Ouro Preto, sexta-feira, abril 24, 2026 16:21

No ano do recorde de feminicídios no Brasil, como está a nossa região?

Matéria – Larissa e Maria Fernanda | Vintém Larissa tinha 25 anos. Maria Fernanda, dois. O que os matou começa muito antes da faca O feminicídio de mãe e filha em Mariana chocou a região. A cobertura de parte da imprensa chocou também — por razões diferentes. O Vintém apura os dados da violência contra a mulher em Ouro Preto, Mariana e Itabirito e ouve quem trabalha para que cada morte seja contada com o nome certo. Na tarde de terça-feira, 3 de fevereiro de 2026, vizinhos do bairro Santa Clara, em Mariana, ouviram gritos vindos de uma casa na rua Caetano Pinto. Depois, silêncio. Quando a Polícia Militar chegou, encontrou Larissa Maria de Oliveira, 25 anos, e a filha do casal, Maria Fernanda Oliveira Gomes, 2 anos, mortas no quintal da residência, abraçadas, com múltiplas lesões na cabeça, no pescoço e nos membros. O facão usado no crime foi encontrado no terreno vizinho. O companheiro delas, Felipe Gomes Cordeiro, 24 anos, chegou ao local acompanhado do padrasto e ele mesmo conduziu os policiais até os corpos. Preso em flagrante, apresentou versões contraditórias. Acabou confessando. Sua prisão foi convertida em preventiva no dia seguinte. Ele deve permanecer preso até o julgamento. A Prefeitura de Mariana classificou o crime como “brutal” e prestou solidariedade aos familiares. “Um crime brutal, que causa indignação e tristeza em toda cidade”, dizia o comunicado oficial. No sábado seguinte, 7 de fevereiro, centenas de pessoas foram às ruas em uma marcha convocada por moradores — batizada de Marcha dos Homens, com concentração no Centro de Convenções e caminhada até a Praça Minas Gerais. Uma familiar de Larissa e Maria Fernanda tomou a palavra e lembrou que o feminicídio é o estágio final de uma violência que começa muito antes. Mas enquanto a cidade enlutuada marchava, parte da cobertura jornalística do caso trilhava outro caminho. A narrativa que mata duas vezes Nos dias que se seguiram ao crime, algumas publicações escolheram destacar em seus títulos a versão do próprio suspeito — a de que uma “suposta traição” teria “motivado” ou “levado” o homem a matar. O problema não é mencionar o contexto alegado pelo suspeito. O problema é transformar essa alegação no enquadramento central da história: quando o título diz que a traição “levou” alguém a matar, está construindo uma relação de causalidade. Não descreve o crime — explica, e ao explicar, justifica. “O feminicídio não começa na manchete. Mas a manchete pode determinar se a próxima mulher vai pedir socorro ou vai ficar em silêncio, com medo de não ser acreditada.” — Campanha da Associação Riograndense de Imprensa, 2026 O Projeto Ariadnes, observatório de mídia, gênero e sexualidade da UFOP, sediado no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas de Mariana, publicou em suas redes sociais uma análise da cobertura do caso — apontando exatamente esse padrão. O projeto, coordenado pela professora Karina Gomes Barbosa e com atuação na formação de jornalistas da Região dos Inconfidentes, tem realizado oficinas sobre cobertura ética de feminicídios desde 2025. A publicação gerou ampla repercussão e debate entre moradores e profissionais da comunicação. A pesquisadora e linguista Ana Maduro, cujo trabalho embasou um projeto de lei debatido na Câmara Legislativa do Distrito Federal em março de 2026, resume o mecanismo: “Muitas manchetes acabam diminuindo a responsabilidade do agressor ao sugerir motivações relacionadas ao comportamento da vítima.” O ciclo se fecha quando a cobertura replica e amplifica a mesma lógica que estrutura a violência de gênero: a de que a mulher é responsável pelo que acontece a ela. Traição, real ou suposta, não justifica assassinato. Nem de uma mulher adulta. Nem de uma criança de dois anos. O que os dados dizem sobre nossa região O caso de Larissa e Maria Fernanda não é isolado. Os dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais mostram que a violência doméstica é persistente nas três cidades que o Vintém cobre. Ouro Preto lidera em números absolutos entre elas: foram 588 registros em 2021, subindo para 703 em 2022 e 697 em 2023. Até abril de 2024, o município já acumulava 256 casos — um ritmo que sugeria encerrar o ano próximo dos recordes anteriores. Em Mariana, a média histórica é igualmente elevada: 638 registros em 2021, 605 em 2022, 607 em 2023. A Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania do município informou, até junho de 2024, uma média de 13 novos casos de violência atendidos por mês — com violência física, psicológica e abuso sexual entre as formas mais comuns. Itabirito registrou 461 casos em 2021, queda para 346 em 2022, retorno a 405 em 2023. Esses números, cabe lembrar, dizem respeito às ocorrências registradas. A subnotificação é histórica: o medo, a dependência financeira, o estigma social e, especialmente em cidades menores, o risco de exposição em comunidades onde agressor e vítima são conhecidos de todos — tudo isso mantém uma parte significativa dos casos fora das estatísticas oficiais. 📊 Dados regionais · Violência doméstica Ouro Preto, Mariana e Itabirito: o que os registros mostram Município 2021 2022 2023 Jan–Abr 2024 Ouro Preto 588 ↑ 703 697 256 Mariana 638 605 607 173 Itabirito 461 ↓ 346 405 144 Registros de violência doméstica — todas as formas (física, psicológica, sexual, patrimonial). Os números refletem ocorrências registradas, não o total real: especialistas estimam subnotificação significativa, especialmente em cidades de médio porte. 13 novos casos de violência atendidos por mês em Mariana (média até jun/2024) 166 famílias atendidas mensalmente nos centros de referência de Itabirito 3 municípios com CREAS ativo para acolhimento de vítimas VINTÉM Fonte: Sejusp-MG / Observatório de Segurança Pública · dados até abr/2024 🇧🇷 Panorama · Minas Gerais e Brasil Feminicídio: o que os números nacionais dizem sobre o que acontece aqui 1.568 feminicídios consumados no Brasil em 2025 — recorde histórico desde 2015 4,7% crescimento em relação a 2024, que já havia batido recorde 13.703 mulheres mortas por feminicídio no Brasil desde a tipificação do crime (2015–2025) 4/dia média de feminicídios consumados no Brasil desde 2022 Ocorrências

Câmara de Ouro Preto lança Campanha da Fraternidade 2026 com debate sobre moradia

Audiência pública acontece nesta segunda-feira (9), às 18h, no plenário da Câmara; evento é aberto ao público e será transmitido ao vivo pelo YouTube A Câmara Municipal de Ouro Preto realiza nesta segunda-feira, 9 de março, às 18h, a audiência pública de lançamento da Campanha da Fraternidade 2026. O evento, proposto pelos vereadores Kuruzu (PT) e Matheus Pacheco (PV), acontece no plenário da Casa e é aberto à participação da comunidade. A Campanha da Fraternidade é promovida anualmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) durante o período da Quaresma. Em 2026, o tema escolhido é “Fraternidade e Moradia” e o lema, retirado do Evangelho de João, é “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Ao longo da Quaresma, a iniciativa mobiliza paróquias, pastorais e movimentos sociais em todo o país por meio de atividades de formação, encontros e ações solidárias. Para o vereador Kuruzu, a escolha do tema pela Igreja chega em momento especialmente significativo para Ouro Preto. “Essa Campanha da Fraternidade 2026 chega em um momento oportuno para a nossa cidade. Saber que a Igreja Católica propõe essa reflexão sobre um tema tão importante alimenta o debate e a nossa atuação na luta por moradia em Ouro Preto”, afirmou. A audiência desta segunda integra um contexto mais amplo de debates sobre habitação que vêm ocupando o legislativo municipal. Na semana passada, Ouro Preto assistiu à assinatura do acordo judicial que encerra a disputa pelas chamadas Terras da Novelis, garantindo regularização fundiária para moradores de cinco bairros da área sul da cidade e abrindo caminho para a construção de moradias populares. Na mesma semana, o vereador Kuruzu anunciou o avanço de projeto de lei do deputado estadual Elton Pimentel que prevê a doação de aproximadamente 20 hectares da antiga FEBEM ao município para a implantação de unidades habitacionais do programa Minha Casa Minha Vida. A audiência pública de hoje busca apresentar à comunidade a proposta da campanha deste ano e trazer o debate para o contexto municipal, discutindo a realidade da moradia em Ouro Preto a partir da reflexão proposta pela CNBB. 🏛️ Serviço · Audiência Pública Campanha da Fraternidade 2026 na Câmara de Ouro Preto Tema · Fraternidade e Moradia “Ele veio morar entre nós” João 1,14 · CNBB 2026 📅 Quando 9 de março de 2026Segunda-feira · 18h 📍 Onde Plenário da Câmara MunicipalPraça Tiradentes, 41 🎙️ Requerimento Vereadores Kuruzu (PT)e Matheus Pacheco (PV) 🎟️ Entrada Aberta ao público Gratuita ▶️ Transmissão ao vivo pelo canal oficial da Câmara Municipal de Ouro Preto no YouTube VINTÉM Informação que vale ouro

Dez anos depois, “quando a causa é justa, a conquista vem”

Acordo encerra ação judicial de 2019 e garante regularização fundiária para moradores de cinco bairros da área sul de Ouro Preto; para o vereador Kuruzu, que liderou a Ocupação Chico Rei em 2015, a luta não termina aqui Fotos: PMOP Na noite de Natal de 2015, mais de 500 pessoas ocuparam uma fração de terras pertencentes à Novelis em Ouro Preto. A multinacional do alumínio havia encerrado suas operações na região e colocado à venda parte do patrimônio fundiário que acumulara ao longo de décadas — inclusive terrenos originalmente cedidos pela Prefeitura para incentivar a geração de empregos. A insatisfação era direta: a empresa fechou as portas, demitiu trabalhadores, e as terras seguiam sendo negociadas no mercado. A mobilização ganhou nome, Ocupação Chico Rei, e um rosto: Wanderley Kuruzu, que dez anos depois ocupa uma cadeira na Câmara Municipal pelo PT. Na manhã de quinta-feira, 26 de fevereiro, Kuruzu estava no Salão Paroquial da Paróquia de Cristo Rei quando o prefeito Angelo Oswaldo assinou o acordo que encerra a disputa judicial pelas chamadas “Terras da Novelis”. Para o vereador, o momento confirma uma convicção cultivada ao longo de uma década de enfrentamentos. “Conforme a gente sempre diz lá nas nossas reuniões da Ocupação Chico Rei, quando a causa é justa, o povo se mobiliza, se organiza, vai à luta e, se necessário, persevera — a conquista vem. Eu acho que essa é uma lição que fica dessa luta toda. Dez anos, muita gente não acreditava.” A ação judicial e o caminho até o acordo Em 2019, o Ministério Público de Minas Gerais abriu Ação Civil Pública contra a Novelis e a própria Prefeitura de Ouro Preto, apontando parcelamento indevido do solo nos bairros Saramenha, Tavares, Vila Operária e Vila dos Engenheiros — área onde parte significativa dos moradores vivia há décadas sem titulação formal. Em 2021, a Justiça reposicionou o Município: de réu, passou a integrar o polo ativo da ação, abrindo caminho para as negociações. A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação e a Procuradoria Geral do Município conduziram os estudos que se tornaram a base da proposta. Em dezembro de 2025, a Prefeitura apresentou à Novelis a versão final. A empresa aceitou em 30 de dezembro. Em fevereiro de 2026, o acordo foi homologado pela Justiça antes do Carnaval. Para o promotor Emmanuel Pelegrini, titular da 1ª Promotoria de Justiça de Ouro Preto, a conquista evidencia os limites das soluções puramente formais. “Estamos tratando da regularização de uma parte significativa do território de Ouro Preto. Problemas complexos e antigos como esse não se resolvem com decisões formais. Eles exigem persistência, resiliência, responsabilidade e vontade de construção.” O Procurador-Geral do Município, Diogo Ribeiro, contextualizou a dimensão histórica da disputa. “Há mais de 40 anos a comunidade reivindica áreas de uso público consolidadas que estavam em propriedade da Novelis. Com o esforço da Procuradoria Geral Municipal e da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação, fica estabelecido o repasse dessas áreas para o Município.” O que o acordo garante No total, o Município recebe aproximadamente 240 mil metros quadrados — mais de 37% de toda a área discutida no processo. Passam à titularidade pública o Ginásio da Aluminas, o campo de futebol, a Creche Colmeia, quadras esportivas e praças que já faziam parte do cotidiano das comunidades. A Prefeitura também garantiu o terreno para expansão do cemitério da Irmandade de São Miguel Arcanjo e áreas reservadas para futuros equipamentos de saúde e educação. O ponto mais aguardado pelos moradores é a regularização fundiária. Famílias dos bairros Tavares, Saramenha de Cima, Saramenha de Baixo, Vila dos Engenheiros e Vila Operária receberão a titulação formal dos terrenos onde já vivem. “Foi uma luta grande, mas as terras da Novelis agora são terras do povo de Ouro Preto”, encerrou o prefeito Angelo Oswaldo. A luta que continua Para Kuruzu, o acordo é uma vitória parcial — e um ponto de partida. Em declaração após a cerimônia, o vereador deixou claro que a agenda habitacional de Ouro Preto vai muito além do que foi assinado na quinta-feira. “Foi importante também que uma área maior de terra poderá ser destinada à habitação popular. Sim, essa sempre foi a nossa luta. Chega do povo pobre, ou menos favorecido conforme se prefira chamar, ser expulso para morar nas encostas, nas áreas de risco, quando tem terra firme demais.” Kuruzu apontou duas frentes prioritárias para os próximos meses. A primeira é o Plano Diretor do município, em processo de revisão. “Nós estamos de olho nele, que precisa ter atenção para com as demandas do povo trabalhador de Ouro Preto, que é quem faz a cidade funcionar. Que não seja um plano diretor feito dentro de gabinetes, no ar condicionado.” A segunda é a disputa pelas terras da antiga FEBEM — área pública de cerca de 300 hectares, equivalente a aproximadamente 500 campos de futebol, na entrada de Ouro Preto, pertencente ao Estado de Minas Gerais. “Aquelas lá são um escândalo ainda maior, porque já são terras públicas, terra pertencente ao Estado de Minas Gerais. Não é um pedacinho não, são 300 hectares. Terras públicas, ociosas, paradas, abandonadas, sem cumprir nenhuma função social. Nossa luta vai se intensificar agora, nosso olhar vai ficar cada vez mais atento para as terras da FEBEM e o Plano Diretor.” A mensagem final do vereador soou como convocação. “Agora, a gente espera que cada comunidade de Ouro Preto, cada bairro, cada distrito, que tenha as suas demandas justas de luta por direito, que se organize cada vez mais. A palavra perseverança tem uma importância muito grande nessa conquista.”

Licitação para obra de R$ 34 milhões no Morro da Forca sai após Carnaval, anuncia prefeito; recursos estavam parados desde 2012

Foto: Nízea Coelho Contenção definitiva da encosta que destruiu Casarão Baeta Neves em 2022 será feita por SEINFRA e DER com verba federal depositada por Dilma há 14 anos; projeto já foi aprovado pelo Ministério das Cidades e IPHAN A licitação para a obra de contenção definitiva do Morro da Forca, no centro de Ouro Preto, será realizada após o Carnaval de 2026. O anúncio foi feito pelo prefeito Angelo Oswaldo em vídeo publicado nesta semana, confirmando que o secretário estadual de Infraestrutura, Pedro Bruno, garantiu o início do certame de concorrência pública logo após a folia. A obra, orçada em R$ 34 milhões, será executada pela Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade (SEINFRA) e pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER-MG) com recursos federais que estavam retidos na Caixa Econômica Federal desde 2012, quando foram depositados pela então presidente Dilma Rousseff para atender demandas de contenção de encostas em Ouro Preto. “Nós estamos muito felizes, são 34 milhões de reais à disposição dessa obra, graças aos 12 milhões depositados em 2012 pela presidente Dilma para atender demandas de Ouro Preto na área de proteção das encostas”, declarou Angelo Oswaldo. “E por isso nós temos condição agora, tanto tempo depois, depois da inércia de muitos governos que não fizeram nada com esse dinheiro que ficou na Caixa Econômica Federal, nós temos condição de recuperar o Morro da Forca e outra vez restabelecer a normalidade de circulação de pedestres e veículos no centro de Ouro Preto.” Três anos após tragédia que destruiu patrimônio histórico A contenção do Morro da Forca tornou-se urgente após o deslizamento de 13 de janeiro de 2022, quando a encosta desabou sobre o Casarão Baeta Neves — primeira construção neocolonial de Ouro Preto, erguida entre 1890 e 1906 — destruindo completamente o imóvel histórico. A UNESCO considerou a perda “uma perda para a humanidade”. Ninguém ficou ferido porque a Defesa Civil interditou a área minutos antes do desabamento, ao observar trincas no morro. Os imóveis já estavam interditados desde 2012, quando ocorreu um deslizamento de menores proporções. Em 7 de janeiro de 2023, um ano depois da tragédia, um novo princípio de deslizamento voltou a ameaçar a região, levando a Defesa Civil a interditar novamente o entorno. A área permaneceu com restrições de circulação por meses. Obras realizadas em etapas Desde 2022, as intervenções no Morro da Forca foram divididas em três etapas: 1ª etapa (2022): Retirada de material e escombros para liberação do trânsito 2ª etapa (2024): Sistema de drenagem pluvial no topo do morro, concluído em junho de 2024 com investimento de R$ 626.501,25 do Governo de Minas. A obra captou e escoou águas superficiais e de camadas internas do solo através de drenagens em formato de “espinha de peixe” e uma escada drenante que direciona as águas para a rede da Rua Pacífico Homem. 3ª etapa (2026): Contenção definitiva da encosta através de taludes (patamares), grampeamento do solo com tirantes de grande profundidade e construção de muro de contenção no pé da encosta. Será executada na face do maciço próxima à Praça Cesário Alvim (Praça da Estação). Projeto aprovado e recursos garantidos O projeto técnico para a contenção foi desenvolvido pela Prefeitura de Ouro Preto e aprovado pelo Ministério das Cidades, pelo Instituto do Fundo de Assistência à Moradia (IFAM), pela SEINFRA e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). “O projeto foi feito pela Prefeitura, entregue ao Ministério das Cidades, aprovado pelo IFAM e pelo Ministério das Cidades, com a participação da Secretaria de Infraestrutura do Estado, a SEINFRA, e do DER, que vão fazer a licitação”, detalhou o prefeito. Segundo Angelo Oswaldo, o valor total disponível (R$ 34 milhões) resulta da atualização dos R$ 12 milhões originalmente depositados em 2012, recursos que integravam o “PAC das Encostas” — programa federal para contenção de encostas em áreas de risco. Recursos parados por 14 anos A verba federal estava retida na Caixa Econômica Federal desde 2012, quando foi liberada pelo Governo Federal durante a gestão da presidente Dilma Rousseff especificamente para obras de contenção de encostas em Ouro Preto. O prefeito criticou a “inércia de muitos governos” que deixaram os recursos parados por mais de uma década. “Tanto tempo depois, depois da inércia de muitos governos que não fizeram nada com esse dinheiro que ficou na Caixa Econômica Federal, nós temos condição de recuperar o Morro da Forca”, afirmou. Em seu discurso de 21 de abril de 2023, Angelo já havia mencionado o problema: “A incúria de gestões do município retardou sua aplicação e a burocracia do estado faz com que tais verbas se desvalorizem e se tornem insuficientes, quando já poderiam ser investidas, pelo menos desde 2021, na proteção dessa encosta.” Risco conhecido há mais de uma década Um estudo realizado em 2016 pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) já apontava que a área do Morro da Forca era de alto risco para deslizamentos. O documento, assinado pelos geólogos Júlio César Lana e Larissa Montandon, mostrava os dois prédios destruídos em 2022 na rota de um possível deslizamento. O professor de engenharia geológica da UFOP, Mateus Oliveira Xavier, afirmou à época que o problema já era conhecido desde 2012, quando os casarões foram interditados, e que medidas como a construção de um muro de contenção poderiam ter sido tomadas. O estudo chegou a ser feito, mas não saiu do papel. Resgate do patrimônio destruído Após a destruição do Casarão Baeta Neves, a Prefeitura realizou trabalho de resgate arqueológico dos elementos artísticos e construtivos do imóvel. Segundo a então secretária de Cultura e Turismo, Margareth Monteiro, aproximadamente 80% dos materiais de valor foram recuperados, incluindo forros, ladrilhos hidráulicos, peças de cantaria, balaústres e outros elementos. Os objetos resgatados — que incluem pisos em marchetaria e ladrilho hidráulico característico do século XIX, além de teto de madeira feito à mão — foram higienizados e devidamente acondicionados. A Prefeitura planeja realizar uma exposição itinerante para contar a história do Casarão Baeta Neves. Monitoramento contínuo Até a execução da obra de contenção definitiva,

Antônio Pereira, Rodrigo Silva, Bocaina, Santo Antônio do Salto e Mota terão instalação obrigatória de hidrômetros até 17 de março

Recomendação do MP cita resistência organizada e ameaças a trabalhadores; Prefeitura mobilizará Guarda Municipal sob coordenação da PM para garantir segurança das equipes, enquanto vereadores cobram transparência sobre contrato Cinco distritos e localidades de Ouro Preto terão instalação obrigatória de hidrômetros até 17 de março de 2026. O prazo de 120 dias foi estabelecido pelo Ministério Público de Minas Gerais na Recomendação nº 03/2025, assinada em 17 de novembro pelo promotor de Justiça Emmanuel Levenhagen Pelegrini, após constatar “impedimentos graves” com “resistência organizada, hostilidade e risco à integridade física dos trabalhadores” nas localidades de Antônio Pereira, Rodrigo Silva, Bocaina, Santo Antônio do Salto e Mota. A Prefeitura de Ouro Preto confirmou em Nota Técnica divulgada em 11 de fevereiro que prestará “apoio institucional e operacional” à Saneouro, incluindo coordenação da Guarda Civil Municipal “com o objetivo estrito de garantir a segurança dos agentes envolvidos na operação”, sob coordenação da Polícia Militar do Estado. A Saneouro confirmou ao Vintém que a instalação é gratuita e que realizará reunião pública com moradores antes de retomar os trabalhos, mas ainda sem data agendada. Vereadores, porém, cobram respostas sobre pedidos de informação ao Legislativo e criticam falta de transparência sobre contrato, aditivos e “plano de ação”. MP cita barreiras físicas e ameaças diretas A Recomendação nº 03/2025 integra Procedimento Administrativo de Acompanhamento de Políticas Públicas instaurado para fiscalizar a execução do contrato de saneamento no município. O documento registra que, conforme reunião realizada em 23 de julho de 2025, “a concessionária vem enfrentando impedimentos graves nos distritos e localidades de Antônio Pereira, Rodrigo Silva, Bocaina, Santo Antônio do Salto e Mota, incluindo resistência organizada, hostilidade e risco à integridade física dos trabalhadores, inviabilizando a continuidade da instalação de hidrômetros”. Em resposta ao MP, a Saneouro relatou que “trabalhadores vêm sendo bloqueados por barreiras físicas, aglomerações e ameaças diretas, comprometendo a padronização das redes e a instalação dos hidrômetros”. O promotor destaca ainda que a concessionária, “embora formalmente adimplente com as metas contratuais, não tem conseguido avançar materialmente em razão dos impedimentos relatados, apesar das campanhas educativas, comunicados à imprensa e reuniões comunitárias realizadas”. Prefeitura: não cabe mediar conflito sobre obrigação contratual Na Nota Técnica, a Prefeitura delimita seu papel como poder concedente: “Não se insere no escopo de atuação do Poder Concedente a função de mediação de conflitos comunitários que tenham por objeto a resistência ao cumprimento de obrigações legais e contratuais expressas, como é o caso da instalação de equipamentos de medição.” O documento cita a Cláusula 25.1, alínea “l”, do Contrato de Concessão, que estabelece como dever do usuário “permitir a instalação de hidrômetro para aferição do consumo”. Para o Município, a relação é “de natureza pública e vinculada, na qual a concessionária tem o dever de prestar o serviço e realizar os investimentos, e os usuários possuem o dever correlato de permitir a instalação dos hidrômetros”. A Nota esclarece que “a atuação da Prefeitura foca-se na exigência do cumprimento das obrigações contratuais por ambas as partes, visando o interesse público difuso da universalização do saneamento e da justiça tarifária, e não na negociação política de cláusulas técnicas já licitadas e contratadas”. Sobre a fiscalização, a Prefeitura informa que mantém “vigilância constante e rigorosa” através da Secretaria Municipal Adjunta de Água e Esgoto (SAMAE), com análise de relatórios mensais e notificações frequentes à Saneouro sobre “desconformidades específicas na prestação dos serviços”, incluindo vazamentos, recomposição asfáltica e casos de desabastecimento. Guarda Municipal atuará sob coordenação da PM O apoio municipal à hidrometração incluirá “a coordenação da atuação da Guarda Civil Municipal”, segundo a Nota Técnica. O documento ressalta que “a atuação municipal ocorre sob a coordenação da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, a quem o Ministério Público também dirigiu recomendação para garantir a segurança ostensiva e resguardar a integridade física das equipes de trabalho e a ordem pública”. O objetivo declarado é “garantir a segurança dos agentes envolvidos na operação, assegurar o livre acesso às infraestruturas públicas de saneamento e garantir a ordem administrativa necessária para a execução dos serviços”. A recomendação do MP é clara ao estabelecer que cabe à Polícia Militar “garantir apoio e segurança às equipes da Saneouro nas fases iniciais da instalação dos hidrômetros, especialmente nas localidades com histórico de impedimentos, resguardando a integridade dos trabalhadores e a ordem pública”. Saneouro: cronograma será apresentado à população Em resposta ao Vintém, a Saneouro confirmou que “a instalação de hidrômetros em Antônio Pereira decorre de recomendação do Ministério Público” e informou que, “conforme acertado em reunião entre representantes da Saneouro, do Legislativo municipal e da comunidade de Antônio Pereira, em 04/02/2026, a Saneouro vai preparar o cronograma de instalação de hidrômetros para apresentação prévia à população”. Sobre a gratuidade, a empresa confirmou: “A instalação é gratuita, conforme comunicado pela Saneouro em 15 de janeiro de 2026.” Quanto à participação social, a resposta foi: “Sim, está prevista reunião com moradores antes da sequência à hidrometração e ainda não foi agendada.” A empresa não informou, porém, quantos imóveis serão contemplados, quais áreas receberão os equipamentos primeiro, nem se há condições técnicas prévias exigidas dos moradores (como adequação interna ou caixa padrão). Vereadores cobram transparência sobre contrato O vereador Wanderley Kuruzu divulgou que o promotor Emmanuel Levenhagen determinou, em reunião no MP, que “a empresa vai ter que responder a todos os pedidos de informação de vereadores isolados, bem como da Câmara como um todo”. Questionada pelo Vintém sobre quantos pedidos formais recebeu de vereadores em 2025-2026 e quantos foram respondidos, a Saneouro não apresentou números. A resposta: “A Saneouro preza pela transparência e o bom relacionamento tanto com a comunidade quanto com órgãos públicos, buscando sempre atender e responder as demandas recebidas.” Sobre o prazo padrão para resposta a ofícios do Legislativo municipal, a empresa repetiu a mesma frase genérica: “A Saneouro busca sempre atender e responder as demandas recebidas.” Kuruzu também anunciou que a promotora Thalita Coelho, responsável pelo patrimônio público, receberá vereadores “para conversarmos sobre o contrato, o tal aditivo do contrato e o misterioso plano de ação

Prefeitura aprova troca de controle da Saneouro para empresa dos Emirados Árabes, mas exige termo de compromisso para garantir investimentos

Parecer jurídico obtido com exclusividade pelo Vintém revela que mudança de controle societário foi autorizada em janeiro mediante condições; TAQA, do grupo de energia de Abu Dhabi, assumirá lugar da controladora coreana GS E&C quando operação global for concluída A Procuradoria Geral do Município de Ouro Preto aprovou em 19 de janeiro a mudança de controle societário indireto da Saneouro, operação que transferirá o comando final da empresa da sul-coreana GS Engineering & Construction Corporation (GS E&C) para a Abu Dhabi National Energy Company PJSC (TAQA), conglomerado sediado nos Emirados Árabes Unidos. A autorização, porém, não foi incondicional. O Parecer Jurídico nº 007/2026, obtido com exclusividade pelo Vintém, estabelece que a eficácia da mudança depende da assinatura de um Termo de Compromisso entre Prefeitura, Saneouro e a controladora direta brasileira (GS Inima Brasil) garantindo a manutenção integral de investimentos e obrigações contratuais. O processo de venda ainda está em curso e depende de aprovações regulatórias em diversos países. A operação, anunciada globalmente em 2025, envolve a alienação da totalidade (100%) da holding espanhola GS Inima Environment S.A., que controla a GS Inima Brasil — esta, por sua vez, é a acionista majoritária direta da Saneouro. O que mudará e o que não mudará A transação alterará o topo da pirâmide societária, mas não mexe na estrutura operacional imediata em Ouro Preto. A GS Inima Brasil permanecerá como controladora direta da Saneouro, mantendo a gestão cotidiana, o acervo técnico e a responsabilidade legal pela concessão. O procurador-geral do município, Diogo Ribeiro dos Santos, e o gerente de Contratos e Convênios, Victor Schittini Teixeira, assinam o parecer que reconhece essa distinção: “O controle societário efetivo da Concessionária SANEOURO é exercido materialmente pela GS Inima Brasil Ltda., a qual mantém a titularidade da maioria do capital votante e o poder de gestão direta.” Para os juristas municipais, isso permite enquadrar a operação na Cláusula 13.12 do Contrato de Concessão nº 06/2018 — que prevê comunicação ao poder concedente para alterações que não impliquem mudança no controle direto — e não na Cláusula 13.8, que exigiria anuência prévia nos moldes de uma nova licitação. Por que a Prefeitura precisava aprovar Embora a venda ocorra em nível internacional, a Lei Federal nº 8.987/1995 (Lei de Concessões) exige que o poder concedente seja comunicado e possa verificar se o novo controlador mantém as qualificações técnicas, jurídicas e econômico-financeiras necessárias para executar o serviço público. A preocupação central, explica o parecer, é “a preservação das condições de habilitação técnica, jurídica, econômica e financeira que fundamentaram a outorga da concessão, bem como a garantia da continuidade dos vultosos investimentos necessários à universalização do saneamento básico em Ouro Preto”. O documento cita precedentes do Supremo Tribunal Federal (ADI 2.946/DF) e do Tribunal de Contas da União (Acórdão 1010/2004) para fundamentar que alterações societárias que preservam o objeto contratual e a capacidade de execução não demandam novo certame licitatório, mas exigem salvaguardas. As condições impostas pela Prefeitura O Termo de Compromisso, cuja assinatura é condição para validar a operação, deverá conter cláusulas “expressas e irrevogáveis” estabelecendo que: a) Todas as obrigações, metas, prazos e condições do Contrato de Concessão nº 06/2018 e seus aditivos serão mantidas integralmente b) O planejamento de investimentos para universalização do abastecimento de água e esgotamento sanitário será executado “independentemente das políticas corporativas do novo controlador indireto” c) A governança da Saneouro permanecerá “dotada de autonomia técnica e financeira suficiente para o cumprimento do contrato” d) A alteração do controle indireto não poderá ser invocada “em momento algum” como causa para pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro ou como excludente de responsabilidade por inadimplementos contratuais O parecer deixa explícito: “A Administração Pública tem o dever de assegurar que essa ‘comunicação’ venha acompanhada de garantias robustas de que o novo controlador indireto ratifica e assume, integralmente, os ônus e obrigações da concessão.” Capacidade financeira verificada A Saneouro apresentou à Prefeitura documentação comprobatória incluindo balanços patrimoniais auditados e demonstrações financeiras da GS Inima Brasil, atestados de capacidade técnica e certidões do CREA. O parecer conclui que “a capacidade técnica e financeira se mantém ou se amplia com a entrada da TAQA (grupo de reconhecida solidez global)”. O documento registra ainda que a empresa investiu R$ 1,5 milhão na perfuração de poço profundo para abastecimento de Antônio Pereira, entregue em junho de 2022, e comprovou capacidade de monitoramento em tempo real através do Centro de Controle Operacional instalado na sede. Diretoria renovada em meio à transação Um detalhe relevante destacado pelo parecer: a eleição de nova diretoria ocorreu “em momento concomitante e posterior ao anúncio da transação internacional”, com registro na Junta Comercial de Minas Gerais (JUCEMG). A Procuradoria interpreta isso como “indício robusto de que a transição acionária no nível da holding espanhola não acarretou um vácuo decisório ou uma desestruturação da empresa em Ouro Preto”. O parecer menciona especificamente a manutenção de Paulo Roberto de Oliveira como presidente e de Fernando Schlieper, “demonstrando a intenção de manter a governança da SANEOURO sob o controle da GS Inima Brasil”. Quem é a TAQA A Abu Dhabi National Energy Company (TAQA) é um conglomerado de energia baseado nos Emirados Árabes Unidos com operações globais em geração de energia, transmissão e distribuição, óleo e gás. A empresa está listada na bolsa de Abu Dhabi e é controlada pelo governo do emirado através da Abu Dhabi Developmental Holding Company (ADQ). A aquisição da GS Inima faz parte da estratégia de diversificação da TAQA no setor de infraestrutura, especialmente em serviços ambientais e saneamento. Próximos passos e aprovações pendentes O parecer recomenda “o encaminhamento dos autos à autoridade competente para a convocação da Concessionária visando a elaboração e assinatura do Termo de Compromisso, após o que deverá ser formalizado o ato de consentimento à alteração do controle indireto”. Até o fechamento desta reportagem, o Vintém não conseguiu confirmar com a Prefeitura se o Termo de Compromisso já foi assinado ou quando será agendada a assinatura. A Saneouro também foi procurada mas não se pronunciou sobre o cronograma. A operação de compra e venda

UFOP registra 54 mil inscrições no SiSU 2026 e triplica demanda em dois anos

Universidade saltou de 16 mil inscrições em 2024 para 54 mil em 2026; mudança para edição única e uso de três anos do Enem explicam crescimento de 227% A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) registrou 54.033 inscrições no Sistema de Seleção Unificada (SiSU) em 2026, consolidando crescimento expressivo na demanda por vagas. O número é mais que o triplo das inscrições de 2024, quando o processo seletivo começou a funcionar em formato anual com duas entradas ao longo do ano. A trajetória mostra salto contínuo: 16.474 inscrições em 2024, 38.363 em 2025 e agora 54.033 em 2026. De 2024 para 2026, o aumento foi de 227,8%. Apenas entre 2025 e 2026, a universidade registrou crescimento de 40,9%. “A adoção de três edições do Enem para inscrição e classificação dos candidatos foi um fator preponderante no aumento do número de inscrições. Além disso, o Enem vem ampliando o número de participações nos últimos anos, o que impacta diretamente o SiSU”, explica a pró-reitora adjunta de Graduação, Hermelinda Gomes Dias. Mudança no formato a partir de 2024 Desde 2024, o SiSU da UFOP passou a ocorrer em edição única anual, diferentemente do modelo anterior que previa dois processos seletivos por ano (um por semestre). Apesar de ser edição única, o formato atual permite duas entradas de estudantes ao longo do ano letivo. A principal mudança que explica o crescimento exponencial é a possibilidade de candidatos utilizarem notas de três edições diferentes do Enem para se inscrever e concorrer às vagas. Antes, cada processo seletivo aceitava apenas a nota do Enem mais recente. Com a flexibilização, estudantes que fizeram o exame em anos anteriores podem continuar usando suas notas, ampliando significativamente o público elegível para concorrer às vagas da UFOP. Contexto nacional favorece universidade O aumento também reflete movimento nacional de crescimento do próprio Enem. Nos últimos anos, o exame tem registrado aumento no número de inscritos, o que naturalmente expande a base de candidatos potenciais para o SiSU de todas as universidades federais. Para a UFOP, o crescimento da demanda representa reconhecimento institucional e ampliação da visibilidade nacional da universidade, que compete por estudantes com instituições de todo o país através do sistema unificado. O desafio agora é manter a qualidade do processo seletivo, garantir estrutura adequada para receber os ingressantes e continuar atraindo candidatos qualificados para os cursos oferecidos nos campi de Ouro Preto, Mariana e João Monlevade. 📊 EVOLUÇÃO DAS INSCRIÇÕES NO SISU DA UFOP 2024: 16.474 inscrições2025: 38.363 inscrições (+132,8%)2026: 54.033 inscrições (+40,9% em relação a 2025 / +227,8% em relação a 2024) Mudanças no processo:

Cartografia: conheça a importância das mulheres na elaboração de mapas ao longo da história

Gladys West desenvolveu os modelos matemáticos por trás dos sistemas de GPS: embora as contribuições técnicas das mulheres abranjam toda a história da cartografia, elas são difíceis de identificar e documentar. U.S. Navy/Wikimedia Commons Melinda Laituri, Colorado State University Embora as mulheres sempre tenham feito parte do panorama cartográfico, suas contribuições para a cartografia foram negligenciadas por muito tempo. A elaboração de mapas tem sido tradicionalmente associada aos homens, desde a projeção do mundo de Mercator no século XVI até agrimensores como George Washington e Thomas Jefferson, que mapeavam propriedades no século XVIII, e o desenvolvimento de sistemas de informação geográfica por Roger Tomlinson na década de 1960. A cartografia e os campos relacionados às tecnologias geoespaciais continuam sendo dominados pelos homens. Mas, como geógrafa e especialista em sistemas de informação geográfica, tenho observado como as oportunidades para as mulheres como cartógrafas mudaram nas últimas cinco décadas. O advento de tecnologias como os sistemas de informação geográfica aumentou as oportunidades de educação, emprego e pesquisa para as mulheres, tornando a cartografia mais acessível. A paisagem feminina As mulheres têm sido essenciais para a forma como as pessoas veem e compreendem o mundo. O conceito da “Mãe Terra” ou da “Mãe Natureza” como o centro do Universo e fonte de toda a vida está presente em culturas indígenas de todo o mundo. No século XX, a comunidade científica e os ativistas ambientais adotaram o termo Gaia — a deusa grega que personifica a Terra, mãe de todas as divindades — para refletir a noção da Terra como um sistema vivo. Gaia é representada como feminina e entendida como uma força orientadora na manutenção da atmosfera, dos oceanos e do clima. A representação da Terra como mulher foi reformulada com o surgimento do nacionalismo, quando os termos “pátria” e “terra natal” adquiriram significados distintos. Pátria implicava herança e tradição, enquanto terra natal sugere local de nascimento e senso de pertencimento. Essas construções de gênero aparecem em todas as culturas. Europa Regina (1570). Sebastian Münster/Wikimedia Commons Outro aspecto da natureza de gênero da cartografia é a maneira como os mapas usavam formas femininas para retratar características. Mapas antropomórficos do século XVI ao XIX demonstram como os cartógrafos usavam figuras femininas para retratar países europeus. Por exemplo, o mapa “Europa Regina” do cartógrafo Johannes Putsch, originalmente desenhado em 1537, estabeleceu o modelo para mapas posteriores nos quais as nações são representadas como mulheres em várias poses e diferentes estados de vestimenta — ou sem vestimenta —, embora não correspondam exatamente às formas reais dos relevos. Esses mapas refletem as mudanças nos significados culturais e políticos associados ao território e ao poder. A paisagem feminina, ou a mulher como mapa, é frequentemente usada para retratar países como ativos, agressivos ou passivos, dependendo do status do Estado-nação em relação à guerra e à paz e dos estereótipos de um país. Tecnologia e o papel das mulheres na cartografia Embora as contribuições técnicas das mulheres abranjam toda a história da cartografia, elas são difíceis de identificar e documentar. Mas um olhar mais atento revela a variedade de papéis que as mulheres desempenharam na cartografia. Um dos primeiros exemplos conhecidos de um mapa feito por uma mulher data do século IV, quando a irmã do primeiro-ministro da dinastia Han na China bordou um mapa em seda. Durante os séculos XV e XVI, as mulheres eram contratadas para colorir mapas e contribuir com detalhes artísticos nas bordas. Muitas cartógrafas usavam apenas a inicial do primeiro nome e o sobrenome, ocultando seu gênero e tornando seu trabalho difícil de rastrear. O século XVIII trouxe o advento da impressão, o que abriu novos caminhos para as mulheres participarem como gravadoras de placas de cobre, editoras de mapas e fabricantes de globos. No século XIX, a cartografia tornou-se parte da educação formal para mulheres na América do Norte, onde a interseção entre bordado e geografia produziu globos de tecido e mapas de linho. Mais tarde, com o acesso a papel e lápis, seguiu-se o desenho e a coloração de mapas. A Segunda Guerra Mundial deu início a uma nova era de oportunidades para as mulheres nos Estados Unidos, pois elas foram recrutadas para preencher funções críticas no desenvolvimento cartográfico enquanto os homens eram enviados para a batalha. Conhecidas como “Millie, a cartógrafa”, ou as “donzelas do mapeamento militar”, mulheres produziam mapas topográficos, interpretavam fotografias aéreas e ajudavam a avançar a fotogrametria, o uso de fotos para criar modelos 3D da topografia da Terra. As ‘donzelas do mapeamento militar’ criaram dezenas de milhares de mapas durante a Segunda Guerra Mundial. Alfred T Palmer/Escritório de Informação de Guerra via Biblioteca do Congresso Com base no papel cada vez mais importante das mulheres na cartografia, na década de 1950, Evelyn Pruitt, do Escritório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos, criou o termo sensoriamento remoto, referindo-se ao uso de imagens de satélite para observar, medir e mapear a Terra. No mesmo período, a matemática Gladys West desenvolveu os modelos matemáticos para sistemas de posicionamento global, conhecidos como GPS. Mulheres criando mapas As mulheres também supervisionaram a criação de mapas de várias maneiras. As sociedades matriarcais indígenas expressavam informações espaciais por meio de diferentes formas de cartografia. Isso inclui canções, danças e rituais que identificavam recursos comunitários importantes, como nascentes, bosques sagrados e rotas de migração. O desenvolvimento da cartografia europeia foi impulsionado pela Era dos Descobrimentos, do século XV ao XVII, e pelas atividades empreendedoras associadas à reprodução e venda de mapas. As mulheres frequentemente assumiam essas funções após a morte de seus maridos, garantindo a continuidade dos negócios familiares. Não apenas os reis, mas também as rainhas determinavam quais mapas eram necessários. Por exemplo, a Rainha Elizabeth I encomendou o Atlas da Inglaterra e do País de Gales de 1579, um dos primeiros atlas nacionais. Ele apresentava um mapa de todo o país, acessível de casa ou de uma sala de leitura. Mulheres definindo a direção dos mapas Enquanto os primeiros mapas posicionavam as mulheres principalmente como figuras simbólicas para projetar significado político ou

Ouro Preto planta 30 mil pés de café e aposta em nova vocação econômica além do minério

Município historicamente ligado ao ouro investe em cafeicultura especial com apoio de associação regional, governos e mineradora; distritos como Rodrigo Silva, São Bartolomeu e Glaura lideram produção Ouro Preto plantou 30 mil novos pés de café e aposta na consolidação de uma atividade econômica que, até pouco tempo, seria difícil associar à cidade histórica. O anúncio foi feito nesta sexta-feira, 7 de fevereiro, pelo prefeito Angelo Oswaldo, em vídeo publicado nas redes sociais oficiais do município. “Ouro Preto tem café e vai ter mais ainda. Uma associação de produtores de cafés especiais acaba de ser criada na região dos Inconfidentes. Com a nossa região, nós vamos ter uma produção bastante significativa”, declarou o prefeito, ao lado do secretário municipal de Agropecuária, Sebastião Evasio. A cafeicultura é recente em Ouro Preto. Municípios vizinhos como Itabirito já têm tradição no cultivo, mas em Ouro Preto — historicamente associado ao ciclo do ouro e à mineração — o café começa a ganhar espaço como alternativa econômica para produtores rurais. Os distritos de Rodrigo Silva, Piedade, Moreira, Maciel, São Bartolomeu, Engenho D’Água e Glaura concentram a produção. Apoio institucional em três frentes O prefeito Angelo Oswaldo anunciou apoio articulado de três secretarias municipais para fortalecer a cadeia do café: Agropecuária (Sebastião Evasio), Desenvolvimento Econômico (Felipe Guerra) e Cultura e Turismo (Flávio Pimenta). “Garantimos pela Secretaria de Agropecuária, pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, pela Secretaria de Cultura e Turismo, todo o apoio à Associação de Produtores de Cafés Especiais. Vamos estar juntos dando esse apoio para essa nova marca de cafés especiais surgir em breve”, afirmou o prefeito. A estratégia une três dimensões: técnica (manejo, cultivares, tratos culturais), econômica (estruturação de marca regional, comercialização) e turística (cafés especiais como produto de identidade local, agregando valor ao turismo). Articulação começou em 2025 O marco público da cafeicultura em Ouro Preto foi o 1º Dia de Campo do Café Especial Sustentável dos Inconfidentes, realizado em 19 de julho de 2025, na Fazenda Vale do Caixeta, distrito de Rodrigo Silva. O evento reuniu cerca de 50 produtores rurais e foi promovido pelas prefeituras de Ouro Preto e Itabirito, pela Fazenda Vale do Caixeta, pelo Sistema Faemg/Senar e pela Sociedade de Produtores Rurais de Itabirito e Ouro Preto (SPR), com apoio da Vale e do programa PRA Produzir Sustentável. Na ocasião, o secretário Sebastião Bonifácio falou em reconhecimento do município por café “com qualidade” e “responsabilidade ambiental”. O proprietário da Fazenda Vale do Caixeta, Guilherme Pedrosa, destacou a mudança em curso: “É estranho associar Ouro Preto, que sempre foi minério, ao café. Mas isso está mudando.” O produtor Ricardo César defendeu a união: “Precisamos unir os produtores da região para consolidar a atividade.” APCEI: a associação que nasce com o café A Associação de Produtores de Cafés Especiais dos Inconfidentes (APCEI) surge como desdobramento dessa articulação. Fundada em novembro de 2025, a associação se apresenta publicamente como organização voltada para fortalecer e difundir o cultivo de cafés especiais na região dos Inconfidentes. Próximos passos: marca regional e mercado O plantio de 30 mil pés é parte de uma estratégia maior: consolidar Ouro Preto como produtor de cafés especiais e criar marca regional que agregue valor ao produto. “O pessoal está animado e nós queremos estar juntos também, dando esse apoio. Em breve, [Ouro Preto] vai ter várias marcas de café da região dos Inconfidentes”, prometeu o prefeito Angelo Oswaldo. A aposta é que o café, produto tradicionalmente mineiro mas até agora pouco presente em Ouro Preto, se some ao ouro, ao barroco e ao turismo como elemento de identidade econômica — uma vocação nova para uma das cidades mais antigas do Brasil.

Mundo entrou em estado de “falência hídrica”, alertam pesquisadores da ONU

Kaveh Madani, United Nations University O mundo está usando tanta água doce em meio às consequências das mudanças climáticas que entrou em uma era de “falência hídrica”, com muitas regiões incapazes de se recuperar da frequente falta de água. Cerca de 4 bilhões de pessoas — quase metade da população global — vivem sob escassez severa de água por pelo menos um mês por ano, sem acesso a água suficiente para atender a todas as suas necessidades. Muitas outras pessoas estão vendo as consequências do déficit hídrico: reservatórios secos, cidades afundando, quebras de safra, racionamento de água e incêndios florestais e tempestades de areia e poeira mais frequentes. Os sinais de falência hídrica estão por toda parte, desde Teerã, onde as secas e o uso insustentável da água esgotaram os reservatórios dos quais a capital iraniana depende, alimentando as tensões políticas, até os EUA, onde a demanda por água ultrapassou a oferta do Rio Colorado, uma fonte crucial de água potável e irrigação para sete estados americanos. As secas tornaram mais difícil encontrar água para o gado e levaram à desnutrição generalizada em partes da Etiópia nos últimos anos. Em 2022, o Unicef estimou que cerca de 600.000 crianças precisariam de tratamento para desnutrição grave. Demissew Bizuwerk/UNICEF Etiópia, CC BY A falência hídrica não é apenas uma metáfora para o déficit hídrico. É uma condição crônica que se desenvolve quando um local usa mais água do que a natureza pode reabastecer de forma confiável e quando os danos aos ativos naturais que armazenam e filtram essa água, como aquíferos e zonas úmidas, se tornam difíceis de reverter. Um novo estudo que conduzi com o Instituto da Universidade das Nações Unidas para a Água, o Meio Ambiente e a Saúde conclui que o mundo já ultrapassou o ponto das crises hídricas temporárias. Muitos sistemas hídricos não são mais capazes de retornar às suas condições naturais históricas. Esses sistemas estão em estado de fracasso – falência hídrica. Kaveh Madani, diretor do Instituto da Universidade das Nações Unidas para a Água, o Meio Ambiente e a Saúde, explica o conceito de “falência hídrica”. TVRI World. Como é a falência hídrica na vida real Na falência financeira, os primeiros sinais de alerta muitas vezes parecem administráveis: atrasos nos pagamentos, empréstimos e venda de bens que você esperava manter. Então, a espiral se fecha. A falência hídrica tem etapas semelhantes. No início, extraímos um pouco mais de água subterrânea durante os anos de seca. Usamos bombas maiores e poços mais profundos. Transferimos água de uma bacia para outra. Drenamos pântanos e endireitamos rios para abrir espaço para fazendas e cidades. Então, os custos ocultos aparecem. Os lagos encolhem ano após ano. Os poços precisam ser cada vez mais profundos. Rios que antes corriam o ano todo tornam-se sazonais. Água salgada invade os aquíferos. Como o Mar de Aral encolheu de 2000 a 2011. O lago de água doce já foi mais oval, cobrindo as áreas claras ainda na década de 1980, mas o uso excessivo de sua água para a agricultura por vários países o fez encolher. NASA Este último efeito, a subsidência, costuma surpreender as pessoas. Mas é um sinal característico da escassez de água. Quando as águas subterrâneas são bombeadas e usadas em excesso, a estrutura subterrânea, que retém esta água quase como uma esponja, pode entrar em colapso. Na Cidade do México, o solo está afundando cerca de 25 centímetros por ano. Uma vez que os poros ficam compactados, eles não podem ser simplesmente preenchidos novamente. O relatório Global Water Bankruptcy, publicado em 20 de janeiro de 2026, documenta como isso está se tornando comum. A extração de água subterrânea contribuiu para um afundamento significativo do solo em mais de 6 milhões de quilômetros quadrados em todo mundo, incluindo áreas urbanas onde vivem cerca de 2 bilhões de pessoas. Jacarta, Bangkok e Ho Chi Minh estão entre os exemplos mais conhecidos na Ásia. Um buraco no coração agrícola da Turquia mostra como a paisagem pode desmoronar quando se extrai mais água subterrânea do que a natureza consegue repor. Ekrem07, 2023, Wikimedia Commons, CC BY A agricultura é a maior consumidora de água do mundo, responsável por cerca de 70% do uso global de água doce . Quando uma região fica sem água, a agricultura se torna mais difícil e mais cara. Agricultores perdem seus empregos, tensões aumentam e a segurança nacional pode ser ameaçada. Cerca de 3 bilhões de pessoas e mais da metade da produção global de alimentos estão concentradas em áreas onde a capacidade de armazenamento de água já está diminuindo ou é instável. Mais de 1,7 milhão de quilômetros quadrados de terras agrícolas irrigadas estão sob estresse hídrico alto ou muito alto. Isso ameaça a estabilidade do abastecimento alimentar em todo o mundo. Na Califórnia, uma seca severa e a escassez de água forçaram alguns agricultores em 2021 a remover culturas que exigem muita irrigação, incluindo amendoeiras. Robyn Beck/AFP via Getty Images As secas estão também aumentando em duração, frequência e intensidade à medida que as temperaturas globais se elevam. Mais de 1,8 bilhão de pessoas — quase 1 em cada 4 seres humanos — enfrentaram condições de seca em vários momentos entre 2022 e 2023. Esses números se traduzem em problemas reais: preços mais altos dos alimentos, escassez de energia hidrelétrica, riscos à saúde, desemprego, pressões migratórias, agitação social e conflitos. O mundo está pronto para lidar com os riscos à segurança nacional relacionados à água? CNN. Como chegamos a este ponto? Todos os anos, a natureza dá a cada região uma “renda hídrica”, depositando chuva e neve. Pense nisso como uma conta corrente. Essa é a quantidade de água que recebemos a cada ano para gastar e compartilhar com a natureza. Quando a demanda aumenta, podemos sacar de nossa conta poupança. Retiramos mais água subterrânea do que será reposta. Roubamos a parte da água necessária para a natureza e, nesse processo, drenamos as zonas úmidas. Isso pode funcionar por um tempo, assim como as dívidas podem