Ouro Preto, terça-feira, abril 14, 2026 23:24

No ano do recorde de feminicídios no Brasil, como está a nossa região?

Foto de Jiljana Isidoro

Jiljana Isidoro

Matéria – Larissa e Maria Fernanda | Vintém

Larissa tinha 25 anos. Maria Fernanda, dois. O que os matou começa muito antes da faca

O feminicídio de mãe e filha em Mariana chocou a região. A cobertura de parte da imprensa chocou também — por razões diferentes. O Vintém apura os dados da violência contra a mulher em Ouro Preto, Mariana e Itabirito e ouve quem trabalha para que cada morte seja contada com o nome certo.

Na tarde de terça-feira, 3 de fevereiro de 2026, vizinhos do bairro Santa Clara, em Mariana, ouviram gritos vindos de uma casa na rua Caetano Pinto. Depois, silêncio. Quando a Polícia Militar chegou, encontrou Larissa Maria de Oliveira, 25 anos, e a filha do casal, Maria Fernanda Oliveira Gomes, 2 anos, mortas no quintal da residência, abraçadas, com múltiplas lesões na cabeça, no pescoço e nos membros. O facão usado no crime foi encontrado no terreno vizinho.

O companheiro delas, Felipe Gomes Cordeiro, 24 anos, chegou ao local acompanhado do padrasto e ele mesmo conduziu os policiais até os corpos. Preso em flagrante, apresentou versões contraditórias. Acabou confessando. Sua prisão foi convertida em preventiva no dia seguinte. Ele deve permanecer preso até o julgamento.

A Prefeitura de Mariana classificou o crime como “brutal” e prestou solidariedade aos familiares. “Um crime brutal, que causa indignação e tristeza em toda cidade”, dizia o comunicado oficial. No sábado seguinte, 7 de fevereiro, centenas de pessoas foram às ruas em uma marcha convocada por moradores — batizada de Marcha dos Homens, com concentração no Centro de Convenções e caminhada até a Praça Minas Gerais. Uma familiar de Larissa e Maria Fernanda tomou a palavra e lembrou que o feminicídio é o estágio final de uma violência que começa muito antes.

Mas enquanto a cidade enlutuada marchava, parte da cobertura jornalística do caso trilhava outro caminho.

A narrativa que mata duas vezes

Nos dias que se seguiram ao crime, algumas publicações escolheram destacar em seus títulos a versão do próprio suspeito — a de que uma “suposta traição” teria “motivado” ou “levado” o homem a matar. O problema não é mencionar o contexto alegado pelo suspeito. O problema é transformar essa alegação no enquadramento central da história: quando o título diz que a traição “levou” alguém a matar, está construindo uma relação de causalidade. Não descreve o crime — explica, e ao explicar, justifica.

“O feminicídio não começa na manchete. Mas a manchete pode determinar se a próxima mulher vai pedir socorro ou vai ficar em silêncio, com medo de não ser acreditada.”
— Campanha da Associação Riograndense de Imprensa, 2026

O Projeto Ariadnes, observatório de mídia, gênero e sexualidade da UFOP, sediado no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas de Mariana, publicou em suas redes sociais uma análise da cobertura do caso — apontando exatamente esse padrão. O projeto, coordenado pela professora Karina Gomes Barbosa e com atuação na formação de jornalistas da Região dos Inconfidentes, tem realizado oficinas sobre cobertura ética de feminicídios desde 2025. A publicação gerou ampla repercussão e debate entre moradores e profissionais da comunicação.

A pesquisadora e linguista Ana Maduro, cujo trabalho embasou um projeto de lei debatido na Câmara Legislativa do Distrito Federal em março de 2026, resume o mecanismo: “Muitas manchetes acabam diminuindo a responsabilidade do agressor ao sugerir motivações relacionadas ao comportamento da vítima.” O ciclo se fecha quando a cobertura replica e amplifica a mesma lógica que estrutura a violência de gênero: a de que a mulher é responsável pelo que acontece a ela.

Traição, real ou suposta, não justifica assassinato. Nem de uma mulher adulta. Nem de uma criança de dois anos.

O que os dados dizem sobre nossa região

O caso de Larissa e Maria Fernanda não é isolado. Os dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais mostram que a violência doméstica é persistente nas três cidades que o Vintém cobre. Ouro Preto lidera em números absolutos entre elas: foram 588 registros em 2021, subindo para 703 em 2022 e 697 em 2023. Até abril de 2024, o município já acumulava 256 casos — um ritmo que sugeria encerrar o ano próximo dos recordes anteriores.

Em Mariana, a média histórica é igualmente elevada: 638 registros em 2021, 605 em 2022, 607 em 2023. A Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania do município informou, até junho de 2024, uma média de 13 novos casos de violência atendidos por mês — com violência física, psicológica e abuso sexual entre as formas mais comuns. Itabirito registrou 461 casos em 2021, queda para 346 em 2022, retorno a 405 em 2023.

Esses números, cabe lembrar, dizem respeito às ocorrências registradas. A subnotificação é histórica: o medo, a dependência financeira, o estigma social e, especialmente em cidades menores, o risco de exposição em comunidades onde agressor e vítima são conhecidos de todos — tudo isso mantém uma parte significativa dos casos fora das estatísticas oficiais.

📊
Dados regionais · Violência doméstica
Ouro Preto, Mariana e Itabirito: o que os registros mostram
Município 2021 2022 2023 Jan–Abr 2024
Ouro Preto 588 ↑ 703 697 256
Mariana 638 605 607 173
Itabirito 461 ↓ 346 405 144

Registros de violência doméstica — todas as formas (física, psicológica, sexual, patrimonial). Os números refletem ocorrências registradas, não o total real: especialistas estimam subnotificação significativa, especialmente em cidades de médio porte.

13
novos casos de violência atendidos por mês em Mariana (média até jun/2024)
166
famílias atendidas mensalmente nos centros de referência de Itabirito
3
municípios com CREAS ativo para acolhimento de vítimas
🇧🇷
Panorama · Minas Gerais e Brasil
Feminicídio: o que os números nacionais dizem sobre o que acontece aqui
1.568
feminicídios consumados no Brasil em 2025 — recorde histórico desde 2015
4,7%
crescimento em relação a 2024, que já havia batido recorde
13.703
mulheres mortas por feminicídio no Brasil desde a tipificação do crime (2015–2025)
4/dia
média de feminicídios consumados no Brasil desde 2022
Ocorrências dentro de casa66,3%
Praticado por parceiro ou ex-parceiro8 em cada 10
Arma utilizada: objetos comuns (faca, facão…)48,7%
Municípios com até 100 mil hab: concentram 50% dos casos50%
Cidades pequenas com delegacia especializadaapenas 5%

Minas Gerais registrou 133 feminicídios consumados em 2024 — queda de 20,36% em relação a 2023, a maior redução do país, mas ainda o 2º estado em números absolutos, atrás apenas de São Paulo. Em 2025, MG registrou 139 casos (jan–nov). Cidades com até 100 mil habitantes — como Mariana, Ouro Preto e Itabirito — apresentam taxa 28,5% superior à média nacional.

O ciclo que vem antes do crime

Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o feminicídio quase sempre é precedido por agressões físicas, psicológicas e pelo descumprimento de medidas protetivas. São sinais que, identificados a tempo, podem evitar o desfecho mais grave. A análise de 5.729 casos entre 2021 e 2024 identificou um padrão recorrente: não se trata de eventos súbitos ou imprevisíveis, mas do estágio final de um continuum de violências.

Entender esse continuum é o que diferencia a cobertura que informa da cobertura que obscurece. Quando uma manchete apresenta o feminicídio como resultado de uma “paixão”, um “ciúme” ou uma “traição”, ela apaga justamente o que veio antes — o histórico de agressões, as ameaças, os pedidos de socorro que pode ter havido e que ninguém ouviu. Apaga também a responsabilidade do Estado em fazer as medidas protetivas funcionarem.

🔄
Contexto · Entenda
O ciclo da violência doméstica: o feminicídio não começa com o golpe final
1
😶
Tensão
Controle, ciúmes, humilhações, isolamento social e familiar. A vítima tenta “não provocar”.
2
💥
Agressão
Violência física, psicológica, sexual ou patrimonial. Pode ser gradual ou explosiva.
3
🙏
Reconciliação
Pedidos de perdão, promessas de mudança, presente. Fase que frequentemente engana vítimas e familiares.
4
😔
“Lua de mel”
Período de calma relativa. O ciclo recomeça com tensão crescente.

O ciclo tende a se encurtar e a intensidade das agressões aumenta ao longo do tempo. O momento de maior risco para a vítima é frequentemente quando ela tenta sair do relacionamento. Intervenção em qualquer fase pode salvar vidas.

O Projeto Ariadnes e a formação que a imprensa local precisa

Quando o Projeto Ariadnes publicou sua análise crítica da cobertura do caso de Mariana, estava fazendo o que vem fazendo desde 2025: chamar atenção para os padrões que naturalizam a violência de gênero na mídia regional. O observatório, vinculado ao curso de Jornalismo da UFOP e sediado no campus de Mariana, já realizou oficinas sobre cobertura de feminicídios, transfeminicídios, violência sexual e uso de imagens em reportagens sobre violência de gênero. O público prioritário são jornalistas da própria Região dos Inconfidentes.

A resposta do projeto ao caso de Mariana foi pontual, mas o trabalho é estrutural: há anos pesquisadores da UFOP têm mapeado como a cobertura local e nacional trata esses crimes — e como esse tratamento pode tanto apoiar vítimas quanto legitimar agressores. A professora Karina Gomes Barbosa, que coordena o projeto, sintetiza o problema que a oficina de outubro de 2025 tentou endereçar: o uso exclusivo do boletim de ocorrência como fonte, o sensacionalismo, a construção da imagem da vítima que ao mesmo tempo a pede socorro e é responsabilizada por seu destino.

A polêmica em torno da cobertura do caso de Larissa e Maria Fernanda mostrou que essa formação é urgente — e que vai além das redações. As redes sociais reproduziram, e em alguns casos amplificaram, os mesmos enquadramentos problemáticos que apareceram nas manchetes. Isso porque o problema não é exclusivamente jornalístico: é cultural.

Como falar sobre feminicídio — o que todos precisamos entender

Jornalistas, professores, médicos, vizinhos, parentes, colegas de trabalho e amigos — todos têm um papel na forma como a violência de gênero é percebida, tolerada ou combatida. Não é necessário trabalhar numa redação para reproduzir narrativas que naturalizam o feminicídio. Basta compartilhar um post que culpa a vítima, comentar que “ela devia saber o que ia acontecer” ou silenciar diante de um sinal de alerta.

💬
Guia · Para todos nós
Como falar sobre feminicídio sem naturalizar a violência
❌ Evitar
  • Mencionar “traição”, “ciúmes” ou “crime passional” como explicações para o assassinato
  • Perguntar “o que ela fez para provocar isso?”
  • Dizer “mas eles eram um casal tão bonito”
  • Compartilhar fotos das vítimas em contexto sensacionalista
  • Especular sobre a vida íntima da vítima
  • Minimizar sinais anteriores de violência
  • Dizer “devia ter saído antes” (ignorando os riscos da separação)
  • Comentar sobre o aspecto emocional do agressor (“estava sofrendo”)
✓ Fazer
  • Nomear o crime pelo que é: feminicídio
  • Centrar a narrativa na vítima: quem ela era, o que deixou
  • Contextualizar como estágio final de um ciclo de violência
  • Identificar e comunicar sinais de alerta quando perceber em alguém próximo
  • Apoiar — sem pressionar — mulheres em situação de violência
  • Denunciar quando possível (Ligue 180, Delegacia da Mulher)
  • Questionar piadas e comentários que trivializam violência
  • Educar crianças e jovens sobre relações saudáveis e consentimento

“Não vamos deixar que as matérias sobre feminicídio terminem apenas com ‘a mulher morreu e deixou três filhos’. É preciso lembrar que ela morreu em virtude de sua condição de ser mulher.”

— Pesquisadora Ana Maduro, durante audiência na CLDF, março 2026

📰
Protocolo · Para jornalistas
Cobertura ética de feminicídio: o que a imprensa deve e não deve fazer
  • Use o termo correto: “feminicídio”, não “crime passional”, “tragédia familiar” ou “desentendimento conjugal”. O crime tem nome, e o nome importa.
  • Não reproduza a versão do agressor no título. O que o suspeito alega é informação a ser reportada — não enquadramento da história. O título deve descrever o crime, não o justificar.
  • Contextualize historicamente. Sempre que possível, apure se havia histórico anterior de violência, medidas protetivas, registros de ocorrência anteriores.
  • Centre a vítima como sujeito. Quem era ela? O que fazia? O que deixa? Ela não é apenas o objeto do crime — era uma pessoa com história.
  • Diversifique as fontes. Não dependa apenas do boletim de ocorrência. Ouça familiares (com cuidado), serviços de acolhimento, especialistas em violência de gênero, o Projeto Ariadnes, o CREAS.
  • Não publique imagens que exponham o local do crime ou os corpos. Nem fotos íntimas da vítima sem contexto e consentimento.
  • Inclua sempre os canais de denúncia e apoio — Ligue 180, Delegacia da Mulher, CREAS. A matéria pode ser o momento em que alguém decide pedir ajuda.
  • Não use expressões como “crime passional”, “por amor”, “em momento de descontrole”. Essas expressões historicamente foram usadas como defesa jurídica — e ainda hoje funcionam como atenuantes simbólicos.
  • Não especule sobre o comportamento da vítima. Se ela traiu ou não, se bebeu ou não, como se vestia — nada disso é contexto relevante para um homicídio.
  • Não humanize o agressor à custa da vítima. O sofrimento emocional do agressor não é equivalente ao crime cometido. Equilíbrio não significa dar o mesmo peso a uma morte e a um sentimento.
  • Não use fotos do casal “feliz” sem contexto crítico. Essa escolha editorial frequentemente transmite a mensagem de que a violência foi uma surpresa, apagando o histórico.

O Projeto Ariadnes (UFOP) oferece oficinas gratuitas para jornalistas da Região dos Inconfidentes. Acompanhe: @projetoariadnes no Instagram e ariadnes.org

O que cada um pode fazer agora

Não é possível interromper um feminicídio depois que ele acontece. Mas o ciclo que leva a ele pode ser interrompido — e isso exige ação coletiva, em diferentes esferas. O poder público precisa garantir que medidas protetivas funcionem e que as delegacias da mulher estejam acessíveis fora das capitais. A imprensa precisa aprender a contar essas histórias de um jeito que não repita a violência. E cada pessoa precisa decidir que não vai ficar em silêncio quando perceber que algo está errado com alguém próximo.

Em março de 2026 — mês da mulher, mês em que a Lei do Feminicídio completa onze anos —, o Brasil enfrenta o maior número de casos da série histórica. Os Três Poderes firmaram um pacto nacional contra o feminicídio em fevereiro. A UFOP aderiu ao pacto. A cidade de Ouro Preto marchou no Movimento Mulheres Vivas em dezembro passado. Mariana marchou em fevereiro. Mas marchas e pactos não bastam se o feminicídio continuar sendo explicado como consequência do que a mulher fez.

Larissa tinha 25 anos. Maria Fernanda, dois. Elas foram encontradas abraçadas.

🆘
Serviço · Onde buscar ajuda
Canais de apoio para mulheres em situação de violência
  • 📞
    Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher
    Gratuito, sigiloso, 24h por dia, 7 dias por semana. Orienta, acolhe, encaminha e registra denúncias. Funciona em todo o Brasil.
  • 🚔
    190 — Polícia Militar (emergências)
    Para situações de risco imediato. Em Ouro Preto, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) está disponível para atendimentos.
  • 🏛️
    CREAS — Centro de Referência Especializado em Assistência Social
    Presente nos três municípios. Oferece acompanhamento psicológico, orientação jurídica e encaminhamento para a rede de proteção. Procure a Secretaria de Desenvolvimento Social do seu município.
  • 📱
    Delegacia Virtual de Minas Gerais
    Permite registrar boletim de ocorrência online em casos de violência doméstica sem precisar comparecer presencialmente em um primeiro momento. Acesse: delegaciavirtual.mg.gov.br
  • 📲
    Disque Denúncia 181 — Minas Gerais
    Ligação gratuita para denúncias de violência contra a mulher em Minas Gerais. Disponível para todos os 853 municípios do estado.
  • 🌐
    Emergência MG — aplicativo
    Aplicativo da Sejusp-MG para acionamento de emergências. Disponível para download nas principais lojas de aplicativos.

Se você está em risco imediato: ligue 190. Se está em dúvida se o que vive é violência: ligue 180. Se conhece alguém em situação de risco: ligue 180 e comunique ao CREAS do município.

Apuração: Jiljana Isidoro / Vintém. Fontes consultadas: Polícia Militar de Minas Gerais (boletim de ocorrência); Prefeitura de Mariana (nota oficial); Agência Primaz/Correio de Minas (Marcha dos Homens); Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais — Observatório de Segurança Pública; Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Anuário 2025 e relatório Retrato dos Feminicídios no Brasil); Senado Federal; UFOP/Projeto Ariadnes; Agência Brasil; Brasil de Fato; Agência Patrícia Galvão.
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