Ouro Preto figura entre os 10 destinos mais procurados do Brasil e lidera visitação em Minas

Com taxa de ocupação hoteleira de 66% e 360 mil visitantes no Museu da Inconfidência, cidade histórica consolida-se como principal polo turístico mineiro
A relevância do carnaval de Ouro Preto também se mede pela agenda

A força do carnaval de Ouro Preto não se explica apenas pela tradição ou pelo cenário histórico da cidade. Ela se comprova, de forma concreta, quando artistas de alta demanda nacional incluem a cidade em suas agendas de carnaval, em um calendário disputado por capitais e grandes centros. Estar em Ouro Preto, nesse contexto, não é acaso: é escolha estratégica. Nos últimos anos, o carnaval universitário — organizado a partir da articulação entre os blocos Caixão, Cabrobró, Praia e Chapado — tem sido um dos principais vetores dessa projeção nacional. Apenas na edição mais recente, a programação reuniu nomes como Felipe Amorim, MC Daniel, KVSH, Filipe Ret, MC Hariel, Jammil, Matuê, Mumuzinho, Luísa Sonza e Ludmilla, artistas que circulam por grandes festivais e turnês nacionais. A presença recorrente desses nomes ajuda a entender por que Ouro Preto se mantém no radar do público jovem em escala nacional. Esse protagonismo não surgiu do nada. O Bloco do Caixão, criado em 1976, completa 50 anos em 2026, consolidando-se como um dos mais longevos e simbólicos do carnaval ouro-pretano. Ao lado dele, Cabrobró, Praia e Chapado formam um conjunto de blocos que estruturaram uma programação capaz de atrair milhares de foliões de fora da região. Mais do que festas, esses blocos ajudaram a organizar um polo específico do carnaval da cidade, com impacto direto na economia local, na ocupação temporária da rede hoteleira e na circulação urbana. Um aspecto que diferencia o carnaval de Ouro Preto de outros grandes destinos é a ausência de histórico recorrente de grandes episódios de violência. Apesar do volume expressivo de foliões, o evento privado e público tem sido marcado por baixos índices de brigas generalizadas e roubos em massa, segundo registros das últimas edições. Em um cenário nacional em que segurança se tornou critério decisivo na escolha do destino carnavalesco, esse fator pesa — especialmente para jovens e famílias que acompanham ou visitam a cidade. É importante destacar que esse polo não existe isoladamente. O carnaval universitário convive com o carnaval de rua tradicional, com os blocos caricatos, as escolas de samba, a programação infantil e as festas nos distritos. Muitos foliões transitam entre esses universos ao longo do dia, reforçando a ideia de que Ouro Preto não oferece um único modelo de carnaval, mas um ecossistema plural, capaz de acolher diferentes públicos, ritmos e expectativas. Nesse sentido, a relevância do carnaval de Ouro Preto não está em competir com outros destinos, mas em sustentar, ao longo do tempo, uma festa que combina tradição, renovação, diversidade musical e convivência urbana. Quando artistas disputados escolhem a cidade, quando blocos completam meio século de existência e quando milhares de jovens seguem retornando ano após ano, o recado é claro: Ouro Preto não apenas participa do carnaval brasileiro — ela ocupa um lugar próprio nele.
Pedido de anuência para mudança societária da GS Inima (sócia majoritária da Saneouro) chega oficialmente à Prefeitura de Ouro Preto

A Prefeitura de Ouro Preto confirmou que chegaram oficialmente ao município os documentos que solicitam anuência para a mudança societária envolvendo a Saneouro, concessionária responsável pelos serviços de água e esgoto na cidade. Segundo informações obtidas pelo Vintém, o pedido foi protocolado e a Procuradoria Geral do Município já iniciou a análise jurídica da documentação. A expectativa da administração municipal é que o parecer jurídico seja emitido em até quinze dias. O protocolo marca a abertura formal do processo no âmbito municipal, etapa obrigatória sempre que há qualquer alteração societária que possa impactar contratos de concessão de serviços públicos. O que motivou o pedido O pedido de anuência ocorre após o anúncio internacional de que a GS Inima Environment, empresa que integra a estrutura societária da Saneouro, foi incluída em um processo global que pode resultar na entrada de um novo acionista. Procurada pela reportagem, a Saneouro informou que: “A Saneouro notificou a Prefeitura Municipal de Ouro Preto que a GS E&C (Coreia), controladora da GS Inima Environment (Espanha), iniciou um processo internacional que possibilita a oportunidade de inclusão de um novo acionista.” A empresa destacou que o processo está em andamento no exterior e que a notificação ao município atende às exigências contratuais e legais. Por que a anuência do município é necessária De acordo com as regras que regem concessões públicas, qualquer alteração societária que envolva empresas concessionárias precisa ser previamente analisada e autorizada pelo poder concedente — neste caso, a Prefeitura de Ouro Preto. Até que o parecer jurídico seja emitido e o processo concluído, não há alteração na operação da Saneouro nem na prestação dos serviços à população. Próximos passos Com a documentação já protocolada, cabe agora à Procuradoria Geral: O Vintém acompanha o andamento do processo e seguirá atualizando os leitores à medida que novas informações forem oficialmente divulgadas.
Bacia de contenção é entregue no Morada do Sol para reduzir alagamentos em Mariana

Uma bacia de contenção — estrutura projetada para reter temporariamente a água da chuva e controlar o escoamento, reduzindo enchentes e enxurradas — foi entregue na tarde da última terça-feira (6) no bairro Morada do Sol, em Mariana. A obra, executada pela Secretaria Municipal de Obras e Gestão Urbana, era aguardada há anos por moradores da região do Barro Preto, frequentemente afetada por alagamentos. As intervenções tiveram início em março de 2025 e foram concluídas em prazo considerado curto para o porte da obra. A nova estrutura tem como objetivo ampliar a capacidade de drenagem da área e aumentar a segurança de moradores que conviviam com inundações recorrentes, especialmente em vias como a Travessa Monsenhor Rafael Coelho, onde o acúmulo de água era frequente em períodos de chuva intensa. Impacto direto na rotina dos moradores Moradores relatam que o histórico de alagamentos gerava insegurança constante. Para Milton, morador do Barro Preto, a entrega da bacia representa um alívio. Segundo ele, a obra traz mais tranquilidade principalmente para quem vive em áreas mais baixas do bairro, onde a água costumava invadir residências e dificultar a circulação. A Prefeitura informou que a intervenção foi planejada a partir de demandas antigas da comunidade e integra um conjunto de ações voltadas à mitigação de riscos associados às chuvas no município. Intervenções técnicas e desafios da obra A execução da bacia de contenção envolveu alta complexidade técnica e enfrentou desafios logísticos, como o intenso fluxo de veículos na região. Entre os serviços realizados estão a construção de muro de gabião e colchão reno, a instalação de aduelas sob a ponte, além de terraplanagem, pavimentação asfáltica, paisagismo, construção de passeios e instalação de grades de proteção. Outro destaque foi a implantação de uma estrutura de trilhos destinada a reter lixo e entulhos levados pela enxurrada. De acordo com a administração municipal, o sistema tem atuado de forma eficaz ao impedir que resíduos agravem o volume de água acumulada e comprometam o funcionamento da bacia. Drenagem urbana e prevenção de alagamentos Segundo a Prefeitura, a obra faz parte de uma estratégia mais ampla para ampliar a capacidade de drenagem urbana, reduzir os impactos das chuvas e melhorar a qualidade de vida nos bairros Morada do Sol, Barro Preto e em outras áreas suscetíveis a alagamentos.
Imposto de Renda: confira as mudanças após isenção para salários até R$ 5 mil

Medida vale desde 1º de janeiro e efeitos refletem nos pagamentos de fevereiro; para rendas até R$ 7.350 haverá redução gradual do imposto
Mariana e Ouro Preto abrem cadastramento de blocos para o Carnaval 2026

Foto: Ane Souz As prefeituras de Mariana e Ouro Preto abriram, a partir desta quinta-feira (8), o cadastramento oficial de blocos carnavalescos interessados em integrar a programação do Carnaval 2026. A iniciativa busca organizar o calendário da folia, garantir segurança e permitir o planejamento prévio do apoio oferecido pelo poder público aos grupos que desfilam durante o período carnavalesco. Cadastro em Mariana Em Mariana, os blocos devem se inscrever até o dia 16 de janeiro, presencialmente, no Departamento de Documentação e Arquivo, no prédio da Prefeitura. O atendimento acontece de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h e das 13h às 16h30. Segundo a administração municipal, o cadastramento é uma etapa essencial para que a Secretaria de Patrimônio Cultural possa organizar a programação, planejar a logística e definir o apoio aos blocos que participarão do carnaval. No ato da inscrição, os blocos devem apresentar: O Carnaval é um dos eventos mais aguardados do calendário cultural de Mariana, e a organização antecipada é apontada pela Prefeitura como fundamental para que a festa ocorra de forma segura e estruturada. Cadastro em Ouro Preto Já em Ouro Preto, o cadastramento dos blocos carnavalescos para o Carnaval 2026 está aberto no período de 8 a 18 de janeiro. O procedimento pode ser feito online, por meio de formulário eletrônico (Google Forms), disponibilizado pela Prefeitura. Além do cadastro digital, também haverá a opção de inscrição presencial na sede da Secretaria de Cultura e Turismo, localizada na Rua Cláudio Manoel, nº 61, Centro — a Casa de Gonzaga. O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. De acordo com a Prefeitura, o cadastramento é fundamental para o planejamento do evento, contribuindo para a segurança, a estrutura e a valorização das manifestações culturais que fazem parte do carnaval ouro-pretano. Planejamento e organização Nas duas cidades, o cadastramento não garante automaticamente recursos ou apoio financeiro, mas é requisito básico para que os blocos sejam considerados na programação oficial e no planejamento da infraestrutura pública durante o carnaval. As prefeituras orientam que os blocos interessados realizem a inscrição dentro do prazo estabelecido, garantindo a participação no processo de organização do Carnaval 2026.
Lei em Minas proíbe comércios de exigirem dados pessoais de clientes sem justificativa legal

Entrou em vigor nesta quinta-feira (8), em Minas Gerais, uma lei que proíbe comércios e prestadores de serviços de exigirem dados pessoais dos clientes como condição para a venda de produtos ou atendimento, salvo quando houver previsão legal específica. A norma impede práticas comuns como a solicitação obrigatória de CPF, telefone, endereço ou e-mail no momento do pagamento. A lei foi publicada no Diário Oficial do Estado e é resultado de um projeto apresentado em 2019 pelo deputado estadual Charles Santos (Republicanos). O texto também recebeu contribuições de outros parlamentares da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). O que muda na prática Pela nova regra, os dados pessoais só poderão ser solicitados quando forem indispensáveis para a operação e estiverem amparados por lei. Isso inclui situações como emissão de nota fiscal quando exigida pela legislação, contratos de prestação de serviços ou operações reguladas por normas específicas. Fora desses casos, o consumidor não pode ser constrangido a fornecer informações pessoais para concluir uma compra ou acessar um serviço. A exigência de cadastro, prática comum em muitos estabelecimentos, passa a ser considerada irregular quando não houver base legal. Alinhamento com a LGPD A legislação estadual está em consonância com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), em vigor desde 2018, que estabelece princípios como a finalidade, a necessidade e a transparência no tratamento de dados pessoais no Brasil. A LGPD determina que empresas e órgãos públicos só podem coletar informações estritamente necessárias para cumprir uma finalidade legítima, informando claramente ao titular dos dados como essas informações serão utilizadas, armazenadas e protegidas. Proteção ao consumidor Com a nova lei, Minas Gerais reforça o entendimento de que a proteção de dados é um direito do consumidor. O objetivo é coibir a coleta excessiva de informações e reduzir riscos como uso indevido de dados, vazamentos e abordagens comerciais não autorizadas. A norma limita o acesso dos comerciantes apenas às informações indispensáveis e legalmente autorizadas, fortalecendo a privacidade nas relações de consumo cotidianas.
Ouro Preto prepara Carnaval 2026 com homenagem a Sinhá Olímpia

Este ano marca os 50 anos do falecimento de uma das personagens mais conhecidas da história da cidade
As “pequenas” coisas que devemos a Albert Einstein

Francisco José Torcal Milla, Universidad de Zaragoza Fotografia de Albert Einstein (Princeton, N.J.) Oren Jack Turner / Wikimedia Commons. Se perguntássemos às pessoas na rua o nome de um cientista, as respostas provavelmente seriam principalmente Albert Einstein, Marie Curie, Isaac Newton, Stephen Hawking, nomes locais, como Oswaldo Cruz, ou que apareceram recentemente nos cinemas, como Robert Oppenheimer. De acordo com algumas pesquisas, os quatro primeiros ficariam com aproximadamente entre 60% e 90% das respostas, e Albert Einstein sairia vencedor, com uma grande vantagem. Retrato de Marie Skłodowska-Curie (1867–1934). Wikimedia Commons. Agora, se perguntássemos a seguir por que conhecem Einstein, a grande maioria dos entrevistados responderia: a Teoria da Relatividade! Mesmo que não soubessem do que se trata essa teoria. Concordamos que Einstein contribuiu para o progresso da ciência com essa conquista, embora também tenha feito o mesmo em outras áreas, menos conhecidas e de grande importância no nosso dia a dia. Quatro artigos pioneiros Em 1905, antes de divulgar sua teoria mais reconhecida, Albert Einstein publicou quatro artigos, cada um deles merecedor de um Prêmio Nobel: Sobre um ponto de vista heurístico sobre a produção e transformação da luz, no qual propôs os quanta de energia e explicou o efeito fotoelétrico. Efeito fotoelétrico: emissão de elétrons (em vermelho) de uma placa metálica ao receber energia suficiente transferida dos fótons incidentes (linhas onduladas). Wikimedia Commons., CC BY Sobre o movimento de pequenas partículas suspensas em um líquido estacionário, conforme exigido pela teoria cinética molecular do calor, no qual forneceu evidências empíricas da realidade do átomo e deu crédito à mecânica estatística, um ramo da física relegado naquela época. Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento, precursor de sua grande teoria, no qual Einstein conciliou as equações de Maxwell do eletromagnetismo e as leis da mecânica clássica e propôs a velocidade da luz como a velocidade máxima alcançável, acessível apenas aos fótons. A inércia de um corpo depende de seu conteúdo energético?, em que Einstein deduziu a equação mais famosa de todos os tempos ou, pelo menos, a mais reproduzida em camisetas e canecas. A equivalência entre a massa de um corpo em repouso e a energia em que ele pode se converter: E=mc². Parecem resultados importantes e realmente são. Mas de que isso tudo serve para as pessoas comuns? Sincronização de relógios Sempre que alguém abre o Google Maps ou o navegador do carro, o bom funcionamento do GPS depende diretamente da Teoria da Relatividade de Einstein. Os satélites que formam o sistema GPS se movem muito rápido e estão longe da superfície terrestre, onde a influência gravitacional da Terra é menor. Einstein descobriu que o tempo não avança ao mesmo ritmo em todas as circunstâncias: a gravidade e a velocidade do objeto modificam sua passagem. Os relógios dos satélites, portanto, tendem a se adiantar ou atrasar em relação aos que estão na superfície da Terra. Telstar, o primeiro satélite de comunicações lançado ao espaço, em 1962. NASA. O sistema GPS corrige esse efeito aplicando as equações da Relatividade Especial e da Relatividade Geral. Se não o fizesse, o posicionamento indicado teria erros de vários quilômetros acumulados depois de apenas um dia. Da mesma forma, a infraestrutura da internet e das telecomunicações modernas dependem de uma sincronização extremamente precisa entre relógios distribuídos por todo o planeta, muitos deles também em satélites. Se esses relógios não fossem corrigidos de acordo com a Relatividade Geral, as redes de eletricidade, os sistemas de pagamentos eletrônicos, a navegação aérea e a própria internet sofreriam falhas importantes. Cada conexão, cada videochamada e cada transação bancária se beneficia, sem que percebamos, da maneira como Einstein mudou nossa compreensão sobre o tempo e a gravidade. Painéis solares: uma questão de fótons Os painéis solares modernos funcionam graças ao efeito fotoelétrico, que foi explicado por Einstein em 1905 — foi essa descoberta que lhe rendeu o Prêmio Nobel em 1921. Ele propôs que a luz é formada por pacotes de energia chamados fótons e que, quando um fóton com energia suficiente atinge certos materiais, pode arrancar um elétron de sua superfície. Essa expulsão de elétrons é o que gera corrente elétrica em uma célula solar. Todos os painéis fotovoltaicos domésticos, todas as luzes a energia solar e todos os pequenos carregadores solares portáteis se baseiam exatamente no processo descrito por esse cientista: luz que libera elétrons e elétrons que geram eletricidade. Videochamadas e telas digitais A fotografia digital, as câmeras dos celulares, as webcams e praticamente qualquer sistema moderno de captura de imagens também funcionam graças ao mesmo efeito. Nos sensores CCD e CMOS, que substituem o filme fotográfico clássico, cada ponto da imagem é uma minúscula célula que libera elétrons quando recebe luz. Essa liberação é medida eletronicamente e convertida em uma imagem digital. O princípio físico por trás de cada foto, vídeo ou videochamada cotidiana é exatamente o que Einstein descreveu em 1905. Lasers grandes e pequenos Os lasers, que hoje aparecem em aplicações muito diversas, funcionam seguindo outro mecanismo previsto por Einstein: a emissão estimulada. Em um artigo de 1917, ele lançou a ideia de que um átomo poderia ser “forçado” a emitir luz idêntica à que recebia, criando um feixe de luz extremamente puro, concentrado e opticamente coerente. Décadas depois, essa previsão se tornou o princípio de funcionamento do laser. Hoje encontramos lasers em leitores de código de barras em supermercados, em mouses ópticos, em impressoras a laser, em reprodutores de CD, na fibra óptica para internet e em alguns procedimentos médicos. Lasers de estado sólido emitindo feixes de luz em diferentes cores. (Wikipedia) CC BY-SA Medicina nuclear A energia nuclear e várias tecnologias médicas modernas dependem da equação E=mc². Essa relação estabelece que uma pequena quantidade de massa contém uma enorme quantidade de energia. A compreensão dessa relação permitiu explicar o funcionamento dos núcleos atômicos e abriu caminho para os reatores nucleares, mas também a usos médicos essenciais, como a radioterapia ou os exames PET (tomografia por emissão de pósitrons), que permitem diagnosticar doenças detectando pequenas quantidades de radiação proveniente de desintegrações atômicas.
Conheça a trajetória das línguas africanas no Brasil, dos tempos coloniais até hoje

Ivana Stolze Lima, Fundação Casa de Rui Barbosa Durante o desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro, neste carnaval de 2025, a atitude de uma das juradas contra o que ela considerou ter sido um excesso de uso de termos em iorubá no samba da escola Unidos de Padre Miguel fez a escola perder pontos e ser rebaixada do Grupo Especial, a elite do carnaval carioca, para o grupo de acesso. A decisão extemporânea e sem respaldo nem nas regras nem na tradição do desfile gerou imensa e justificada polêmica no mundo do samba. E, também, entre historiadores, linguistas e estudiosos da cultura africana e suas relações com o Brasil. Eu, particularmente, ouço palavras que desconheço em línguas africanas desde muito antes de dedicar às pesquisas sobre o tema, como historiadora. E agradeço ao samba por ter me ensinado a ver a história — sempre presente — dos africanos no Brasil. “Pizindin, menino bom”: eu era criança quando conheci esse lindo samba-enredo da Portela, de 1974, pelo rádio, ouvido por minha mãe enquanto costurava. O samba homenageava Pixinguinha que, junto a outros músicos, desde o final do século XIX expressava conceitos e palavras de línguas africanas em letras de samba, lundus e que tais. Como no clássico Yao, dele e de Gastão Viana: “Aquicô no terreiro peluadié, faz inveja pra gente que não tem muié”. Bem mais recentemente, em 2024, fomos brindados pelo lindo refrão Ya temi xoa(“ainda estamos vivos”) do Salgueiro, salpicado de palavras yanomamis, que trazem uma curiosidade saudável pela diversidade linguística que constitui a história da humanidade e que é direito constitucional no Brasil. As vozes e as falas africanas sempre geraram reações, o que é a melhor evidência de sua força comunicativa e meio de memórias, pensamentos e conhecimentos. Já na época colonial, Luís dos Santos Vilhena alertava para os problemas da concentração africana na população de Salvador, tomando as línguas africanas como ameaça à boa ordem, como vetores de uma comunicação perigosa, e sugeria que as autoridades coibissem seus batuques e alaridos. O historiador Francisco Adolfo Varnhagen, construindo uma imagem sobre a história do Brasil após a Independência, denuncia-se ao escrever que os africanos não teriam identidade própria, e que por isso deturpariam o português, e corromperiam “a língua da mocidade”. Ora, quer exemplo mais claro da força da comunicação africana do que sua capacidade de influenciar a juventude? Como historiadora, há muitas questões interessantes para refletir quando se considera os povos africanos e suas línguas em diáspora. Há vários anos desenvolvo pesquisas sobre a história social das línguas africanas no Brasil. Meu livro “Antônio, escrivão português, e Rita, africana do Benim: essa não é uma história de amor” tem como eixo básico a análise do manuscrito “Obra nova de língua geral de mina traduzida ao nosso idioma”, que consiste em uma tradução de línguas do sul do Benim para o português falado em Minas Gerais do século XVIII. Trata-se de um documento valioso para discutir a diáspora africana no Brasil. Construo uma análise no campo da história social, e procuro evidenciar a voz africana contida no documento, representada metaforicamente por Rita, uma africana escravizada que se libertou, foi dona de uma venda, teve uma filha com o escrivão português Antônio da Costa Peixoto, que assina o manuscrito. Essa icônica Rita representa as mulheres africanas oriundas do atual Benim, que tiveram papel fundamental na região mineradora, atuando no pequeno comércio, usando sua matemática, se aproximando por vários caminhos do poder da escrita, e principalmente como guardiãs de uma memória e conhecimento africano decisivos na formação social da população brasileira. Rita é figurativamente a coautora da tradução. Não sabia escrever, mas “usou” a mão do escrivão para operar uma tradução e sobreviver na terra do branco. O documento é precioso não apenas por registrar uma língua africana falada no Brasil — algo que demonstra os vínculos de sociabilidade reconstruídos pelos escravizados da Costa da Mina (como os portugueses se referiam à região litorânea do Benim, Nigéria e países vizinhos) — como por representar diferentes aspectos da experiência africana. Aspectos estes rarissimamente presentes em registros e discursos oficiais, como a sexualidade, a corporeidade africana, a violência sofrida por escravizados, as hierarquias sociais, a religiosidade e outros. Analiso o documento em diálogo com a riquíssima historiografia sobre as Minas Gerais no século XVIII, e sobre a história africana e da formação do mundo atlântico. Consultei arquivos e bibliotecas de Minas, Portugal e Estados Unidos, e essa experiência aparece muito: os impasses da pesquisa, os limites dos arquivos coloniais, a materialidade dos documentos são questões explicitadas no livro. Para abordar a questão da presença dos africanos no Brasil a partir de suas línguas, é importante ainda entender o contexto mais geral da diversidade de populações, povos e línguas que marca a história do país. Bem como discutir aspectos sociais e políticos que envolveram a expansão da língua portuguesa, isto é, a colonização linguística. Longe do que pode ser imaginado, projetando sobre o passado a situação linguística contemporânea, o português custou muito a se impor como a língua de colonização. Embora desde o século XVI existisse a expectativa de que a língua do príncipe deveria ser falada pelos súditos, as alteridades americanas e africanas se impuseram ao projeto colonizador. Entre as centenas de línguas indígenas, o tupinambá, falado por povos do litoral, foi logo aprendido pelos europeus. Os missionários jesuítas se dedicaram a estudá-la e usá-la na doutrinação católica. Surgiram as línguas gerais que tinham como base o tupi, falada por descendentes de europeus e de africanos. Em meados do século XVIII, houve uma tentativa de proibição das línguas gerais de base tupi e a imposição do português, entre as reformas empreendidas pelo Marquês de Pombal. Mas a língua portuguesa só passou a dominar na medida em que o número de falantes de português se tornou majoritário, e com uma série de mudanças ao longo no século XIX: a centralização do Estado, a imprensa e a ampliação da alfabetização por meio de um sistema escolar. Os povos