Ouro Preto gerou 4 mil empregos formais em cinco anos e SINE chega ao 3º lugar no estado

Estoque de vagas com carteira assinada cresceu 21,5% entre 2020 e 2025; posto local fica atrás só de Uberlândia e BH entre 133 unidades de Minas Entre 2020 e 2025, Ouro Preto gerou aproximadamente 4 mil novas vagas de emprego com carteira assinada. O estoque de empregos formais no município passou de 16.624 para 20.197, um crescimento de 21,5% em cinco anos, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED). No mesmo período, o posto SINE do município saiu das últimas colocações entre os 133 postos de Minas Gerais e chegou à 3ª posição em número de vagas intermediadas, atrás apenas de Uberlândia e Belo Horizonte. “Quando assumimos a secretaria, Ouro Preto ocupava a penúltima colocação em Minas Gerais nos indicadores de intermediação de mão de obra. Hoje, com muito trabalho, planejamento e compromisso com resultados, alcançamos uma posição de destaque”, afirmou o secretário de Desenvolvimento Econômico, Felipe Vecchia Guerra. O SINE de Ouro Preto conecta trabalhadores e empresas gratuitamente, com cadastro, análise de perfil e encaminhamento para entrevistas. Um diferencial apontado pelo coordenador do posto, Guilherme de Jesus, é a separação das vagas que não exigem experiência prévia — hoje são cerca de 200 oportunidades nessa condição. “A gente separa as vagas no quadro, para as empresas com experiência, e embaixo a gente coloca as que não precisam de experiência”, explicou. Quem busca emprego pode se cadastrar pelo Portal Emprega Brasil, pelo aplicativo Sine Fácil, pela Carteira de Trabalho Digital ou presencialmente na unidade. 📋 SINE Ouro Preto Endereço: Rua Padre Rolim, 661, 2º andar do Terminal Rodoviário, São Cristóvão Horário: Segunda a sexta, 8h às 17h Telefone: (31) 3559-3321 / 3551-0750 E-mail: sine.ouropreto@social.mg.gov.br Online: Portal Emprega Brasil ou app Sine Fácil

Estudantes da rede pública têm até 24 de abril para pedir isenção da taxa do ENEM 2026

Pedido é feito pela Página do Participante com login Gov.br; quem faltou ao ENEM 2025 também precisa justificar no mesmo prazo O prazo para solicitar isenção da taxa de inscrição do ENEM 2026 abriu na segunda-feira, 13 de abril, e vai até 24 de abril. O pedido é feito exclusivamente pela Página do Participante, com login da plataforma Gov.br. Quem não fizer o pedido dentro do prazo paga a taxa normalmente na hora da inscrição. Tem direito à isenção quem está matriculado no 3º ano do ensino médio em escola pública em 2026, quem cursou todo o ensino médio em escola pública ou como bolsista integral em escola privada com renda familiar de até 1,5 salário mínimo, e inscritos no CadÚnico. O programa Pé-de-Meia, do Ministério da Educação, também dá acesso à gratuidade. Atenção para quem faltou nos dois dias de prova do ENEM 2025: a justificativa de ausência precisa ser apresentada no mesmo período — até 24 de abril. Sem ela, a isenção em 2026 não é garantida. Um ponto que costuma gerar confusão: a aprovação da isenção não significa inscrição automática no exame. A inscrição para o ENEM 2026 tem data própria, a ser divulgada pelo MEC. O resultado dos pedidos de isenção sai em 8 de maio. Recursos podem ser apresentados entre 11 e 15 de maio, com resultado final em 22 de maio. A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais informou que disponibiliza laboratórios de informática nas escolas para apoiar os estudantes durante o processo de solicitação. 📋 Datas importantes Pedido de isenção e justificativa de ausência no ENEM 2025: até 24 de abril Resultado dos pedidos: 8 de maio Recurso: 11 a 15 de maio Resultado final: 22 de maio Como pedir: Página do Participante — login Gov.br

Parque das Andorinhas recebe programação cultural e bem-estar gratuita neste fim de semana

Foto: Ane Souz Andorinha Cultural reúne música ao vivo, teatro, artesanato e homenagem a Vander Lee nos dias 18 e 19 de abril Nos dias 18 e 19 de abril, o Parque Natural Municipal das Andorinhas recebe a primeira edição de 2026 do Andorinha Cultural, evento gratuito que mistura música, teatro, artesanato, gastronomia e práticas de bem-estar numa das áreas naturais mais preservadas do município. No sábado, o destaque fica com Laura Catarina, que sobe ao palco às 15h com o espetáculo “Laura Catarina canta Vander Lee” — homenagem nos dez anos da morte do compositor mineiro e no ano em que ele completaria 60 anos. Antes, às 11h, o Teatro das Andorinhas apresenta “Jagy Nak — Sabedoria da Terra”, em homenagem ao Dia dos Povos Indígenas. De manhã, às 8h, a programação já começa com a Caminhada Mude 1 Hábito, saindo do trevo de Ouro Preto em direção ao parque. No domingo, a programação vira para o bem-estar: reiki, auriculoterapia, massagem e Shivam Yoga ocupam a manhã. Às 10h, Danilo Borum Kren abre uma roda de conversa também em homenagem aos povos indígenas, seguida de apresentação do Coral Vozes de Vila Rica. O evento encerra ao meio-dia com o espetáculo Sons de Cura. O evento conta com intérprete de Libras, audiodescrição, material em braille e equipe de apoio para pessoas com deficiência. A realização é da Prefeitura de Ouro Preto via Secretaria de Meio Ambiente, com patrocínio da Vale. 📋 Serviço Quando: 18 e 19 de abril de 2026 Onde: Parque Natural Municipal das Andorinhas, Ouro Preto Entrada: Gratuita Sábado: A partir das 8h — caminhada, teatro, choro e Laura Catarina canta Vander Lee (15h) Domingo: A partir das 9h — práticas de bem-estar, roda de conversa indígena, coral e Sons de Cura (12h) Acessibilidade: Libras, audiodescrição, braille e equipe de apoio

29ª Festa Cultural da Goiaba acontece em São Bartolomeu nos dias 17, 18 e 19 de abril

Distrito de Ouro Preto celebra tradição doceira tombada como patrimônio imaterial do município em 2008 São Bartolomeu recebe a 29ª edição da Festa Cultural da Goiaba entre os dias 17 e 19 de abril. O evento é organizado pela Associação dos Doceiros e Agricultores Familiares do distrito (ADAF) e reúne o que o lugar tem de mais característico: doces artesanais, música e o modo de fazer goiabada cascão que existe na comunidade há gerações. A goiabada cascão de São Bartolomeu foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do município em 2008. O reconhecimento formalizou uma prática que já existia muito antes — a produção artesanal transmitida de mão em mão, sem receita escrita, com a consistência que só vem do tempo e da repetição. Além da goiabada, a festa oferece doce de leite, figo, laranja, mamão e cidra, além de compotas, geleias, licores e vinho de jabuticaba. São Bartolomeu fica a cerca de 20 quilômetros do centro de Ouro Preto, no caminho para Mariana. O distrito é um dos mais conhecidos pela produção de doces da região dos Inconfidentes. 📋 Serviço Quando: 17, 18 e 19 de abril de 2026 Onde: São Bartolomeu, distrito de Ouro Preto O quê: Doces artesanais, música, gastronomia regional Realização: ADAF — Associação dos Doceiros e Agricultores Familiares de São Bartolomeu

Câncer no Brasil: pesquisa Oncoguia mostra como e por que direitos previstos em lei não chegam ao paciente

Luciana Holtz de Camargo Barros, Instituto Oncoguia No Brasil, o fato de um paciente oncológico ter direitos assegurados em lei não significa que vai conseguir acessá-los no tempo certo, seguindo orientações claras e de forma efetiva. Ao contrário, a pessoa que busca tratamento precisará enfrentar verdadeiras batalhas para exercer direitos já estabelecidos como a garantia de acesso ao relatório médico (fundamental para a concessão de benefícios), ao prontuário, aos laudos de exames, a informações que esclareçam os rumos e perspectivas do tratamento e a uma equipe multidisciplinar, entre outras necessidades. Esse é o retrato da realidade brasileira de acordo com a pesquisa “Direitos conquistados mas não garantidos: o que os pacientes têm a dizer sobre isso”, realizada pelo Instituto Oncoguia e que será divulgada durante a 16ª edição do Fórum Nacional Oncoguia, que ocorre nos dias 7 e 8 de abril, nesta semana em que se celebram o Dia Mundial da Saúde (7/4) e o Dia Mundial do Combate ao Câncer (8/4). Os dados obtidos são contundentes: 70% das pessoas entrevistadas afirmaram não ter tido acesso a nenhum dos direitos mencionados acima durante o tratamento e 82% dos que tentaram buscar alguns desses direitos relataram que isso tem sido uma luta constante. Outros 68% dos respondentes desconhecem as leis mais importantes para pacientes com câncer. O levantamento do Instituto Oncoguia foi realizado entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, por meio de questionário online no Google Forms. Foram recebidas 1.618 respostas de pacientes com câncer e familiares, com 1.559 consideradas válidas. Houve participação de 25 unidades da federação (o país tem 27). Entre os respondentes, 80% eram pacientes e 20% familiares. Quanto ao tipo de atendimento, 45,7% estavam no SUS, 43,2% em planos de saúde, 8,9% em modelo misto e 2,2% em atendimento particular. Falhas estruturais no sistema de saúde Esse retrato nacional dá a dimensão do problema. Não se trata de uma dificuldade restrita a um serviço, a uma cidade ou a um modelo de assistência. A sensação de luta constante atravessa a jornada oncológica de forma ampla: ela foi relatada por 82% dos que tentaram buscar seus direitos, percentual que sobe para 85% entre pacientes em tratamento pelo SUS e permanece em 79% entre aqueles com plano de saúde. Estamos diante de uma falha estrutural do sistema de saúde. No início dessa trajetória, um dos primeiros entraves é o desconhecimento. A falta de informação segue no centro do problema. Quando 68% dos respondentes dizem não conhecer leis fundamentais, como o Estatuto da Pessoa com Câncer, a Lei dos 30 Dias, a Lei dos 60 Dias e normas relacionadas à quimioterapia oral e ao rol da Agência Nacional de Saúde (ANS), o que aparece não é apenas uma lacuna informativa, mas uma falha importante na forma como esses direitos são comunicados e efetivados. O direito que não é conhecido não chega a ser exercido. E, no câncer, o tempo perdido pesa muito: ele se traduz em atrasos, negativas, idas e vindas, desgaste emocional e, muitas vezes, piora clínica. Na pergunta sobre a existência de direitos na relação médico-paciente, 49% disseram não saber que eles existem, 24% afirmaram já ter ouvido falar, mas sem conhecer bem, e apenas 27% responderam que sabiam deles. A distância entre a lei e a vida real aparece de forma dura no dia a dia dos pacientes e seus familiares. Apenas 14% relataram ter conseguido acesso ao relatório médico para concessão de benefícios, 11% ao prontuário e aos laudos de exames, 6% a informações esclarecidas sobre o tratamento e 4% à equipe multidisciplinar. Nenhum respondente afirmou ter tido acesso às chamadas diretivas antecipadas de vontade — documentos em que o paciente registra, de forma prévia, como deseja ser cuidado em situações em que não possa mais decidir por si mesmo. Trata-se de um instrumento central de autonomia, que garante respeito às escolhas do paciente e um cuidado de fato centrado na pessoa. Não basta, porém, entregar a informação sobre a saúde do paciente. É preciso garantir compreensão, acolhimento e espaço real para perguntar. Informação em saúde não é papel preenchido nem fala apressada em consultório. Informação em saúde é condição para decisão, adesão e segurança. O levantamento mostrou que metade dos respondentes disse ter recebido informação e apoio suficientes para compreender plenamente o tratamento. Ainda assim, desse grupo, 38% afirmaram que, mesmo recebendo informações, permaneceram com dúvidas. Outros 12% disseram nunca ter tido informações ou abertura para esclarecê-las com a equipe. A lógica das dificuldades Os direitos mais buscados, de acordo com a pesquisa, são justamente os que ajudam a preservar parte da renda e a amenizar o aumento de gastos associados ao adoecimento. Entre 63% dos entrevistados que tentaram acessar seus direitos na prática, 45% buscaram FGTS, PIS/Pasep e INSS, enquanto 30% recorreram a isenções de impostos. O direito ao transporte foi buscado por 9% dos participantes; enquanto direitos ligados diretamente ao tratamento, por 5% dos entrevistados. O dado demonstra claramente que o câncer não afeta apenas a saúde. Ele compromete a capacidade de trabalhar, eleva despesas, exige deslocamentos frequentes e pressiona a rotina financeira da casa. Nesse percurso, a principal barreira é a burocracia, apontada por 42% dos respondentes. Em seguida vêm a falta de informação clara, com 36%; o desconhecimento dos próprios direitos, com 34%; a demora para a resposta final, com 29%; e a falta de ajuda de um profissional, com 22%. Também aparecem a falta de energia para correr atrás, com 20%; a falta de dinheiro para pagar advogado, com 14%; a negativa de plano de saúde, com 10%; o medo de perder o emprego, com 7%; e a falta de tempo para correr atrás, com 6%. Nas respostas abertas, surgem ainda dificuldades com perícias do INSS, uso de canais digitais e o custo, além do cansaço, de viagens para protocolar pedidos ou realizar perícias em outras cidades. De acordo com o levantamento do Instituto Oncoguia, a forma como os pacientes chegam à informação sobre seus direitos ajuda a explicar a desorganização da jornada. Sem orientação institucional clara

Ser mãe e autista: quando o momento do diagnóstico e a maternidade se entrelaçam

Irene Garcia Molina, Universitat Jaume I A maternidade é um fenômeno universal: embora nem todas as pessoas sejam mães, todas nós nascemos de uma. E essa mãe também pode ser autista. “Quando pensamos em autismo, qual é a primeira coisa que vem à mente?”. Essa é a pergunta com a qual começo minhas aulas na universidade, apresentando o tema a futuros profissionais da educação e da educação especial. A maioria das respostas varia de um vizinho autista “não declarado” a personagens de filmes ou séries de TV, como Sheldon Cooper, The Good Doctor ou Atypical. Primeiro sinal de alerta: todos são meninos ou homens. E onde estão as meninas, as mulheres e as pessoas de gênero diverso? Autismo em meninas é diagnosticado mais tarde Atualmente, meninas autistas recebem o diagnóstico muito mais tarde do que os meninos. A proporção estimada é geralmente de uma menina diagnosticada para cada quatro meninos. Esse também é o caso na Espanha, de acordo com a Confederación de Autismo de España. Mas estudos recentes, como o de Caroline Fyfe, mostram, por meio de um modelo de projeção — com mais de 2,7 milhões de meninos e meninas nascidos entre 1985 e 2020 — que a proporção alcançaria a paridade aos 20 anos de idade. Ou seja, a maioria das meninas autistas não é diagnosticada até a idade adulta. As razões para o subdiagnóstico incluem protocolos desatualizados, falta de treinamento sensível ao autismo e ao gênero entre os profissionais, ferramentas baseadas e projetadas para meninos e homens autistas, bem como preconceito de gênero na sociedade. Esse atraso no diagnóstico, no entanto, não se resume apenas a números. Ele implica em anos de incompreensão, esforços para camuflar, dificuldades escolares sem apoio e um impacto profundo na identidade e no bem-estar psicológico das meninas. A criança como espelho: descobrindo-se autista Muito já foi escrito sobre mães de crianças autistas e como isso afeta a dinâmica familiar, seus relacionamentos e sua saúde mental. Mas pouco se sabe sobre as experiências e necessidades das mães autistas — embora seja um tema de particular interesse para a comunidade autista. Até recentemente, nenhum estudo havia considerado as experiências das mães autistas. Em geral, havia uma relação que ninguém tinha apontado explicitamente: muitas vezes, o momento do diagnóstico e o de se tornarem mães coincidiam. E não por acaso. Em 2021, eu tinha dois grandes projetos em andamento que veriam a luz meses depois: eu estava grávida e em busca de respostas sobre por que os diagnósticos de autismo demoram tanto na Espanha. Eu estava literalmente dando forma ao meu filho e a muitos projetos que viriam a seguir. As primeiras entrevistas não demoraram a surgir — e eu ainda estava grávida. Uma resposta era constante: muitas das mulheres autistas que também eram mães haviam sido diagnosticadas por causa de seus filhos. O termo “filho”, e não “filha”, é usado aqui deliberadamente: não havia nenhum sinal de meninas. Encontramos diferentes cenários. Em alguns casos, a mãe se reconhecia em muitas das características do filho (já diagnosticado com autismo) e iniciou o processo por conta própria. Em outros, a maternidade havia intensificado sua experiência sensorial. Este ponto, por si só, daria para três ou quatro artigos separados: se o processamento sensorial é modificado e alterado durante a maternidade, imagine o que pode acontecer em pessoas que, por si só, já processam informações sensoriais de maneira diferente do que é entendido como neurotípico. E em outro caso, o profissional que havia diagnosticado a criança sugeriu que a mãe aparecesse para uma consulta e respondesse a algumas perguntas, pois “algo havia chamado sua atenção”. Então, com meu filho dormindo em meus braços, escrevi o artigo Until I Had My Son, I Did Not Realise That These Characteristics Could Be Due to Autism: Motherhood and Family Experiences of Spanish Autistic Mothers com uma mão, aproveitando suas sonecas. Diagnóstico de filhas autistas Anos depois, decidimos tornar as entrevistas mais acessíveis e pessoais, adicionando a opção de realizá-las presencialmente. Por isso, focamos em nosso próprio território, a Comunidade Valenciana. Com apenas três anos de diferença, surgiu a primeira mudança: muitas mães autistas estavam começando a obter informações, graças à divulgação de cientistas mulheres — a maioria das quais também era autista — e às experiências pessoais. Elas se tornaram especialistas em autismo e perspectiva de gênero e, o mais interessante de tudo: elas estavam identificando o autismo de suas filhas, iniciando o processo de diagnóstico em idade precoce e garantindo um diagnóstico na Educação Infantil. Em outras palavras, suas filhas podiam ter acesso às medidas e ao apoio relevantes na escola, com a consequente conscientização e visibilidade proporcionadas por suas mães. Como observou uma mãe entrevistada: É uma exposição que estou fazendo para que minha filha não precise fazer o esforço que eu estou fazendo. Estou fazendo isso por ela. Prefiro que olhem para mim primeiro, que esta geração me julgue, que eu leve o golpe; para que, quando minha filha crescer, a sociedade já tenha superado isso. Ciência Cidadã Atualmente, nossa pesquisa continua, se especializou e ultrapassou fronteiras (com nossa afiliação ao MARG). Mas velhos hábitos são difíceis de mudar: mães autistas ainda decidem o que é pesquisado, e nós ouvimos suas necessidades para traduzir os resultados em documentos, adaptações, guias, treinamentos e protocolos médicos que podem marcar um antes e um depois na maternidade delas, desde a gravidez até a criação dos filhos. Irene Garcia Molina, Professora universitària i investigadora en autisme, Universitat Jaume I This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Projetos de liberdade: pesquisas recuperam trajetória de famílias de mães escravizadas

Alexandra Lima da Silva, UERJ O mundo celebra neste 25 de março o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão, data criada pela ONU em 2007. No Brasil, um dos legados mais perversos desse período é a dificuldade de reconstruir as histórias e genealogias das famílias dos escravizados. Em muita medida, isso se deve à ausência – ou mesmo ao apagamento – da filiação nos registros de nascimento e batismo. Mas a escuta atenta das vozes negras, seus relatos e ações, permite compreender as experiências cotidianas das famílias de escravizados nos séculos 18 e 19 como um projeto ancestral de liberdade – contrariando a premissa de total impotência das mães escravizadas. Há algum tempo, a historiografia brasileira evidencia o protagonismo das mulheres negras que, de diferentes maneiras, resistiram à escravidão. Após a alforria, a Escolha de Luíza Em minhas pesquisas na linha de gênero, raça e interseccionalidades, no programa de Pós-Graduação em Educação e no Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), tenho acompanhado de perto as experiências de liberdade de uma família negra, cuja matriarca era uma africana escravizada. Luíza foi mãe de dois filhos, nascidos na escravidão, no Rio de Janeiro. Após conquistar a própria alforria, Luíza precisou escolher qual filho deveria libertar. De forma consciente, e combatendo a ideia de que “árvores genealógicas não florescem entre os escravizados”, Luíza decidiu salvar a filha. Ela mirou no futuro: acreditou que ao libertar a filha mulher, libertaria toda a família da escravidão. Sua previsão tardou algumas décadas, mas de fato aconteceu. Apesar de liberta, e de ter libertado a filha, Luíza conviveu até o fim da vida com a dor de não ter conseguido libertar seu filho: “Lembro-me que às vezes pegava-me na cabeça e me estreitava no colo, dizendo estas palavras que nunca mais poderei esquecer: ‘pobre filho’, eu não posso te libertar!”, lembra o filho de Luíza, Israel Antonio Soares, em seu relato autobiográfico publicado no livro “Rascunhos e perfis: notas de um repórter”, do amigo e jornalista Ernesto Sena, publicado em 1900. Ainda que não tenha conseguido comprar a alforria do filho mais novo, ele próprio conseguiu libertar-se, algumas décadas depois. Israel Antonio Soares nasceu no Rio de Janeiro. Em 1843, se tornou um abolicionista e, ao lado da companheira Antonia Botelho Soares (1858-1945), uma mulher negra e escravizada, conquistaram a liberdade em parceria e comunhão. Autodidata e ainda na condição de escravizado, Israel Antonio Soares criou, por volta da década de 1870, uma escola noturna para instruir escravizados e libertos, no Rio de Janeiro. Ele também formou uma sociedade de dança com o título Bella Amante, que teria existido por mais de dez anos. Teria sido um caso isolado? Poderia um escravizado ensinar e ainda abrir uma escola para educar pessoas negras? Israel Soares não agia sozinho. Ele integrava a rede de sociabilidade de José do Patrocínio, uma das figuras mais importantes do movimento abolicionista no país. Além da importante atuação como jornalista e escritor, Patrocínio também atuou como professor de primeiras letras na Escola da Cancella, instituição criada pela fundação da Caixa Libertadora José do Patrocínio, e presidida pelo próprio Israel Antonio Soares. Escolas noturnas e clandestinas Outra experiência voltada para a educação dos filhos de pessoas libertas da escravidão que coexistiu com a escola de Israel Soares foi a escola liderada pelo professor negro conhecido como Zózimo, ou “Zé Índio”. Fundada em 1871, a escola funcionava num alpendre na Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, esquina de um logradouro na época conhecido como “Beco do Buraco”. Para frequentá-la, os alunos pagavam “meia pataca”, que era o equivalente a uma moeda de 160 Réis, a moeda brasileira na época. Outro caso bastante emblemático foi o de Preto Cosme, nascido na escravidão no Maranhão, em 1830. Alfabetizado, conquistou a alforria e abriu uma escola de primeiras letras, além de ter liderado a Revolta da Balaiada. Pesquisas realizadas em diferentes países da diáspora africana evidenciam inúmeros casos de escolas negras, muitas das quais secretas, noturnas e clandestinas, lideradas por pessoas escravizadas. A experiência de Israel Soares, portanto, não foi um caso isolado. Seu projeto de liberdade passava pela educação e pela constituição de uma família completa, com a presença tanto da mãe quanto do pai. Aos 22 anos, o filho do casal, Israel Antonio Soares Júnior, tinha uma formação concluída em Farmácia. E em 1913, aos 25 anos, formou-se em Medicina. A pesquisa localizou também a neta do casal, Eugênia Luíza Soares, com formação em Obstetrícia. Duas irmãs de Eugênia, nascidas na primeira década do século XX, cursaram magistério, sendo que uma delas foi professora de piano. E o bisneto de Israel Soares e Antonia Botelho Soares, nascido em 1921, foi um notável tenor negro na cena musical carioca. O projeto ancestral arquitetado no sacrifício e na dramática escolha de uma mãe floresceu nos netos, netas e bisnetas. Mas o choro de Luíza ecoou por gerações. A busca da ancestralidade dos escravizados brasileiros que gerou este artigo foi possível graças ao apoio de agências como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), e Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes). Alexandra Lima da Silva, Professora Titular e líder do grupo de pesquisa Eleko: Direitos Humanos, Educação e Interseccionalidades, UERJ This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

Por que algumas pessoas ainda acreditam que alienígenas moldaram civilizações antigas

Narrativas modernas apresentam a Humanidade como parte de um grande desígnio guiado por seres superiores, e assim sítios arqueológicos como as Pirâmides do Egito tornam-se adereços de um drama cósmico. Mas o extraordinário nunca foi alienígena, e sempre foi humano. Stefan Baumann Stephan Blum, University of Tübingen e Stefan Baumann, KU Leuven Humanos antigos realmente construíram as pirâmides sem ajuda extraterrestre? Ou será que essas perguntas revelam mais sobre as ansiedades modernas do que sobre o próprio passado? A ideia de que alienígenas ajudaram os construtores de monumentos antigos foi promovida pelo autor suíço Erich von Däniken em seu livro best-seller Eram os Deuses Astronautas? — publicado em 1968. Von Däniken faleceu em janeiro de 2026, mas sua visão dos antigos astronautas ainda cativa milhões de pessoas. O autor apontou estruturas antigas, como as pirâmides, juntamente com artefatos antigos enigmáticos, como supostas evidências de que seres de fora da Terra moldaram as civilizações do passado. Embora essas ideias tenham sido repetidamente refutadas, programas de televisão como Alienígenas do Passado, do History Channel, continuam a veicular narrativas semelhantes. As teorias de Erich von Däniken surgiram em um momento histórico específico. Elas se cristalizaram durante a Guerra Fria, em meio a temores de aniquilação nuclear, à corrida espacial e às rápidas mudanças tecnológicas. Enquanto os humanos se preparavam para deixar a Terra, ao mesmo tempo em que enfrentavam seu próprio poder destrutivo, a ideia dos “antigos astronautas” ofereceu tanto um consolo cósmico quanto um drama existencial. O passado se tornou um palco para as esperanças e ansiedades modernas. A razão pela qual algumas pessoas se sentem capazes de acreditar em teorias completamente sem fundamentos está relacionada à própria natureza da arqueologia. A disciplina trabalha com evidências fragmentárias, depósitos em camadas e interpretações que raramente levam a conclusões simples. Sítios como Gizé, no Egito, Göbekli Tepe (um assentamento neolítico na Turquia moderna conhecido por seus pilares monumentais decorados com relevos esculturais) e Tróia — também na Turquia — não são enigmas não resolvidos, mas o resultado de décadas de escavações e análises sistemáticas. Em Gizé, arqueólogos descobriram assentamentos planejados para trabalhadores, padarias e sistemas organizados de abastecimento de alimentos, demonstrando como milhares de trabalhadores puderam construir as pirâmides ao longo de décadas. Göbekli Tepe mostra que seus pilares de pedra monumentais foram erguidos por comunidades de caçadores-coletores milênios antes da invenção da escrita — não por intervenção alienígena, mas por meio de trabalho coordenado e inovação ritual. Em Tróia, camadas sucessivas de assentamentos revelam séculos de reconstrução, adaptação e intercâmbio regional, em vez de uma anomalia tecnológica repentina. As conclusões arqueológicas são cautelosas, probabilísticas e fundamentadas em evidências materiais. Para quem está de fora, no entanto, a cautela pode parecer hesitação. A pseudociência preenche essa lacuna percebida com espetáculo: alienígenas construíram as pirâmides; forças misteriosas ergueram Göbekli Tepe; supertecnologias esquecidas moldaram as muralhas de Tróia. Despojadas de contexto, as evidências tornam-se entretenimento. A complexidade é reduzida a insinuação. Um argumento típico dos “alienígenas do passado” ilustra o padrão: as pirâmides são extraordinariamente precisas. A precisão, segundo a alegação, requer tecnologia avançada; portanto, humanos sem máquinas modernas não poderiam tê-las construído. O raciocínio parece lógico — mas repousa sobre um falso dilema. O que desaparece de vista é precisamente o que a arqueologia estuda: logística, organização do trabalho, conjuntos de ferramentas, conhecimento artesanal acumulado — e pequenas imperfeições que revelam mãos humanas em ação. O fascínio do extraordinário Tais explicações satisfazem um impulso psicológico profundo. Onde antes a religião explicava o propósito, a ciência explica o processo. A hipótese dos “antigos astronautas” explora o viés de proporcionalidade — a intuição de que realizações extraordinárias devem ter causas extraordinárias. Assim como as lendas medievais enquadravam as pirâmides como proteção contra catástrofes cósmicas, as narrativas modernas apresentam a Humanidade como parte de um grande desígnio guiado por seres superiores. Os sítios arqueológicos tornam-se adereços de um drama cósmico. Os humanos deixam de ser criadores; o passado se torna extraordinário porque foi “ajudado”. O apelo não se limita a públicos marginais. Pesquisas sugerem que muitas pessoas consideram a vida extraterrestre possível ou até mesmo provável. Muitos cientistas concordam que, dada a vasta escala do Universo, tal vida é estatisticamente plausível. Mas plausibilidade não é prova — e certamente não é evidência de intervenção alienígena na Antiguidade. A desconfiança amplifica o efeito. Universidades, museus e revistas acadêmicas são frequentemente retratados como guardiões que suprimem verdades inconvenientes. A refutação científica torna-se evidência de conspiração. A prosa acadêmica — cuidadosa, qualificada e precisa — tem dificuldade em competir com a certeza dramática. Perguntas como: “Como os humanos poderiam ter construído isso sem a tecnologia moderna?” já contêm a insinuação. As mídias digitais aceleram esse padrão: afirmações visualmente impactantes circulam mais rápido do que explicações metodológicas. A arqueologia enfatiza a mudança gradual e o conhecimento cumulativo; a pseudociência promete revelações. A arqueologia pseudocientífica não é apenas um conjunto de crenças — é uma indústria lucrativa. Livros sobre antigos astronautas vendem milhões de cópias em todo o mundo. Franquias de televisão geram receita constante, e figuras de destaque atraem centenas de milhares de espectadores online. Göbekli Tepe é obra de trabalho humano coordenado, não de extraterrestres. Matyas Rehak Em contrapartida, o trabalho acadêmico circula em uma economia radicalmente diferente: monografias são impressas em pequenas tiragens e geram pouco lucro. Esta não é apenas uma batalha de ideias, mas uma batalha pela atenção: o espetáculo é recompensado de forma mais visível do que a cautela. O gênio retórico de Von Däniken residia na ambiguidade. Ele raramente fazia afirmações definitivas, preferindo perguntas sugestivas e justaposições seletivas que transformavam a incerteza em insinuação. Como ele observou certa vez: “‘Eram os Deuses Astronautas?’ estava cheio de especulações — eu tinha 238 pontos de interrogação. Ninguém leu os pontos de interrogação. Eles disseram: o Sr. von Däniken está dizendo… Eu não disse — eu perguntei”. A estratégia é simples: enquadrar a especulação como indagação e a crítica como mal-entendido. Recuperando a história A popularidade da pseudociência não é simplesmente ignorância. Ela reflete a dificuldade de interpretar

Vender obras de arte roubadas é complicado: especialista explica então por que os ladrões ainda se dão ao trabalho de roubá‑las

Anja Shortland, King’s College London Levou menos de três minutos para que uma quadrilha organizada roubasse um Renoir, um Matisse e um Cézanne, cujo valor total era de cerca de 9 milhões de euros (cerca de R$ 54 milhões), de um museu particular próximo a Parma, na Itália, em março de 2026. Este é o segundo roubo de obras de arte de grande repercussão nos últimos meses, após o furto de joias no valor de € 9,5 milhões (R$ 56,5 milhões) do Louvre, em Paris, em outubro de 2025. Os itens roubados são claramente valiosos. Mas, como especialista em governança de mercados criminosos, posso afirmar que roubar os bens é apenas o primeiro passo. Transformar esse saque em dinheiro é uma tarefa repleta de riscos. O governo italiano leva a sério a proteção de seu patrimônio cultural, com um departamento inteiro da Carabinieri (polícia italiana) dedicado ao roubo de obras de arte e antiguidades. Esse departamento vasculha o comércio global de arte em busca de tesouros falsificados, roubados e exportados ilegalmente, exigindo sua devolução. Há poucas chances de vender as obras-primas roubadas no mercado internacional de arte — mesmo a um preço de banana. Enquanto no passado os negociantes e as casas de leilão podiam fechar os olhos para as origens suspeitas de uma obra de arte excepcional, nas últimas duas décadas as normas e procedimentos do mercado se tornaram consideravelmente mais rigorosos. Qualquer pessoa que compre arte sem verificar se um antigo proprietário registrou seu interesse no objeto não passa no teste de boa-fé. Isso significa que não pode obter um título de propriedade válido e, portanto, o direito de posse legal permanece com a pessoa ou instituição de quem a obra de arte foi roubada. Além disso, as vendas de obras de arte roubadas nas quais o vendedor eludiu a devida diligência podem ser anuladas, o que significa que o dinheiro deve ser devolvido. Por isso, negociantes e leiloeiros de renome levam seu dever de diligência muito a sério. No mínimo, eles consultam o banco de dados da Interpol sobre obras de arte roubadas, de acesso livre, antes da venda. No entanto, bancos de dados privados — como o do Art Loss Register — oferecem maior tranquilidade, listando muito mais objetos perdidos e roubados e limitando a pesquisa àqueles com interesse legítimo em um objeto. Quando um registro constata que alguém está tentando colocar uma obra de arte roubada no mercado aberto, ele coleta e repassa todas as informações que possam levar a polícia à sua localização ou às pessoas envolvidas em sua venda ou armazenamento. Qualquer coisa recém-retirada da parede de um museu é, portanto, invendável — a menos que se trate de joias que possam ser desmontadas e vendidas como sucata (cara). Então, qual poderia ser a motivação financeira por trás desse roubo? Um vilão ao estilo James Bond encomendando pinturas favoritas para adornar seu covil é uma explicação improvável. Sim, pinturas poderiam ser roubadas sob encomenda, mas comprar arte no mercado aberto para lavar dinheiro é menos arriscado. Com altas recompensas por informações ou pela devolução de obras de arte roubadas, a segurança e a omerta (o código de silêncio) teriam que ser totalmente herméticas ao exibir tesouros roubados. Por outro lado, “recompensas por informações” poderiam ser uma motivação para o roubo em si. Em meados do século passado, as seguradoras pagavam regularmente aos “descobridores” com tão pouca fiscalização que o roubo de obras de arte de alto valor se tornou uma ocupação lucrativa e de baixo risco. Instituições como o Art Loss Register romperam essa coexistência confortável e, em vez disso, usam quaisquer pistas para ajudar a polícia a conduzir recuperações e operações secretas. Hoje em dia, só é seguro negociar um acordo sobre uma “comissão de intermediário” quando um objeto roubado já mudou de mãos tantas vezes que a ligação com os ladrões originais se perdeu na névoa do tempo. Mesmo assim, o “intermediário” final teria sorte se conseguisse mais de 10% do valor da pintura, que provavelmente teria de dividir com os ladrões e vários proprietários obscuros do submundo ao longo do caminho. Mas há uma terceira razão para roubar obras de arte. Grupos do crime organizado às vezes usam obras de arte roubadas como moeda de troca para negociar punições mais brandas. Por exemplo, os ladrões de joias de Dresden guardaram algumas peças do seu saque para usar sua recuperação na negociação de penas mais curtas. Os penitentos (“arrependidos”) que querem deixar organizações mafiosas também fornecem, por vezes, informações sobre o paradeiro de tesouros desaparecidos. Se houver a percepção de que obras de arte roubadas podem ser usadas para reduzir uma pena de prisão ou um pacote de compensação financeira, seu valor no submundo pode crescer muito além da recompensa oferecida ao descobridor. Embora seja difícil verificar a afirmação de que obras de arte roubadas são usadas como garantia em negócios de drogas, vários tesouros únicos foram de fato recuperados de propriedades pertencentes a mafiosos de alto escalão. Essas obras não foram encontradas em galerias com temperatura controlada, mas enroladas em locais úmidos que fazem os curadores de museus chorarem de desespero. Esperemos que as belas obras de arte de Parma sejam tratadas com respeito até que as vejamos novamente. Anja Shortland, Reader in Political Economy, King’s College London This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

A história da primeira chamada telefônica: as palavras que mudaram o mundo

Iwan Rhys Morus, Aberystwyth University “Sr. Watson, venha cá. Quero vê-lo”. Meia dúzia de palavras dificilmente memoráveis em português, mas com implicações enormes. Proferidas pelo escocês Alexander Graham Bell em seu laboratório em Boston, em 10 de março de 1876, foram as primeiras palavras inteligíveis a serem transmitidas eletricamente por um fio de um lugar para outro. Com isso, começou a era do telefone. Thomas Watson, assistente de Bell, recebeu essa ligação não muito longe, na sala ao lado, mas as ambições de Bell iam muito além. O professor de fisiologia vocal de 29 anos da Universidade de Boston tinha certeza de que havia inventado uma tecnologia que mudaria a história. Agora, ele só precisava convencer o resto do mundo. Um esboço de 1876 de Alexander Graham Bell mostrando sua tecnologia telefônica. Biblioteca do Congresso dos EUA Bell vinha trabalhando no projeto de um “telégrafo harmônico”, como ele o chamava, há vários anos. Originalmente, o aparelho foi concebido como uma forma de enviar várias mensagens telegráficas simultaneamente pelo mesmo cabo. Mas Bell não foi o único a ter essa ideia. O engenheiro elétrico americano Elisha Grey estava trabalhando em algo semelhante, e os dois homens apresentaram reservas de patente – um aviso de sua intenção de depositar um pedido completo – com uma diferença de uma hora entre um e outro, em 14 de fevereiro de 1876. Seguiu-se uma comunicação frenética entre Bell, em Boston, e seu agente em Washington DC para garantir que os pedidos não se sobrepusessem. A patente de Bell (US174465A) foi finalmente emitida em 7 de março. Três dias depois, ele fez história ao pronunciar aquelas palavras simples. Grey abandonou sua reserva de patente, e suas tentativas futuras de contestar a patente de Bell fracassaram no tribunal. Como funcionava o telefone de Bell A chave para essa nova tecnologia telefônica foi desenvolver uma maneira de transformar as oscilações acústicas geradas pela voz humana em oscilações elétricas que pudessem ser transmitidas por um cabo telegráfico. (Nessa época, cabos submarinos já conectavam a Irlanda à América do Norte e a Inglaterra à Europa continental.) Bell e seu assistente Watson já haviam demonstrado que sons bastante complexos, como notas musicais, podiam ser transmitidos eletricamente. Em 1875, eles construíram um transmissor feito de pergaminho esticado como a pele de um tambor, com um pedaço de ferro magnetizado preso que podia se mover entre os polos de um eletroímã. O som fazia o pergaminho vibrar. Isso, por sua vez, fazia o pedaço de ferro se mover para frente e para trás entre os polos do eletroímã, criando uma corrente oscilante que podia ser transformada de volta em som com um aparelho semelhante na outra extremidade. O projeto de telefone de Alexander Graham Bell tinha um transmissor feito de pergaminho esticado como a pele de um tambor. Everett Collection/Shutterstock Essa foi a tecnologia que Bell patenteou em 7 de março de 1876. Mas não foi a tecnologia que ele usou em sua primeira demonstração três dias depois. Na verdade, suas palavras foram transmitidas usando um transmissor líquido cheio de água acidificada que conduzia eletricidade. Esse dispositivo era semelhante aos que Grey vinha usando. Esse fato causou alguma controvérsia quando veio a público, fazendo parte das tentativas de Grey de contestar a patente de Bell. Ainda hoje, às vezes se afirma que Grey, e não Bell, foi o verdadeiro inventor do telefone. Mas Bell não voltou a utilizar o transmissor líquido nas suas experiências – era difícil ver como essa estrutura poderia ser transformada em um produto comercial. E, nos primeiros meses após a demonstração, o telefone parecia não ter qualquer futuro. Todos concordavam que era um dispositivo maravilhoso e engenhoso – mas para que servia, exatamente? Não era concorrência para o telégrafo. Afinal, para quem se iria ligar? Vendedor e showman Quando o novo dispositivo de Bell foi exibido na Exposição Centenária da Filadélfia em 1876, ele ficou praticamente perdido no meio da multidão de expositores – embora o então imperador do Brasil, Dom Pedro II, tenha exclamado: “Meu Deus, ele fala!”. Mas dois dos juízes, os eminentes cientistas Joseph Henry e William Thomson, concederam a Bell uma das cobiçadas medalhas da exposição. Thomson, nascido na Irlanda – o primeiro cientista a ser elevado à Câmara Alta do Parlamento Britânico como Lord Kelvin – mais tarde contaria aos cientistas de seu país sobre “a coisa mais maravilhosa da América… a maior de todas as maravilhas do telégrafo elétrico se deve a um jovem compatriota nosso, o Sr. Graham Bell”. Enquanto isso, Bell trabalhava arduamente para vender sua invenção. Como todos os inventores vitorianos, ele também precisava ser um showman. Em uma apresentação em Salem, Massachusetts, em fevereiro de 1877, ele usou o telefone para se comunicar com seu assistente Watson, que estava longe, em Boston. Primeiro, eles tocaram o código Morse pela linha em notas musicais, e “o público explodiu em aplausos”, de acordo com relatos. Em seguida, um “órgão telefônico” em Boston tocou as músicas Auld Lang Syne e Yankee Doodle para o público extasiado de Salem. Em Londres, fios foram instalados entre teatros para permitir um “concerto telefônico, no qual o público de um teatro ouviria a música tocada no outro”. É claro que tudo isso custou dinheiro, e Bell tinha investidores para apoiá-lo — incluindo seu futuro sogro Gardiner Greene Hubbard, um rico advogado e financista americano, e fundador da National Geographic Society. Em 1877, eles formalizaram a transformação da Bell Patent Association em uma sociedade por ações, a Bell Telephone Company, para desenvolver as possibilidades comerciais da invenção de Bell. Logo eles estavam fabricando equipamentos telefônicos com o design de Bell e, dois anos depois, fundaram a International Bell Telephone Company para comercializar os equipamentos na Europa. Em 1885, ela se tornaria a American Telephone and Telegraph Company, mais conhecida hoje como AT&T. Em um nível mais individual, Bell fez fortuna, enquanto seu rival Grey foi relegado a uma nota de rodapé na história das tecnologias elétricas. Na virada do século XX, o telefone havia encontrado seu