A Copa que apostou contra o torcedor: algoritmos, bets e o que a escola ainda não ensinou

Raquel Lobão, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Raquel Timponi, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) No dia 22 de junho de 2026, enquanto Argentina e Áustria disputavam uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo, os narradores da CazéTV (canal de streaming que detém os direitos de exibição dos 104 jogos do torneio no YouTube) recomendavam, em tempo real, que os telespectadores apostassem na Betnacional, que havia elevado suas odds (possibilidades de retorno da aposta) de 3 para 4 vezes o dinheiro apostado. A cena se repetiria em outros jogos: na partida entre a Espanha e Cabo Verde, um comentarista destacou que a casa de apostas KTO pagaria R$ 3,10 por cada real apostado se fossem marcados ao menos cinco gols. O jogo terminou 0 a 0. A repercussão negativa desse tipo de propaganda no meio dos jogos se alastrou rapidamente. Na segunda semana da Copa, o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), vinculado ao Ministério da Justiça, abriu investigação formal contra o canal. A Senacon identificou indícios de violação ao Código de Defesa do Consumidor: narradores e comentaristas atuavam como promotores ativos de casas de apostas, sugerindo probabilidades e induzindo à aposta imediata – condutas vedadas pela regulamentação setorial. A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda notificou a Bet365, determinando que se abstivesse de divulgar peças publicitárias nos moldes observados e exigindo comprovação de alinhamento prévio com o canal, com prazo de dez dias para resposta. Parlamentares como as deputadas Erika Hilton (PSOL-SP) e Tabata Amaral (PSB-SP) e a bancada do PV encaminharam representações ao Ministério Público Federal (MPF), solicitando a abertura de inquérito civil sobre possíveis violações à legislação das apostas. Pressionada pela repercussão pública e pelas investigações em curso, a CazéTV anunciou, em 26 de junho de 2026, a adoção de um “padrão mais específico e conservador para ativações de marcas de apostas”: narradores e comentaristas passaram a não mais citar nem projetar odds ao vivo durante as transmissões, encerrando a prática de integração entre narração esportiva e estímulo à aposta que havia caracterizado o canal desde o início do torneio. No mesmo dia, o ministro da Fazenda Dario Durigan, em agenda oficial em Pequim, anunciou que o governo preparava uma medida provisória para tornar obrigatória a inclusão de avisos de risco em toda publicidade de apostas – nos moldes dos alertas afixados em embalagens de cigarros – já a partir da fase eliminatória da Copa, prevista para iniciar no dia 28 de junho. O episódio poderia ser lido como um deslize de um canal jovem ainda aprendendo os limites regulatórios. Preferimos lê-lo como sintoma. O que a CazéTV fez de forma visível e auditável durante a Copa do Mundo, os algoritmos das plataformas de apostas fazem de forma silenciosa e contínua, vinte e quatro horas por dia, para milhões de brasileiros. Arquitetura da dependência: o que os algoritmos das bets fazem ao apostador Plataformas de apostas esportivas não são neutras. Como as redes sociais, elas são sistemas de captura de atenção projetados para maximizar o tempo de permanência e o volume de transações do usuário. Para isso, recorrem a mecanismos comportamentais amplamente estudados pela psicologia do reforço: recompensas variáveis e imprevisíveis, notificações de odds personalizadas, apostas ao vivo que comprimem o ciclo de decisão a segundos e bônus de “cashback” que transformam a perda em estímulo para uma nova aposta. O diferencial das bets em relação a outras plataformas digitais está na profundidade do aprendizado que seus algoritmos realizam sobre o usuário. Ao monitorar o histórico de apostas, os horários de acesso, os esportes preferidos e os padrões de resposta a promoções, as plataformas constroem um perfil comportamental detalhado e o utilizam para personalizar os estímulos no exato momento em que o usuário é mais suscetível. Trata-se, em termos técnicos, de um sistema de recomendação por aprendizado de máquina aplicado ao consumo de risco. Os resultados desse design são mensuráveis. O Ministério da Saúde registra crescimento de quase 104% na demanda por atendimento em saúde mental relacionado ao jogo patológico nos últimos anos. Levantamento do DataSenado (2024) revelou que o endividamento provocado pelas apostas atinge prioritariamente as camadas sociais mais vulneráveis, e que 35% dos jovens com interesse em cursar o ensino superior relataram ter comprometido recursos destinados à educação com apostas. A regulamentação do mercado, em vigor desde janeiro de 2025 (Lei 14.790/2023), trouxe avanços importantes. Como, por exemplo, a Plataforma Nacional de Autoexclusão, mas não tocou no núcleo do problema: a lógica de design das próprias plataformas permanece intacta. A Copa como laboratório: publicidade integrada e normalização cultural das apostas A CazéTV não inventou a fusão entre entretenimento esportivo e apostas. Ela a levou ao limite. O modelo em questão, no qual narradores e comentaristas deixam de ser jornalistas esportivos para se tornarem porta-vozes de casas de apostas, representa uma mutação significativa na ecologia midiática do esporte brasileiro. Não se trata mais de intervalos comerciais ou banners de patrocinadores: trata-se de publicidade incorporada à narrativa do jogo, tornada indistinguível do comentário esportivo. Essa dissolução de fronteiras tem a função de reduzir a resistência cognitiva do espectador. Quando a aposta é sugerida pelo mesmo locutor que celebra um gol, no calor do momento, em um contexto de excitação coletiva, o ato de apostar deixa de ser percebido como uma decisão financeira de risco e passa a ser vivenciado como participação no evento. Estudos sobre publicidade de apostas em transmissões esportivas demonstram que a integração entre conteúdo editorial e mensagem publicitária opera precisamente sobre essa fronteira: ao associar a aposta ao ambiente emocional do esporte, as plataformas constroem uma “ilusão de controle” que atenua a percepção de risco por parte do apostador. É o que a literatura em Comunicação identifica como normalização cultural, o processo pelo qual práticas que antes exigiam deliberação consciente tornam-se parte do repertório cotidiano naturalizado. A Copa do Mundo funcionou, nesse sentido, como um laboratório acelerado (Nemer, 2026). A escala de audiência da CazéTV amplificou exponencialmente o alcance desses estímulos.
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IFMG Campus Ouro Preto registra melhor resultado desde 2021 no Enem e lidera escolas públicas da cidade

O IFMG Campus Ouro Preto registrou média geral de 604,8 pontos no Enem 2025, o melhor resultado do campus desde 2021 e 20,81 pontos acima da média nacional. A instituição informa que o desempenho coloca o campus em primeiro lugar entre as escolas públicas de Ouro Preto. Dos 258 alunos inscritos, 252 realizaram a prova. O resultado representa uma recuperação expressiva em relação a 2024, quando o campus havia registrado 587,97 pontos — a menor média do período analisado. Em 2025, a diferença entre a média do IFMG e a média nacional saltou de 2,41 para 20,81 pontos em comparação ao ciclo anterior. O crescimento foi consistente nas quatro áreas de conhecimento avaliadas. Em Matemática, o campus atingiu 626,65 pontos — alta de 38,96 em relação a 2024 e o maior crescimento absoluto entre as disciplinas. Em Linguagens e Códigos, a média chegou a 575,94 pontos, avanço de 27,29 e o melhor resultado da área desde 2021. Em Ciências Humanas, 558,92 pontos, alta de 19,75. Em Ciências da Natureza, 539,66 pontos, com crescimento que levou a área a superar a marca dos 550 pontos pela primeira vez no período analisado. Média geral do IFMG Campus Ouro Preto no Enem 2025: 604,80 pontos 2024: 587,97 pontos 2023: 594,69 pontos 2022: 603,60 pontos 2021: 592,21 pontos Médias por área — Enem 2025 Matemática: 626,65 pontos (+38,96 em relação a 2024) Linguagens e Códigos: 575,94 pontos (+27,29) Ciências Humanas: 558,92 pontos Ciências da Natureza: 539,66 pontos (+19,75)
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Quarenta anos depois, o gol da “Mão de Deus” de Maradona ainda é celebrado. Mas deveria?

Cesar R. Torres, Penn State No futebol, gols memoráveis geralmente estão ligados aos jogadores que os marcaram. Poucos conseguem ser lembrados sem mencionar o atleta — ou até mesmo a equipe — envolvida. No entanto, dois gols marcados em uma mesma partida há 40 anos alcançaram esse status. Um é conhecido universalmente como a “Mão de Deus”, e o outro é amplamente reconhecido como o “Gol do Século”. Ambos foram marcados pelo craque argentino Diego Maradona contra a seleção da Inglaterra nas quartas de final da Copa do Mundo da FIFA 1986, no México, no Estádio Azteca, em 22 de junho de 1986. Os gols, marcados com apenas alguns minutos de diferença, estão entre os poucos que continuam sendo imediatamente reconhecidos décadas depois — e têm um significado especial na Argentina. Sua importância era tão grande que, em 2012, quando a então presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner inaugurou a “Galeria dos Ídolos Populares” na Casa Rosada, sede da presidência do país, a exposição incluiu fotos de ambos os gols. Mas foi a “Mão de Deus” que mais se destacou. A imagem icônica de Maradona com o braço estendido, socando a bola por cima do goleiro inglês Peter Shilton, foi colocada em destaque, chamando a atenção dos visitantes. Um ano após a inauguração da Galeria dos Ídolos Populares, o autor a visitou com um grupo de estudantes universitários internacionais que participavam de um programa de intercâmbio coordenado por sua esposa. Sabendo que ele era filósofo do esporte, alguns integrantes do grupo fizeram uma pergunta ética: por que um gol marcado de forma ilegal — que deveria ter sido anulado por um toque de mão evidente — recebeu tanto destaque no palácio presidencial? A mesma pergunta pode ser feita sobre o lugar que esse lance ocupa hoje no imaginário argentino, com sua imagem aparecendo com frequência em murais, camisetas e canções. Para entender por que aquele jogo e aqueles gols de Maradona — dos 34 que ele marcou pela seleção — se tornaram tão marcantes no imaginário argentino, é necessário refletir sobre a complexa história das relações anglo-argentinas. Relações anglo-argentinas Desde o final do século XVI, a Grã-Bretanha buscou expandir seu império para a América do Sul, principalmente para ampliar os mercados de seus produtos em outras regiões. Após tentativas fracassadas de invadir Buenos Aires em 1806 e 1807, a Grã-Bretanha desempenhou um papel importante na independência da Argentina em relação à Espanha alguns anos depois. Durante o restante do século XIX e o início do século XX, os britânicos tiveram uma presença marcante na economia argentina. Os investimentos eram tão expressivos e a comunidade de expatriados britânicos tão numerosa que a Argentina chegou a ser descrita como o “Sexto Domínio” da Grã-Bretanha. O futebol, trazido por essa comunidade, também se tornou uma paixão dos argentinos. Ainda assim, a relação entre os dois países foi, em alguns momentos, marcada por antagonismos. Um dos principais pontos de disputa envolvia um grupo de ilhas localizado a cerca de 300 milhas da costa sul-americana, conhecido como Falkland Islands no Reino Unido e como Islas Malvinas na Argentina. A Grã-Bretanha ocupa as ilhas desde 1833, enquanto a Argentina as reivindica como suas desde então. O aumento das tensões culminou em uma guerra em 1982, quando a Argentina, que na época estava sob uma ditadura militar brutal, enviou uma expedição militar para as ilhas. A resposta decisiva da Grã-Bretanha derrotou a incursão argentina. A perda da guerra foi uma experiência traumática para a Argentina, mas também representou um passo importante para o retorno do país à democracia no ano seguinte. A Copa do Mundo de Maradona As relações entre os dois países ainda eram tensas quando Argentina e Inglaterra se enfrentaram durante a Copa do Mundo da FIFA 1986. As relações diplomáticas ainda não haviam sido restabelecidas, e muitos argentinos viam o jogo como uma oportunidade de homenagear os soldados conscritos que morreram na guerra e lembrar ao mundo a reivindicação do país sobre as ilhas Malvinas/Falklands. Era um jogo carregado de complexas conotações políticas e históricas. E a Argentina entrou em campo contando com o maior jogador daquela época: Diego Maradona. Como Eduardo Galeano, conhecido como “poeta laureado global do futebol”, escreveu em 1995: o México 86 “foi a Copa do Mundo de Maradona”. “Com dois gols de canhota contra a Inglaterra, Maradona vingou a ferida causada ao orgulho de seu país pela Guerra das Malvinas/Falklands: o primeiro foi marcado com a mão esquerda… e o outro com o pé esquerdo, depois de deixar os defensores ingleses pelo caminho.” Em apenas cinco minutos, Maradona elevou o ânimo de sua nação e foi elevado ao status de ídolo entre os ídolos. Após a partida, enquanto a polêmica em torno do primeiro gol se espalhava, Maradona, seguindo a sugestão de um jornalista, concordou que o lance havia sido marcado pela “Mão de Deus”. Embora o segundo gol tenha sido a encarnação da beleza do futebol, o imaginário associado ao primeiro tornou-o igualmente — ou até mais — icônico. O fato de a Argentina ter conquistado o título mundial apenas reforçou a reputação eterna de Diego Maradona, independentemente do que ele fizesse. Sua morte, em 25 de novembro de 2020, provocou uma onda de luto na Argentina e em todo o mundo. Tudo que é bom no jogo De volta ao palácio presidencial, os estudantes pressionaram o autor sobre como ele e outras pessoas deveriam se sentir em relação à “Mão de Deus”. A resposta, ecoando argumentos filosóficos apresentados em um capítulo escrito para um livro coeditado com o filósofo Daniel G. Campos, foi a seguinte: O contexto é importante para compreender o significado que muitos na Argentina atribuíram àquele gol. Apesar disso, o contexto não pode justificá-lo. O futebol é uma prática social regulada por regras e pelo que os filósofos chamam de “bens internos” — recompensas intrínsecas que surgem da participação em uma atividade. Esses bens internos não apenas definem o futebol, mas também representam a base de seus padrões de excelência. Eles englobam aquilo