Sarampo preocupa profissionais da saúde, mas retorno da doença ao Brasil pode ser evitado

Mônica Levi, Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) Os registros de 38 casos de sarampo em 2025, entre adultos e crianças, e de dois casos em 2026, todos importados de outros países, evidenciam o risco de a doença voltar ao Brasil. Esse retrocesso não seria novidade. Em 2019, após 12 meses de transmissão sustentada da enfermidade em território nacional, o certificado de eliminação da doença conquistado em 2016 foi revogado. À época, a reintrodução do vírus foi resultado da combinação entre as baixas coberturas vacinais, sobretudo em algumas regiões do país que concentraram bolsões de indivíduos não vacinados, e a entrada de pessoas não imunizadas vindas do exterior. Os índices de vacinação evoluíram de forma significativa desde então, em especial se comparados aos de 2020 e 2021, auge da pandemia de Covid-19. No entanto, até hoje não conseguimos alcançar a meta de 95% para as duas doses da vacina tríplice viral, que além do sarampo previne a caxumba e a rubéola. Isso deixa o Brasil suscetível à doença, notadamente em um contexto de alta circulação do vírus em países próximos. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), entre 2025 e a segunda semana de 2026 foram confirmados 15.922 casos de sarampo nas Américas, alta de 32 vezes em relação a 2024. Quase 95% dos episódios (15.084) ocorreram nos Estados Unidos, México e Canadá, sedes da próxima Copa do Mundo, em junho de 2026. Estima-se que a competição receberá 7 milhões de pessoas, incluindo milhares de brasileiros. A Bolívia, origem dos casos recentes no Brasil, ocupa a quarta posição no ranking. Cenário exige atenção Para evitar possíveis surtos e a eventual perda do status de país livre do sarampo, é necessário atuar em três frentes: aumento da vacinação (incluindo o resgate de adultos com esquemas irregulares), vigilância epidemiológica e resposta rápida diante de casos suspeitos. Nesse sentido, embora sempre seja possível evoluir, vale elogiar o trabalho desenvolvido pelo Ministério da Saúde nos últimos anos. A pasta tem investido em campanhas de multivacinação para a atualização da caderneta de crianças e adolescentes, busca ativa de não vacinados, vacinação escolar e em comunicação, item fundamental para aumentar a adesão. A presença na internet se tornou mais forte, com linguagem próxima do público jovem, e o Zé Gotinha passou a participar de grandes eventos e protagonizar estratégias nas redes sociais. A identificação e resposta a casos também têm sido efetiva. Entre outras ações, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) manteve por três semanas uma equipe no município de Campos Lindos, no Tocantins, que concentrou aproximadamente 60% dos casos de sarampo no Brasil em 2025. O trabalho em parceria com as equipes locais, que incluiu a identificação de comunicantes e vacinação de bloqueio, impediu que a cadeia de transmissão se expandisse. Medidas semelhantes foram adotadas em outros episódios. O sarampo já esteve entre as principais causas de mortalidade infantil no país, mas foi controlado progressivamente a partir da década de 1990 e eliminado em duas ocasiões: 2016 e 2024. Por estar entre os vírus mais contagiosos — uma pessoa infectada pode transmitir para até 18 pessoas suscetíveis —, o risco de reintrodução é real. A vacinação é a principal ferramenta preventiva. O SUS oferece a vacina gratuitamente, em duas doses, para crianças a partir de 12 meses a para adultos com menos de 30 anos de idade. Dos 30 aos 59 anos, é disponibilizada uma dose. Quem não tem certeza se já foi vacinado ou têm dúvidas se completou o esquema deve regularizar o calendário de acordo com a faixa etária. Mais do que a proteção individual, a vacinação é um ato de cuidado com quem não pode se vacinar, como crianças menores de 6 meses e imunodeprimidos. Colabore com esta causa. Mônica Levi, Presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e Membro da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização do Programa Nacional de Imunizações, Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Por que os chatbots de IA em saúde não vão ajudar você a se autodiagnosticar melhor

Rebecca Payne, Bangor University; University of Oxford Milhões de pessoas estão recorrendo a chatbots de inteligência artificial (IA) para obter orientação sobre tudo, desde culinária até declarações de Imposto de Renda. E também cada vez mais elas estão consultando os chatbots sobre sua saúde. Mas, como o diretor médico do Reino Unido alertou recentemente, isso pode não ser sensato quando se trata de decisões médicas. Em um estudo recente, meus colegas e eu testamos até que ponto os chatbots com modelos de linguagem de grande escala (LLM) ajudam o público a lidar com problemas de saúde comuns. Os resultados foram impressionantes. Os chatbots que testamos não estavam prontos para atuar como médicos. Uma resposta comum a estudos como este é que a IA avança mais rápido do que as publicações acadêmicas. Quando um artigo é publicado, os modelos testados podem já ter sido atualizados. Mas estudos que utilizam versões mais recentes desses sistemas para triagem de pacientes sugerem que os mesmos problemas permanecem. Fornecemos aos participantes breves descrições de situações médicas comuns. Eles foram designados aleatoriamente para usar um dos três chatbots amplamente disponíveis ou para recorrer às fontes que normalmente usariam em casa. Após interagir com o chatbot, fizemos duas perguntas: qual condição poderia explicar os sintomas? E onde eles deveriam procurar ajuda? As pessoas que usaram chatbots tiveram menos chances de identificar a condição correta do que aquelas que não os usaram. Elas também não foram melhores em determinar o local certo para procurar atendimento do que o grupo de controle. Em outras palavras, interagir com um chatbot não ajudou as pessoas a tomarem melhores decisões de saúde. Conhecimento sólido, resultados fracos Isso não significa que os modelos careçam de conhecimento médico, pois os LLMs conseguem passar em exames de licenciamento médico com facilidade. Quando removemos o elemento humano e apresentamos os mesmos cenários diretamente aos chatbots, seu desempenho melhorou drasticamente. Sem o envolvimento humano, os modelos identificaram condições relevantes na grande maioria dos casos e, muitas vezes, sugeriram níveis adequados de atendimento. Então, por que os resultados se deterioraram quando as pessoas realmente usaram os sistemas? Quando analisamos as conversas, os problemas vieram à tona. Os chatbots frequentemente mencionavam o diagnóstico relevante em algum momento da conversa, mas os participantes nem sempre percebiam ou se lembravam disso ao resumir sua resposta final. Em outros casos, os usuários forneceram informações incompletas ou o chatbot interpretou mal detalhes importantes. A questão não era simplesmente uma falha de conhecimento médico – era uma falha de comunicação entre humano e máquina. O estudo mostra que os formuladores de políticas precisam de informações sobre o desempenho da tecnologia no mundo real antes de introduzi-la em ambientes de alto risco, como a linha de frente da assistência médica. Nossas descobertas destacam uma limitação importante de muitas avaliações atuais da IA na medicina. Modelos de linguagem costumam ter um desempenho extremamente bom em questões de exames estruturadas ou em interações simuladas “modelo a modelo”. Mas o uso no mundo real é muito mais complexo. Pacientes descrevem sintomas de maneira vaga ou incompleta e podem interpretar mal as explicações. Eles fazem perguntas em sequências imprevisíveis. Um sistema que tem um desempenho impressionante em testes de benchmark pode se comportar de maneira muito diferente quando pessoas reais começam a interagir com ele. A IA talvez seja mais adequada como secretária médica. ST_Travel/Shutterstock Isso também ressalta uma questão mais ampla sobre o atendimento clínico. Como clínico geral, meu trabalho envolve muito mais do que apenas relembrar fatos. A medicina é frequentemente descrita como uma arte, e não como uma ciência. Uma consulta não se resume simplesmente a identificar o diagnóstico correto. Envolve interpretar a história do paciente, explorar incertezas e negociar decisões. Os educadores médicos há muito reconhecem essa complexidade. Durante décadas, os futuros médicos foram ensinados usando o modelo Calgary–Cambridge. Isso significava construir um relacionamento com o paciente, coletar informações por meio de perguntas cuidadosas, compreender as preocupações e expectativas do paciente, explicar os resultados com clareza e chegar a um acordo sobre um plano conjunto de tratamento. Todos esses processos dependem da conexão humana, da comunicação personalizada, do esclarecimento, da investigação delicada, do julgamento moldado pelo contexto e da confiança. Essas qualidades não podem ser facilmente reduzidas ao reconhecimento de padrões. Um papel diferente para a IA No entanto, a lição de nosso estudo não é que a IA não tenha lugar na área da saúde. Longe disso. O segredo está em compreender em que esses sistemas são bons atualmente e onde estão suas limitações. Uma maneira útil de pensar sobre os chatbots de hoje é que eles funcionam mais como secretárias do que como médicos. Eles são notavelmente eficazes na organização de informações, no resumo de textos e na estruturação de documentos complexos. Esses são os tipos de tarefas em que os modelos de linguagem já estão se mostrando úteis nos sistemas de saúde, por exemplo, na elaboração de notas clínicas, no resumo de prontuários de pacientes ou na geração de cartas de encaminhamento. A promessa da IA na medicina continua real, mas seu papel provavelmente será mais de apoio do que revolucionário no curto prazo. Não se deve esperar que os chatbots atuem como porta de entrada para a assistência médica. Eles não estão prontos para diagnosticar condições ou encaminhar pacientes para o nível adequado de atendimento. A inteligência artificial pode ser capaz de passar em exames médicos. Mas, assim como passar em uma prova teórica não faz de você um motorista competente, a prática da medicina envolve muito mais do que responder corretamente a perguntas. Ela requer discernimento, empatia e a capacidade de lidar com a complexidade que está por trás de cada encontro clínico. Pelo menos por enquanto, isso requer pessoas, e não bots. Rebecca Payne, Clinical Senior Lecturer, Bangor University; University of Oxford This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Sala de reabilitação sensorial de Ouro Preto completa um ano atendendo pessoas com autismo

Serviço atende pacientes com TEA enquanto aguardam vaga no SER de Itabirito; CAPS foi desonerado
Por que demorou tanto para a Humanidade voltar à Lua?

Domenico Vicinanza, Anglia Ruskin University Às 13h24m59s no horário padrão central dos EUA do dia 19 de dezembro de 1972, o módulo de comando da Apollo 17 amerissou no Oceano Pacífico, a cerca de 350 milhas náuticas a sudeste de Samoa, encerrando a última missão tripulada americana à Lua. Durante sua carreira, o comandante da Apollo 17, Eugene A. Cernan, registrou 566 horas e 15 minutos no espaço, das quais mais de 73 horas foram passadas na superfície da Lua. Cernan foi o segundo americano a caminhar no espaço e a última pessoa a deixar suas pegadas na superfície da Lua. A conclusão da jornada da Apollo 17 marcou não apenas o fim de uma missão, mas o fim de uma era. Entre 1969 e 1972, 12 astronautas caminharam na Lua em seis pousos distintos. Meio século depois, a Nasa está retornando à Lua, com seu programa Artemis. Para a missão Artemis II, que foi lançada no dia 1º de abril de 2026, quatro astronautas farão um sobrevoo do lado oculto da Lua dentro de uma cápsula tripulada – a Órion . Mais de 50 anos é um longo intervalo, e é natural perguntar: se os americanos conseguiam chegar à Lua rotineiramente no início da década de 1970, por que demoraram tanto para tentar voltar? A missão Apollo 17, em 1972, marcou a última vez que humanos pisaram na Lua. Nasa A resposta não é simples. Tem pouco a ver com tecnologia e muito mais com a forma como a política, o dinheiro e o apoio global funcionam. O ponto de partida é o próprio programa Apollo: seu modelo de exploração não foi construído para durar, e claramente não era sustentável. Em 25 de maio de 1961, perante uma sessão conjunta do Congresso americano, o presidente John F. Kennedy comprometeu os EUA com a meta de levar um homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança à Terra antes do fim daquela década. Após o assassinato de Kennedy em 1963, o presidente Lyndon B. Johnson garantiu que essa meta de pouso na Lua fosse cumprida. Mas os custos crescentes da Guerra do Vietnã e das reformas internas reduziram o interesse em novos investimentos espaciais. O discurso de John F. Kennedy na Universidade Rice em 1962 reafirmou o compromisso dos Estados Unidos com chegar à Lua. JFK Library Na verdade, o orçamento da Nasa atingiu seu pico em 1966 e começou a cair mesmo antes do sucesso do programa Apollo, prejudicando as perspectivas de uma exploração sustentável. O financiamento adicional foi rechaçado, missões planejadas foram canceladas e o programa Apollo chegou ao fim em 1972 – não porque tivesse fracassado, mas porque havia cumprido sua missão. A exploração sustentável (tanto no espaço quanto na Terra) requer um compromisso político estável, financiamento previsível e um objetivo claro de longo prazo. Após o Apollo, os EUA tiveram dificuldades para manter esses três aspectos simultaneamente. Os formuladores de políticas começaram a questionar qual direção a Nasa deveria tomar a seguir. Em 1972, o então presidente Richard Nixon instruiu a agência espacial a iniciar a construção do ônibus espacial. Isso levaria a Nasa a mudar seu foco da exploração do espaço profundo para operações na baixa órbita terrestre. ‘Caminhão espacial’: o ônibus espacial foi promovido como uma forma de acesso acessível à baixa órbita da Terra, mas a realidade se mostrou um tanto diferente. Nasa Divulgado como um “caminhão espacial” reutilizável, o ônibus espacial tinha como objetivo tornar o acesso à órbita da Terra algo rotineiro e relativamente barato. Mas ele acabaria se revelando um veículo de incrível complexidade, marcado por falhas técnicas e tragédias humanas – os acidentes com o Challenger e o Colúmbia, nos quais 14 astronautas perderam a vida. Oito anos após o início do programa do ônibus espacial, alguns integrantes da comunidade aeroespacial acreditavam que era hora dos EUA voltarem a mirar a Lua – e a perspectiva tentadora de um pouso em Marte. Em 20 de julho de 1989, no 20º aniversário do primeiro pouso lunar da Apollo 11, o presidente George H.W. Bush anunciou a Iniciativa de Exploração Espacial (SEI). O plano visava um compromisso de longo prazo para construir a Estação Espacial Freedom, levar astronautas de volta à Lua “para ficar” e, finalmente, enviar humanos ao planeta vermelho. Mas os altos custos estimados da SEI, que chegavam a centenas de bilhões de dólares, levaram ao seu fracasso. O fraco apoio no Congresso, juntamente com outros fatores, levou ao seu cancelamento durante o governo do presidente Bill Clinton. Durante a década de 1990, o projeto da Estação Espacial Internacional (ISS) consolidou a baixa órbita terrestre como prioridade para a exploração humana. O ônibus espacial foi o meio utilizado pelos EUA para construir a estação e transportar tripulações de e para o posto avançado em órbita. A ISS tornou-se um símbolo de cooperação científica internacional e de proeza técnica. As experiências realizadas na estação geraram insights valiosos em tudo, desde a pesquisa médica até a ciência de materiais. Mas também consumiram recursos que, de outra forma, poderiam ter apoiado a exploração do espaço profundo. O desastre do Colúmbia em 2003 – no qual o ônibus espacial se desintegrou sobre o Texas, causando a morte de toda a tripulação – levou a uma nova reflexão sobre a direção da exploração espacial nos Estados Unidos. Como resultado, o presidente George W. Bush anunciou a Visão para a Exploração Espacial. O objetivo dessa proposta, que daria origem ao que ficou conhecido como Programa Constellation, era reconstruir a capacidade da Nasa de chegar à Lua, tendo Marte como meta de longo prazo. Mas análises independentes alertaram que os custos e cronogramas eram irreais. O Congresso americano nunca deu apoio financeiro total ao Constellation, levando ao seu cancelamento em 2010, durante a Presidência de Barack Obama. Esse ciclo repetido de projetos espaciais cancelados expõe algumas limitações inerentes ao sistema de financiamento da exploração lunar. Um programa lunar sustentável precisa de um forte compromisso multissetorial e de mecanismos para garantir financiamento por várias décadas.
Homem é atropelado por viatura da GCM durante abordagem e leva gás de pimenta no rosto após cair

Caso é acompanhado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara; GCM apura na Corregedoria
Lei que inseriu o símbolo do autismo em Ouro Preto completa oito anos

Lei aprovada pela então vereadora em 2018 determinou inserção do símbolo do autismo nas placas de atendimento prioritário do município Em 2018, a vereadora Regina Braga assinou a Lei Municipal 1.097, que determinou a inserção do símbolo do autismo nas placas de atendimento prioritário de estabelecimentos públicos e privados de Ouro Preto. Supermercados, bancos e comércios passaram a ser obrigados a exibir o lacinho colorido ao lado dos demais símbolos de prioridade. A lei não criou um novo direito — o atendimento preferencial a pessoas com autismo já era garantido — mas tornou esse direito visível. Sete anos depois, a autora da lei é a vice-prefeita do município. E o Abril Azul, mês internacional de conscientização sobre o autismo marcado pelo Dia Mundial em 2 de abril, trouxe a oportunidade de olhar para o que mudou — e para o que ainda falta. “É uma data importante para reforçarmos o respeito, a inclusão e o direito das pessoas autistas a uma vida digna e com oportunidades”, disse Regina Braga. Sobre a lei de 2018, ela reconhece o limite do gesto: “Foi um gesto simples, mas que representa respeito e dignidade.” A legislação municipal acompanhou uma mudança mais ampla no reconhecimento dos direitos das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil. A Lei Berenice Piana, de 2012, foi o marco federal que estabeleceu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Em Ouro Preto, iniciativas como a lei de 2018 e, mais recentemente, a instalação da sala de reabilitação sensorial pela Secretaria Municipal de Saúde fazem parte do mesmo caminho. 📋 A lei Lei Municipal 1.097/2018 — Ouro Preto O que determina: Inserção do símbolo do autismo (lacinho colorido) nas placas de atendimento prioritário de estabelecimentos públicos e privados Autora: Regina Braga, então vereadora, atual vice-prefeita de Ouro Preto Abril Azul: Mês de conscientização sobre o autismo — Dia Mundial em 2 de abril
Automutilação na adolescência: qual o papel da escola na prevenção deste problema crescente?

Ainda que os cortes sejam feitos pelo adolescente em outros ambientes, como em casa, é na escola que eles com frequência são vistos pela primeira vez. Estudiosos indicam que os profissionais de ensino em geral são os primeiros adultos a perceberem as lesões. Imagem: CVV Gabriela Meireles Macedo, PUC-Rio e Terezinha Féres-Carneiro, PUC-Rio A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou, em 2025, que os problemas de saúde mental no mundo são responsáveis por 16% das doenças e lesões entre adolescentes. No Rio de Janeiro, a Secretaria de Estado de Saúde registrou, em 2023, 13.007 notificações de violência autoprovocada, sendo 25% casos de adolescentes. Os números alarmantes indicam o aumento do fenômeno nas últimas décadas. O psicólogo clínico americano Matthew Nock, em seu estudo de 2010, definiu automutilação como todo comportamento que é realizado intencionalmente e com o conhecimento de que pode ou irá resultar em algum grau de lesão física e/ou psicológica para si mesmo. Trata-se de um dano autoinfligido que pode ser realizado com o uso ou não de objetos perfurocortantes. As áreas mais comuns onde acontecem as lesões são punhos, antebraços, coxas, barriga e pernas. Em 2020, o Ministério da Saúde lançou a “Cartilha para prevenção da automutilação e do suicídio: orientações para educadores e profissionais da saúde”, na qual é ressaltada a diferença entre a autolesão com intenção suicida e a sem intenção suicida (ASIS). As autolesões possuem funções intrapessoais, como buscar alívio da dor emocional, e funções interpessoais, como a finalidade de comunicar o próprio sofrimento e/ou pertencer a grupos. A automutilação surge como um recurso que, paradoxalmente, busca apaziguar uma dor psíquica insuportável por meio do ato de infligir-se uma dor física. Automutilação: um problema para saúde e a educação A adolescência representa um momento de passagem, situando-se na fronteira entre a infância e a vida adulta. Ocorre, nesse período, certo desprendimento do adolescente em relação às figuras parentais e uma busca por inserção nos discursos sociais e nos grupos. Isso coloca em questão a relação dele com a alteridade: movimento que, segundo os estudiosos da área, pode provocar sentimentos de desamparo e angústia. As instituições educativas são fundamentais na construção de laços fora do seio familiar. Diante de tantas transformações corporais e psicossociais, é comum o adolescente transferir para o corpo, em ato, seu sofrimento. Ele faz isso ao invés de utilizar a palavra ou a fala como recurso de expressão. É nesse cenário que costumam aparecer as automutilações. Um fato curioso sobre a automutilação na adolescência, identificado por alguns pesquisadores do campo, é que ainda que os cortes sejam feitos pelo adolescente em outros ambientes, como em casa, é na escola que eles, com frequência, aparecem. Estudiosos indicam que os profissionais da instituição de ensino, comumente, são os primeiros adultos a perceberem as lesões. A escola por estar menos comprometida emocionalmente comparada aos pais, ao observar o adolescente, consegue, muitas vezes, detectar com mais clareza dificuldades no processo de desenvolvimento do aluno. Os professores são capazes de notar mudanças de comportamento repentinas em sala de aula como tristeza e isolamento, que se configuram como um sinal de alerta. Isso aponta a importância de o fenômeno da automutilação na adolescência ser discutido não só na esfera da saúde, mas também no campo da educação. Além disso, a escola acaba sendo um lugar favorável para tratar a problemática porque ela concentra a maior parte da população infantojuvenil e isso possibilita não só identificar riscos e danos psicossociais que assolam esse público, mas também fomentar a educação em saúde em larga escala. O estudo Em nosso projeto, realizado no Laboratório de Estudos em Família e Casal (LEFaC), do Departamento de Psicologia da PUC-Rio, investigamos a questão da autolesão em adolescentes na atualidade, a partir da percepção de profissionais que atuam na escola. Foram entrevistados 10 profissionais da área da psicologia e/ou educação que atuassem diretamente com adolescentes em escolas públicas (municipais, estaduais e federais) do estado do Rio de Janeiro. Dentre eles, professores de diferentes disciplinas, orientadores educacionais, que são pedagogos de formação e psicólogas. Os dados elucidaram como acontece o manejo da escola diante do fenômeno da automutilação na adolescência e os desafios enfrentados pelos educadores. Além disso, os resultados evidenciaram qual é o papel da escola frente a essa questão e a importância de um trabalho de cuidado em rede (família, escola e Estado). O manejo e seus desafios Os entrevistados relataram inicialmente um manejo no sentido de acolher o adolescente por meio de uma escuta empática e sem julgamentos, de modo que o jovem possa expressar seus sentimentos. Em seguida explicitaram a importância de comunicar à família sobre a automutilação, mas de maneira cuidadosa para não desencorajar outras buscas por ajuda. Ressaltaram a necessidade de orientar os responsáveis e realizar encaminhamentos a serviços de saúde mental e/ou assistência social. Por fim, a maioria dos participantes declarou que a escola faz a notificação compulsória ao Conselho Tutelar, seguindo a Lei nº 13.819/2019, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. Curiosamente os entrevistados relataram um manejo que está de acordo com as diretrizes da Cartilha para prevenção da automutilação e do suicídio: orientações para educadores e profissionais da saúde, mesmo sem tê-la mencionado. Isso aponta para um saber-fazer do educador que pode ser lapidado com informações mais consistentes acerca da temática. Essa aquisição de conhecimento sistemática pode funcionar como um amparo para o profissional em sua atuação. Em geral, os entrevistados alegaram se sentirem despreparados para lidar com a problemática da automutilação. Ficou evidente a falta de uma orientação clara e técnica sobre o referido tema e a falta de formação continuada acerca das questões de saúde mental na escola. Esses fatores comumente levam a uma estigmatização do fenômeno. Alguns entrevistados denunciaram que colegas descrevem, pejorativamente, a automutilação como uma atitude do adolescente para “chamar atenção”. Essa é uma percepção pautada no senso comum que pode desembocar numa negligência do adulto face ao episódio. O fato é que o adolescente que se corta está demandando um olhar e uma
Por que o crime organizado está tornando a vida mais cara sem que a gente perceba

Robson Rodrigues, UERJ Há muito a criminalidade organizada deixou de ser um fenômeno restrito às periferias urbanas. Ela atualmente está infiltrada de maneira profunda nos circuitos formais da economia. Nas grandes metrópoles – onde se concentra a infraestrutura financeira, logística e produtiva –, os efeitos sobre o setor privado são particularmente severos. Os custos operacionais sobem, a concorrência é distorcida, investimentos são adiados ou cancelados e o próprio capital institucional se fragiliza. Trata-se, portanto, de um problema que é securitário, econômico e de governança ao mesmo tempo. Para ilustrar, imagine um comerciante observando um concorrente abrir uma loja ao lado da sua, que vende mais barato, não paga impostos e nunca parece ter problemas de caixa. Depois de alguns meses, o comerciante descobre o motivo: a loja existe para lavar dinheiro do crime organizado. Esse cenário, que parece enredo de série policial, é o dia a dia de milhares de empresários brasileiros. Estudos conduzidos por instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o IPEA e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que a criminalidade organizada impõe ao Brasil um custo anual equivalente a cerca de 4,2% do PIB apenas em impactos sobre o setor privado. Em valores absolutos, isso equivale a mais de R$ 450 bilhões — montante suficiente para construir sete vezes o Rodoanel de São Paulo. Custo nacional e transnacional No Rio de Janeiro, essa situação salta aos olhos. Basta a um observador atento percorrer a Avenida Brasil — principal e mais estratégico corredor viário do Estado, mas também um dos mais perigosos — para constatar a deterioração acelerada do ambiente produtivo. Empresas históricas, que durante décadas compuseram um tecido econômico vibrante ao longo da via, vêm desaparecendo de um território que passou a ser, na prática, controlado por organizações criminosas. Diante desse cenário, as respostas do Estado têm seguido um roteiro velho e surrado: reforços pontuais e reativos de policiamento combinadas com operações policiais de grande impacto midiático, mas com baixos resultados estruturais. Além disso, como o cobertor dos recursos públicos é curto, o modelo se exaure nessas ações, abrindo espaço para a expansão dos “crimes de rua”, em especial roubos e furtos de celulares. Importante destacar que o problema está longe de ser uma particularidade brasileira. Na América Latina e no Caribe, o custo médio do crime alcança 3,44% do PIB regional, segundo estimativas do BID (2024). É o equivalente a 78% de todo o orçamento público destinado à educação na região. As cifras estimadas para a região ultrapassam em 42% o custo estimado do crime organizado na Europa. Em escala global, dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) indicam que redes criminosas transnacionais movimentam anualmente cerca de 1,5% do PIB mundial — um volume financeiro que supera, inclusive, toda a ajuda humanitária global combinada. No fim das contas, essa conta não desaparece: ela só se redistribui, chegando, de diferentes formas, a toda a sociedade. O impacto sobre o setor produtivo A criminalidade deixou de ser um risco eventual ao setor privado e tornou-se custo estrutural de operação. Para funcionar, as empresas sustentam uma engrenagem paralela de proteção, que inclui câmeras, vigilância privada, blindagem de veículos, seguros mais caros, rastreamento de cargas e rotinas adicionais de controle. Segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, os gastos diretos com segurança no Brasil já se aproximam de R$ 60 bilhões por ano. A esse valor se somam cerca de R$ 200 bilhões em custos indiretos — perdas, interrupções logísticas e ineficiências operacionais — que se espalham pela cadeia produtiva e acabam repassados ao consumidor. Nesse cenário, não causa espanto que uma em cada três empresas da América Latina registre ao menos um incidente criminal por ano. Tampouco que os gastos com segurança já consumam 2,7% da receita bruta — mais, em muitos casos, do que as perdas causadas por falhas no fornecimento de energia. Mais grave ainda é o custo invisível trazido pela presença do crime organizado. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) mapeou sua atuação em 16 setores da economia formal. Entre eles, nos combustíveis, bebidas, tabaco, construção civil, mineração. Em cada um desses setores, empresas criminosas operam com vantagem competitiva artificial: não maximizam lucros, só precisam lavar dinheiro. Isso destrói a concorrência leal. O resultado? A CNI estima que essa infiltração tenha impedido a criação de 370 mil empregos formais em 2022 e retirado R$ 500 bilhões da economia produtiva — recursos que, em condições normais, poderiam estar gerando renda, impostos e inovação. O que pode ser feito As estatísticas trazem um dado muito interessante sobre o enfrentamento eficiente à violência. O FMI (Fundo Monetário Internacional) mostrou que reduzir as taxas de homicídio ao nível da média global poderia elevar o crescimento anual da América Latina em até meio ponto percentual. Nas economias mais violentas, o ganho poderia chegar a 1 ponto — o equivalente a bilhões de dólares em riqueza adicional gerada a cada ano. Isso muda o enquadramento do problema. Combater o crime organizado não é apenas uma questão de segurança pública. E o setor privado tem um papel importante nessa equação que vai além de contratar vigilantes. As empresas poderiam, por exemplo, exigir rastreabilidade nas cadeias de fornecimento, pressionar por regulação mais rigorosa em setores infiltrados e adotar práticas antilavagem de dinheiro mesmo quando não são instituições financeiras. O Movimento Unidos pelo Combustível Legal é um exemplo concreto disso. Trata-se de uma coalizão de empresas do setor que estimou perdas de cerca de R$ 30 bilhões por ano com sonegação e adulteração de combustíveis — e passou a pressionar ativamente por mudanças regulatórias. Os resultados mostram que esse tipo de articulação funciona. Isso significa que combater o crime organizado não é só uma questão de segurança. É política econômica. É competitividade. É geração de emprego. A conta que ninguém faz No fim das contas, o crime organizado funciona como um imposto invisível. Ele não aparece na nota fiscal, não consta em nenhum CNPJ, mas está embutido em
Hidrocefalia de pressão normal: mudanças no andar e na memória de idosos nem sempre indicam sinais de demência

Fernando Gomes, Universidade de São Paulo (USP) Nem todo idoso que começa a andar um pouco mais devagar, esquecer compromissos e ter escapes urinários está, necessariamente, prestes a receber um diagnóstico de demência, doença de Alzheimer ou Parkinson sem tratamento. Embora sintomas como lentidão ao andar, falhas de memória e incontinência urinária sejam frequentemente associados a doenças neurodegenerativas, há situações em que o quadro tem outra origem. Estudos clínicos mostram que, em alguns casos, os mesmos sintomas podem estar associados a uma outra alteração neurológica: a hidrocefalia de pressão normal (HPN). Pesquisas indicam que em cerca de 0,5% a 10% dos casos dos diagnósticos inicialmente atribuídos à demência, por exemplo, os sintomas estão, na verdade, relacionados a essa alteração neurológica. Nessas situações, diferentemente dos quadros motivados por causas degenerativas, considerados irreversíveis, a presença da HPN e a indicação da terapia adequada sugerem que há boas chances de recuperar funções como mobilidade e equilíbrio, com impacto direto na qualidade de vida. A hidrocefalia de pressão normal afeta principalmente pessoas acima dos 60 anos. Ela se manifesta por três sinais clássicos: dificuldade para andar, alterações cognitivas e problemas urinários. Mas, como disse, parte desses sintomas pode ser reversível. Muitos idosos com HPN passam anos sendo tratados como se tivessem apenas “dificuldade para andar da idade” ou um quadro demencial irreversível. A ciência mostra que, em parte desses casos, há um componente mecânico tratável. Quando não é uma degeneração Como neurocirurgião, neurocientista e pesquisador, sempre me impressiono com o modo como o cérebro depende do funcionamento adequado de várias estruturas para se manter ativo e saudável. É o que se vê nesta condição, em que pequenas alterações na circulação do líquor — o líquido que banha e protege o sistema nervoso — podem impactar redes neurais responsáveis por andar, manter o equilíbrio, planejar movimentos e até organizar pensamentos. Entender esses mecanismos é mais do que uma curiosidade científica: é a chance de devolver autonomia a quem pode estar perdendo a própria mobilidade. Nos casos de HPN, o líquor deixa de circular e de ser reabsorvido adequadamente. Os ventrículos cerebrais — cavidades cheias de líquido — aumentam de tamanho e passam a comprimir estruturas vizinhas. Essa pressão crônica interfere no funcionamento de circuitos neurológicos profundos ligados à marcha, ao controle postural e às funções executivas – as habilidades mentais associadas ao lobo frontal, responsáveis por planejar, manter a atenção, controlar impulsos, reter informações temporariamente e adaptar-se a novas situações. Mas será possível reverter esses sintomas? A questão mobiliza pesquisadores. Nesse contexto, se o diagnóstico for preciso e a realização de uma intervenção cirúrgica específica ocorrer no momento adequado, há boas chances disso acontecer. Um grande ensaio clínico, publicado na renomada revista científica The New England Journal of Medicine, avaliou o efeito da cirurgia de derivação liquórica — procedimento que consiste no implante de uma válvula para drenar o excesso de líquor — em pacientes cuidadosamente selecionados. Os participantes foram previamente submetidos a testes com drenagem temporária de líquor para avaliar a probabilidade de resposta ao tratamento. Nesse contexto, a neurociência não é apenas tecnologia — envolve, sobretudo, uma seleção clínica cuidadosa, orientada pela fisiologia. O principal resultado descrito no estudo citado foi objetivo e mensurável: após três meses, os pacientes que receberam uma válvula funcional para drenar o líquido cerebral apresentaram maior velocidade ao caminhar, enquanto o grupo placebo (tratamento simulado, sem efeito terapêutico real) permaneceu praticamente inalterado. A diferença foi considerada clinicamente relevante pelos pesquisadores. À primeira vista, pode parecer um aspecto mais técnico. No entanto, a velocidade da marcha é um dos indicadores mais consistentes de saúde no envelhecimento porque sintetiza, em uma única medida, o funcionamento integrado de múltiplos sistemas do organismo — neurológico, muscular, cardiovascular e de equilíbrio. Alterações nesse ritmo costumam refletir precocemente perdas nessas funções. Por isso, mais do que “andar melhor”, caminhar mais rápido está associado a menor risco de quedas, maior autonomia e melhor prognóstico funcional. Do ponto de vista cerebral, os resultados sugerem que a drenagem do líquor alivia a disfunção de circuitos fronto-subcorticais — redes de conexão entre o córtex frontal (responsável pelo planejamento e pela tomada de decisões) e estruturas mais profundas do cérebro, como os gânglios da base, que ajudam a dar início aos movimentos e a coordená-los de forma adequada. O estudo também mostrou melhora significativa em testes de equilíbrio e mobilidade global, enquanto os ganhos cognitivos foram mais discretos no curto prazo. Esse descompasso é esperado do ponto de vista neurobiológico: circuitos ligados ao movimento e ao controle da postura tendem a responder mais rapidamente à redução da pressão ventricular, enquanto funções cognitivas — que dependem de redes cerebrais mais amplas e da integração entre diferentes áreas — levam mais tempo para se reorganizar. Em alguns casos, essa recuperação mais lenta pode indicar que parte das alterações no cérebro já não é totalmente reversível, especialmente quando a doença está mais avançada. Em outras palavras, o sistema motor tende a responder de forma mais imediata, como se fosse aliviado de uma sobrecarga, enquanto o funcionamento cognitivo, mais complexo, pode exigir um tempo maior para se recuperar. O que muda no cérebro No estudo referido, as imagens cerebrais obtidas por exames como a ressonância magnética mostraram uma redução do volume dos ventrículos após o início do funcionamento da válvula, indicando que o tratamento não atua apenas sobre os sintomas, mas modifica a mecânica interna do cérebro. Menor distensão ventricular significa menos estiramento de fibras nervosas profundas, especialmente na substância branca periventricular. Essas fibras funcionam como verdadeiras “autoestradas”, conectando regiões frontais a centros motores e ao controle esfincteriano. a comunicação entre essas áreas se torna menos eficiente quando elas são comprimidas. Aliviar essa pressão é, portanto, como desobstruir vias de tráfego neural. Trata-se de um benefício real, mas que também envolve riscos. A neurocirurgia de derivação não é trivial, e o estudo também registrou efeitos adversos, como dor de cabeça por excesso de drenagem e pequenos sangramentos subdurais em parte dos pacientes. Quando a marcha melhora, o impacto vai além do movimento.
Infodemia: como plataformas digitais usam a desinformação e o excesso de informação para lucrar

Gilbergues Santos Soares, Universidade Federal da Paraíba (UFPB) O Dia Internacional da Checagem de Fatos, neste 2 de abril, é mais uma oportunidade para qualificar a discussão sobre desinformação. Ela é uma marca do nosso tempo, assim como a premissa de que poderia ser combatida com mais informação. Essa ideia sustenta que ampliar o acesso a conteúdos neutralizaria as narrativas enganosas e seria suficiente para estimular práticas informacionais adequadas. Mas informação e desinformação são produzidas e disseminadas no mesmo ecossistema informacional. Em uma era dominada pela circulação intensa de conteúdos, pelo negacionismo, pelo revisionismo e por plataformas que monetizam atenção e engajamento, somente ampliar o volume informacional não basta para reduzir o grau de desinformação. É preciso investigar como a desinformação circula nas plataformas digitais e de que modo as práticas desinformacionais estão inscritas em um modelo de negócio que transforma atenção, engajamento e circulação em monetização. Mesmo sufocada pela desinformação, a sociedade trata a era digital e a informação como panaceias para os problemas produzidos nesse ambiente. A informação é entendida como solução em si mesma. Nesse enquadramento, a oposição entre informação e desinformação tende à simplificação: de um lado estaria a verdade; de outro, a mentira. Dessa simplificação emerge uma leitura recorrente do problema: se a desinformação se espalha, o caminho seria ampliar a circulação de informação qualificada para contê-la. Foi nesse contexto que, durante a pandemia de Covid-19, ganhou força a noção de infodemia. Hiperinformação e superdesinformação Durante a pandemia de Covid-19, o termo infodemia se difundiu como o excesso de dados e conteúdos — corretos e/ou incorretos — que circulavam com velocidade pelas plataformas digitais. Cresceu a percepção de que a desinformação poderia ser enfrentada com mais informação. A experiência mostrou que, mesmo com a existência e disponibilização de muitas evidências científicas, conteúdos falsos ou distorcidos prosperam impulsionados pelo volume de circulação. Ainda assim, a “sociedade da informação” oferece uma resposta centrada no indivíduo, privilegiando competências críticas e habilidades individuais para reconhecer narrativas falsas. Em vez de enfrentar as condições em que a desinformação circula, essa abordagem desloca para o sujeito a responsabilidade de distingui-la da informação. Como observa o pesquisador Rodrigo Moreno Marques (UFMG), o foco recai sobre as habilidades individuais, e não sobre o ambiente em que essas narrativas são produzidas, circulam e se fortalecem. A desinformação não pode ser resumida ou atribuída a falhas pessoais de interpretação. Trata-se de um fenômeno que estrutura estratégias de poder: em vez de circular espontaneamente, ela se articula com interesses econômicos e políticos, além de formas de organização da comunicação nas plataformas, como exemplificam as mobilizações da extrema direita no espaço digital. Para compreender esse funcionamento, é preciso relacionar informação e desinformação à crítica da economia política. Conceitos como alienação e fetichismo, formulados pelo filósofo e economista alemão Karl Marx, ajudam a iluminar uma realidade em que narrativas operam como fatos e a circulação de conteúdos se articula a questões econômicas e sociais. Nesse quadro, o regime de informação/desinformação passa a tensionar a própria democracia. Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), Marx demonstrou que o capital provém da exploração dos trabalhadores e da acumulação de riquezas. Essa discussão importa porque essas relações de exploração se reconfiguram no ambiente digital, em que essa tecnologia se tornou a “indústria-base” da acumulação capitalista. Com ela, a informação converte-se em monetização e o modelo de negócio das plataformas aprofunda a acumulação de capitais, ampliando as desigualdades sociais. Enquanto tecnologias digitais expandem mercados e multiplicam fluxos informacionais, novas formas de exploração se consolidam e o capital se concentra cada vez mais. Nesse contexto, o atual regime informacional precisa ser compreendido como parte do capitalismo para podermos falar de desinformação. O novo regime de informação O modo como a vida material e o trabalho são produzidos e organizados influencia a forma como pensamos e nos comunicamos. Em sociedades plataformizadas, em contínua expansão, as redes sociais e as big techs distribuem informação e influenciam a organização e produção da vida social, estruturada a partir de uma base econômica. As condições materiais de existência dão origem a uma superestrutura composta por dimensões sociais, políticas, culturais e intelectuais. Assim, o conceito de alienação ajuda a entender efeitos da informação mediada pelas plataformas. Alienação ocorre quando deixamos de reconhecer ou controlar o produto de nosso trabalho. E isso se intensifica no ambiente das plataformas que retroalimenta a dinâmica de acumulação. Usuários produzem dados e conteúdos que alimentam sistemas econômicos sem que possam controlar o uso dessas informações. Em A Sociedade do Espetáculo, o filósofo e cineasta francês Guy Debord trata do indivíduo alienado pela sociedade moderna. Quanto mais o trabalhador (usuário) produz conteúdos e interações, menos vive essa experiência, se reconhecendo em imagens e narrativas dominantes, sem compreender sua posição no sistema. Quanto mais alienado do resultado de sua atividade, mais assume o papel de espectador. Temos, portanto, a consolidação de um espetáculo alimentado por um estágio avançado de produção de mais-valor (o valor gerado pela atividade do trabalhador/usuário e apropriado economicamente pelas plataformas). Nessas condições, a participação é convertida em matéria-prima. O modelo de negócio plataformizado move-se pela expropriação do tempo real do trabalhador/usuário, que ao mesmo tempo produz e consome, sob uma sensação de liberdade que não corresponde às relações efetivas em que está inserido. Nesse ambiente, atividades antes ligadas ao convívio social e ao lazer passam a ser mediadas pelo consumo e pela visibilidade nas plataformas. O espetáculo descrito por Debord se atualiza: relações sociais são filtradas e organizadas por uma lógica mercantil que transforma experiências em produtos. Informação e desinformação alienam e circulam nas redes como produtos do trabalho social. Essa produção favorece distorção, simplificação e manipulação de conteúdos. O resultado é um ambiente informacional que dificulta uma compreensão crítica da realidade. Sob a lente da economia política No novo regime de informação, mudam os meios e dispositivos e as plataformas se multiplicam, mas o capitalismo segue impondo as regras do jogo. Tecnologias ampliam o alcance e a velocidade dos fluxos informacionais, enquanto as mesmas lógicas de acumulação continuam organizando a produção e circulação