Mariana e Ouro Preto abrem cadastramento de blocos para o Carnaval 2026

Foto: Ane Souz As prefeituras de Mariana e Ouro Preto abriram, a partir desta quinta-feira (8), o cadastramento oficial de blocos carnavalescos interessados em integrar a programação do Carnaval 2026. A iniciativa busca organizar o calendário da folia, garantir segurança e permitir o planejamento prévio do apoio oferecido pelo poder público aos grupos que desfilam durante o período carnavalesco. Cadastro em Mariana Em Mariana, os blocos devem se inscrever até o dia 16 de janeiro, presencialmente, no Departamento de Documentação e Arquivo, no prédio da Prefeitura. O atendimento acontece de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h e das 13h às 16h30. Segundo a administração municipal, o cadastramento é uma etapa essencial para que a Secretaria de Patrimônio Cultural possa organizar a programação, planejar a logística e definir o apoio aos blocos que participarão do carnaval. No ato da inscrição, os blocos devem apresentar: O Carnaval é um dos eventos mais aguardados do calendário cultural de Mariana, e a organização antecipada é apontada pela Prefeitura como fundamental para que a festa ocorra de forma segura e estruturada. Cadastro em Ouro Preto Já em Ouro Preto, o cadastramento dos blocos carnavalescos para o Carnaval 2026 está aberto no período de 8 a 18 de janeiro. O procedimento pode ser feito online, por meio de formulário eletrônico (Google Forms), disponibilizado pela Prefeitura. Além do cadastro digital, também haverá a opção de inscrição presencial na sede da Secretaria de Cultura e Turismo, localizada na Rua Cláudio Manoel, nº 61, Centro — a Casa de Gonzaga. O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. De acordo com a Prefeitura, o cadastramento é fundamental para o planejamento do evento, contribuindo para a segurança, a estrutura e a valorização das manifestações culturais que fazem parte do carnaval ouro-pretano. Planejamento e organização Nas duas cidades, o cadastramento não garante automaticamente recursos ou apoio financeiro, mas é requisito básico para que os blocos sejam considerados na programação oficial e no planejamento da infraestrutura pública durante o carnaval. As prefeituras orientam que os blocos interessados realizem a inscrição dentro do prazo estabelecido, garantindo a participação no processo de organização do Carnaval 2026.
Lei em Minas proíbe comércios de exigirem dados pessoais de clientes sem justificativa legal

Entrou em vigor nesta quinta-feira (8), em Minas Gerais, uma lei que proíbe comércios e prestadores de serviços de exigirem dados pessoais dos clientes como condição para a venda de produtos ou atendimento, salvo quando houver previsão legal específica. A norma impede práticas comuns como a solicitação obrigatória de CPF, telefone, endereço ou e-mail no momento do pagamento. A lei foi publicada no Diário Oficial do Estado e é resultado de um projeto apresentado em 2019 pelo deputado estadual Charles Santos (Republicanos). O texto também recebeu contribuições de outros parlamentares da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). O que muda na prática Pela nova regra, os dados pessoais só poderão ser solicitados quando forem indispensáveis para a operação e estiverem amparados por lei. Isso inclui situações como emissão de nota fiscal quando exigida pela legislação, contratos de prestação de serviços ou operações reguladas por normas específicas. Fora desses casos, o consumidor não pode ser constrangido a fornecer informações pessoais para concluir uma compra ou acessar um serviço. A exigência de cadastro, prática comum em muitos estabelecimentos, passa a ser considerada irregular quando não houver base legal. Alinhamento com a LGPD A legislação estadual está em consonância com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), em vigor desde 2018, que estabelece princípios como a finalidade, a necessidade e a transparência no tratamento de dados pessoais no Brasil. A LGPD determina que empresas e órgãos públicos só podem coletar informações estritamente necessárias para cumprir uma finalidade legítima, informando claramente ao titular dos dados como essas informações serão utilizadas, armazenadas e protegidas. Proteção ao consumidor Com a nova lei, Minas Gerais reforça o entendimento de que a proteção de dados é um direito do consumidor. O objetivo é coibir a coleta excessiva de informações e reduzir riscos como uso indevido de dados, vazamentos e abordagens comerciais não autorizadas. A norma limita o acesso dos comerciantes apenas às informações indispensáveis e legalmente autorizadas, fortalecendo a privacidade nas relações de consumo cotidianas.
Ouro Preto prepara Carnaval 2026 com homenagem a Sinhá Olímpia

Este ano marca os 50 anos do falecimento de uma das personagens mais conhecidas da história da cidade
As “pequenas” coisas que devemos a Albert Einstein

Francisco José Torcal Milla, Universidad de Zaragoza Fotografia de Albert Einstein (Princeton, N.J.) Oren Jack Turner / Wikimedia Commons. Se perguntássemos às pessoas na rua o nome de um cientista, as respostas provavelmente seriam principalmente Albert Einstein, Marie Curie, Isaac Newton, Stephen Hawking, nomes locais, como Oswaldo Cruz, ou que apareceram recentemente nos cinemas, como Robert Oppenheimer. De acordo com algumas pesquisas, os quatro primeiros ficariam com aproximadamente entre 60% e 90% das respostas, e Albert Einstein sairia vencedor, com uma grande vantagem. Retrato de Marie Skłodowska-Curie (1867–1934). Wikimedia Commons. Agora, se perguntássemos a seguir por que conhecem Einstein, a grande maioria dos entrevistados responderia: a Teoria da Relatividade! Mesmo que não soubessem do que se trata essa teoria. Concordamos que Einstein contribuiu para o progresso da ciência com essa conquista, embora também tenha feito o mesmo em outras áreas, menos conhecidas e de grande importância no nosso dia a dia. Quatro artigos pioneiros Em 1905, antes de divulgar sua teoria mais reconhecida, Albert Einstein publicou quatro artigos, cada um deles merecedor de um Prêmio Nobel: Sobre um ponto de vista heurístico sobre a produção e transformação da luz, no qual propôs os quanta de energia e explicou o efeito fotoelétrico. Efeito fotoelétrico: emissão de elétrons (em vermelho) de uma placa metálica ao receber energia suficiente transferida dos fótons incidentes (linhas onduladas). Wikimedia Commons., CC BY Sobre o movimento de pequenas partículas suspensas em um líquido estacionário, conforme exigido pela teoria cinética molecular do calor, no qual forneceu evidências empíricas da realidade do átomo e deu crédito à mecânica estatística, um ramo da física relegado naquela época. Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento, precursor de sua grande teoria, no qual Einstein conciliou as equações de Maxwell do eletromagnetismo e as leis da mecânica clássica e propôs a velocidade da luz como a velocidade máxima alcançável, acessível apenas aos fótons. A inércia de um corpo depende de seu conteúdo energético?, em que Einstein deduziu a equação mais famosa de todos os tempos ou, pelo menos, a mais reproduzida em camisetas e canecas. A equivalência entre a massa de um corpo em repouso e a energia em que ele pode se converter: E=mc². Parecem resultados importantes e realmente são. Mas de que isso tudo serve para as pessoas comuns? Sincronização de relógios Sempre que alguém abre o Google Maps ou o navegador do carro, o bom funcionamento do GPS depende diretamente da Teoria da Relatividade de Einstein. Os satélites que formam o sistema GPS se movem muito rápido e estão longe da superfície terrestre, onde a influência gravitacional da Terra é menor. Einstein descobriu que o tempo não avança ao mesmo ritmo em todas as circunstâncias: a gravidade e a velocidade do objeto modificam sua passagem. Os relógios dos satélites, portanto, tendem a se adiantar ou atrasar em relação aos que estão na superfície da Terra. Telstar, o primeiro satélite de comunicações lançado ao espaço, em 1962. NASA. O sistema GPS corrige esse efeito aplicando as equações da Relatividade Especial e da Relatividade Geral. Se não o fizesse, o posicionamento indicado teria erros de vários quilômetros acumulados depois de apenas um dia. Da mesma forma, a infraestrutura da internet e das telecomunicações modernas dependem de uma sincronização extremamente precisa entre relógios distribuídos por todo o planeta, muitos deles também em satélites. Se esses relógios não fossem corrigidos de acordo com a Relatividade Geral, as redes de eletricidade, os sistemas de pagamentos eletrônicos, a navegação aérea e a própria internet sofreriam falhas importantes. Cada conexão, cada videochamada e cada transação bancária se beneficia, sem que percebamos, da maneira como Einstein mudou nossa compreensão sobre o tempo e a gravidade. Painéis solares: uma questão de fótons Os painéis solares modernos funcionam graças ao efeito fotoelétrico, que foi explicado por Einstein em 1905 — foi essa descoberta que lhe rendeu o Prêmio Nobel em 1921. Ele propôs que a luz é formada por pacotes de energia chamados fótons e que, quando um fóton com energia suficiente atinge certos materiais, pode arrancar um elétron de sua superfície. Essa expulsão de elétrons é o que gera corrente elétrica em uma célula solar. Todos os painéis fotovoltaicos domésticos, todas as luzes a energia solar e todos os pequenos carregadores solares portáteis se baseiam exatamente no processo descrito por esse cientista: luz que libera elétrons e elétrons que geram eletricidade. Videochamadas e telas digitais A fotografia digital, as câmeras dos celulares, as webcams e praticamente qualquer sistema moderno de captura de imagens também funcionam graças ao mesmo efeito. Nos sensores CCD e CMOS, que substituem o filme fotográfico clássico, cada ponto da imagem é uma minúscula célula que libera elétrons quando recebe luz. Essa liberação é medida eletronicamente e convertida em uma imagem digital. O princípio físico por trás de cada foto, vídeo ou videochamada cotidiana é exatamente o que Einstein descreveu em 1905. Lasers grandes e pequenos Os lasers, que hoje aparecem em aplicações muito diversas, funcionam seguindo outro mecanismo previsto por Einstein: a emissão estimulada. Em um artigo de 1917, ele lançou a ideia de que um átomo poderia ser “forçado” a emitir luz idêntica à que recebia, criando um feixe de luz extremamente puro, concentrado e opticamente coerente. Décadas depois, essa previsão se tornou o princípio de funcionamento do laser. Hoje encontramos lasers em leitores de código de barras em supermercados, em mouses ópticos, em impressoras a laser, em reprodutores de CD, na fibra óptica para internet e em alguns procedimentos médicos. Lasers de estado sólido emitindo feixes de luz em diferentes cores. (Wikipedia) CC BY-SA Medicina nuclear A energia nuclear e várias tecnologias médicas modernas dependem da equação E=mc². Essa relação estabelece que uma pequena quantidade de massa contém uma enorme quantidade de energia. A compreensão dessa relação permitiu explicar o funcionamento dos núcleos atômicos e abriu caminho para os reatores nucleares, mas também a usos médicos essenciais, como a radioterapia ou os exames PET (tomografia por emissão de pósitrons), que permitem diagnosticar doenças detectando pequenas quantidades de radiação proveniente de desintegrações atômicas.
Conheça a trajetória das línguas africanas no Brasil, dos tempos coloniais até hoje

Ivana Stolze Lima, Fundação Casa de Rui Barbosa Durante o desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro, neste carnaval de 2025, a atitude de uma das juradas contra o que ela considerou ter sido um excesso de uso de termos em iorubá no samba da escola Unidos de Padre Miguel fez a escola perder pontos e ser rebaixada do Grupo Especial, a elite do carnaval carioca, para o grupo de acesso. A decisão extemporânea e sem respaldo nem nas regras nem na tradição do desfile gerou imensa e justificada polêmica no mundo do samba. E, também, entre historiadores, linguistas e estudiosos da cultura africana e suas relações com o Brasil. Eu, particularmente, ouço palavras que desconheço em línguas africanas desde muito antes de dedicar às pesquisas sobre o tema, como historiadora. E agradeço ao samba por ter me ensinado a ver a história — sempre presente — dos africanos no Brasil. “Pizindin, menino bom”: eu era criança quando conheci esse lindo samba-enredo da Portela, de 1974, pelo rádio, ouvido por minha mãe enquanto costurava. O samba homenageava Pixinguinha que, junto a outros músicos, desde o final do século XIX expressava conceitos e palavras de línguas africanas em letras de samba, lundus e que tais. Como no clássico Yao, dele e de Gastão Viana: “Aquicô no terreiro peluadié, faz inveja pra gente que não tem muié”. Bem mais recentemente, em 2024, fomos brindados pelo lindo refrão Ya temi xoa(“ainda estamos vivos”) do Salgueiro, salpicado de palavras yanomamis, que trazem uma curiosidade saudável pela diversidade linguística que constitui a história da humanidade e que é direito constitucional no Brasil. As vozes e as falas africanas sempre geraram reações, o que é a melhor evidência de sua força comunicativa e meio de memórias, pensamentos e conhecimentos. Já na época colonial, Luís dos Santos Vilhena alertava para os problemas da concentração africana na população de Salvador, tomando as línguas africanas como ameaça à boa ordem, como vetores de uma comunicação perigosa, e sugeria que as autoridades coibissem seus batuques e alaridos. O historiador Francisco Adolfo Varnhagen, construindo uma imagem sobre a história do Brasil após a Independência, denuncia-se ao escrever que os africanos não teriam identidade própria, e que por isso deturpariam o português, e corromperiam “a língua da mocidade”. Ora, quer exemplo mais claro da força da comunicação africana do que sua capacidade de influenciar a juventude? Como historiadora, há muitas questões interessantes para refletir quando se considera os povos africanos e suas línguas em diáspora. Há vários anos desenvolvo pesquisas sobre a história social das línguas africanas no Brasil. Meu livro “Antônio, escrivão português, e Rita, africana do Benim: essa não é uma história de amor” tem como eixo básico a análise do manuscrito “Obra nova de língua geral de mina traduzida ao nosso idioma”, que consiste em uma tradução de línguas do sul do Benim para o português falado em Minas Gerais do século XVIII. Trata-se de um documento valioso para discutir a diáspora africana no Brasil. Construo uma análise no campo da história social, e procuro evidenciar a voz africana contida no documento, representada metaforicamente por Rita, uma africana escravizada que se libertou, foi dona de uma venda, teve uma filha com o escrivão português Antônio da Costa Peixoto, que assina o manuscrito. Essa icônica Rita representa as mulheres africanas oriundas do atual Benim, que tiveram papel fundamental na região mineradora, atuando no pequeno comércio, usando sua matemática, se aproximando por vários caminhos do poder da escrita, e principalmente como guardiãs de uma memória e conhecimento africano decisivos na formação social da população brasileira. Rita é figurativamente a coautora da tradução. Não sabia escrever, mas “usou” a mão do escrivão para operar uma tradução e sobreviver na terra do branco. O documento é precioso não apenas por registrar uma língua africana falada no Brasil — algo que demonstra os vínculos de sociabilidade reconstruídos pelos escravizados da Costa da Mina (como os portugueses se referiam à região litorânea do Benim, Nigéria e países vizinhos) — como por representar diferentes aspectos da experiência africana. Aspectos estes rarissimamente presentes em registros e discursos oficiais, como a sexualidade, a corporeidade africana, a violência sofrida por escravizados, as hierarquias sociais, a religiosidade e outros. Analiso o documento em diálogo com a riquíssima historiografia sobre as Minas Gerais no século XVIII, e sobre a história africana e da formação do mundo atlântico. Consultei arquivos e bibliotecas de Minas, Portugal e Estados Unidos, e essa experiência aparece muito: os impasses da pesquisa, os limites dos arquivos coloniais, a materialidade dos documentos são questões explicitadas no livro. Para abordar a questão da presença dos africanos no Brasil a partir de suas línguas, é importante ainda entender o contexto mais geral da diversidade de populações, povos e línguas que marca a história do país. Bem como discutir aspectos sociais e políticos que envolveram a expansão da língua portuguesa, isto é, a colonização linguística. Longe do que pode ser imaginado, projetando sobre o passado a situação linguística contemporânea, o português custou muito a se impor como a língua de colonização. Embora desde o século XVI existisse a expectativa de que a língua do príncipe deveria ser falada pelos súditos, as alteridades americanas e africanas se impuseram ao projeto colonizador. Entre as centenas de línguas indígenas, o tupinambá, falado por povos do litoral, foi logo aprendido pelos europeus. Os missionários jesuítas se dedicaram a estudá-la e usá-la na doutrinação católica. Surgiram as línguas gerais que tinham como base o tupi, falada por descendentes de europeus e de africanos. Em meados do século XVIII, houve uma tentativa de proibição das línguas gerais de base tupi e a imposição do português, entre as reformas empreendidas pelo Marquês de Pombal. Mas a língua portuguesa só passou a dominar na medida em que o número de falantes de português se tornou majoritário, e com uma série de mudanças ao longo no século XIX: a centralização do Estado, a imprensa e a ampliação da alfabetização por meio de um sistema escolar. Os povos
A história dos Reis Magos e da Estrela de Belém na visão de um astrônomo

Ilustração dos Três Reis Magos seguindo a Estrela de Belém: história bíblica tem muito pouca informação sobre o tema. Dimol/Unlimphotos Alexandre Cherman, Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro O Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro, é dia de desmontar o presépio, guardar a árvore de Natal e, enfim, dar por encerradas as comemorações do nascimento de Jesus. Para quem não é muito íntimo das tradições católicas, vale perguntar: por que 6 de janeiro? E, também, quem são esses reis? A resposta da segunda pergunta costuma estar na ponta da língua de muita gente: “são os Reis Magos!”. Mas, convenhamos, isso é só um nome; não explica muita coisa. Voltaremos a ela em instantes. Antes, porém, falemos do 6 de janeiro. Por que essa data foi consagrada como o Dia de Reis? Embora ninguém saiba com exatidão histórica a data do nascimento de Jesus Cristo (nem o dia, nem o mês e, incrivelmente, nem o ano!), a tradição cristã fixou essa efeméride em 25 de dezembro. É o Natal. Essa data, o 25 de dezembro, veio emprestada de tradições mais antigas, que celebravam o solstício de inverno do Hemisfério Norte, a noite mais longa do ano. Era o “Dia do Sol Invencível”. As noites iam ficando cada vez mais longas com a chegada do inverno. E no dia do solstício ocorria a mais longa de todas as noites. Ou seja, no dia seguinte o Sol começava a “se recuperar” em sua luta contra a escuridão. Daí o termo “sol invencível”. Uma vez que a Igreja se apropriou do dia para celebrar o nascimento do Salvador, outras datas começaram a ficar amarradas. O início do ano foi fixado em 1º de janeiro, no que chamamos “estilo da circuncisão”: Jesus, como todo menino judeu, foi circuncidado sete dias depois do seu nascimento. E, seguindo o texto canônico do Evangelho de Mateus, pouco depois disso o Filho de Deus foi visitado por três reis vindos de muito longe, para saudá-lo e lhe dar presentes. São os Reis Magos, que assim o teriam feito no dia 6 de janeiro do primeiro ano da Era Cristã. (Importante relembrar: nada sabemos sobre essas datas do ponto de vista histórico. Repito: ninguém sabe quando Jesus nasceu!) Pouca informação, muita invenção E assim como não sabemos a data correta, também não sabemos quem foram esses reis. A única passagem da Bíblia que os menciona, o Evangelho de Mateus, na verdade não nos diz nem quantos eram. A dedução de que eram três fica por conta da inferência criativa de Orígenes de Alexandria, teólogo do século III. Ele supôs que, por terem trazido três presentes (ouro, incenso e mirra), os magos citados por Mateus eram três. Mas em nenhum lugar da Bíblia é dito isso: “Depois de Jesus ter nascido em Belém da Judéia, no tempo do Rei Herodes, chegaram a Jerusalém magos do oriente que perguntaram: ‘Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo’” Mateus, 2: 1-2 Percebam que não há nenhuma alusão a quantos eram esses Reis Magos. Além disso, em nenhum lugar da Bíblia eles são chamados de “reis”. Essa denominação é bem posterior, do século VII provavelmente, por uma interpretação retroativa do Salmo 72: 10: “Os reis de Társis e as ilhas ofertaram presentes…”. Não eram três, não eram reis. E mesmo assim sabemos seus nomes: Baltazar, Gaspar e Melchior. Mas sabemos mesmo? O leitor atento já deve estar captando um padrão: não, não sabemos. No século VIII começaram a surgir pinturas retratando três ilustres, e ricos, visitantes nas cenas da Natividade. Foi-se consolidando a ideia de “três reis”. E reis não podiam ficar no anonimato! Começaram, então, a surgir os primeiros nomes, sem fonte certa: Bithisarea, Melchior e Gathaspa. Segundo o padre Miguel Fuentes, do Instituto do Verbo Encarnado, “os nomes atuais de Gaspar, Melchior e Baltazar, foi-lhes atribuído no século IX pelo historiador Agnello, em sua obra Pontificalis Ecclesiae Ravennatis”. E assim ficamos com os Três Reis Magos, Baltazar, Melchior e Gaspar. A Nebulosa do Caranguejo, um exemplo de remanescente de uma supernova, vista pelo Telescópio Espacial James Webb: até hoje não foi encontrada nenhum objeto como este que indique um explosão do tipo na época do nascimento de Jesus. NASA, ESA, CSA, STScI, Tea Temim (Princeton University) E a Estrela de Belém? Uma pergunta justa, que não foi feita na abertura deste artigo, mas nos parece óbvia agora, após a citação de Mateus é: que estrela foi essa que surgiu no oriente? É a Estrela de Belém, claro! Mas o que de fato teria sido esse astro? A Astronomia tenta responder isso há séculos, sem sucesso. Há basicamente três possibilidades de eventos astronômicos que poderiam ser percebidos como uma “anunciação”, um augúrio. A Estrela de Belém poderia ser uma supernova. A Estrela de Belém poderia ser um cometa. A Estrela de Belém poderia ser uma conjunção planetária. Uma supernova é um astro que surge no céu depois da explosão de uma estrela gigante. Tem esse nome porque geralmente esse astro aparece de repente, como uma “nova estrela” no céu. Nestes casos, a estrela original, que explodiu, apesar de grande, costuma estar tão distante que não era visível antes de explodir! Explosões desse tipo deixam restos, as nebulosas, e até hoje não foi encontrada nenhuma nebulosa remanescente de supernova que traga evidências de uma explosão desse tipo na época do nascimento de Jesus. Próxima hipótese, então… Cometas são objetos que vêm do Sistema Solar profundo, formados por gelo e poeira, que quando se aproximam do Sol (por aqui onde a Terra está) formam uma bela cauda que chama a atenção no céu. Cometas podem ser periódicos ou não. Se a Estrela de Belém tivesse sido um cometa periódico, provavelmente este cometa já teria voltado à nossa região e teríamos calculado a sua órbita. Não há cometa periódico que se encaixe nessa narrativa. Se fosse um cometa aperiódico, que passa apenas uma vez e nunca mais, deveríamos ao menos encontrar relatos em
Folia de Reis em Ouro Preto: tradição segue viva nos distritos e tem encontros confirmados nesta segunda (6)

Fotos: Ane Souz Entre o Natal e o Dia de Reis, Ouro Preto volta a ouvir um som antigo e sempre atual: o das folias que percorrem comunidades, renovam promessas e mantêm viva uma das manifestações mais fortes do ciclo natalino. Ligada à celebração dos Três Reis Magos, a Folia de Reis é também encontro, memória e pertencimento — um ritual comunitário que atravessa gerações e continua pulsando em bairros e distritos do município. Um dos símbolos dessa continuidade está no Padre Faria. Jésus Eduardo Floretino, o Jésus Boi, conta que faz parte da Folia de Santos Reis do Padre Faria desde o começo. “A primeira saída dela foi dia 25 de dezembro de 1974”, lembra. Ele explica que, no início, o grupo tocava até repertório sertanejo: “Começamos tocando música sertaneja”. À época, Jésus já era do Congado de Saramenha, mas precisou se afastar por um problema de saúde. “Dei problema de saúde, na coluna. Aí formei a folia com uma turminha, com apoio do Dom Barroso, que deu alguns instrumentos, e assim começamos. Eu não deixei ela acabar”, afirma. Em Amarantina, a tradição também se reforça com novas etapas de organização e permanência. Leandro da Costa Filho, da Folia de São Gonçalo de Amarantina, diz que o grupo atua há anos como parte ativa da cultura do distrito. “Já há alguns bons anos estamos fazendo parte desse movimento cultural do nosso distrito”, diz. Para ele, a folia é também um gesto de continuidade: “Estamos resgatando alguns valores e estamos firmes, sempre, sempre com a música”. Além de preservar cantos, instrumentos e a simbologia das bandeiras, as folias mantêm um tipo de cultura que não depende de palco: ela acontece no corpo a corpo, na visita, na roda, na rua — e por isso segue sendo um patrimônio vivo. Folias e grupos tradicionais em Ouro Preto O município reúne diferentes expressões do ciclo de Reis, com grupos reconhecidos nas comunidades: Agenda confirmada nesta segunda (6) Por que isso importa culturalmente Mais do que uma tradição religiosa, a Folia de Reis é um patrimônio vivo: ela preserva músicas, versos, modos de tocar e de cantar, além de costumes de visitação e acolhida que ajudam a formar a memória das comunidades. Em cidades históricas como Ouro Preto — onde o patrimônio material é muito visível — a folia lembra que o patrimônio também existe no que é cantado, celebrado e transmitido de pessoa para pessoa. As pastorinhas, por sua vez, integram esse mesmo universo do ciclo natalino com apresentações que combinam canto, encenação e devoção, reforçando a participação de diferentes gerações e mantendo uma linguagem popular que atravessa o tempo.
Devo, não nego, pago com o meu escravo – Como pessoas escravizadas viravam garantia de crédito

Fragmento de lista de proprietários de escravos da fregesia de Itapecerica, em 1850. Autor desconhecido. Igor Martins, Lund University Uma questão antiga permanece relevante: por que a escravidão se expandiu e persistiu em sociedades coloniais do Atlântico? Por que durou décadas, mesmo diante de alternativas e transformações econômicas? A resposta comum é simples: a escravidão persistiu porque era lucrativa. Mas aqui está a pergunta mais importante: lucrativa para quem e por quais mecanismos? Parte da resposta vai além do trabalho forçado. A escravidão foi um sistema de produção e coerção, mas também operou como infraestrutura financeira. Garantia ampliou o crédito e sustentou investimentos Em economias escravistas a possibilidade de transformar pessoas em propriedade juridicamente reconhecida gerou um tipo específico de garantia. Essa garantia ampliou o crédito e sustentou investimentos. Em pesquisa recente, eu e meu colega Erik Green comparamos o Brasil, Estados Unidos e a Colônia do Cabo, atual África do Sul. A comparação aponta uma regularidade: em diferentes economias coloniais, pessoas escravizadas foram usadas como garantia em operações de crédito. Nos Estados Unidos, fazendeiros hipotecavam pessoas escravizadas para financiar expansão territorial e compra de equipamentos. Na Louisiana e Virgínia, mais de 40% das hipotecas após a independência envolviam garantia humana. Na Colônia do Cabo, o primeiro registro é de 1731: um fazendeiro hipotecou pessoas escravizadas junto à Igreja Reformada Holandesa. A prática se generalizou: no século XIX, pessoas escravizadas eram o principal ativo hipotecável da colônia. Pessoas concentravam mais valor que qualquer outro ativo No Brasil, o mecanismo aparece com nitidez pela escassez de liquidez. No Nordeste, a terra agrícola valia cerca de um décimo do preço de uma pessoa escravizada. Pessoas concentravam mais valor que qualquer outro ativo e, por isso, viraram a base para garantias. Mas valor não basta. Para o credor, o essencial é poder tomar e vender a garantia. Regras anteriores dificultavam separar pessoas escravizadas das fazendas onde permaneciam. Isso enfraquecia a garantia e restringia o crédito. O ponto de inflexão está numa mudança legal. Em 1864, reformas na legislação hipotecária mudaram esse cenário. As novas leis facilitaram liquidações envolvendo pessoas escravizadas como garantia. Em termos práticos, a lei tornou mais fácil transformar garantia em venda. Em termos substantivos, fortaleceu a capacidade legal de deslocar e vender seres humanos para satisfazer obrigações financeiras. Banco do Brasil aceitava escravizados como parte da garantia Quando a execução fica mais simples, o mecanismo se formaliza. Em 1866, no acordo com o governo, o Banco do Brasil criou a primeira estrutura formal do país para empréstimos com garantia. O banco aceitou pessoas escravizadas como parte dessa garantia, convertendo 25 mil contos (25 bilhões de réis), de dívidas existentes em empréstimos lastreado por escravizados. A partir daí, esse uso de pessoas como garantia deixa de ser apenas uma prática dispersa e passa a integrar operações financeiras de grande escala. Registros regionais reforçam essa centralidade. Em Campinas, os valores hipotecados de 1865 a 1869 ultrapassaram 2,2 bilhões de réis e, dentro das hipotecas rurais, pessoas escravizadas eram a garantia central. Essa lógica também aparece nos contratos. Em 1866, Francisco Vilela tomou meio bilhão de réis emprestados com uma casa comissária. Como garantia, ofereceu sua fazenda, seu cafezal e 250 pessoas escravizadas. Na prática, isso significava listar, avaliar e vincular pessoas a dívidas. A comparação atlântica é decisiva para o alcance teórico porque reposiciona a própria pergunta sobre a persistência do regime escravista. Se a escravidão durou tanto porque era rentável, tanto a exploração laboral quanto a financeira contribuíram para tal. O ponto comum não é a violência em si, mas transformar pessoas em garantia vendável. Outros sistemas coercitivos eram violentos, mas não convertiam pessoas em ativos financeiros mobilizáveis. Essa diferença sustenta a proposta de reconceituar a escravidão também como sistema de direitos de propriedade, e não apenas como arranjo de trabalho. A relevância contemporânea está em reconhecer que uma parte da arquitetura do crédito no Brasil se consolidou quando o Banco do Brasil aceitou pessoas escravizadas como garantia e quando o Estado ajudou a tornar essa garantia mais fácil de liquidar. Isso não foi um detalhe periférico. Foi um modo de definir o que podia ser transformado em riqueza líquida, quem podia acessar crédito em grande escala e quais tipos de propriedade eram consideradas seguras. Arranjo permitia que dívidas podiam ser pagas com o corpo de outras pessoas Enxergar a escravidão como garantia em operações de crédito muda a leitura da própria violência do sistema. Não era apenas trabalho extraído no cotidiano. Era também um arranjo em que dívidas de uma pessoa podiam ser pagas com o corpo de outra. A consequência é direta: o crédito não era apenas financiado pela escravidão. Ele era garantido pela possibilidade legal de separar pessoas de suas fazendas, deslocá-las e vendê-las para liquidar obrigações assumidas por terceiros. Essa dimensão financeira explica a persistência do sistema. A escravidão não era apenas trabalho forçado. Era também a base dos sistemas de crédito no Atlântico. Igor Martins, Senior lecturer, Lund University This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Luzes, cores, microplásticos e metais poluentes: conheça o lado nem tão cintilante da purpurina

Tatiana Dillenburg Saint’Pierre, PUC-Rio Demorou mas chegou. A festa mais esperada do ano no Brasil começou oficialmente nesta sexta-feira, último dia de fevereiro, enchendo as ruas do país de música, brilho e alegria. E do bloco de rua à escola de samba, um dos itens mais usados para dar um toque especial a qualquer fantasia de carnaval é a purpurina. Também conhecida como glitter, a purpurina é um conjunto de partículas minúsculas que refletem a luz e se prendem a praticamente qualquer superfície. Mas, além da dificuldade em se livrar dela depois da folia, esse pozinho cintilante esconde um lado obscuro: é nocivo ao meio ambiente e levanta preocupações sobre impactos à saúde humana. Nossa equipe de pesquisadores, do Departamento de Química da PUC-Rio, conduziu um estudo detalhado sobre o glitter, publicado no Journal of Trace Elements in Medicine and Biology. Investigamos as concentrações de metais e outros elementos químicos presentes nesse material, além de como acontece a sua absorção pelo corpo quando entra em contato com a pele, e qual seu comportamento em ambientes aquáticos. Afinal, o que é o glitter? A ideia para o estudo surgiu da preocupação com os microplásticos no ambiente, pois a maioria das purpurinas é composta, basicamente, por plásticos com dimensões menores que 5 milímetros. Ela é feita principalmente de polímeros como o polietileno (PE) e o cloreto de polivinila (PVC). Mas, como esse pó é tão colorido e cintilante, pensamos que também poderia conter corantes à base de metais, que refletem a luz e por isso costumam dar esse efeito vibrante. O problema desses pigmentos é que eles adicionam um risco extra de contaminação, tanto para o ecossistema quanto para a saúde humana, pelo contato com a pele. Embora os estudos sobre os impactos de microplásticos no ambiente ainda sejam relativamente novos, os efeitos nocivos de certos metais já são amplamente documentados. No entanto, a regulação desses compostos ainda é limitada para muitos produtos, e mesmo quando há legislação, a fiscalização pode não ser efetiva, considerando a grande quantidade de novos itens lançados no mercado a todo instante. Assim, para esse estudo, compramos amostras de glitter vermelho, azul e verde em lojas comerciais no Rio de Janeiro, que analisamos no laboratório. De acordo com nosso estudo, a composição química do glitter depende, principalmente, da cor. De fato, são usados metais e outros elementos químicos refletores. As amostras de cor verde tiveram maior concentração de bromo (123 mg/kg), enquanto as vermelhas continham mais titânio (116 mg/kg). Embora o metal titânio não seja responsável pela cor vermelha, ele tem um alto índice de refração, aumentando a intensidade e brilho. Além disso, o titânio, especialmente na forma de dióxido de titânio (TiO₂), é muito empregado como corante branco, bloqueador solar e aditivo de alimentos, mas seus efeitos tóxicos a humanos ainda são pouco conhecidos, sendo considerado atualmente como um poluente emergente, afetando principalmente ambientes marinhos. Apesar disso, os níveis de todos os metais encontrados nas amostras de glitter analisadas estavam dentro dos limites de segurança estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Porém, é importante ressaltar que, mesmo elementos considerados inofensivos ou de baixa toxicidade, ainda podem causar desequilíbrios em ecossistemas e organismos quando estão presentes em excesso, pois podem interagir com outros elementos, causando desequilíbrios químicos nos sistemas vivos. Também simulamos situações comuns de exposição, como o contato com a pele e com o suor humano. As concentrações de metais e metalóides liberadas pelo glitter nesse cenário não foram suficientes para apresentar um risco imediato à saúde, principalmente porque a quantidade usada por cada pessoa não costuma ser muito grande. Porém, não se pode garantir que não existam riscos de intoxicação caso alguém pinte uma grande área do corpo com glitter. Além disso, a possibilidade de outras vias de exposição, como a ingestão acidental ou a inalação de partículas, ainda precisam ser mais estudadas. O destino invisível do brilho Depois que o Carnaval acaba, o glitter também sai de cena. Mas para onde ele vai? Geralmente, ao lavar o rosto, o corpo ou as roupas, a purpurina é levada para o sistema de esgoto. Por serem partículas muito pequenas, elas passam despercebidas pelos sistemas de tratamento de água convencionais e são liberadas diretamente em rios, lagos e oceanos. Essas partículas podem persistir no ambiente por décadas, fragmentando-se em pedaços ainda menores, mas sem desaparecer completamente. No ambiente aquático, o glitter contribui para o sufocamento desse ecossistema e pode agir como uma esponja de poluentes. Ele pode adsorver substâncias químicas – tóxicas ou não –, como antibióticos, pesticidas, hidrocarbonetos e metais potencialmente tóxicos, transportando-as por longas distâncias. Quando ingeridas por organismos aquáticos, essas partículas podem causar o acúmulo dessas substâncias no organismo. Ao longo do tempo, esses contaminantes podem ser passados adiante na cadeia alimentar e chegar até os humanos, em frutos do mar ou peixes contaminados. Apesar de nosso estudo indicar que o glitter não representa um risco significativo à saúde humana por contato com a pele e que a quantidade usada individualmente seja considerada segura, o volume total descartado durante o Carnaval pode causar uma contaminação ambiental aguda significativa. Muito provavelmente, a purpurina desempenha um papel relevante na poluição plástica global, contribuindo para a acumulação de microplásticos em humanos. Portanto, é importante evitar seu uso e promover alternativas mais sustentáveis. O que fazer? Principais cuidados O ideal realmente é não usar. Mas, se alguma purpurina de origem desconhecida ficar grudada em você nesse Carnaval, não enxágue diretamente na pia ou no chuveiro. Tente removê-la ao máximo com lenços de papel ou algodão seco e os descarte no lixo. Embora isso não garanta que os resíduos não acabem em aterros e, eventualmente, no meio ambiente, ao menos evita a liberação direta pelo sistema de esgoto. Já existem opções no mercado que oferecem o mesmo brilho, mas com menor impacto ambiental. O glitter biodegradável, feito de celulose vegetal ou minerais naturais, é uma alternativa promissora. Ele se degrada rapidamente no ambiente, sem liberar poluentes tóxicos. Os efeitos ecológicos do glitter tradicional são preocupantes e

“Não tem vaga, só se conhecer alguém”: as dificuldades das refugiadas congolesas para acessar o SUS no Brasil Paula Colodetti, UERJ e Francisco Ortega, ICREA O The Conversation Brasil e a revista Cadernos de Saúde Pública/Reports in Public Health (CSP) fizeram uma parceria para trazer ao público artigos inéditos sobre estudos científicos, pesquisas originais e revisões críticas em diversas áreas da saúde coletiva. A revista CSP é publicada desde 1985 com suporte da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e reúne artigos científicos originais voltados à produção de conhecimento no campo da Saúde Coletiva e disciplinas afins. No artigo abaixo, os resultados do estudo que identificou as dificuldades que refugiados de países africanos residentes no Brasil – especialmente mulheres – experimentam ao tentar acessar os serviços do SUS. E entre estes problemas, estão o racismo, o machsimo e a xenofobia. O Sistema Único de Saúde (SUS) nasceu com a promessa de atender a todos de forma integral e gratuita. Na prática, porém, grupos vulneráveis seguem enfrentando barreiras para transformar esse direito em realidade. É o caso de mulheres congolesas refugiadas no Rio de Janeiro, que fazem parte da segunda maior comunidade de refugiados de guerra na cidade. Elas relataram, em estudo realizado pelo pesquisador Francisco Ortega e por mim, a percepção de que, sem conhecer alguém dentro da instituição de saúde, não se consegue marcar uma consulta ou um exame. A frase que dá título ao nosso estudo — “Não tem vaga, só se conhecer alguém” — foi dita por uma das interlocutoras que, mesmo com dificuldades de idioma, conseguiu captar rapidamente uma das principais barreiras de acesso: a falta de capital social. Em outras palavras, sem vínculos ou conhecidos dentro do sistema, essas mulheres sentem-se ainda mais distantes do cuidado. O trabalho sobre o tema foi publicado na revista científica Cadernos de Saúde Pública. Essas mulheres refugiadas chegam ao Brasil após deixarem seu país, na África Central, por causa de conflitos armados, violência política ou risco à vida. Aqui, enfrentam uma nova batalha: superar a desconfiança das instituições, lidar com o racismo, a barreira da língua e a falta de recursos financeiros. As entrevistas reunidas pela pesquisa revelam situações corriqueiras que, somadas, apresentam um retrato dessa exclusão. De novo, em situações de risco Uma das participantes contou que conseguiu marcar exames apenas porque uma senhora, com quem conversou e que estava na fila, conhecia alguém dentro da unidade. Outra relatou que levou a filha com problemas de pele à Clínica da Família, mas foi informada de que só teria atendimento com pediatra após seis meses de espera. Em muitos casos, as mulheres descreveram atendimentos rápidos, superficiais e sem explicação adequada dos procedimentos, o que reforça a sensação de descaso e desigualdade. Além disso, a falta de domínio do português intensifica o sentimento de impotência. Muitas relatam que são interrompidas ou simplesmente ignoradas pelos profissionais do SUS ao tentarem explicar sintomas. “Você aponta e eles dizem: tá, já sei onde está com dor, vou te dar o remédio. Nem fazem a receita direito”, disse uma das entrevistadas. Em outro caso, a própria funcionária da farmácia ajudou a interpretar a prescrição e indicar o antibiótico necessário. A pesquisa também destaca o papel do território. A maioria dessas mulheres vive em favelas ou áreas periféricas da cidade do Rio de Janeiro, onde a violência cotidiana se soma ao racismo estrutural e institucional. Elas compararam a violência urbana carioca à guerra que deixaram no Congo, relatando medo de circular à noite e se expor a novas situações de risco. Os relatos das mulheres congolesas foram ouvidos no cotidiano da Cáritas RJ, instituição de acolhimento a refugiados, por meio da observação das atividades, de conversas em grupo e entrevistas. A pesquisadora Paula Colodetti participou de aulas de ioga e de rodas de conversa com as mulheres refugiadas para conhecer suas experiências e discutir temas como o acesso à saúde. Foram feitas oito entrevistas em profundidade, com apoio de tradutoras. Os relatos coletados serviram de base para identificar padrões e percepções comuns nas vivências dessas mulheres. As narrativas foram analisadas com métodos qualitativos amplamente usados nas ciências sociais. Narrativas sobre solidão e solidariedade Outro ponto importante revelado por esse grupo de mulheres é a solidão. Muitas chegaram ao Brasil sem marido ou filhos, com famílias separadas no processo de refúgio. Essa ausência de rede de apoio local aumenta a vulnerabilidade, já que o capital social – a confiança e as conexões estabelecidas com pares, vizinhos e instituições – é fundamental para acessar serviços de saúde. Sem essas ligações, as chances de conseguir atendimento se reduzem. Apesar das dificuldades, também há experiências positivas. Algumas mulheres contaram ter recebido ajuda inesperada de vizinhos ou desconhecidos, seja oferecendo carona até uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), doando roupas ou ajudando a lidar com a burocracia. Esses relatos mostram que solidariedade e acolhimento existem, mas aparecem de forma pontual, dependendo da boa vontade individual, e não como resultado de políticas institucionais consistentes. O estudo chama atenção ainda para um choque cultural: no Congo, o sistema de saúde funciona mediante pagamento após a consulta, e casos graves são absorvidos pelo Estado. Já no Brasil, apesar de gratuito, o SUS tem uma lógica burocrática que sobrecarrega as unidades de Saúde e confunde essas mulheres estrangeiras que não falam português. Muitas não entendem por que precisam esperar tanto tempo por uma consulta, ou por que não são atendidas rapidamente em casos aparentemente urgentes. O que aparece em comum nos depoimentos é a sensação de desconfiança e descrédito em relação ao SUS. As longas filas, a demora para conseguir especialistas, as negativas por suposta falta de documentos, além da percepção de racismo nos atendimentos, constroem uma barreira simbólica e concreta. Para muitas, a solução tem sido recorrer a redes intracomunitárias, como igrejas e grupos de conterrâneos, que oferecem apoio emocional e prático – mas que, ao mesmo tempo, reforçam o isolamento em relação à sociedade brasileira. A pesquisa conclui que, se o capital social é essencial para acessar serviços de saúde,