Larissa tinha 25 anos. Maria Fernanda, dois. O que os matou começa muito antes da faca
Na tarde de terça-feira, 3 de fevereiro de 2026, vizinhos do bairro Santa Clara, em Mariana, ouviram gritos vindos de uma casa na rua Caetano Pinto. Depois, silêncio. Quando a Polícia Militar chegou, encontrou Larissa Maria de Oliveira, 25 anos, e a filha do casal, Maria Fernanda Oliveira Gomes, 2 anos, mortas no quintal da residência, abraçadas, com múltiplas lesões na cabeça, no pescoço e nos membros. O facão usado no crime foi encontrado no terreno vizinho.
O companheiro delas, Felipe Gomes Cordeiro, 24 anos, chegou ao local acompanhado do padrasto e ele mesmo conduziu os policiais até os corpos. Preso em flagrante, apresentou versões contraditórias. Acabou confessando. Sua prisão foi convertida em preventiva no dia seguinte. Ele deve permanecer preso até o julgamento.
A Prefeitura de Mariana classificou o crime como “brutal” e prestou solidariedade aos familiares. “Um crime brutal, que causa indignação e tristeza em toda cidade”, dizia o comunicado oficial. No sábado seguinte, 7 de fevereiro, centenas de pessoas foram às ruas em uma marcha convocada por moradores — batizada de Marcha dos Homens, com concentração no Centro de Convenções e caminhada até a Praça Minas Gerais. Uma familiar de Larissa e Maria Fernanda tomou a palavra e lembrou que o feminicídio é o estágio final de uma violência que começa muito antes.
Mas enquanto a cidade enlutuada marchava, parte da cobertura jornalística do caso trilhava outro caminho.
A narrativa que mata duas vezes
Nos dias que se seguiram ao crime, algumas publicações escolheram destacar em seus títulos a versão do próprio suspeito — a de que uma “suposta traição” teria “motivado” ou “levado” o homem a matar. O problema não é mencionar o contexto alegado pelo suspeito. O problema é transformar essa alegação no enquadramento central da história: quando o título diz que a traição “levou” alguém a matar, está construindo uma relação de causalidade. Não descreve o crime — explica, e ao explicar, justifica.
— Campanha da Associação Riograndense de Imprensa, 2026
O Projeto Ariadnes, observatório de mídia, gênero e sexualidade da UFOP, sediado no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas de Mariana, publicou em suas redes sociais uma análise da cobertura do caso — apontando exatamente esse padrão. O projeto, coordenado pela professora Karina Gomes Barbosa e com atuação na formação de jornalistas da Região dos Inconfidentes, tem realizado oficinas sobre cobertura ética de feminicídios desde 2025. A publicação gerou ampla repercussão e debate entre moradores e profissionais da comunicação.
A pesquisadora e linguista Ana Maduro, cujo trabalho embasou um projeto de lei debatido na Câmara Legislativa do Distrito Federal em março de 2026, resume o mecanismo: “Muitas manchetes acabam diminuindo a responsabilidade do agressor ao sugerir motivações relacionadas ao comportamento da vítima.” O ciclo se fecha quando a cobertura replica e amplifica a mesma lógica que estrutura a violência de gênero: a de que a mulher é responsável pelo que acontece a ela.
Traição, real ou suposta, não justifica assassinato. Nem de uma mulher adulta. Nem de uma criança de dois anos.
O que os dados dizem sobre nossa região
O caso de Larissa e Maria Fernanda não é isolado. Os dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais mostram que a violência doméstica é persistente nas três cidades que o Vintém cobre. Ouro Preto lidera em números absolutos entre elas: foram 588 registros em 2021, subindo para 703 em 2022 e 697 em 2023. Até abril de 2024, o município já acumulava 256 casos — um ritmo que sugeria encerrar o ano próximo dos recordes anteriores.
Em Mariana, a média histórica é igualmente elevada: 638 registros em 2021, 605 em 2022, 607 em 2023. A Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania do município informou, até junho de 2024, uma média de 13 novos casos de violência atendidos por mês — com violência física, psicológica e abuso sexual entre as formas mais comuns. Itabirito registrou 461 casos em 2021, queda para 346 em 2022, retorno a 405 em 2023.
Esses números, cabe lembrar, dizem respeito às ocorrências registradas. A subnotificação é histórica: o medo, a dependência financeira, o estigma social e, especialmente em cidades menores, o risco de exposição em comunidades onde agressor e vítima são conhecidos de todos — tudo isso mantém uma parte significativa dos casos fora das estatísticas oficiais.
| Município | 2021 | 2022 | 2023 | Jan–Abr 2024 |
|---|---|---|---|---|
| Ouro Preto | 588 | ↑ 703 | 697 | 256 |
| Mariana | 638 | 605 | 607 | 173 |
| Itabirito | 461 | ↓ 346 | 405 | 144 |
Registros de violência doméstica — todas as formas (física, psicológica, sexual, patrimonial). Os números refletem ocorrências registradas, não o total real: especialistas estimam subnotificação significativa, especialmente em cidades de médio porte.
Minas Gerais registrou 133 feminicídios consumados em 2024 — queda de 20,36% em relação a 2023, a maior redução do país, mas ainda o 2º estado em números absolutos, atrás apenas de São Paulo. Em 2025, MG registrou 139 casos (jan–nov). Cidades com até 100 mil habitantes — como Mariana, Ouro Preto e Itabirito — apresentam taxa 28,5% superior à média nacional.
O ciclo que vem antes do crime
Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o feminicídio quase sempre é precedido por agressões físicas, psicológicas e pelo descumprimento de medidas protetivas. São sinais que, identificados a tempo, podem evitar o desfecho mais grave. A análise de 5.729 casos entre 2021 e 2024 identificou um padrão recorrente: não se trata de eventos súbitos ou imprevisíveis, mas do estágio final de um continuum de violências.
Entender esse continuum é o que diferencia a cobertura que informa da cobertura que obscurece. Quando uma manchete apresenta o feminicídio como resultado de uma “paixão”, um “ciúme” ou uma “traição”, ela apaga justamente o que veio antes — o histórico de agressões, as ameaças, os pedidos de socorro que pode ter havido e que ninguém ouviu. Apaga também a responsabilidade do Estado em fazer as medidas protetivas funcionarem.
O ciclo tende a se encurtar e a intensidade das agressões aumenta ao longo do tempo. O momento de maior risco para a vítima é frequentemente quando ela tenta sair do relacionamento. Intervenção em qualquer fase pode salvar vidas.
O Projeto Ariadnes e a formação que a imprensa local precisa
Quando o Projeto Ariadnes publicou sua análise crítica da cobertura do caso de Mariana, estava fazendo o que vem fazendo desde 2025: chamar atenção para os padrões que naturalizam a violência de gênero na mídia regional. O observatório, vinculado ao curso de Jornalismo da UFOP e sediado no campus de Mariana, já realizou oficinas sobre cobertura de feminicídios, transfeminicídios, violência sexual e uso de imagens em reportagens sobre violência de gênero. O público prioritário são jornalistas da própria Região dos Inconfidentes.
A resposta do projeto ao caso de Mariana foi pontual, mas o trabalho é estrutural: há anos pesquisadores da UFOP têm mapeado como a cobertura local e nacional trata esses crimes — e como esse tratamento pode tanto apoiar vítimas quanto legitimar agressores. A professora Karina Gomes Barbosa, que coordena o projeto, sintetiza o problema que a oficina de outubro de 2025 tentou endereçar: o uso exclusivo do boletim de ocorrência como fonte, o sensacionalismo, a construção da imagem da vítima que ao mesmo tempo a pede socorro e é responsabilizada por seu destino.
A polêmica em torno da cobertura do caso de Larissa e Maria Fernanda mostrou que essa formação é urgente — e que vai além das redações. As redes sociais reproduziram, e em alguns casos amplificaram, os mesmos enquadramentos problemáticos que apareceram nas manchetes. Isso porque o problema não é exclusivamente jornalístico: é cultural.
Como falar sobre feminicídio — o que todos precisamos entender
Jornalistas, professores, médicos, vizinhos, parentes, colegas de trabalho e amigos — todos têm um papel na forma como a violência de gênero é percebida, tolerada ou combatida. Não é necessário trabalhar numa redação para reproduzir narrativas que naturalizam o feminicídio. Basta compartilhar um post que culpa a vítima, comentar que “ela devia saber o que ia acontecer” ou silenciar diante de um sinal de alerta.
- Mencionar “traição”, “ciúmes” ou “crime passional” como explicações para o assassinato
- Perguntar “o que ela fez para provocar isso?”
- Dizer “mas eles eram um casal tão bonito”
- Compartilhar fotos das vítimas em contexto sensacionalista
- Especular sobre a vida íntima da vítima
- Minimizar sinais anteriores de violência
- Dizer “devia ter saído antes” (ignorando os riscos da separação)
- Comentar sobre o aspecto emocional do agressor (“estava sofrendo”)
- Nomear o crime pelo que é: feminicídio
- Centrar a narrativa na vítima: quem ela era, o que deixou
- Contextualizar como estágio final de um ciclo de violência
- Identificar e comunicar sinais de alerta quando perceber em alguém próximo
- Apoiar — sem pressionar — mulheres em situação de violência
- Denunciar quando possível (Ligue 180, Delegacia da Mulher)
- Questionar piadas e comentários que trivializam violência
- Educar crianças e jovens sobre relações saudáveis e consentimento
“Não vamos deixar que as matérias sobre feminicídio terminem apenas com ‘a mulher morreu e deixou três filhos’. É preciso lembrar que ela morreu em virtude de sua condição de ser mulher.”
— Pesquisadora Ana Maduro, durante audiência na CLDF, março 2026
- Use o termo correto: “feminicídio”, não “crime passional”, “tragédia familiar” ou “desentendimento conjugal”. O crime tem nome, e o nome importa.
- Não reproduza a versão do agressor no título. O que o suspeito alega é informação a ser reportada — não enquadramento da história. O título deve descrever o crime, não o justificar.
- Contextualize historicamente. Sempre que possível, apure se havia histórico anterior de violência, medidas protetivas, registros de ocorrência anteriores.
- Centre a vítima como sujeito. Quem era ela? O que fazia? O que deixa? Ela não é apenas o objeto do crime — era uma pessoa com história.
- Diversifique as fontes. Não dependa apenas do boletim de ocorrência. Ouça familiares (com cuidado), serviços de acolhimento, especialistas em violência de gênero, o Projeto Ariadnes, o CREAS.
- Não publique imagens que exponham o local do crime ou os corpos. Nem fotos íntimas da vítima sem contexto e consentimento.
- Inclua sempre os canais de denúncia e apoio — Ligue 180, Delegacia da Mulher, CREAS. A matéria pode ser o momento em que alguém decide pedir ajuda.
- Não use expressões como “crime passional”, “por amor”, “em momento de descontrole”. Essas expressões historicamente foram usadas como defesa jurídica — e ainda hoje funcionam como atenuantes simbólicos.
- Não especule sobre o comportamento da vítima. Se ela traiu ou não, se bebeu ou não, como se vestia — nada disso é contexto relevante para um homicídio.
- Não humanize o agressor à custa da vítima. O sofrimento emocional do agressor não é equivalente ao crime cometido. Equilíbrio não significa dar o mesmo peso a uma morte e a um sentimento.
- Não use fotos do casal “feliz” sem contexto crítico. Essa escolha editorial frequentemente transmite a mensagem de que a violência foi uma surpresa, apagando o histórico.
O Projeto Ariadnes (UFOP) oferece oficinas gratuitas para jornalistas da Região dos Inconfidentes. Acompanhe: @projetoariadnes no Instagram e ariadnes.org
O que cada um pode fazer agora
Não é possível interromper um feminicídio depois que ele acontece. Mas o ciclo que leva a ele pode ser interrompido — e isso exige ação coletiva, em diferentes esferas. O poder público precisa garantir que medidas protetivas funcionem e que as delegacias da mulher estejam acessíveis fora das capitais. A imprensa precisa aprender a contar essas histórias de um jeito que não repita a violência. E cada pessoa precisa decidir que não vai ficar em silêncio quando perceber que algo está errado com alguém próximo.
Em março de 2026 — mês da mulher, mês em que a Lei do Feminicídio completa onze anos —, o Brasil enfrenta o maior número de casos da série histórica. Os Três Poderes firmaram um pacto nacional contra o feminicídio em fevereiro. A UFOP aderiu ao pacto. A cidade de Ouro Preto marchou no Movimento Mulheres Vivas em dezembro passado. Mariana marchou em fevereiro. Mas marchas e pactos não bastam se o feminicídio continuar sendo explicado como consequência do que a mulher fez.
Larissa tinha 25 anos. Maria Fernanda, dois. Elas foram encontradas abraçadas.
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📞Ligue 180 — Central de Atendimento à MulherGratuito, sigiloso, 24h por dia, 7 dias por semana. Orienta, acolhe, encaminha e registra denúncias. Funciona em todo o Brasil.
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🚔190 — Polícia Militar (emergências)Para situações de risco imediato. Em Ouro Preto, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) está disponível para atendimentos.
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🏛️CREAS — Centro de Referência Especializado em Assistência SocialPresente nos três municípios. Oferece acompanhamento psicológico, orientação jurídica e encaminhamento para a rede de proteção. Procure a Secretaria de Desenvolvimento Social do seu município.
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📱Delegacia Virtual de Minas GeraisPermite registrar boletim de ocorrência online em casos de violência doméstica sem precisar comparecer presencialmente em um primeiro momento. Acesse: delegaciavirtual.mg.gov.br
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📲Disque Denúncia 181 — Minas GeraisLigação gratuita para denúncias de violência contra a mulher em Minas Gerais. Disponível para todos os 853 municípios do estado.
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🌐Emergência MG — aplicativoAplicativo da Sejusp-MG para acionamento de emergências. Disponível para download nas principais lojas de aplicativos.
Se você está em risco imediato: ligue 190. Se está em dúvida se o que vive é violência: ligue 180. Se conhece alguém em situação de risco: ligue 180 e comunique ao CREAS do município.