experiência, se reconhecendo em imagens e narrativas dominantes, sem compreender sua posição no sistema. Quanto mais alienado do resultado de sua atividade, mais assume o papel de espectador. Temos, portanto, a consolidação de um espetáculo alimentado por um estágio avançado de produção de mais-valor (o valor gerado pela atividade do trabalhador/usuário e apropriado economicamente pelas plataformas). Nessas condições, a participação é convertida em matéria-prima. O modelo de negócio plataformizado move-se pela expropriação do tempo real do trabalhador/usuário, que ao mesmo tempo produz e consome, sob uma sensação de liberdade que não corresponde às relações efetivas em que está inserido. Nesse ambiente, atividades antes ligadas ao convívio social e ao lazer passam a ser mediadas pelo consumo e pela visibilidade nas plataformas. O espetáculo descrito por Debord se atualiza: relações sociais são filtradas e organizadas por uma lógica mercantil que transforma experiências em produtos. Informação e desinformação alienam e circulam nas redes como produtos do trabalho social. Essa produção favorece distorção, simplificação e manipulação de conteúdos. O resultado é um ambiente informacional que dificulta uma compreensão crítica da realidade. Sob a lente da economia política No novo regime de informação, mudam os meios e dispositivos e as plataformas se multiplicam, mas o capitalismo segue impondo as regras do jogo. Tecnologias ampliam o alcance e a velocidade dos fluxos informacionais, enquanto as mesmas lógicas de acumulação continuam organizando a produção e circulação

Milhões de pessoas são portadoras da bactéria causadora da tuberculose sem saber

No Dia Mundial da Tuberculose, especialista lembra que doença não é coisa do passado e continua sendo uma das principais causas de morte por infecção no mundo, especialmente em populações em situação de vulnerabilidade na África, Ásia e América Latina. New Africa/shutterstock Luis Felipe Reyes, Universidad de La Sabana Todo dia 24 de março se comemora o Dia Mundial da Tuberculose. E, no entanto, é uma data que passa quase despercebida, talvez porque muitos a vejam como uma doença do passado. Algo distante, associado a outra época, a romances ou a contextos muito específicos. Mas a realidade é muito menos confortável: a tuberculose continua sendo uma das principais causas de morte por infecção no mundo. E, surpreendentemente, coexiste silenciosamente com muitos de nós. Uma bactéria que vive em milhões de pessoas Estima-se que uma em cada quatro pessoas no planeta tenha em seu organismo a bactéria causadora da tuberculose. Sim, uma em cada quatro. Na maioria dos casos, esse microrganismo (Mycobacterium tuberculosis) permanece “adormecido”. Não causa sintomas, não é facilmente detectada e não gera doença. É o que se conhece como infecção latente. Mas essa aparente tranquilidade é enganosa. Em determinadas circunstâncias — por exemplo, quando o sistema imune fica enfraquecido —, a bactéria pode se ativar e provocar uma doença que afeta principalmente os pulmões, mas que também pode comprometer outros órgãos. Isso significa que a tuberculose não é apenas um problema para quem adoece: é uma infecção amplamente disseminada, uma espécie de “reserva silenciosa” global que pode se reativar a qualquer momento. Problema global, e profundamente desigual Em 2021, foram registrados cerca de 9,4 milhões de novos casos de tuberculose e ocorreram 1,35 milhão de mortes causadas por essa doença no mundo. São números impressionantes, mas que, por si sós, não contam toda a história. O mais importante é como eles se distribuem. A tuberculose não afeta a todos da mesma forma. Em muitos países de renda alta, a incidência da doença tem diminuído de forma sustentada nas últimas décadas. É pouco frequente, geralmente é diagnosticada precocemente e o tratamento está disponível. Por outro lado, em regiões da África, Ásia e América Latina, continua sendo uma realidade cotidiana. Nesses locais, fatores como superlotação, pobreza, desnutrição ou acesso limitado aos serviços de saúde favorecem a transmissão e a progressão da doença. Em outras palavras, a tuberculose não é apenas uma infecção: é também um reflexo das desigualdades globais. Avanços reais, mas muito lentos Seria injusto dizer que não houve progresso: houve, e é importante reconhecê-lo. Desde a década de 1990, a incidência e a mortalidade por tuberculose diminuíram globalmente. A expansão dos programas de controle, o acesso a tratamentos eficazes e o fortalecimento dos sistemas de vigilância contribuíram para esses avanços. O ritmo de melhoria, no entanto, não é suficiente. A Organização Mundial da Saúde OMS) estabeleceu metas ambiciosas na estratégia “End TB”, com objetivos intermediários para 2020. Entre eles, reduzir a incidência em 20% e a mortalidade em 35% em relação a 2015. Mas o mundo não atingiu essas metas. Entre 2015 e 2020, a incidência global de tuberculose diminuiu apenas 6,3% e a mortalidade, 11,9%. Estamos avançando, mas muito mais lentamente do que o necessário. Se mantivermos esse ritmo, será muito difícil atingir as metas estabelecidas para 2035. Nem todos avançam no mesmo ritmo Além disso, o progresso tem sido desigual. Alguns países alcançaram avanços notáveis, graças a estratégias inovadoras como a busca ativa de casos, o uso de tecnologias mais rápidas de diagnóstico ou programas de apoio social para garantir que os pacientes concluam o tratamento. Mas esses exemplos continuam sendo a exceção, não a regra. Também há diferenças entre as populações. Por exemplo, dados mostram que os avanços têm sido mais rápidos em crianças, mas lentos em idosos, que correm maior risco de morrer de tuberculose. Isso é relevante porque a população mundial está envelhecendo rapidamente e porque, se não forem adotadas estratégias de controle, esse grupo poderá se tornar um foco crescente da doença. Fatores que continuam a impulsionar a doença Parte do desafio reside no fato de que a tuberculose não depende apenas da bactéria, mas também de fatores que aumentam o risco de desenvolvê-la. Entre eles destacam-se o tabagismo, o consumo de álcool e o diabetes. De fato, estimativas recentes sugerem que uma proporção significativa das mortes por tuberculose poderia ser evitada se esses fatores fossem reduzidos. Isso reforça a ideia de que a doença não pode ser abordada de forma isolada: requer uma abordagem integral que combine intervenções médicas, sociais e de saúde pública. A este cenário soma-se um problema ainda mais preocupante: a tuberculose resistente aos antibióticos. O tratamento padrão é longo e complexo, e exige adesão estrita. Quando esses tratamentos não são concluídos adequadamente, ou quando os sistemas de saúde não garantem o acesso contínuo aos medicamentos, podem surgir cepas resistentes. Essas formas de tuberculose são muito mais difíceis de tratar: exigem terapias mais prolongadas, mais caras e com mais efeitos adversos. E o mais preocupante é que já estão presentes em várias regiões do mundo. O desafio de implementar o conhecimento de forma equitativa Além dos números, a tuberculose nos fala de algo mais profundo: fala de desigualdade, de sistemas de saúde que nem sempre chegam àqueles que mais precisam, de condições de vida que facilitam a transmissão de doenças que podemos prevenir. Mas também nos fala de oportunidades. A tuberculose pode ser prevenida. É diagnosticável e tratável. Sabemos o que funciona e como reduzir seu impacto. O problema não é a falta de conhecimento, é a falta de implementação equitativa desse conhecimento. Reduzir seu impacto na América Latina, especialmente nas populações mais vulneráveis da região, exige uma resposta global coordenada, equitativa e ambiciosa. As doenças que acreditamos estarem distantes costumam ser as que mais nos surpreendem quando reaparecem. Luis Felipe Reyes, Profesor de muy alto prestigio en Enfermedades Infecciosas, Universidad de La Sabana This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Por que o BRICS ainda não se manifestou sobre a guerra contra o Irã?

Luis Gouveia Junior, Universidade de Coimbra Semanas após o Irã ser atacado numa clara violação do direito internacional, o BRICS permanece em silêncio. Essa falta de posicionamento enquanto grupo é ainda mais significativa pelo Irã ser Estado-membro do BRICS desde 2023. No ano passado, durante a Guerra dos Doze Dias, o grupo emitiu uma declaração em que criticava os ataques de Israel e dos EUA contra o território iraniano. Em suas reuniões de cúpula, o BRICS sempre declarou apoio ao direito internacional, defendendo que intervenções estrangeiras devem estar sob autorização do Conselho de Segurança da ONU. Como explicar, então, que um grupo que defende o direito internacional e surgiu para restringir a hegemonia norte-americana ainda não tenha emitido uma declaração conjunta sobre os ataques sofridos pelo Irã, membro desta organização? A resposta a essa pergunta passa por compreender como o BRICS funciona e seu processo de expansão. O BRICS funciona por consenso. Sem aprovação de todos os seus Estados-membros, o bloco não se posiciona. Conversações lideradas pela Índia, detentora da presidência do grupo, estão sendo realizadas na busca por uma declaração conjunta sobre os ataques sofridos pelo Irã. Relação direta de alguns membros com o conflito O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores indiano, Randhir Jaiswal, afirmou recentemente que seu país está tentando obter essa declaração, mas tem encontrado dificuldade devido à relação direta que alguns membros do BRICS têm com o conflito. Essa relação passa diretamente pelo processo de expansão do grupo. Em 2023, o BRICS anunciou um processo de expansão com o ingresso de novos membros, incluindo o Irã, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e a Arábia Saudita. Esse processo de expansão não foi consensual no grupo. Por anos, a China tentou aumentar o número de Estados-membros, mas enfrentou resistência principalmente do Brasil e da Índia. Os dois países temiam perder influência no grupo e, principalmente, que se tornaria mais difícil obter consenso sobre questões que consideram cruciais, tais como a reforma no Conselho de Segurança da ONU. Após anos de negociações, em 2023, a Índia cedeu e passou a aceitar a expansão. O Brasil seguiu a maioria. Se o BRICS já tinha rivalidades internas (Índia e China têm conflitos territoriais na região dos Himalaias), os países escolhidos para integrar o grupo aumentaram ainda mais o número de rivalidades entre os membros. Irã, EAU e Arábia Saudita têm históricos conflitos que remetem não apenas à distinção entre sunitas (Arábia Saudita e EAU) e xiitas (Irã), mas também às disputas por liderança regional. No Iêmen, por exemplo, o Irã apoia os Houtis, enquanto os sauditas apoiaram grupos ligados ao antigo governo de Abedrabbo Mansour Hadi, expulso de Sanaa em 2015. No ano passado, o Irã foi atacado por Israel e pelos Estados Unidos, sem retaliar contra os seus vizinhos, o que permitiu a declaração do BRICS criticando os ataques ocidentais. Desta vez, a retaliação iraniana atingiu o território dos EAU e da Arábia Saudita. Enquanto a Arábia Saudita ainda não formalizou a adesão ao bloco e, por isso, é considerada um “país membro convidado”, os EAU são membros plenos do grupo, assim como o Irã. Por funcionar por consenso, para haver uma declaração conjunta do grupo, é preciso encontrar um texto com o qual o Irã e os EAU concordem, o que não será fácil. Caso contrário, o silêncio perdurará. Crescente proximidade da Índia com Israel Se já não bastasse a dificuldade de encontrar convergências entre os seus membros muçulmanos, o BRICS também enfrenta outra dificuldade: a crescente proximidade da Índia com Israel. Por décadas, nenhum primeiro-ministro indiano visitou Israel. Desde Jawaharlal Nehru, primeiro primeiro-ministro do país, a Índia era uma forte defensora da causa palestina. O país votou contra a partilha da Palestina na ONU em 1947 e só normalizando suas relações com Israel nos anos 90. Isso tem mudado desde que Narendra Modi assumiu o poder em 2014. O atual primeiro-ministro indiano, o primeiro a visitar Israel em 2017, defende uma ideologia hindu nacionalista que o aproxima da extrema-direita israelita. Ideologicamente próximo de Benjamin Netanyahu, Modi visitou Israel nos dias 25 e 26 de fevereiro, pouco antes dos ataques ao Irã. Nesta visita, ao mencionar os ataques de 7 de outubro, afirmou: “A Índia está ao lado de Israel, firmemente, com plena convicção, neste momento e além.” Por presidir o BRICS em 2026, cabe à Índia buscar uma posição conjunta do grupo. Devido à aproximação com Israel, dificilmente Modi medirá grandes esforços para obter uma declaração conjunta muito crítica a Israel e aos EUA. Da mesma forma, o Irã e seus aliados no bloco, como a Rússia, dificilmente aceitarão uma declaração que critique a retaliação iraniana. Por isso, o BRICS tem hoje um impasse: o processo de expansão dificultou o alcance de consensos, como o Brasil temia, e o governo indiano é cada vez mais um ator desalinhado em relação a algumas posições dos demais membros do BRICS. Porém, sendo difícil encontrar consensos, o bloco se arrisca a deixar de se posicionar sobre temas fraturantes. Sem posicionamentos políticos, o risco do BRICS perder relevância internacional é real. Luis Gouveia Junior, PhD Candidate in International Relations, Universidade de Coimbra This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.