Ouro Preto, quinta-feira, abril 23, 2026 05:09

Câncer no Brasil: pesquisa Oncoguia mostra como e por que direitos previstos em lei não chegam ao paciente

Luciana Holtz de Camargo Barros, Instituto Oncoguia No Brasil, o fato de um paciente oncológico ter direitos assegurados em lei não significa que vai conseguir acessá-los no tempo certo, seguindo orientações claras e de forma efetiva. Ao contrário, a pessoa que busca tratamento precisará enfrentar verdadeiras batalhas para exercer direitos já estabelecidos como a garantia de acesso ao relatório médico (fundamental para a concessão de benefícios), ao prontuário, aos laudos de exames, a informações que esclareçam os rumos e perspectivas do tratamento e a uma equipe multidisciplinar, entre outras necessidades. Esse é o retrato da realidade brasileira de acordo com a pesquisa “Direitos conquistados mas não garantidos: o que os pacientes têm a dizer sobre isso”, realizada pelo Instituto Oncoguia e que será divulgada durante a 16ª edição do Fórum Nacional Oncoguia, que ocorre nos dias 7 e 8 de abril, nesta semana em que se celebram o Dia Mundial da Saúde (7/4) e o Dia Mundial do Combate ao Câncer (8/4). Os dados obtidos são contundentes: 70% das pessoas entrevistadas afirmaram não ter tido acesso a nenhum dos direitos mencionados acima durante o tratamento e 82% dos que tentaram buscar alguns desses direitos relataram que isso tem sido uma luta constante. Outros 68% dos respondentes desconhecem as leis mais importantes para pacientes com câncer. O levantamento do Instituto Oncoguia foi realizado entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, por meio de questionário online no Google Forms. Foram recebidas 1.618 respostas de pacientes com câncer e familiares, com 1.559 consideradas válidas. Houve participação de 25 unidades da federação (o país tem 27). Entre os respondentes, 80% eram pacientes e 20% familiares. Quanto ao tipo de atendimento, 45,7% estavam no SUS, 43,2% em planos de saúde, 8,9% em modelo misto e 2,2% em atendimento particular. Falhas estruturais no sistema de saúde Esse retrato nacional dá a dimensão do problema. Não se trata de uma dificuldade restrita a um serviço, a uma cidade ou a um modelo de assistência. A sensação de luta constante atravessa a jornada oncológica de forma ampla: ela foi relatada por 82% dos que tentaram buscar seus direitos, percentual que sobe para 85% entre pacientes em tratamento pelo SUS e permanece em 79% entre aqueles com plano de saúde. Estamos diante de uma falha estrutural do sistema de saúde. No início dessa trajetória, um dos primeiros entraves é o desconhecimento. A falta de informação segue no centro do problema. Quando 68% dos respondentes dizem não conhecer leis fundamentais, como o Estatuto da Pessoa com Câncer, a Lei dos 30 Dias, a Lei dos 60 Dias e normas relacionadas à quimioterapia oral e ao rol da Agência Nacional de Saúde (ANS), o que aparece não é apenas uma lacuna informativa, mas uma falha importante na forma como esses direitos são comunicados e efetivados. O direito que não é conhecido não chega a ser exercido. E, no câncer, o tempo perdido pesa muito: ele se traduz em atrasos, negativas, idas e vindas, desgaste emocional e, muitas vezes, piora clínica. Na pergunta sobre a existência de direitos na relação médico-paciente, 49% disseram não saber que eles existem, 24% afirmaram já ter ouvido falar, mas sem conhecer bem, e apenas 27% responderam que sabiam deles. A distância entre a lei e a vida real aparece de forma dura no dia a dia dos pacientes e seus familiares. Apenas 14% relataram ter conseguido acesso ao relatório médico para concessão de benefícios, 11% ao prontuário e aos laudos de exames, 6% a informações esclarecidas sobre o tratamento e 4% à equipe multidisciplinar. Nenhum respondente afirmou ter tido acesso às chamadas diretivas antecipadas de vontade — documentos em que o paciente registra, de forma prévia, como deseja ser cuidado em situações em que não possa mais decidir por si mesmo. Trata-se de um instrumento central de autonomia, que garante respeito às escolhas do paciente e um cuidado de fato centrado na pessoa. Não basta, porém, entregar a informação sobre a saúde do paciente. É preciso garantir compreensão, acolhimento e espaço real para perguntar. Informação em saúde não é papel preenchido nem fala apressada em consultório. Informação em saúde é condição para decisão, adesão e segurança. O levantamento mostrou que metade dos respondentes disse ter recebido informação e apoio suficientes para compreender plenamente o tratamento. Ainda assim, desse grupo, 38% afirmaram que, mesmo recebendo informações, permaneceram com dúvidas. Outros 12% disseram nunca ter tido informações ou abertura para esclarecê-las com a equipe. A lógica das dificuldades Os direitos mais buscados, de acordo com a pesquisa, são justamente os que ajudam a preservar parte da renda e a amenizar o aumento de gastos associados ao adoecimento. Entre 63% dos entrevistados que tentaram acessar seus direitos na prática, 45% buscaram FGTS, PIS/Pasep e INSS, enquanto 30% recorreram a isenções de impostos. O direito ao transporte foi buscado por 9% dos participantes; enquanto direitos ligados diretamente ao tratamento, por 5% dos entrevistados. O dado demonstra claramente que o câncer não afeta apenas a saúde. Ele compromete a capacidade de trabalhar, eleva despesas, exige deslocamentos frequentes e pressiona a rotina financeira da casa. Nesse percurso, a principal barreira é a burocracia, apontada por 42% dos respondentes. Em seguida vêm a falta de informação clara, com 36%; o desconhecimento dos próprios direitos, com 34%; a demora para a resposta final, com 29%; e a falta de ajuda de um profissional, com 22%. Também aparecem a falta de energia para correr atrás, com 20%; a falta de dinheiro para pagar advogado, com 14%; a negativa de plano de saúde, com 10%; o medo de perder o emprego, com 7%; e a falta de tempo para correr atrás, com 6%. Nas respostas abertas, surgem ainda dificuldades com perícias do INSS, uso de canais digitais e o custo, além do cansaço, de viagens para protocolar pedidos ou realizar perícias em outras cidades. De acordo com o levantamento do Instituto Oncoguia, a forma como os pacientes chegam à informação sobre seus direitos ajuda a explicar a desorganização da jornada. Sem orientação institucional clara

Ser mãe e autista: quando o momento do diagnóstico e a maternidade se entrelaçam

Irene Garcia Molina, Universitat Jaume I A maternidade é um fenômeno universal: embora nem todas as pessoas sejam mães, todas nós nascemos de uma. E essa mãe também pode ser autista. “Quando pensamos em autismo, qual é a primeira coisa que vem à mente?”. Essa é a pergunta com a qual começo minhas aulas na universidade, apresentando o tema a futuros profissionais da educação e da educação especial. A maioria das respostas varia de um vizinho autista “não declarado” a personagens de filmes ou séries de TV, como Sheldon Cooper, The Good Doctor ou Atypical. Primeiro sinal de alerta: todos são meninos ou homens. E onde estão as meninas, as mulheres e as pessoas de gênero diverso? Autismo em meninas é diagnosticado mais tarde Atualmente, meninas autistas recebem o diagnóstico muito mais tarde do que os meninos. A proporção estimada é geralmente de uma menina diagnosticada para cada quatro meninos. Esse também é o caso na Espanha, de acordo com a Confederación de Autismo de España. Mas estudos recentes, como o de Caroline Fyfe, mostram, por meio de um modelo de projeção — com mais de 2,7 milhões de meninos e meninas nascidos entre 1985 e 2020 — que a proporção alcançaria a paridade aos 20 anos de idade. Ou seja, a maioria das meninas autistas não é diagnosticada até a idade adulta. As razões para o subdiagnóstico incluem protocolos desatualizados, falta de treinamento sensível ao autismo e ao gênero entre os profissionais, ferramentas baseadas e projetadas para meninos e homens autistas, bem como preconceito de gênero na sociedade. Esse atraso no diagnóstico, no entanto, não se resume apenas a números. Ele implica em anos de incompreensão, esforços para camuflar, dificuldades escolares sem apoio e um impacto profundo na identidade e no bem-estar psicológico das meninas. A criança como espelho: descobrindo-se autista Muito já foi escrito sobre mães de crianças autistas e como isso afeta a dinâmica familiar, seus relacionamentos e sua saúde mental. Mas pouco se sabe sobre as experiências e necessidades das mães autistas — embora seja um tema de particular interesse para a comunidade autista. Até recentemente, nenhum estudo havia considerado as experiências das mães autistas. Em geral, havia uma relação que ninguém tinha apontado explicitamente: muitas vezes, o momento do diagnóstico e o de se tornarem mães coincidiam. E não por acaso. Em 2021, eu tinha dois grandes projetos em andamento que veriam a luz meses depois: eu estava grávida e em busca de respostas sobre por que os diagnósticos de autismo demoram tanto na Espanha. Eu estava literalmente dando forma ao meu filho e a muitos projetos que viriam a seguir. As primeiras entrevistas não demoraram a surgir — e eu ainda estava grávida. Uma resposta era constante: muitas das mulheres autistas que também eram mães haviam sido diagnosticadas por causa de seus filhos. O termo “filho”, e não “filha”, é usado aqui deliberadamente: não havia nenhum sinal de meninas. Encontramos diferentes cenários. Em alguns casos, a mãe se reconhecia em muitas das características do filho (já diagnosticado com autismo) e iniciou o processo por conta própria. Em outros, a maternidade havia intensificado sua experiência sensorial. Este ponto, por si só, daria para três ou quatro artigos separados: se o processamento sensorial é modificado e alterado durante a maternidade, imagine o que pode acontecer em pessoas que, por si só, já processam informações sensoriais de maneira diferente do que é entendido como neurotípico. E em outro caso, o profissional que havia diagnosticado a criança sugeriu que a mãe aparecesse para uma consulta e respondesse a algumas perguntas, pois “algo havia chamado sua atenção”. Então, com meu filho dormindo em meus braços, escrevi o artigo Until I Had My Son, I Did Not Realise That These Characteristics Could Be Due to Autism: Motherhood and Family Experiences of Spanish Autistic Mothers com uma mão, aproveitando suas sonecas. Diagnóstico de filhas autistas Anos depois, decidimos tornar as entrevistas mais acessíveis e pessoais, adicionando a opção de realizá-las presencialmente. Por isso, focamos em nosso próprio território, a Comunidade Valenciana. Com apenas três anos de diferença, surgiu a primeira mudança: muitas mães autistas estavam começando a obter informações, graças à divulgação de cientistas mulheres — a maioria das quais também era autista — e às experiências pessoais. Elas se tornaram especialistas em autismo e perspectiva de gênero e, o mais interessante de tudo: elas estavam identificando o autismo de suas filhas, iniciando o processo de diagnóstico em idade precoce e garantindo um diagnóstico na Educação Infantil. Em outras palavras, suas filhas podiam ter acesso às medidas e ao apoio relevantes na escola, com a consequente conscientização e visibilidade proporcionadas por suas mães. Como observou uma mãe entrevistada: É uma exposição que estou fazendo para que minha filha não precise fazer o esforço que eu estou fazendo. Estou fazendo isso por ela. Prefiro que olhem para mim primeiro, que esta geração me julgue, que eu leve o golpe; para que, quando minha filha crescer, a sociedade já tenha superado isso. Ciência Cidadã Atualmente, nossa pesquisa continua, se especializou e ultrapassou fronteiras (com nossa afiliação ao MARG). Mas velhos hábitos são difíceis de mudar: mães autistas ainda decidem o que é pesquisado, e nós ouvimos suas necessidades para traduzir os resultados em documentos, adaptações, guias, treinamentos e protocolos médicos que podem marcar um antes e um depois na maternidade delas, desde a gravidez até a criação dos filhos. Irene Garcia Molina, Professora universitària i investigadora en autisme, Universitat Jaume I This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Projetos de liberdade: pesquisas recuperam trajetória de famílias de mães escravizadas

Alexandra Lima da Silva, UERJ O mundo celebra neste 25 de março o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão, data criada pela ONU em 2007. No Brasil, um dos legados mais perversos desse período é a dificuldade de reconstruir as histórias e genealogias das famílias dos escravizados. Em muita medida, isso se deve à ausência – ou mesmo ao apagamento – da filiação nos registros de nascimento e batismo. Mas a escuta atenta das vozes negras, seus relatos e ações, permite compreender as experiências cotidianas das famílias de escravizados nos séculos 18 e 19 como um projeto ancestral de liberdade – contrariando a premissa de total impotência das mães escravizadas. Há algum tempo, a historiografia brasileira evidencia o protagonismo das mulheres negras que, de diferentes maneiras, resistiram à escravidão. Após a alforria, a Escolha de Luíza Em minhas pesquisas na linha de gênero, raça e interseccionalidades, no programa de Pós-Graduação em Educação e no Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), tenho acompanhado de perto as experiências de liberdade de uma família negra, cuja matriarca era uma africana escravizada. Luíza foi mãe de dois filhos, nascidos na escravidão, no Rio de Janeiro. Após conquistar a própria alforria, Luíza precisou escolher qual filho deveria libertar. De forma consciente, e combatendo a ideia de que “árvores genealógicas não florescem entre os escravizados”, Luíza decidiu salvar a filha. Ela mirou no futuro: acreditou que ao libertar a filha mulher, libertaria toda a família da escravidão. Sua previsão tardou algumas décadas, mas de fato aconteceu. Apesar de liberta, e de ter libertado a filha, Luíza conviveu até o fim da vida com a dor de não ter conseguido libertar seu filho: “Lembro-me que às vezes pegava-me na cabeça e me estreitava no colo, dizendo estas palavras que nunca mais poderei esquecer: ‘pobre filho’, eu não posso te libertar!”, lembra o filho de Luíza, Israel Antonio Soares, em seu relato autobiográfico publicado no livro “Rascunhos e perfis: notas de um repórter”, do amigo e jornalista Ernesto Sena, publicado em 1900. Ainda que não tenha conseguido comprar a alforria do filho mais novo, ele próprio conseguiu libertar-se, algumas décadas depois. Israel Antonio Soares nasceu no Rio de Janeiro. Em 1843, se tornou um abolicionista e, ao lado da companheira Antonia Botelho Soares (1858-1945), uma mulher negra e escravizada, conquistaram a liberdade em parceria e comunhão. Autodidata e ainda na condição de escravizado, Israel Antonio Soares criou, por volta da década de 1870, uma escola noturna para instruir escravizados e libertos, no Rio de Janeiro. Ele também formou uma sociedade de dança com o título Bella Amante, que teria existido por mais de dez anos. Teria sido um caso isolado? Poderia um escravizado ensinar e ainda abrir uma escola para educar pessoas negras? Israel Soares não agia sozinho. Ele integrava a rede de sociabilidade de José do Patrocínio, uma das figuras mais importantes do movimento abolicionista no país. Além da importante atuação como jornalista e escritor, Patrocínio também atuou como professor de primeiras letras na Escola da Cancella, instituição criada pela fundação da Caixa Libertadora José do Patrocínio, e presidida pelo próprio Israel Antonio Soares. Escolas noturnas e clandestinas Outra experiência voltada para a educação dos filhos de pessoas libertas da escravidão que coexistiu com a escola de Israel Soares foi a escola liderada pelo professor negro conhecido como Zózimo, ou “Zé Índio”. Fundada em 1871, a escola funcionava num alpendre na Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, esquina de um logradouro na época conhecido como “Beco do Buraco”. Para frequentá-la, os alunos pagavam “meia pataca”, que era o equivalente a uma moeda de 160 Réis, a moeda brasileira na época. Outro caso bastante emblemático foi o de Preto Cosme, nascido na escravidão no Maranhão, em 1830. Alfabetizado, conquistou a alforria e abriu uma escola de primeiras letras, além de ter liderado a Revolta da Balaiada. Pesquisas realizadas em diferentes países da diáspora africana evidenciam inúmeros casos de escolas negras, muitas das quais secretas, noturnas e clandestinas, lideradas por pessoas escravizadas. A experiência de Israel Soares, portanto, não foi um caso isolado. Seu projeto de liberdade passava pela educação e pela constituição de uma família completa, com a presença tanto da mãe quanto do pai. Aos 22 anos, o filho do casal, Israel Antonio Soares Júnior, tinha uma formação concluída em Farmácia. E em 1913, aos 25 anos, formou-se em Medicina. A pesquisa localizou também a neta do casal, Eugênia Luíza Soares, com formação em Obstetrícia. Duas irmãs de Eugênia, nascidas na primeira década do século XX, cursaram magistério, sendo que uma delas foi professora de piano. E o bisneto de Israel Soares e Antonia Botelho Soares, nascido em 1921, foi um notável tenor negro na cena musical carioca. O projeto ancestral arquitetado no sacrifício e na dramática escolha de uma mãe floresceu nos netos, netas e bisnetas. Mas o choro de Luíza ecoou por gerações. A busca da ancestralidade dos escravizados brasileiros que gerou este artigo foi possível graças ao apoio de agências como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), e Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes). Alexandra Lima da Silva, Professora Titular e líder do grupo de pesquisa Eleko: Direitos Humanos, Educação e Interseccionalidades, UERJ This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Cientista conta o que vivenciou e como sobreviveu quando se viu acidentalmente dentro de um tornado

Cientista conta o que vivenciou e como sobreviveu quando se viu acidentalmente dentro de um tornado Os tornados podem ser imprevisíveis e extremamente perigosos, como experimentou em primeira mão Perry Samson, cientista atmosférico da Universidade de Michigan, EUA. Brent Koops/NOAA Weather in Focus Photo Contest 2015, CC BY Perry Samson, University of Michigan Eu vi o centro de um monstro. A maioria das pessoas descreve o som de um tornado como o de um trem de carga, mas, de perto, é mais parecido com mil motores a jato gritando. Sou uma das poucas pessoas no mundo que dirigiu dentro de um tornado e sobreviveu para contar a história. Embora possa parecer uma cena de um filme blockbuster de Hollywood envolvendo um caminhão blindado de alta tecnologia, minha experiência foi muito mais perigosa e aterrorizante. Sou um cientista atmosférico que estuda tornados, mas só estou vivo hoje graças a decisões tomadas em frações de segundo e a uma enorme dose de sorte. Acredite, não quero nunca mais passar por essa situação. Os tornados variam em tamanho e intensidade. Hank Schyma, usado com permissão O dia em que o céu se abriu Tudo começou no noroeste do Kansas, onde eu estava estudando supercélulas de tempestade – do tipo que produz tornados – com uma equipe de estudantes da Universidade de Michigan. Estávamos posicionados sob uma tempestade tão escura que tivemos que ligar os faróis dos nossos veículos no meio do dia. De repente, um tornado se formou e começou a avançar diretamente em nossa direção. A tempestade que o autor sobreviveu, filmada por estudantes que estavam em veículos próximos naquele momento. Os estudantes estavam em outros veículos e conseguiram escapar, mas meu carro foi rapidamente engolido por uma nuvem de detritos voadores tão densa que eu não conseguia ver o próprio capô. Com minhas opções se esgotando, fiz uma manobra desesperada: virei o carro diretamente contra o vento, na esperança de que a aerodinâmica do veículo nos mantivesse presos ao chão, em vez de sermos virados como um brinquedo. A física do medo Quando você está dentro do vórtice de um tornado, seu corpo passa por coisas que as câmeras dos canais de notícias não conseguem capturar: A mudança de pressão: Um tornado é uma área localizada de mudança rápida de pressão. Seus ouvidos não apenas “estalam” – eles doem, como se sua cabeça estivesse sendo apertada por mãos gigantes. O vento sólido: Medimos velocidades de vento de quase 241 km/h nas proximidades, mas dentro do vórtice elas provavelmente eram muito maiores. A essas velocidades, o ar atinge você com a força de um objeto sólido. A sopa de escuridão: Nos filmes, o “olho” é um espaço claro. Na realidade, é uma bola de detritos – uma sopa marrom-escura de solo pulverizado, árvores e prédios. Estava tão escuro que minha câmera nem conseguiu registrar uma imagem. Os ventos de um tornado podem atingir 482 km/h. Os detritos voando em alta velocidade são parte do maior perigo. Hank Schyma, usado com permissão Enquanto os detritos batiam no meu para-brisa, eu estava apavorado com a possibilidade de ser esmagado por materiais voadores – tornados podem levantar cercas, madeira e metal de prédios, galhos de árvores e até vacas. Os manuais recomendam entrar em uma vala para ficar deitado e ficar mais protegido contra detritos voadores. Mas o vento era tão violento que eu nem conseguia abrir a porta do carro. Eu apenas me mantive agachado e rezei. A formação de um monstro Como uma tempestade tão severa chega a acontecer? É necessária uma receita perfeita e violenta de ingredientes atmosféricos: Combustível: Um tornado precisa de ar quente e úmido (vapor de água) próximo ao solo, com ar seco acima dele. Isso cria o potencial para a ascensão do ar, mas somente se a atmosfera estiver instável o suficiente para superar “a tampa de contenção”. A tampa de contenção: Uma fina “camada de inversão” de ar estável age como uma tampa sobre esse ar quente e úmido, prendendo-o até que o ar úmido consiga romper. A linha seca: A linha seca é onde o ar quente e úmido do Golfo do México e o ar seco do oeste se encontram. O ar quente e seco que avança é, na verdade, mais pesado do que o ar abafado, e esse ar seco empurra o ar úmido para cima, rompendo a tampa de contenção. Cisalhamento do vento: Os ventos superficiais vindos do sul e os ventos em altitude vindos do oeste criam um movimento de rotação horizontal na atmosfera. Quando o ar é empurrado para cima, essa rotação torna-se vertical, criando o que é conhecido como mesociclone. A corrente de jato: A cerca de 8 a 11 quilômetros de altitude, a corrente de jato é um rio de ar que se move rapidamente. Perturbações dentro dela podem criar áreas que puxam o ar para cima a partir de baixo e reduzem a pressão na superfície. Como a cisalhamento do vento faz com que os ventos se enrolem e formem tornados. NOAA. Juntos, esses ingredientes podem criar o vórtice rotativo e poderoso que você conhece como tornado. Essas tempestades podem ter ventos de até 482 km/h e deixar um longo rastro de destruição, às vezes com mais de 1,6 km de largura. Elas podem permanecer no solo por segundos ou muitos minutos, destruindo prédios e árvores em seu caminho. É difícil prever para onde elas se deslocarão, portanto, buscar um local seguro deve ser uma prioridade. A lição do monstro Quando a tempestade passou, o silêncio era assustador. Meu carro alugado estava atolado na lama, a antena estava dobrada ao meio e pedaços de palha estavam cravados em cada costura da carroceria do carro. Tornados são extremamente perigosos. Sessenta e uma pessoas foram mortas por tornados nos EUA em 2025, e muitas outras ficaram feridas por detritos voadores. Certifique-se de saber o que fazer quando um alerta de tornado soar – siga as orientações do alerta e procure um local seguro imediatamente. Cientistas do Laboratório Nacional de Tempestades

Por que algumas pessoas ainda acreditam que alienígenas moldaram civilizações antigas

Narrativas modernas apresentam a Humanidade como parte de um grande desígnio guiado por seres superiores, e assim sítios arqueológicos como as Pirâmides do Egito tornam-se adereços de um drama cósmico. Mas o extraordinário nunca foi alienígena, e sempre foi humano. Stefan Baumann Stephan Blum, University of Tübingen e Stefan Baumann, KU Leuven Humanos antigos realmente construíram as pirâmides sem ajuda extraterrestre? Ou será que essas perguntas revelam mais sobre as ansiedades modernas do que sobre o próprio passado? A ideia de que alienígenas ajudaram os construtores de monumentos antigos foi promovida pelo autor suíço Erich von Däniken em seu livro best-seller Eram os Deuses Astronautas? — publicado em 1968. Von Däniken faleceu em janeiro de 2026, mas sua visão dos antigos astronautas ainda cativa milhões de pessoas. O autor apontou estruturas antigas, como as pirâmides, juntamente com artefatos antigos enigmáticos, como supostas evidências de que seres de fora da Terra moldaram as civilizações do passado. Embora essas ideias tenham sido repetidamente refutadas, programas de televisão como Alienígenas do Passado, do History Channel, continuam a veicular narrativas semelhantes. As teorias de Erich von Däniken surgiram em um momento histórico específico. Elas se cristalizaram durante a Guerra Fria, em meio a temores de aniquilação nuclear, à corrida espacial e às rápidas mudanças tecnológicas. Enquanto os humanos se preparavam para deixar a Terra, ao mesmo tempo em que enfrentavam seu próprio poder destrutivo, a ideia dos “antigos astronautas” ofereceu tanto um consolo cósmico quanto um drama existencial. O passado se tornou um palco para as esperanças e ansiedades modernas. A razão pela qual algumas pessoas se sentem capazes de acreditar em teorias completamente sem fundamentos está relacionada à própria natureza da arqueologia. A disciplina trabalha com evidências fragmentárias, depósitos em camadas e interpretações que raramente levam a conclusões simples. Sítios como Gizé, no Egito, Göbekli Tepe (um assentamento neolítico na Turquia moderna conhecido por seus pilares monumentais decorados com relevos esculturais) e Tróia — também na Turquia — não são enigmas não resolvidos, mas o resultado de décadas de escavações e análises sistemáticas. Em Gizé, arqueólogos descobriram assentamentos planejados para trabalhadores, padarias e sistemas organizados de abastecimento de alimentos, demonstrando como milhares de trabalhadores puderam construir as pirâmides ao longo de décadas. Göbekli Tepe mostra que seus pilares de pedra monumentais foram erguidos por comunidades de caçadores-coletores milênios antes da invenção da escrita — não por intervenção alienígena, mas por meio de trabalho coordenado e inovação ritual. Em Tróia, camadas sucessivas de assentamentos revelam séculos de reconstrução, adaptação e intercâmbio regional, em vez de uma anomalia tecnológica repentina. As conclusões arqueológicas são cautelosas, probabilísticas e fundamentadas em evidências materiais. Para quem está de fora, no entanto, a cautela pode parecer hesitação. A pseudociência preenche essa lacuna percebida com espetáculo: alienígenas construíram as pirâmides; forças misteriosas ergueram Göbekli Tepe; supertecnologias esquecidas moldaram as muralhas de Tróia. Despojadas de contexto, as evidências tornam-se entretenimento. A complexidade é reduzida a insinuação. Um argumento típico dos “alienígenas do passado” ilustra o padrão: as pirâmides são extraordinariamente precisas. A precisão, segundo a alegação, requer tecnologia avançada; portanto, humanos sem máquinas modernas não poderiam tê-las construído. O raciocínio parece lógico — mas repousa sobre um falso dilema. O que desaparece de vista é precisamente o que a arqueologia estuda: logística, organização do trabalho, conjuntos de ferramentas, conhecimento artesanal acumulado — e pequenas imperfeições que revelam mãos humanas em ação. O fascínio do extraordinário Tais explicações satisfazem um impulso psicológico profundo. Onde antes a religião explicava o propósito, a ciência explica o processo. A hipótese dos “antigos astronautas” explora o viés de proporcionalidade — a intuição de que realizações extraordinárias devem ter causas extraordinárias. Assim como as lendas medievais enquadravam as pirâmides como proteção contra catástrofes cósmicas, as narrativas modernas apresentam a Humanidade como parte de um grande desígnio guiado por seres superiores. Os sítios arqueológicos tornam-se adereços de um drama cósmico. Os humanos deixam de ser criadores; o passado se torna extraordinário porque foi “ajudado”. O apelo não se limita a públicos marginais. Pesquisas sugerem que muitas pessoas consideram a vida extraterrestre possível ou até mesmo provável. Muitos cientistas concordam que, dada a vasta escala do Universo, tal vida é estatisticamente plausível. Mas plausibilidade não é prova — e certamente não é evidência de intervenção alienígena na Antiguidade. A desconfiança amplifica o efeito. Universidades, museus e revistas acadêmicas são frequentemente retratados como guardiões que suprimem verdades inconvenientes. A refutação científica torna-se evidência de conspiração. A prosa acadêmica — cuidadosa, qualificada e precisa — tem dificuldade em competir com a certeza dramática. Perguntas como: “Como os humanos poderiam ter construído isso sem a tecnologia moderna?” já contêm a insinuação. As mídias digitais aceleram esse padrão: afirmações visualmente impactantes circulam mais rápido do que explicações metodológicas. A arqueologia enfatiza a mudança gradual e o conhecimento cumulativo; a pseudociência promete revelações. A arqueologia pseudocientífica não é apenas um conjunto de crenças — é uma indústria lucrativa. Livros sobre antigos astronautas vendem milhões de cópias em todo o mundo. Franquias de televisão geram receita constante, e figuras de destaque atraem centenas de milhares de espectadores online. Göbekli Tepe é obra de trabalho humano coordenado, não de extraterrestres. Matyas Rehak Em contrapartida, o trabalho acadêmico circula em uma economia radicalmente diferente: monografias são impressas em pequenas tiragens e geram pouco lucro. Esta não é apenas uma batalha de ideias, mas uma batalha pela atenção: o espetáculo é recompensado de forma mais visível do que a cautela. O gênio retórico de Von Däniken residia na ambiguidade. Ele raramente fazia afirmações definitivas, preferindo perguntas sugestivas e justaposições seletivas que transformavam a incerteza em insinuação. Como ele observou certa vez: “‘Eram os Deuses Astronautas?’ estava cheio de especulações — eu tinha 238 pontos de interrogação. Ninguém leu os pontos de interrogação. Eles disseram: o Sr. von Däniken está dizendo… Eu não disse — eu perguntei”. A estratégia é simples: enquadrar a especulação como indagação e a crítica como mal-entendido. Recuperando a história A popularidade da pseudociência não é simplesmente ignorância. Ela reflete a dificuldade de interpretar

Vender obras de arte roubadas é complicado: especialista explica então por que os ladrões ainda se dão ao trabalho de roubá‑las

Anja Shortland, King’s College London Levou menos de três minutos para que uma quadrilha organizada roubasse um Renoir, um Matisse e um Cézanne, cujo valor total era de cerca de 9 milhões de euros (cerca de R$ 54 milhões), de um museu particular próximo a Parma, na Itália, em março de 2026. Este é o segundo roubo de obras de arte de grande repercussão nos últimos meses, após o furto de joias no valor de € 9,5 milhões (R$ 56,5 milhões) do Louvre, em Paris, em outubro de 2025. Os itens roubados são claramente valiosos. Mas, como especialista em governança de mercados criminosos, posso afirmar que roubar os bens é apenas o primeiro passo. Transformar esse saque em dinheiro é uma tarefa repleta de riscos. O governo italiano leva a sério a proteção de seu patrimônio cultural, com um departamento inteiro da Carabinieri (polícia italiana) dedicado ao roubo de obras de arte e antiguidades. Esse departamento vasculha o comércio global de arte em busca de tesouros falsificados, roubados e exportados ilegalmente, exigindo sua devolução. Há poucas chances de vender as obras-primas roubadas no mercado internacional de arte — mesmo a um preço de banana. Enquanto no passado os negociantes e as casas de leilão podiam fechar os olhos para as origens suspeitas de uma obra de arte excepcional, nas últimas duas décadas as normas e procedimentos do mercado se tornaram consideravelmente mais rigorosos. Qualquer pessoa que compre arte sem verificar se um antigo proprietário registrou seu interesse no objeto não passa no teste de boa-fé. Isso significa que não pode obter um título de propriedade válido e, portanto, o direito de posse legal permanece com a pessoa ou instituição de quem a obra de arte foi roubada. Além disso, as vendas de obras de arte roubadas nas quais o vendedor eludiu a devida diligência podem ser anuladas, o que significa que o dinheiro deve ser devolvido. Por isso, negociantes e leiloeiros de renome levam seu dever de diligência muito a sério. No mínimo, eles consultam o banco de dados da Interpol sobre obras de arte roubadas, de acesso livre, antes da venda. No entanto, bancos de dados privados — como o do Art Loss Register — oferecem maior tranquilidade, listando muito mais objetos perdidos e roubados e limitando a pesquisa àqueles com interesse legítimo em um objeto. Quando um registro constata que alguém está tentando colocar uma obra de arte roubada no mercado aberto, ele coleta e repassa todas as informações que possam levar a polícia à sua localização ou às pessoas envolvidas em sua venda ou armazenamento. Qualquer coisa recém-retirada da parede de um museu é, portanto, invendável — a menos que se trate de joias que possam ser desmontadas e vendidas como sucata (cara). Então, qual poderia ser a motivação financeira por trás desse roubo? Um vilão ao estilo James Bond encomendando pinturas favoritas para adornar seu covil é uma explicação improvável. Sim, pinturas poderiam ser roubadas sob encomenda, mas comprar arte no mercado aberto para lavar dinheiro é menos arriscado. Com altas recompensas por informações ou pela devolução de obras de arte roubadas, a segurança e a omerta (o código de silêncio) teriam que ser totalmente herméticas ao exibir tesouros roubados. Por outro lado, “recompensas por informações” poderiam ser uma motivação para o roubo em si. Em meados do século passado, as seguradoras pagavam regularmente aos “descobridores” com tão pouca fiscalização que o roubo de obras de arte de alto valor se tornou uma ocupação lucrativa e de baixo risco. Instituições como o Art Loss Register romperam essa coexistência confortável e, em vez disso, usam quaisquer pistas para ajudar a polícia a conduzir recuperações e operações secretas. Hoje em dia, só é seguro negociar um acordo sobre uma “comissão de intermediário” quando um objeto roubado já mudou de mãos tantas vezes que a ligação com os ladrões originais se perdeu na névoa do tempo. Mesmo assim, o “intermediário” final teria sorte se conseguisse mais de 10% do valor da pintura, que provavelmente teria de dividir com os ladrões e vários proprietários obscuros do submundo ao longo do caminho. Mas há uma terceira razão para roubar obras de arte. Grupos do crime organizado às vezes usam obras de arte roubadas como moeda de troca para negociar punições mais brandas. Por exemplo, os ladrões de joias de Dresden guardaram algumas peças do seu saque para usar sua recuperação na negociação de penas mais curtas. Os penitentos (“arrependidos”) que querem deixar organizações mafiosas também fornecem, por vezes, informações sobre o paradeiro de tesouros desaparecidos. Se houver a percepção de que obras de arte roubadas podem ser usadas para reduzir uma pena de prisão ou um pacote de compensação financeira, seu valor no submundo pode crescer muito além da recompensa oferecida ao descobridor. Embora seja difícil verificar a afirmação de que obras de arte roubadas são usadas como garantia em negócios de drogas, vários tesouros únicos foram de fato recuperados de propriedades pertencentes a mafiosos de alto escalão. Essas obras não foram encontradas em galerias com temperatura controlada, mas enroladas em locais úmidos que fazem os curadores de museus chorarem de desespero. Esperemos que as belas obras de arte de Parma sejam tratadas com respeito até que as vejamos novamente. Anja Shortland, Reader in Political Economy, King’s College London This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

A história da primeira chamada telefônica: as palavras que mudaram o mundo

Iwan Rhys Morus, Aberystwyth University “Sr. Watson, venha cá. Quero vê-lo”. Meia dúzia de palavras dificilmente memoráveis em português, mas com implicações enormes. Proferidas pelo escocês Alexander Graham Bell em seu laboratório em Boston, em 10 de março de 1876, foram as primeiras palavras inteligíveis a serem transmitidas eletricamente por um fio de um lugar para outro. Com isso, começou a era do telefone. Thomas Watson, assistente de Bell, recebeu essa ligação não muito longe, na sala ao lado, mas as ambições de Bell iam muito além. O professor de fisiologia vocal de 29 anos da Universidade de Boston tinha certeza de que havia inventado uma tecnologia que mudaria a história. Agora, ele só precisava convencer o resto do mundo. Um esboço de 1876 de Alexander Graham Bell mostrando sua tecnologia telefônica. Biblioteca do Congresso dos EUA Bell vinha trabalhando no projeto de um “telégrafo harmônico”, como ele o chamava, há vários anos. Originalmente, o aparelho foi concebido como uma forma de enviar várias mensagens telegráficas simultaneamente pelo mesmo cabo. Mas Bell não foi o único a ter essa ideia. O engenheiro elétrico americano Elisha Grey estava trabalhando em algo semelhante, e os dois homens apresentaram reservas de patente – um aviso de sua intenção de depositar um pedido completo – com uma diferença de uma hora entre um e outro, em 14 de fevereiro de 1876. Seguiu-se uma comunicação frenética entre Bell, em Boston, e seu agente em Washington DC para garantir que os pedidos não se sobrepusessem. A patente de Bell (US174465A) foi finalmente emitida em 7 de março. Três dias depois, ele fez história ao pronunciar aquelas palavras simples. Grey abandonou sua reserva de patente, e suas tentativas futuras de contestar a patente de Bell fracassaram no tribunal. Como funcionava o telefone de Bell A chave para essa nova tecnologia telefônica foi desenvolver uma maneira de transformar as oscilações acústicas geradas pela voz humana em oscilações elétricas que pudessem ser transmitidas por um cabo telegráfico. (Nessa época, cabos submarinos já conectavam a Irlanda à América do Norte e a Inglaterra à Europa continental.) Bell e seu assistente Watson já haviam demonstrado que sons bastante complexos, como notas musicais, podiam ser transmitidos eletricamente. Em 1875, eles construíram um transmissor feito de pergaminho esticado como a pele de um tambor, com um pedaço de ferro magnetizado preso que podia se mover entre os polos de um eletroímã. O som fazia o pergaminho vibrar. Isso, por sua vez, fazia o pedaço de ferro se mover para frente e para trás entre os polos do eletroímã, criando uma corrente oscilante que podia ser transformada de volta em som com um aparelho semelhante na outra extremidade. O projeto de telefone de Alexander Graham Bell tinha um transmissor feito de pergaminho esticado como a pele de um tambor. Everett Collection/Shutterstock Essa foi a tecnologia que Bell patenteou em 7 de março de 1876. Mas não foi a tecnologia que ele usou em sua primeira demonstração três dias depois. Na verdade, suas palavras foram transmitidas usando um transmissor líquido cheio de água acidificada que conduzia eletricidade. Esse dispositivo era semelhante aos que Grey vinha usando. Esse fato causou alguma controvérsia quando veio a público, fazendo parte das tentativas de Grey de contestar a patente de Bell. Ainda hoje, às vezes se afirma que Grey, e não Bell, foi o verdadeiro inventor do telefone. Mas Bell não voltou a utilizar o transmissor líquido nas suas experiências – era difícil ver como essa estrutura poderia ser transformada em um produto comercial. E, nos primeiros meses após a demonstração, o telefone parecia não ter qualquer futuro. Todos concordavam que era um dispositivo maravilhoso e engenhoso – mas para que servia, exatamente? Não era concorrência para o telégrafo. Afinal, para quem se iria ligar? Vendedor e showman Quando o novo dispositivo de Bell foi exibido na Exposição Centenária da Filadélfia em 1876, ele ficou praticamente perdido no meio da multidão de expositores – embora o então imperador do Brasil, Dom Pedro II, tenha exclamado: “Meu Deus, ele fala!”. Mas dois dos juízes, os eminentes cientistas Joseph Henry e William Thomson, concederam a Bell uma das cobiçadas medalhas da exposição. Thomson, nascido na Irlanda – o primeiro cientista a ser elevado à Câmara Alta do Parlamento Britânico como Lord Kelvin – mais tarde contaria aos cientistas de seu país sobre “a coisa mais maravilhosa da América… a maior de todas as maravilhas do telégrafo elétrico se deve a um jovem compatriota nosso, o Sr. Graham Bell”. Enquanto isso, Bell trabalhava arduamente para vender sua invenção. Como todos os inventores vitorianos, ele também precisava ser um showman. Em uma apresentação em Salem, Massachusetts, em fevereiro de 1877, ele usou o telefone para se comunicar com seu assistente Watson, que estava longe, em Boston. Primeiro, eles tocaram o código Morse pela linha em notas musicais, e “o público explodiu em aplausos”, de acordo com relatos. Em seguida, um “órgão telefônico” em Boston tocou as músicas Auld Lang Syne e Yankee Doodle para o público extasiado de Salem. Em Londres, fios foram instalados entre teatros para permitir um “concerto telefônico, no qual o público de um teatro ouviria a música tocada no outro”. É claro que tudo isso custou dinheiro, e Bell tinha investidores para apoiá-lo — incluindo seu futuro sogro Gardiner Greene Hubbard, um rico advogado e financista americano, e fundador da National Geographic Society. Em 1877, eles formalizaram a transformação da Bell Patent Association em uma sociedade por ações, a Bell Telephone Company, para desenvolver as possibilidades comerciais da invenção de Bell. Logo eles estavam fabricando equipamentos telefônicos com o design de Bell e, dois anos depois, fundaram a International Bell Telephone Company para comercializar os equipamentos na Europa. Em 1885, ela se tornaria a American Telephone and Telegraph Company, mais conhecida hoje como AT&T. Em um nível mais individual, Bell fez fortuna, enquanto seu rival Grey foi relegado a uma nota de rodapé na história das tecnologias elétricas. Na virada do século XX, o telefone havia encontrado seu

Sarampo preocupa profissionais da saúde, mas retorno da doença ao Brasil pode ser evitado

Mônica Levi, Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Os registros de 38 casos de sarampo em 2025, entre adultos e crianças, e de dois casos em 2026, todos importados de outros países, evidenciam o risco de a doença voltar ao Brasil. Esse retrocesso não seria novidade. Em 2019, após 12 meses de transmissão sustentada da enfermidade em território nacional, o certificado de eliminação da doença conquistado em 2016 foi revogado. À época, a reintrodução do vírus foi resultado da combinação entre as baixas coberturas vacinais, sobretudo em algumas regiões do país que concentraram bolsões de indivíduos não vacinados, e a entrada de pessoas não imunizadas vindas do exterior. Os índices de vacinação evoluíram de forma significativa desde então, em especial se comparados aos de 2020 e 2021, auge da pandemia de Covid-19. No entanto, até hoje não conseguimos alcançar a meta de 95% para as duas doses da vacina tríplice viral, que além do sarampo previne a caxumba e a rubéola. Isso deixa o Brasil suscetível à doença, notadamente em um contexto de alta circulação do vírus em países próximos. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), entre 2025 e a segunda semana de 2026 foram confirmados 15.922 casos de sarampo nas Américas, alta de 32 vezes em relação a 2024. Quase 95% dos episódios (15.084) ocorreram nos Estados Unidos, México e Canadá, sedes da próxima Copa do Mundo, em junho de 2026. Estima-se que a competição receberá 7 milhões de pessoas, incluindo milhares de brasileiros. A Bolívia, origem dos casos recentes no Brasil, ocupa a quarta posição no ranking. Cenário exige atenção Para evitar possíveis surtos e a eventual perda do status de país livre do sarampo, é necessário atuar em três frentes: aumento da vacinação (incluindo o resgate de adultos com esquemas irregulares), vigilância epidemiológica e resposta rápida diante de casos suspeitos. Nesse sentido, embora sempre seja possível evoluir, vale elogiar o trabalho desenvolvido pelo Ministério da Saúde nos últimos anos. A pasta tem investido em campanhas de multivacinação para a atualização da caderneta de crianças e adolescentes, busca ativa de não vacinados, vacinação escolar e em comunicação, item fundamental para aumentar a adesão. A presença na internet se tornou mais forte, com linguagem próxima do público jovem, e o Zé Gotinha passou a participar de grandes eventos e protagonizar estratégias nas redes sociais. A identificação e resposta a casos também têm sido efetiva. Entre outras ações, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) manteve por três semanas uma equipe no município de Campos Lindos, no Tocantins, que concentrou aproximadamente 60% dos casos de sarampo no Brasil em 2025. O trabalho em parceria com as equipes locais, que incluiu a identificação de comunicantes e vacinação de bloqueio, impediu que a cadeia de transmissão se expandisse. Medidas semelhantes foram adotadas em outros episódios. O sarampo já esteve entre as principais causas de mortalidade infantil no país, mas foi controlado progressivamente a partir da década de 1990 e eliminado em duas ocasiões: 2016 e 2024. Por estar entre os vírus mais contagiosos — uma pessoa infectada pode transmitir para até 18 pessoas suscetíveis —, o risco de reintrodução é real. A vacinação é a principal ferramenta preventiva. O SUS oferece a vacina gratuitamente, em duas doses, para crianças a partir de 12 meses a para adultos com menos de 30 anos de idade. Dos 30 aos 59 anos, é disponibilizada uma dose. Quem não tem certeza se já foi vacinado ou têm dúvidas se completou o esquema deve regularizar o calendário de acordo com a faixa etária. Mais do que a proteção individual, a vacinação é um ato de cuidado com quem não pode se vacinar, como crianças menores de 6 meses e imunodeprimidos. Colabore com esta causa. Mônica Levi, Presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e Membro da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização do Programa Nacional de Imunizações, Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Por que os chatbots de IA em saúde não vão ajudar você a se autodiagnosticar melhor

Rebecca Payne, Bangor University; University of Oxford Milhões de pessoas estão recorrendo a chatbots de inteligência artificial (IA) para obter orientação sobre tudo, desde culinária até declarações de Imposto de Renda. E também cada vez mais elas estão consultando os chatbots sobre sua saúde. Mas, como o diretor médico do Reino Unido alertou recentemente, isso pode não ser sensato quando se trata de decisões médicas. Em um estudo recente, meus colegas e eu testamos até que ponto os chatbots com modelos de linguagem de grande escala (LLM) ajudam o público a lidar com problemas de saúde comuns. Os resultados foram impressionantes. Os chatbots que testamos não estavam prontos para atuar como médicos. Uma resposta comum a estudos como este é que a IA avança mais rápido do que as publicações acadêmicas. Quando um artigo é publicado, os modelos testados podem já ter sido atualizados. Mas estudos que utilizam versões mais recentes desses sistemas para triagem de pacientes sugerem que os mesmos problemas permanecem. Fornecemos aos participantes breves descrições de situações médicas comuns. Eles foram designados aleatoriamente para usar um dos três chatbots amplamente disponíveis ou para recorrer às fontes que normalmente usariam em casa. Após interagir com o chatbot, fizemos duas perguntas: qual condição poderia explicar os sintomas? E onde eles deveriam procurar ajuda? As pessoas que usaram chatbots tiveram menos chances de identificar a condição correta do que aquelas que não os usaram. Elas também não foram melhores em determinar o local certo para procurar atendimento do que o grupo de controle. Em outras palavras, interagir com um chatbot não ajudou as pessoas a tomarem melhores decisões de saúde. Conhecimento sólido, resultados fracos Isso não significa que os modelos careçam de conhecimento médico, pois os LLMs conseguem passar em exames de licenciamento médico com facilidade. Quando removemos o elemento humano e apresentamos os mesmos cenários diretamente aos chatbots, seu desempenho melhorou drasticamente. Sem o envolvimento humano, os modelos identificaram condições relevantes na grande maioria dos casos e, muitas vezes, sugeriram níveis adequados de atendimento. Então, por que os resultados se deterioraram quando as pessoas realmente usaram os sistemas? Quando analisamos as conversas, os problemas vieram à tona. Os chatbots frequentemente mencionavam o diagnóstico relevante em algum momento da conversa, mas os participantes nem sempre percebiam ou se lembravam disso ao resumir sua resposta final. Em outros casos, os usuários forneceram informações incompletas ou o chatbot interpretou mal detalhes importantes. A questão não era simplesmente uma falha de conhecimento médico – era uma falha de comunicação entre humano e máquina. O estudo mostra que os formuladores de políticas precisam de informações sobre o desempenho da tecnologia no mundo real antes de introduzi-la em ambientes de alto risco, como a linha de frente da assistência médica. Nossas descobertas destacam uma limitação importante de muitas avaliações atuais da IA na medicina. Modelos de linguagem costumam ter um desempenho extremamente bom em questões de exames estruturadas ou em interações simuladas “modelo a modelo”. Mas o uso no mundo real é muito mais complexo. Pacientes descrevem sintomas de maneira vaga ou incompleta e podem interpretar mal as explicações. Eles fazem perguntas em sequências imprevisíveis. Um sistema que tem um desempenho impressionante em testes de benchmark pode se comportar de maneira muito diferente quando pessoas reais começam a interagir com ele. A IA talvez seja mais adequada como secretária médica. ST_Travel/Shutterstock Isso também ressalta uma questão mais ampla sobre o atendimento clínico. Como clínico geral, meu trabalho envolve muito mais do que apenas relembrar fatos. A medicina é frequentemente descrita como uma arte, e não como uma ciência. Uma consulta não se resume simplesmente a identificar o diagnóstico correto. Envolve interpretar a história do paciente, explorar incertezas e negociar decisões. Os educadores médicos há muito reconhecem essa complexidade. Durante décadas, os futuros médicos foram ensinados usando o modelo Calgary–Cambridge. Isso significava construir um relacionamento com o paciente, coletar informações por meio de perguntas cuidadosas, compreender as preocupações e expectativas do paciente, explicar os resultados com clareza e chegar a um acordo sobre um plano conjunto de tratamento. Todos esses processos dependem da conexão humana, da comunicação personalizada, do esclarecimento, da investigação delicada, do julgamento moldado pelo contexto e da confiança. Essas qualidades não podem ser facilmente reduzidas ao reconhecimento de padrões. Um papel diferente para a IA No entanto, a lição de nosso estudo não é que a IA não tenha lugar na área da saúde. Longe disso. O segredo está em compreender em que esses sistemas são bons atualmente e onde estão suas limitações. Uma maneira útil de pensar sobre os chatbots de hoje é que eles funcionam mais como secretárias do que como médicos. Eles são notavelmente eficazes na organização de informações, no resumo de textos e na estruturação de documentos complexos. Esses são os tipos de tarefas em que os modelos de linguagem já estão se mostrando úteis nos sistemas de saúde, por exemplo, na elaboração de notas clínicas, no resumo de prontuários de pacientes ou na geração de cartas de encaminhamento. A promessa da IA na medicina continua real, mas seu papel provavelmente será mais de apoio do que revolucionário no curto prazo. Não se deve esperar que os chatbots atuem como porta de entrada para a assistência médica. Eles não estão prontos para diagnosticar condições ou encaminhar pacientes para o nível adequado de atendimento. A inteligência artificial pode ser capaz de passar em exames médicos. Mas, assim como passar em uma prova teórica não faz de você um motorista competente, a prática da medicina envolve muito mais do que responder corretamente a perguntas. Ela requer discernimento, empatia e a capacidade de lidar com a complexidade que está por trás de cada encontro clínico. Pelo menos por enquanto, isso requer pessoas, e não bots. Rebecca Payne, Clinical Senior Lecturer, Bangor University; University of Oxford This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.