A vacina da dengue e o princípio da precaução

Roberto Medronho, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) A decisão do Ministério da Saúde de descontinuar temporariamente a atual estratégia de vacinação contra a dengue com a vacina produzida pelo Instituto Butantan deve ser compreendida como uma medida de precaução em defesa da vida, da ciência e da segurança da população. Não se trata de condenar a vacina, de negar sua importância ou de alimentar dúvidas infundadas. Trata-se de agir como um sistema público de saúde responsável deve agir diante de sinais inesperados: interromper temporariamente, investigar com rigor e decidir com base em evidências. Em tempos de informação acelerada — e de desinformação — é fundamental explicar essa medida. Por isso, a suspensão cautelar não representa fracasso do sistema de imunização. Ao contrário, mostra que os mecanismos de controle, vigilância e segurança das vacinas funcionam. Vacina do Butantan é um marco histórico para o Brasil A dengue é um dos maiores desafios sanitários do país. A circulação de diferentes sorotipos, as mudanças climáticas, a urbanização desordenada e a dificuldade de controle do Aedes aegypti compõem um cenário complexo e desafiador, aumentando ainda mais o risco de dengue grave. Nesse contexto, uma vacina nacional contra a dengue em dose única representa um marco histórico: uma tecnologia estratégica, desenvolvida por uma instituição centenária de excelência, capaz de ampliar a autonomia do Brasil. Justamente por reconhecer essa conquista, devemos tratar o momento atual com serenidade e rigor científico. Os dados disponíveis indicam um perfil de segurança favorável nos estudos clínicos realizados antes da aprovação. Além disso, experiências de vacinação em larga escala em Botucatu, Maranguape e Nova Lima envolveram dezenas de milhares de pessoas sem sinais relevantes de preocupação. O alerta surgiu após pouco mais de 500 mil doses até 30 de maio de 2026. Nesse universo, foram notificados 42 casos com sinais de alarme, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos, o que corresponde a cerca de 0,008% dos vacinados. Entre esses casos, três foram classificados como graves, incluindo dois óbitos. Ainda assim, eventos dessa natureza, embora raros, precisam ser levados muito a sério. É indispensável deixar claro: até o momento, não há conclusão de que a vacina tenha causado esses casos. A proximidade temporal entre a vacinação e os sintomas não constitui, por si só, prova de causalidade. Afinal, uma pessoa pode adoecer após receber uma vacina por diversas razões: infecção natural pelo vírus da dengue, outras doenças concomitantes, condições clínicas prévias, fatores de risco individuais, erro de administração, desvio de qualidade ou simples coincidência temporal. Papel da farmacovigilância é distinguir a coincidência da causalidade Essa distinção é essencial. Existe uma diferença fundamental entre associação temporal e relação causal. Em uma população de meio milhão de pessoas, inevitavelmente haverá indivíduos que adoecerão, serão hospitalizados ou morrerão por diferentes causas nos dias ou semanas seguintes à vacinação. Por isso, o papel da farmacovigilância é justamente distinguir a coincidência da causalidade. A pergunta essencial, portanto, é determinar se há um vínculo causal plausível entre a vacina aplicada e esses casos graves, incluindo os dois óbitos. Responder a essa questão urge realizar investigação epidemiológica, clínica, laboratorial e regulatória. Para tal, uma complexa cadeia de eventos; por exemplo, é preciso analisar lotes da vacina, o intervalo entre a vacinação e os sintomas, exames laboratoriais, sorotipos circulantes, histórico clínico dos pacientes, infecções prévias e outras causas alternativas. Somente depois desse processo será possível decidir se a vacinação deve ser retomada como estava, modificada, restrita a determinados grupos ou mantida temporariamente suspensa. A ciência não trabalha com torcida nem com disputas ideológicas. Ela trabalha com dados, evidências e análise crítica. A farmacovigilância funcionou A população deve ser tranquilizada. O que está acontecendo não é um sinal de fracasso; é um sinal de que a farmacovigilância funcionou. Afinal, uma vacina nova, ao ser incorporada ao Sistema Único de Saúde, continua sendo acompanhada após os estudos clínicos e a autorização regulatória. Ensaios clínicos são indispensáveis, mas não reproduzem integralmente a complexidade da vida real nem detectam todos os eventos raríssimos. A rápida identificação dos casos, a comunicação à Anvisa, o envolvimento do Instituto Butantan e a orientação às equipes indicam uma atuação adequada. Por isso, a suspensão temporária não deve gerar pânico; deve gerar confiança. Toda intervenção em saúde envolve análise de riscos e benefícios. Nenhum medicamento, vacina ou procedimento é absolutamente isento de risco. Por isso, a decisão em saúde pública deve considerar se o benefício esperado supera os riscos conhecidos e se os eventos suspeitos estão sendo monitorados. No caso da dengue, o potencial benefício de uma vacina segura e eficaz é enorme, pois é uma doença capaz de provocar surtos explosivos, sobrecarregar os serviços de saúde, causar hospitalizações e levar à morte. Os dados recentes mostram a dimensão do desafio. Até a semana epidemiológica 21 de 2026, o Brasil registrava 365.073 casos prováveis de dengue e 178 óbitos, com letalidade aproximada de 0,049% entre os casos prováveis. Embora representem queda expressiva em relação a 2024 — quando, no mesmo período, foram contabilizados cerca de 5,8 milhões de casos e mais de 6,3 mil mortes, com letalidade aproximada de 0,11% —, esses números ainda revelam uma carga importante de doença e sofrimento evitáveis. A vacina é uma ferramenta estratégica, mas não é a única Por isso, para o enfrentamento da dengue, todas as demais medidas precisam ser continuadas e ampliadas: controle do Aedes aegypti, eliminação de criadouros, vigilância epidemiológica e entomológica, diagnóstico precoce, hidratação adequada, manejo clínico oportuno, monitoramento dos sorotipos circulantes e educação permanente da população. A vacina é uma ferramenta estratégica, mas não é a única. Quem já recebeu a vacina não deve entrar em pânico. A orientação é observar o estado de saúde nos 21 dias seguintes à aplicação e procurar atendimento médico em caso de febre, dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramentos, tontura, sonolência intensa, sinais de desidratação ou piora do estado geral. Isso não significa que a vacina seja perigosa; significa que a vigilância está mais sensível. A confiança da população nas vacinas depende de duas atitudes
Fibromialgia em Ouro Preto: secretaria forma equipe e pacientes relatam primeiro atendimento na policlínica

Depois de se mobilizarem, acionarem a Secretaria de Saúde e manifestarem na Câmara Municipal, pacientes com fibromialgia de Ouro Preto relatam ter sido atendidas na policlínica pelo Dr. Felipe, médico da dor. O atendimento marcou o início do funcionamento da equipe multidisciplinar estruturada pela Secretaria de Saúde para tratar a condição pelo SUS municipal. Rosa Padula foi uma das pacientes atendidas. “A gente tava muito angustiada, passando mal e sem uma direção. Mas agora a gente já tem essa esperança, uma luz no fim do túnel”, disse ao Vintém. Segundo ela, o médico recebeu as pacientes com atenção, explicou sobre a doença e se comprometeu a ministrar uma palestra sobre o tema. O próximo passo, segundo Rosa, é o atendimento com a equipe multidisciplinar, previsto para o dia 13. Deizimar, que havia relatado ao Vintém a dificuldade de conseguir avaliação na rede pública — incluindo uma fila de aproximadamente 300 pessoas à sua frente —, agradeceu o que chamou de primeiro passo do secretário de Saúde, Leandro Moreira. “Já teve o primeiro contato, que já foi com o médico da dor pra ele atestar e encaminhar pra ser feito as carteirinhas”, disse. Ela reforçou também a necessidade de acesso às medicações: “A qualidade da vida da gente já cai porque a gente fica bem incapacitada às vezes até de trabalhar. A gente não pode ficar sem remédio.” Em contato com o Vintém, o secretário Leandro Moreira confirmou a estruturação da equipe e o início dos atendimentos. “A gente construiu a equipe multidisciplinar composta pelo médico, reumatologista, com assistente social e psicólogo da policlínica. Já estamos garantindo o direito das pessoas já com diagnóstico de fibromialgia e garantindo acesso também para aquelas que estão em investigação para fechar o diagnóstico”, disse. Segundo Moreira, a equipe também viabiliza a emissão da carteirinha de identificação, documento necessário para que as pacientes acessem os direitos previstos em lei — como atendimento prioritário, vaga de estacionamento reservada e gratuidade no transporte coletivo municipal. O gargalo no acesso à carteirinha havia sido o ponto central do relato de Deizimar na primeira reportagem do Vintém sobre o tema, publicada em maio, por ocasião do Dia Mundial de Conscientização da Fibromialgia.
Câmara discute trânsito e mobilidade urbana em audiência com especialista no dia 6 de julho

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Chegou para um fim de semana, ficou a vida inteira e ajudou a fundar a FAOP e o ensino das artes
Nas previsões esportivas, o pensamento racional perde por goleada

Atalhos e vieses cognitivos influenciam a forma como pensamos e prevemos resultados de partidas para além da preferência por um ou outro time ou seleção, em um exemplo da chamada “economia comportamental”. Stock-Asso/Shutterstock Armenio Pérez Martínez, Universidad Laica Vicente Rocafuerte O futebol é o esporte mais universal que existe. Basta ver como ficamos envolvidos quando acontece uma partida da Copa do Mundo em que “nossa seleção” está jogando. Quer estejamos assistindo ao nosso time favorito, quer não tenhamos preferência entre os adversários, nossa mente imediatamente tenta prever o resultado da partida. Mas a (ir)racionalidade pode nos pregar uma peça e diminuir as chances de acertarmos nossas previsões. Menos empates do que o esperado Vamos contextualizar. Dediquemos um tempo para analisar a seguinte situação: duas seleções se enfrentam em qualquer torneio com a mesma quantidade de pontos; qual resultado esperaríamos? Em uma pesquisa, 68,2% dos entrevistados consideraram que os dois adversários deveriam empatar. É um resultado aparentemente racional se seguirmos essa lógica: para times empatados em pontos, o resultado mais provável é o empate. Eureka! Mas de acordo com um estudo baseado em dados da Liga Espanhola até 2010, de um total de 14.937 partidas analisadas, apenas 3.994 (26,7%) terminaram empatadas. Em outra pesquisa realizada com resultados das Copas do Mundo — também até 2010 —, os resultados mais frequentes foram 1 a 0 (18,8%), 2 a 1 (14,5%), 2 a 0 (11%) e 1 a 1 (9,8%). Obviamente, as vitórias são mais comuns do que os empates nesse esporte. A estatística não está aí por acaso. Na primeira pesquisa, também foi perguntado aos participantes o que aconteceria se essas equipes empatadas na tabela tivessem tido trajetórias diferentes para somar seus pontos (nove). Nesse cenário, uma equipe teria conquistado três vitórias e duas derrotas, enquanto a outra não teria perdido, vencendo duas vezes e empatando três. Pois bem, 80,3% dos entrevistados previram que uma das duas equipes venceria — apenas 19,7% mantiveram o empate em sua previsão —, enquanto 43,9% consideraram que venceria a equipe que não havia perdido até aquele momento. Primeira conclusão: o empate como resultado mais provável caiu drasticamente ao serem apresentados os resultados anteriores. Segunda conclusão: a maioria dos participantes previu uma vitória da equipe que ainda não havia sofrido nenhuma derrota. Explicando o inesperado O que aconteceu, então? É possível que as mesmas pessoas alterem suas previsões esportivas ao receberem mais informações? O valor que atribuímos aos novos dados nos leva a mudar nossas previsões? Se nossas decisões seguissem o princípio da invariância, ou da racionalidade ilimitada, deveríamos manter nossa previsão, algo que não ocorreu no estudo. Esses casos que violam os princípios da economia clássica e seus mecanismos são analisados pelos pesquisadores da chamada economia comportamental. Trata-se de uma área inovadora de conhecimento interdisciplinar entre a economia e a psicologia que estuda as decisões humanas e o quão (ir)racionais elas podem ser. Sobre atalhos cognitivos e vieses A economia comportamental estava inicialmente ligada exclusivamente às decisões econômicas, mas hoje abrange uma ampla gama de áreas de aplicação: finanças, aposentadorias, políticas públicas, doação de órgãos, marketing, eleições, etc. Ela se baseia nos conceitos de heurísticas e vieses cognitivos para explicar essas falhas na racionalidade humana. A que nos referimos exatamente? Para Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia em 2002, as heurísticas são os atalhos que os processos mentais utilizam para buscar soluções para situações inéditas. Por isso, podem ser, até certo ponto, previsíveis. Por outro lado, os vieses cognitivos são falhas no processamento da informação decorrentes da capacidade limitada do cérebro e da rapidez com que se busca responder, sendo mais difíceis de serem detectados antecipadamente. E qual é o papel das heurísticas e dos vieses cognitivos em nossas previsões esportivas? Além dos elementos propriamente afetivos, que se relacionam com a preferência por algum time, ambos tornam nossas previsões vulneráveis, pois não somos capazes de processar todas as informações. Preferimos nos guiar pelo acaso e não pelas estatísticas, e não levamos em conta outras condições do ambiente. No caso das previsões esportivas, os vieses cognitivos mais frequentes são: O excesso de otimismo, que é a confiança injustificada na ocorrência ou estabilidade de um fenômeno, o que impede enxergar o erro nas estimativas iniciais. O viés da “mão quente”, que considera que as sequências de vitórias ou derrotas permanecerão para sempre, ignorando os referenciais estatísticos. O viés de representatividade, em que a resposta é selecionada por semelhança, e não por probabilidade. O viés dos números pequenos, ao realizar estimativas com base em poucos casos. A superinferência, que considera impossível que algo ocorra se não tiver ocorrido anteriormente. Ao fazer previsões no esporte, subestima-se a importância da estatística e superestima-se as sequências de vitórias ou os bons resultados. O pensamento intuitivo conspira, então, contra o pensamento racional: torna-se mais rápido, espontâneo e atraente. Armenio Pérez Martínez, Director del Departamento de Investigación Científica, Tecnológica e Innovación, Universidad Laica Vicente Rocafuerte This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Cientistas brasileiros investigam se medicamentos como Ozempic e Mounjaro podem mesmo ajudar a proteger o cérebro

Diogo Haddad, Hospital Alemão Oswaldo Cruz Poucos medicamentos geraram tanto entusiasmo nos últimos anos quanto Ozempic, Wegovy (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida). Originalmente desenvolvidas para tratar diabetes tipo 2 e, posteriormente, obesidade, essas substâncias transformaram a forma como os médicos passaram a enxergar as doenças metabólicas. Elas melhoram o controle da glicose no sangue, promovem perda de peso significativa e reduzem o risco cardiovascular em muitos pacientes. Mas uma outra pergunta, mais inesperada, começou a surgir: esses medicamentos também poderiam ajudar a proteger o cérebro? Cientistas vêm explorando essa possibilidade. A ideia é atraente: o diabetes tipo 2 está associado a um maior risco de declínio cognitivo e demência, e as vias biológicas envolvidas no diabetes se sobrepõem a algumas implicadas nas doenças neurodegenerativas. Ainda assim, as evidências permanecem longe de serem conclusivas. Na verdade, alguns dos estudos mais aguardados na área trouxeram, recentemente, resultados decepcionantes. Grandes ensaios clínicos de fase 3 que avaliaram a semaglutida em pessoas com doença de Alzheimer em estágio inicial não demonstraram os benefícios cognitivos claros que muitos pesquisadores esperavam. Os ensaios clínicos EVOKE e EVOKE+, que avaliaram a semaglutida oral em mais de 3.800 pessoas com doença de Alzheimer em estágio inicial, não demonstraram benefício clínico significativo na desaceleração do declínio cognitivo quando comparada ao placebo. Os achados serviram como um importante lembrete de que retardar ou prevenir a neurodegeneração é extremamente difícil. Parte da resposta pode estar em uma possibilidade simples: talvez estejamos fazendo a pergunta de pesquisa errada. Em vez de perguntar se esses medicamentos podem retardar a doença de Alzheimer já estabelecida, talvez seja necessário investigar se eles podem influenciar a saúde cerebral muito antes, em etapas anteriores ao desenvolvimento da demência. Essa possibilidade motivou nosso estudo Tirzepatida versus semaglutida para a prevenção de comprometimento cognitivo leve, demência e doença de Alzheimer em diabetes tipo 2: um estudo de coorte retrospectivo no mundo real, publicado recentemente no Journal of Diabetes and Its Complications. Olhar para o cérebro pela lente metabólica Durante décadas, a doença de Alzheimer foi estudada principalmente a partir da perspectiva das placas amiloides, dos emaranhados de tau e da neurodegeneração. Essas continuam sendo características biológicas centrais da doença. Entretanto, o cérebro não existe de forma isolada. Ele depende de vasos sanguíneos saudáveis, metabolismo energético eficiente, sinalização adequada da insulina e respostas inflamatórias rigorosamente reguladas. Muitos desses sistemas são comprometidos no diabetes tipo 2. Pesquisadores têm reconhecido cada vez mais que a disfunção metabólica pode contribuir para a vulnerabilidade do cérebro em envelhecimento. Isso não significa que o diabetes inevitavelmente cause demência. Em vez disso, sugere que o ambiente biológico criado pelo diabetes pode tornar o declínio cognitivo mais provável em alguns indivíduos. Isso levou cientistas a investigar se medicamentos que melhoram a saúde metabólica também poderiam influenciar os desfechos cognitivos de longo prazo. Foi o que fizemos. Usando registros eletrônicos de saúde do mundo real, provenientes de uma ampla rede internacional de pesquisa, comparamos adultos com diabetes tipo 2 que iniciaram tratamento com semaglutida ou tirzepatida. Esta é particularmente interessante porque atua em duas vias hormonais envolvidas no metabolismo: GLP-1 e GIP (incretinas). A semaglutida, por sua vez, tem como principal alvo apenas o GLP-1. Depois de parear cuidadosamente mais de 44 mil pacientes em cada grupo, considerando características demográficas e clínicas, examinamos a ocorrência posterior de comprometimento cognitivo leve, demência e doença de Alzheimer. Janela de oportunidade Nosso achado mais forte envolveu o comprometimento cognitivo leve, frequentemente considerado um estágio intermediário entre o envelhecimento normal e a demência. Os pacientes que iniciaram o uso de tirzepatida apresentaram menor incidência de comprometimento cognitivo leve do que aqueles que iniciaram o uso de semaglutida. Para demência e doença de Alzheimer, os resultados foram menos consistentes. Embora algumas análises tenham sugerido uma possível redução de risco, os achados não foram robustos o suficiente para sustentar conclusões definitivas. Essa distinção é importante. Nosso estudo não mostra que a tirzepatida previne a doença de Alzheimer. Tampouco sugere que as pessoas devam usar esses medicamentos para proteger a memória. Por se tratar de um estudo observacional, ele identifica associações, mas não prova causa e efeito. No entanto, levanta uma questão científica intrigante: por que os efeitos poderiam parecer mais evidentes na fase de comprometimento cognitivo leve do que na demência já estabelecida? Uma possibilidade é que as doenças neurodegenerativas se desenvolvam ao longo de décadas, enquanto muitos tratamentos são introduzidos relativamente tarde. Quando a doença de Alzheimer se torna clinicamente aparente, extensas alterações biológicas muitas vezes já vêm ocorrendo silenciosamente há anos. Nessa fase, modificar o curso da doença pode ser muito mais difícil. O comprometimento cognitivo leve pode representar uma janela de oportunidade diferente. Em estágios mais iniciais, a saúde vascular, a resistência à insulina, a inflamação e a disfunção metabólica podem exercer maior influência sobre as trajetórias cognitivas. Se terapias baseadas em incretinas afetam alguma dessas vias, seu impacto pode ser mais fácil de detectar antes que uma neurodegeneração substancial tenha ocorrido. Isso ainda é especulativo, mas oferece uma possível explicação para o fato de estudos observacionais em pessoas com diabetes, às vezes, gerarem sinais diferentes daqueles observados em ensaios clínicos conduzidos com pacientes que já têm doença de Alzheimer estabelecida. O contexto biológico subjacente pode não ser o mesmo. A lição mais importante Outra questão ainda sem resposta é se todas as terapias baseadas em incretinas devem ser vistas como um único grupo. Semaglutida e tirzepatida têm semelhanças, mas não são medicamentos idênticos. A dupla ação da tirzepatida sobre os receptores de GLP-1 e GIP pode influenciar vias biológicas de forma diferente da semaglutida. Estudos experimentais sugeriram que essas vias poderiam afetar inflamação, sobrevivência neuronal, função sináptica e metabolismo energético cerebral. Ainda não se sabe se esses efeitos se traduzem em benefícios clínicos significativos. Os nossos achados sugerem que pesquisas futuras talvez precisem avaliar essas terapias individualmente, em vez de presumir que elas produzam efeitos idênticos sobre o cérebro. Isso é particularmente relevante diante do número crescente de ensaios clínicos que investigam intervenções metabólicas em doenças neurodegenerativas. A mensagem mais
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Como Messi, Mbappé e Haaland usam a cabeça para ter uma vantagem psicológica na Copa do Mundo

O norueguês Erling Haaland comemora ao marcar o primeiro gol de sua equipe durante partida da fase de grupos da Copa do Mundo contra o Iraque, em 16 de junho de 2026: psicólogo do esporte analisa características que ajudam no sucesso no futebol moderno. AP Photo/Martin Meissner Eric Zillmer, Drexel University Parte da beleza do futebol está em sua imprevisibilidade. Na Copa do Mundo de 2026 já vimos Marrocos empatar com o Brasil, pentacampeão mundial e a Austrália superar as expectativas ao derrotar a Turquia. Mas poucas surpresas superarão o fato de a seleção de Cabo Verde, classificada em 67º lugarno ranking da Fifa no início do torneio, ter empatado em 0 a 0 com a Espanha – a favorita de muitos especialistas ao título. Mas o que influencia se uma equipe vence, empata ou perde? É claro que a qualidade dos jogadores e da comissão técnica é importante. E avanços recentes na análise esportiva, incluindo métricas de geolocalização de jogadores em tempo real, levaram à adoção de decisões baseadas em dados durante as partidas. Os principais times de futebol dependem cada vez mais de big data e algoritmos preditivos para obter uma vantagem competitiva. Mas a psicologia do esporte também desempenha um papel importante. E é aí que eu entro. Tenho paixão por esportes em geral e pelo futebol em particular – é o esporte que pratiquei desde criança na Alemanha. Agora, como psicólogo esportivo e diretor do Global Sport Leadership Solutions Lab da Universidade Drexel, estudo como jogadores e treinadores podem lidar com o caos em campo para melhorar estrategicamente o desempenho e vencer. A seguir, destaco vários princípios psicológicos modernos essenciais para todas as 48 seleções que disputaram a Copa do Mundo de 2026 no México, Canadá e EUA. Cinco passos para o sucesso no futebol Perturbação – É verdade em todos os esportes, e certamente no futebol moderno, que a equipe vencedora se beneficiará ao perturbar seu adversário. Táticas disruptivas podem incluir faltas táticas agressivas, contra-ataques em alta velocidade que pegam o adversário desprevenido, jogadas ensaiadas enganosas que criam um caos organizado, táticas de alta pressão que forçam os adversários a cometer erros e provocar os jogadores adversários. Desorganizar a estrutura e o ritmo do time adversário é tanto uma mentalidade quanto uma estratégia que pode levar a oportunidades de gol. Um time capaz de interromper o fluxo do adversário muitas vezes consegue superar uma desvantagem técnica ou desmoralizar times mais fracos. Aptidão de atenção – Marcar gols no futebol internacional é difícil. Um grande atacante vale seu peso em ouro. Ele não apenas realiza dribles excepcionais e usa de habilidades espetaculares no um contra um. Ele também tem uma forte “capacidade de atenção”, que exige eficiência cognitiva e ética de trabalho para se posicionar de forma a marcar gols. Esses jogadores são celebrados por seu “sangue frio” e habilidade com a bola, mas é sua inteligência psicológica que os torna especiais. Uma das primeiras habilidades a falhar sob pressão é a capacidade de concentração. O artilheiro por excelência não “congela”. Pode-se chamar isso de “nervos de aço”, mas é apenas uma metáfora para gerenciar múltiplas fontes de atenção de forma simultânea e eficiente. Atacantes como o inglês Harry Kane, o francês Kylian Mbappé e o norueguês Erling Haaland mantêm o controle da atenção sob pressão. Eles se concentram no momento em que mais importa e alternam entre tarefas com naturalidade. Divagação mental controlada – A divagação mental é um afastamento espontâneo do ambiente imediato. Nos esportes, a divagação mental costuma ser vista como algo negativo, pois a falta de atenção em um momento crucial pode levar ao desastre. Mas é difícil manter o foco por mais de 90 minutos durante uma partida de futebol. E novas evidências de neuroimagem sugerem que, nos momentos de divagação mental, o cérebro não está de forma alguma em repouso. Na verdade, ele apenas está processando informações de maneira diferente. Assim, a divagação mental controlada, que envolve uma exploração mental ativa, pode ser altamente benéfica em esportes de alto rendimento — mesmo que seja apenas por alguns segundos. Os melhores jogadores parecem saber quando se concentrar e quando se distanciar. Às vezes, eles desviam o olhar da bola e absorvem uma perspectiva mais ampla da partida. Então, quando surge uma oportunidade crucial de marcar um gol, eles fixam sua concentração e estão 100% presentes. O capitão da Argentina, Lionel Messi, comemora a vitória de seu país por 3 a 0 sobre a Argélia em 16 de junho de 2026. AP Photo/Reed Hoffmann O árbitro Wilton Sampaio, do Brasil, mostra o cartão vermelho ao sul-africano Themba Zwane durante a partida entre México e África do Sul em 11 de junho de 2026. AP Photo/Silvia Izquierdo Quando pesquisadores examinaram para onde o grande jogador argentino Lionel Messi olha, descobriram que seus olhos muitas vezes estão longe da bola. O senso comum no futebol sempre foi manter os olhos na bola, mas uma nova pesquisa sugere que o vencedor também deixa a mente vagar e desvia o olhar da ação. O cérebro de Messi parece ser capaz de fazer coisas que muitos de seus adversários não conseguem; ele parece ter habilidades cognitivas de nível extraordinário. Resiliência (para os árbitros) — O futebol é um dos esportes mais difíceis de arbitrar. Os árbitros não só precisam estar em excelente condição física, como também devem ser capazes de se controlar emocionalmente a partida. Isso tem se tornado cada vez mais difícil, com jogadores profissionais simulando lesões rotineiramente e uma regra do impedimento que é interpretada com precisão de frações de centímetro. E há ainda uma das decisões cognitivas mais difíceis e controversas de todos os esportes: o pênalti, marcado por uma falta cometida dentro da área. Com tanto em jogo e todos de olho, o árbitro da Copa do Mundo moderna precisa ter habilidades excepcionais de multitarefa, comunicação e gestão. Os árbitros fazem parte da dinâmica da partida, quer queiram, quer não. Todos os julgam – ainda mais em 2026, já que os árbitros
A IA chegou na pós‑graduação, mas não nas universidades

Raquel Lobão, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Numa tarde recente, uma orientanda me enviou o rascunho de um capítulo teórico. O texto estava fluido, bem articulado, com as referências nos lugares certos. Algo, porém, parecia levemente fora de lugar, uma certa uniformidade de ritmo, uma ausência daquela aspereza produtiva que marca quem ainda está aprendendo a pensar por escrito. Não perguntei nada. Ela também não disse nada. E foi exatamente esse silêncio que me preocupou. Essa cena, que aposto não ser exclusiva da minha experiência no programa de pós-graduação em Comunicação (PGCOM) da UERJ, resume um dos dilemas mais urgentes e menos enfrentados da universidade brasileira hoje: a inteligência artificial generativa já está dentro das dissertações e teses. Está nas revisões de literatura, nos fichamentos, nos esboços de argumento, nas transcrições de entrevistas. Está no cotidiano da pós-graduação de um jeito silencioso, informal e, sobretudo, sem nenhuma bússola ética ou institucional que oriente estudantes e professores sobre o que fazer com ela. O problema não é a tecnologia. O problema é o vazio ao redor dela. Esse vazio não é privilégio brasileiro. Uma revisão sistemática publicada em 2025 na revista Frontiers in Education, analisa estudos sobre escrita acadêmica e IA entre 2023 e 2025 e identifica o que pesquisadores passaram a chamar de escrita “AI-nizada” — textos que diluem a voz autêntica do estudante e comprometem o desenvolvimento de sua identidade intelectual. Pesquisa publicada no British Journal of Educational Technology mostrou que professores de universidades britânicas já recorrem a arguições orais improvisadas como estratégia de emergência para verificar autoria. E o International Center for Academic Integrity revelou que 58% dos estudantes admitiram usar ferramentas de IA de forma desonesta em avaliações acadêmicas e provavelmente a cifra real é maior. Trata-se de um sinal claro de que os modelos avaliativos tradicionais simplesmente não dão conta do novo cenário. Sem mapa e sem bússola No Brasil, o quadro é agravado por uma camada adicional: a ausência quase total de regulação institucional. Levantamento realizado pela Cátedra Oscar Sala da USP, com mais de 150 Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras, encontrou apenas sete com diretrizes formais para o uso de IA generativa. O Referencial do MEC para uso responsável de IA na Educação, publicado em fevereiro de 2026, confirmou o tamanho do problema: 73,8% dos docentes e gestores de IES públicas não souberam informar se havia qualquer medida regulatória sobre o tema em suas instituições. Mais recentemente, levantamento publicado pelo O Globo em março de 2026 indicou que apenas 43% das 69 universidades federais já têm protocolos disponíveis ou em construção – o que significa que mais da metade ainda opera sem qualquer orientação formal. Quando uma universidade finalmente se mexe, o campo ainda não sabe bem como reagir. O caso da Universidade Federal do Ceará é ilustrativo. Ao publicar sua Portaria nº 39/2025, tornando obrigatória a declaração de uso de IA e a submissão de trabalhos a ferramentas de detecção de similaridade, a universidade foi simultaneamente pioneira e alvo de crítica. Artigo publicado aqui no The Conversation argumentou que a norma carregava viés punitivista, criava zonas cinzentas difíceis de fiscalizar e arriscava desestimular exatamente a transparência que pretendia promover. A UFC respondeu que o objetivo era ético e formativo, não disciplinar. O debate em si, porém, é sintomático: não temos nem linguagem comum para discutir o problema. Na pós-graduação, as tensões são particularmente agudas porque o que está em jogo não é apenas o desempenho numa disciplina. É a formação de pesquisadores. Uma dissertação ou tese não é um produto. É um processo de aprendizagem profunda, de construção de um pensamento próprio, de amadurecimento intelectual que não tem atalho. E é exatamente nesse processo que a IA generativa, usada sem mediação, representa seu risco mais sutil e mais grave: não o do plágio evidente, mas o do que pesquisadores chamam de erosão epistêmica, isto é, a atrofia gradual da capacidade de pensar de forma independente, de sustentar um argumento, de desenvolver uma voz intelectual própria. Risco de corrupção da identidade acadêmica Pesquisa conduzida com acadêmicos britânicos e publicada na Postdigital Science and Education revelou que professores expressam temores de que as ferramentas de IA possam “corromper a identidade acadêmica e as práticas autênticas de produção intelectual.” Outros falam em “desqualificação”, “desumanização” e “erosão epistêmica”. Não se trata de resistência tecnológica. Trata-se de uma ansiedade existencial legítima sobre o valor do trabalho intelectual em si. Na pós-graduação, essa ansiedade se concretiza no processo de orientação: como avaliar o desenvolvimento de um pensador quando não se sabe mais distinguir o que é dele do que foi gerado por uma máquina? Como identificar se um mestrando realmente compreendeu o que escreveu — ou se aprendeu apenas a fazer as perguntas certas para um chatbot? O estudo da Frontiers in Education é preciso ao nomear o dilema que estudantes enfrentam: escolher entre produzir um texto que “soa melhor” graças à IA ou um que “soa como eles mesmos.” Quando a escolha sistemática é pela primeira opção, o que se perde não é apenas autoria — é a formação. O referencial do MEC propõe caminhos sensatos: Comissões de Inteligência Artificial nas IES, critérios explícitos de autoria, revisão das práticas avaliativas para valorizar processo e não apenas produto. Um estudo comparando políticas institucionais em 40 universidades de seis regiões do mundo aponta na mesma direção, mostrando que as instituições mais eficazes combinam diretrizes claras com programas de formação e avaliações autênticas e não apostam apenas em controle e detecção. São propostas razoáveis. Mas um referencial sem obrigatoriedade é uma sugestão. E sugestões, no contexto da burocracia universitária brasileira, têm um ciclo de vida conhecido: viram grupos de trabalho, que viram relatórios, que viram gavetas. O que falta não é diagnóstico. O que falta é mecanismo e um ator que o faça funcionar. Esse ator tem nome: a CAPES. A agência que regula e avalia a pós-graduação brasileira é, hoje, a instância com mais poder real para induzir mudanças sistêmicas nas IES. Não por acaso,