Terras raras: por que o Brasil está no centro da disputa global por minerais críticos

Fernanda Brandão, Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio O BNDES acaba de aprovar um investimento de R$ 77,5 milhões para um centro de terras raras em Poços de Caldas (MG). A notícia veio poucos dias após o Senado aprovar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. À primeira vista, podem parecer decisões restritas ao setor de mineração. Mas elas fazem parte de uma disputa muito maior. As chamadas terras raras e os minerais críticos são essenciais em inúmeras inovações tecnológicas. De chips avançados (necessários para o desenvolvimento de IAs) a carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares. Por isso, controlar o acesso a esses recursos se tornou uma questão de grande valor geopolítico no cenário internacional contemporâneo, sobretudo em meio à disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. O Brasil possui as segundas maiores reservas conhecidas de minerais críticos do mundo. Porém, ainda explora pouco esse potencial. Isso torna o país um alvo do interesse estadunidense para garantir acesso privilegiado a esses recursos. A disputa pelas terras raras envolve quem terá acesso às tecnologias do futuro, quem controlará partes estratégicas das cadeias industriais e quem ficará com os benefícios e os impactos dessa nova corrida mineral. A disputa entre Estados Unidos e China O mercado de minerais críticos hoje é extremamente concentrado na China, que é responsável por cerca de 90% do processamento desses minerais e possui as maiores reservas conhecidas. Há um esforço do governo americano em reduzir sua dependência econômica em relação aos chineses. Portanto, assegurar acesso a fontes alternativas de minerais críticos tornou-se um interesse vital para os Estados Unidos. Nesse cenário, a possibilidade de explorar as grandes reservas do Brasil têm despontado como uma alternativa valiosa nesse contexto geopolítico. Não é à toa que a Estratégia Nacional de Defesa dos EUA afirma que as Américas são parte da zona de influência do país, que buscará garantir a manutenção de sua preponderância na região. Esse compromisso é apresentado como o Corolário Trump da Doutrina Monroe, que ficou conhecida como “doutrina Donroe”. Além de manter a primazia da influência americana na região, os EUA querem garantir acesso privilegiado aos recursos estratégicos da região, como o petróleo venezuelano e os minerais críticos brasileiros. As relações bilaterais entre Brasil e EUA têm sido marcadas por tensão e pela imposição de tarifas arbitrárias e desproporcionais às exportações brasileiras, apesar do suposto bom relacionamento entre Trump e Lula. Elas têm tido como um de seus principais objetivos forçar os países a buscar acordos de renegociação com os Estados Unidos, que têm incluído exigências sobre minerais críticos, como a facilitação de investimentos dos EUA em toda a cadeia produtiva do recurso. Recentemente, o Brasil foi alvo de uma nova leva de tarifas e da interrupção das negociações para a remoção das tarifas aplicadas sobre o país. O interesse americano no Brasil No último ano, houve um aumento significativo nas solicitações para obtenção de licenças para exploração de reservas de minerais críticos. Elas são oriundas sobretudo de empresas estrangeiras, com destaque para empresas americanas, canadenses e australianas. Recentemente, a única empresa de exploração de minerais críticos no país, a Serra Verde, foi vendida para uma empresa americana, na qual o governo dos EUA possui participação. Em abril deste ano, a USA Rare Earth anunciou a aquisição por US$ 2,8 bilhões e, três meses depois, o Departamento de Comércio dos EUA anunciou que tem planos de investir US$ 1,6 bilhão na USA Rare Earth, em troca de 16 milhões de ações da empresa. A Serra Verde é hoje a única empresa fora da Ásia capaz de prover os quatro principais minerais para ímãs de alto desempenho: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Antes da venda, a Serra Verde operou em parceria com a empresa chinesa Shenghe Resources, com a qual possuía um contrato de dez anos. Ela chegou a exportar, em um ano, 85% de sua produção para a cadeia de produção chinesa. O contrato com a empresa chinesa foi encerrado em 2025, sete anos antes do previsto. O anúncio do encerramento foi seguido do aumento do empréstimo feito à Serra Verde pela americana International Development Finance Corporation. Em agosto de 2026, o Departamento da Guerra dos EUA anunciou um pacote de US$ 750 milhões em investimentos para a aquisição de minerais críticos oriundos do projeto Pela Ema, em Serra Verde. Esse recurso seria parte de um projeto de US$ 1,55 bilhão em investimentos. No acordo, o governo americano também se comprometeu a comprar pelo menos US$ 300 milhões em produtos de terras raras nos próximos cinco anos. Os minerais críticos são muito importantes para a indústria de defesa americana, inclusive para a produção de aviões-caça e mísseis, que estão com baixo estoque por conta dos conflitos na Ucrânia e no Irã. O Departamento da Guerra e outras autarquias americanas também têm investido em projetos relacionados a minerais críticos no continente africano, porém o Brasil tem recebido os maiores montantes de investimento. O governo brasileiro se manifestou com preocupação sobre o acordo estabelecido e estuda acionar o Poder Judiciário para vetá-lo, uma vez que o acordo prevê a exportação dos recursos sem exigir que pelo menos parte do processo industrial seja realizado no país. Ainda assim, poucos dias depois do anúncio, houve a retomada das negociações comerciais entre Estados Unidos e Brasil sobre as tarifas aplicadas ao país. O desafio de industrializar os minerais A exploração das reservas brasileiras de minerais críticos traz desafios e oportunidades para o país. Por serem recursos centrais para a indústria de alta tecnologia, a exploração e a produção desses recursos poderiam contribuir para a inserção do Brasil nas cadeias de produção de tecnologia, para o crescimento econômico e o desenvolvimento e fortalecimento do setor industrial nacional. Contudo, os efeitos econômicos da exploração desses recursos podem ser limitados caso o país se limite apenas à exploração e à exportação dos recursos antes dos processos de agregação de valor industrial. Nesse cenário, a maior parte da riqueza potencial desses recursos pode ser transferida para outros países, mantendo o Brasil como fornecedor de

TCE-MG multa Júlio Pimenta e ex-controlador-geral por irregularidade em licitação de iluminação pública em Ouro Preto

O Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) julgou procedente, por unanimidade, representação do Ministério Público de Contas que apontou irregularidades em uma licitação da Prefeitura de Ouro Preto. O processo dizia respeito à concessão dos serviços de iluminação pública e infraestrutura de telecomunicações do município, objeto da Concorrência Pública nº 1/2020. A decisão foi proferida na sessão da Segunda Câmara de 1º de setembro pelo conselheiro em exercício Adonias Monteiro. Com a decisão, o Tribunal aplicou multa de R$ 3 mil a Júlio Pimenta — nome civil Júlio Ernesto de Grammond Machado de Araújo —, ex-prefeito responsável pela nomeação irregular, e outros R$ 3 mil ao então controlador-geral do município, Rogério Alexandre Morais, totalizando R$ 6 mil em penalidades. Da decisão cabe recurso. O problema identificado A irregularidade apontada não foi fraude ou desvio de recursos. O TCEMG identificou um problema de ordem institucional: Rogério Morais atuou simultaneamente como controlador-geral do município e como presidente da Comissão Especial de Licitação responsável pela própria concorrência pública. As duas funções, segundo o Tribunal, são incompatíveis. Ao longo do processo, a Unidade Técnica do TCE constatou que Morais assinou documentos relacionados à licitação nas duas condições: como controlador-geral e como presidente da comissão. O exercício simultâneo das duas funções ficou documentado nos autos. Por que isso é um problema O princípio da segregação de funções é uma das bases da boa governança na administração pública. Ele exige que as atividades de execução e de controle sejam exercidas por pessoas ou unidades distintas. O fundamento é simples: quem executa um procedimento não pode ser responsável por fiscalizá-lo. No caso de Ouro Preto, o controlador-geral é justamente o agente responsável por acompanhar e fiscalizar os atos da administração, incluindo licitações. Ao presidir a comissão que conduzia a Concorrência nº 1/2020, Morais passou a integrar o processo que futuramente poderia ser objeto do próprio controle interno que ele chefiava. “O princípio da segregação de funções exige a separação entre atividades de execução e de controle.” A citação é do voto do relator Adonias Monteiro. O conselheiro enfatizou que a irregularidade existe independentemente de ter havido dano ao erário, fraude ou prejuízo ao resultado da licitação. Trata-se, segundo o Tribunal, de uma garantia institucional destinada a preservar a credibilidade dos mecanismos de fiscalização. Erro grosseiro Ao justificar a aplicação das multas, o relator enquadrou a conduta como “erro grosseiro”, conceito previsto na Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB). O entendimento é que a necessidade de separar funções de controle e execução é amplamente conhecida e encontra respaldo tanto na Constituição Federal quanto na Decisão Normativa nº 2/2016 do próprio TCEMG. Para o Tribunal, não havia espaço para dúvida razoável sobre a incompatibilidade. A responsabilidade do ex-prefeito Júlio Pimenta decorre de ter nomeado o controlador-geral para presidir a comissão de licitação. O ato de nomeação foi suficiente para enquadrá-lo na irregularidade apontada pelo Ministério Público de Contas.

O que é a síndrome da morte súbita em adultos?

Uma parada cardíaca não é a mesma coisa que um ataque cardíaco, e em muitos casos de morte súbita o problema está em uma falha elétrica difícil de investigar, pois ela muita vezes não deixa nenhum vestígio para ser encontrado em uma autópsia. Tetiana_Kryvous/Shutterstock.com David C. Gaze, University of Westminster Quando Mark Hughes, ex-técnico do Manchester United e da seleção do País de Gales, perdeu seu filho de 38 anos, um inquérito concluiu que a causa foi a síndrome da morte súbita em adultos, ou SADS, na sigla em inglês. Ele parecia saudável. Não havia nenhuma doença aparente. Para uma família, essa combinação é quase impossível de entender. Como alguém pode morrer de uma doença cardíaca quando nem mesmo uma autópsia consegue encontrar nada de errado com o coração? A resposta começa com algo fácil de esquecer: o coração não é apenas uma bomba; é também um órgão elétrico. Cada batimento cardíaco começa com um sinal que se propaga pelo coração em uma sequência precisa, indicando a cada câmara quando se contrair. Na SADS, a falha geralmente está nesse sistema elétrico, não na estrutura física do coração. Se o sinal se tornar instável, um ritmo anormal – uma arritmia – pode se desenvolver. A maioria das arritmias é inofensiva. Mas algumas que se originam nas câmaras inferiores do coração, os ventrículos, podem ser fatais. Durante a fibrilação ventricular, a atividade elétrica se torna caótica e o coração treme em vez de bombear. O sangue deixa de chegar ao cérebro, fazendo com que a pessoa perca a consciência. Sem reanimação cardiopulmonar (RCP) e um choque de um desfibrilador, a pessoa pode morrer em questão de minutos. Isso é uma parada cardíaca. Vale a pena deixar claro que uma parada cardíaca não é a mesma coisa que um ataque cardíaco, embora os termos sejam usados de forma intercambiável. Um ataque cardíaco ocorre quando uma artéria bloqueada priva parte do músculo cardíaco de sangue. Uma parada cardíaca ocorre quando o coração para repentinamente de bombear sangue pelo corpo. Um ataque cardíaco pode causar uma parada cardíaca, mas os dois não são a mesma coisa. No caso de SADS, geralmente suspeita-se de um distúrbio do ritmo elétrico, e não de um bloqueio. Essa falha elétrica também é o motivo pelo qual a SADS é tão difícil de investigar. Uma autópsia é eficaz para identificar problemas estruturais — uma artéria obstruída, um músculo danificado, um coração dilatado. Mas um distúrbio elétrico muitas vezes não deixa nenhum vestígio para ser encontrado. Depois que a pessoa morre, a atividade que antes controlava os batimentos cardíacos simplesmente desaparece. Assim, um patologista pode examinar um coração que parece totalmente normal, mesmo que estivesse apresentando um mau funcionamento fatal minutos antes. A SADS é uma morte súbita e inexplicável causada por parada cardíaca. Ela mata cerca de 500 pessoas no Reino Unido a cada ano. Alguns casos têm origem em condições hereditárias que afetam os canais microscópicos responsáveis pelo transporte de partículas eletricamente carregadas para dentro e para fora das células cardíacas — o mecanismo por trás de cada batimento cardíaco. As condições associadas à SADS incluem a síndrome do QT longo, a síndrome de Brugada e a taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica. Os nomes são complicados, mas eles compartilham uma característica: podem desestabilizar o ritmo cardíaco sem deixar nenhum vestígio estrutural. E é aqui que a genética pode ter sucesso onde uma autópsia convencional não consegue. O DNA coletado após uma morte inexplicada pode ser analisado em busca de variantes associadas a doenças cardíacas hereditárias, uma abordagem às vezes chamada de autópsia molecular. Uma variante genética é detectada em até 13% dos casos de SADS. Descobrir a causa não se resume apenas a explicar uma morte. Isso pode proteger as pessoas que ficaram para trás. Os sinais de alerta, quando existem, são fáceis de passar despercebidos. Algumas pessoas praticavam exercícios, trabalhavam e levavam uma vida totalmente normal até o momento da parada cardíaca. Outras apresentavam sintomas sem perceber o que eles significavam: desmaios inexplicáveis, especialmente durante a prática de exercícios, ou palpitações e tonturas recorrentes. Desmaios causados por distúrbios do ritmo cardíaco podem até ser confundidos com convulsões. Componente genético O histórico familiar é igualmente importante. Uma morte súbita inexplicável em um dos pais, irmão ou filho — especialmente em idade jovem — pode indicar uma condição hereditária, já que muitas das doenças por trás da SADS são hereditárias. Isso não significa que toda pessoa com palpitações ou tonturas tenha um problema cardíaco grave. Esses sintomas são comuns e geralmente inofensivos. Mas desmaios durante a prática de exercícios, ou sintomas associados a um histórico familiar de morte súbita prematura, merecem ser investigados. Testes genéticos podem revelar se a SADS é hereditária em uma família. Prostock-studio/Shutterstock.com A investigação de um único caso de morte não se limita necessariamente à pessoa que faleceu. Como várias das condições associadas à SADS são hereditárias, parentes próximos podem ser encaminhados para exames em uma clínica cardíaca especializada. Esses exames podem incluir um eletrocardiograma (ECG) para verificar a atividade elétrica do coração, uma ecocardiografia para avaliar sua estrutura, teste de esforço, monitoramento do ritmo cardíaco e, em algumas famílias, testes genéticos. Essa abordagem funciona. Um estudo com 304 famílias afetadas por morte cardíaca súbita constatou uma doença cardíaca hereditária em 47% das famílias no total, com 11% dos parentes examinados recebendo um diagnóstico definitivo. Nos casos em que a morte original foi classificada especificamente como SADS, a investigação ainda revelou uma condição hereditária em cerca de uma em cada cinco famílias. Um estudo mais recente, que acompanhou 686 parentes, constatou que a maioria dos diagnósticos realizados ao longo de dez anos de acompanhamento ocorreu nos primeiros cinco anos — um lembrete de por que a investigação oportuna é importante. Identificar alguém em risco antes que os sintomas apareçam pode salvar vidas. O tratamento depende da condição e pode incluir medicação, orientações sobre exercícios físicos ou para evitar certos medicamentos. Às pessoas com maior risco pode ser oferecido um cardioversor-desfibrilador implantável — um dispositivo que monitora

Taxistas raramente sofrem de Alzheimer: mapas mentais complexos e raciocínio espacial protegem o cérebro

Hatim Sharif, The University of Texas at San Antonio Motoristas de táxi e de ambulância americanos têm menos chances do que profissionais de quase qualquer outra área de morrer de doença de Alzheimer. Esse foi o resultado surpreendente de um estudo de 2024 que analisou as certidões de óbito de quase 9 milhões de pessoas nos EUA. Essas descobertas me deixaram perplexo, pois essas duas profissões dependem da mesma coisa que o meu próprio trabalho: mapas. Passei mais de duas décadas olhando para mapas. Não mapas de papel na parede, mas mapas digitais com várias camadas: limites de inundações sobrepostos a blocos censitários, pontos críticos de acidentes de carro mapeados em relação à geometria das estradas e leituras de satélite de precipitação sobrepostas a bacias hidrográficas. Grande parte do meu trabalho como engenheiro civil e ambiental é feito por meio de SIG – ou seja, sistemas de informação geográfica. Engenheiros como eu mantêm várias relações espaciais em mente ao mesmo tempo, raciocinando sobre onde as coisas se situam em relação umas às outras em escalas que vão de um quarteirão a toda uma bacia hidrográfica. Sempre presumi que o raciocínio espacial entre camadas de mapas fosse puramente profissional. Mas aquele estudo sobre motoristas de táxi e de ambulância me fez pensar se todo esse trabalho mental poderia estar fazendo algum bem ao cérebro. Os cérebros dos motoristas de táxi Dos 9 milhões de atestados de óbito de janeiro de 2020 a dezembro de 2022 que os pesquisadores examinaram, os motoristas de táxi e de ambulância apresentaram o menor risco de morrer de doença de Alzheimer entre 443 profissões. Após ajustar os dados por idade, sexo, etnia e escolaridade, aproximadamente 1 em cada 100 motoristas de táxi e ambulância morreu de Alzheimer, em comparação com 1 em cada 60 pessoas no total. Esse padrão não se estendeu a outras profissões que envolvem dirigir. Os pesquisadores concluíram que a chave para reduzir o risco de Alzheimer não era o ato de dirigir em si, mas a navegação contínua em tempo real: o trabalho constante de se localizar no espaço, rastrear um destino e atualizar um mapa mental à medida que as condições mudam. Motoristas cujo trabalho dependia de rotas fixas ou predeterminadas, como motoristas de ônibus e pilotos de avião, não pareciam ter uma vantagem semelhante. Os pesquisadores acreditam que a associação entre trabalhos que exigem muita navegação e menor risco de Alzheimer está relacionada ao hipocampo, uma parte do cérebro que controla a memória e a navegação espacial. É uma das primeiras regiões cerebrais a ser afetada pela doença de Alzheimer: problemas com a navegação espacial e a orientação estão entre os primeiros sinais da doença, às vezes surgindo antes mesmo de uma perda de memória evidente. E não foi a primeira vez que pesquisadores observaram este tipo de associação. Em um estudo marcante de 2000, neurocientistas compararam os cérebros de motoristas de táxi licenciados de Londres com os de pessoas que não dirigiam táxis. Suas descobertas forneceram a primeira evidência, por meio de imagens estruturais, de que regiões do cérebro adulto podem sofrer alterações mensuráveis sob demanda contínua de navegação. Para obter sua licença, os taxistas de Londres precisam memorizar mais de 25.000 ruas em um raio de 6 milhas de Charing Cross, um desafio apelidado como “The Knowledge” (“O Conhecimento”) que leva em média de três a quatro anos para ser cumprido. Você consegue memorizar 25.000 ruas e saber como percorrê-las? Os pesquisadores descobriram que os motoristas de táxi de Londres tinham uma quantidade significativamente maior de matéria cinzenta no hipocampo posterior, uma área do cérebro associada ao armazenamento de mapas espaciais em grande escala. Esse aumento no volume acompanhava a experiência dos taxistas: quanto mais tempo alguém dirigia pela cidade, maior era essa parte do cérebro. A mudança foi construída por meio da prática, não era inata. Embora pessoas com facilidade para navegação possam ser atraídas por esse tipo de trabalho, a profissão em si tem um impacto no cérebro. Juntos, esses dois estudos apresentam um argumento coerente: o trabalho que exercita intensamente o hipocampo pode remodelá-lo, e essa remodelação pode proteger contra uma das doenças mais temidas do envelhecimento. O papel dos especialistas em mapas Cartógrafos, urbanistas e analistas geoespaciais passam seus dias de trabalho em raciocínio espacial contínuo. Um especialista em sistema de informação geográfica pode usar um computador para sobrepor dados populacionais a mapas de exposição a inundações a fim de identificar quem está em risco, ou analisar imagens de satélite para mapear a cobertura do solo após um incêndio florestal. Os pesquisadores lidam simultaneamente com várias camadas de dados, sistemas de coordenadas e escalas. O raciocínio espacial por meio de uma tela envolve o hipocampo da mesma forma que se deslocar por uma cidade real? Enquanto um motorista de táxi navega de dentro da cena, ao nível da rua, os pesquisadores de SIG visualizam o espaço de cima como um mapa — o que os cientistas cognitivos chamam de raciocínio alocêntrico. Mas essas duas perspectivas se sobrepõem no cérebro: o hipocampo também constrói mapas a partir de pontos de vista externos, não apenas a partir da própria posição do navegador. Pesquisas sobre mapas cognitivos apontam para a mesma conclusão que o estudo sobre motoristas de táxi. Em 2023, pesquisadores aplicaram um modelo de aprendizado de máquina a mais de 22.500 pessoas em um conjunto de dados nacional e conseguiram prever quais CEPs apresentavam taxas mais altas de Alzheimer com 84% de precisão, com base apenas na complexidade do ambiente. Aqueles que vivem em ambientes espacialmente complexos – do tipo que exigem a construção ativa de mapas, como redes densas de ruas com inúmeros cruzamentos, diversos pontos de interesse e pontos de referência, além de múltiplas opções de trajetos – apresentavam menor probabilidade de desenvolver Alzheimer. Viver em locais espacialmente complexos desafia seu cérebro. fhm/Moment via Getty Images Um estudo posterior associou a complexidade geoespacial do ambiente a um maior volume nas regiões cerebrais responsáveis pela navegação espacial. Os pesquisadores levantaram a hipótese de