O que fazer quando a meta de ano novo não dá certo

Autora: Janina SteinmetzProfessora de Marketing, Bayes Business School, City St George’s, University of London Todos os anos, muitos de nós anunciamos com coragem nossas resoluções de Ano-Novo. Uma taça de champanhe na virada pode aumentar nossa confiança de que seremos capazes de fazer melhor no ano que começa — economizar mais, gastar menos, comer melhor, malhar mais ou maratonar menos séries. Mas a maioria das resoluções fracassa. Mesmo nas primeiras semanas após o Réveillon, grande parte das pessoas já desistiu delas. Ainda assim, nem toda história de fracasso é igual, porque a forma como você fala sobre o fracasso importa — para a sua própria motivação e para a confiança das outras pessoas na sua capacidade de tentar de novo. Então, o que podemos fazer depois de desistir da resolução? Nós anunciamos boas intenções para amigos e familiares e agora precisamos admitir o fracasso. Pesquisas mostram que o jeito como você formula uma resolução que não deu certo pode influenciar como as pessoas a enxergam. E compreender por que a maioria das resoluções não se concretiza pode ajudar a levá-las adiante no futuro. De fato, dá para falar sobre suas resoluções de um modo que torne seu fracasso mais compreensível e mantenha sua motivação para seguir em frente. Uma forma construtiva de discutir uma resolução que falhou é focar no quanto esse fracasso era controlável. Pesquisas indicam que a maioria das resoluções exige algum investimento de tempo e de dinheiro. Por exemplo, entrar em forma leva tempo para se exercitar e, normalmente, também requer dinheiro para uma academia ou para equipamentos de treino. Como esses dois recursos são essenciais para perseguirmos nossos objetivos, muitas resoluções fracassam por falta de tempo ou de dinheiro — ou dos dois. Ao falar de uma resolução que falhou no passado, minhas próprias pesquisas mostram que é melhor destacar como a falta de dinheiro contribuiu para esse fracasso, em vez da falta de tempo. Em um estudo meu de 2024, as pessoas leram sobre participantes de painéis — fictícios e reais — que falharam por falta de dinheiro ou por falta de tempo. A maioria considerou que a pessoa cujo fracasso foi causado por falta de dinheiro teria mais autocontrole dali em diante e seria mais confiável na busca pelos próprios objetivos. Esse efeito ocorreu porque a falta de dinheiro é vista como algo que não pode ser controlado com tanta facilidade; então, se foi isso que causou o fracasso, não havia muito o que a pessoa poderia ter feito. Nessa pesquisa, a maior parte das resoluções que não deram certo estava relacionada a perda de peso, alimentação mais saudável ou treino na academia. Os participantes avaliaram da mesma forma quando a pessoa que falhou era homem ou mulher — provavelmente porque é plausível que todo mundo precise de algum tempo e de algum dinheiro para perseguir objetivos diversos, independentemente do gênero ou do tipo de resolução. O papel da “controlabilidade” aparece de um jeito diferente quando pensamos em como fazer melhor na próxima vez. O papel do tempo As pesquisas também mostram que a maneira como enxergamos o tempo importa quando se trata de fracasso. Para o passado, é melhor pensar em fatores fora do nosso controle, o que ajuda a reduzir a carga negativa do fracasso e reforça a crença de que podemos fazer melhor. Isso pode significar, por exemplo, considerar que seu fracasso ocorreu por falta de dinheiro ou por outros recursos fora do seu alcance. Para o futuro, porém, adote uma perspectiva ativa sobre o tempo. Olhe para a sua agenda e tome decisões ativas sobre como alocar tempo para perseguir seu objetivo — marcando idas à academia ou reservando um horário para preparar refeições saudáveis. Isso pode nos dar motivação para tentar de novo, porque não somos vítimas de agendas lotadas. Mulher desabada sobre uma bola de exercícios na sala de estar.Definitivamente não é a única. Lopolo/Shutterstock Um estudo publicado em outubro de 2025, que analisou como a falta de tempo contribui para fracassos, mostrou que as pessoas recuperam a sensação de controle quando falam em “arrumar tempo” (ou “criar tempo”), em vez de “ter tempo”. Quem descreveu suas falhas como resultado de não ter arrumado/criado tempo sentiu que poderia fazer diferente no futuro — e ficou mais motivado para isso. Isso acontece porque “arrumar/criar tempo” sugere controle ativo sobre o próprio tempo e a própria rotina, enquanto “ter tempo” nos coloca numa posição passiva. Por exemplo: se você diz que não arrumou tempo para treinar, isso significa que pode arrumar tempo no futuro, se decidir fazê-lo. Já se você diz que não teve tempo para treinar, parece que essa falta de tempo está fora do seu controle e pode acontecer de novo, impedindo você de alcançar suas metas de exercício. Encontre alegria Outro motivo para tanta gente ter dificuldade em manter a resolução de Ano-Novo pode ser o excesso de ambição — ou o fato de ignorar que alegria e prazer são o que nos mantém em movimento. Não basta apenas ter um objetivo em mente. Encontrar alegria no caminho e acreditar na capacidade de mudar também é importante. Por exemplo, alguém pode querer entrar em forma e treinar mais, mas, quando tenta ir à academia, não tem confiança para se inscrever numa aula. Sem algum componente de diversão, é difícil cumprir uma resolução, mesmo quando realmente queremos alcançar o objetivo. Então, tente pensar em formas de tornar a meta mais prazerosa de trabalhar — e lembre a si mesmo que você é capaz. A tendência das resoluções de Ano-Novo não é ruim em si. Embora possa parecer paradoxal começar hábitos virtuosos logo depois de uma grande noite de bebida e exageros, pesquisas mostram que podemos, sim, nos beneficiar do chamado “efeito do recomeço”, no qual um novo marco no calendário oferece uma sensação de página em branco para iniciar hábitos melhores. Mas não precisamos esperar o calendário nos dar um recomeço. Podemos escolher fazer nossa própria resolução (talvez uma resolução de Dia dos Namorados ou de Páscoa?)
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Santa Casa inicia programa de cirurgia bariátrica e anuncia primeiro procedimento em Ouro Preto

Equipe médica destaca que operação é parte do tratamento da obesidade e deve ser oferecida também pelo SUS, em parceria com o município A Santa Casa de Ouro Preto anunciou o início da realização de cirurgias bariátricas na instituição. Em vídeo gravado antes do procedimento, o cirurgião do aparelho digestivo Dr. Tuian Cerqueira afirmou que a operação marca um passo relevante na linha de cuidado para pacientes com obesidade associada a outras doenças — e ressaltou que a cirurgia não deve ser tratada como um atalho estético. “Hoje, nós vamos realizar a nossa primeira cirurgia bariátrica aqui na Santa Casa. Essa cirurgia tem uma importância muito grande porque ela é um dos elementos do tratamento daqueles pacientes que têm obesidade, junto com outras doenças”, disse. Segundo o médico, o caminho começa, em geral, pelo tratamento clínico, com acompanhamento ao longo do tempo. “Esses pacientes são submetidos, ao longo de todo um tempo, a um tratamento clínico para tentar reduzir a obesidade e melhorar as outras doenças. E, caso não tenha o sucesso terapêutico esperado, a cirurgia é então um desses componentes”, explicou. Tuian enfatizou que o objetivo principal é ampliar saúde e longevidade, reduzindo riscos associados à obesidade. “Não é uma cirurgia simplesmente para perder peso. Nosso objetivo é fazer a cirurgia para que, com a perda de peso, esse paciente possa melhorar a sua condição de saúde, reduzir a sua chance de ter câncer, de ter infarto, de ter derrame ou AVC, e para ele que ele possa viver mais”, afirmou. Ver esta publicação no Instagram Uma publicação partilhada por Santa Casa Da Misericórdia De Ouro Preto (@santacasadeouropreto) Procedimento por vídeo e preparação prévia De acordo com o cirurgião, a equipe fará o procedimento por via minimamente invasiva, com uso de videolaparoscopia. “A gente vai fazer a cirurgia por via minimamente invasiva ou por vídeo”, disse, citando a estrutura de materiais e equipamentos necessários. Entre os itens mencionados estão materiais conhecidos como OPME (órteses, próteses e materiais especiais), além de grampeadores e cargas específicas. “São materiais importantes para estar ali no momento do procedimento”, explicou. O médico também destacou que o processo começa bem antes da sala cirúrgica. “É um trabalho que a gente faz de duas a três semanas antes do procedimento… envolve outros setores, como autorização, suprimentos, farmácia. Então, todos os setores aí estão bem interligados para o melhor procedimento”, relatou. Equipe e perspectiva de atendimento pelo SUS Tuian informou que contará com o apoio de outros cirurgiões e profissionais na composição da equipe. “Aqui com a gente está o meu colega cirurgião… o doutor Gabriel Faleira, que vai participar da cirurgia e integrar a equipe junto com a gente para fazer isso e os próximos casos”, disse. Na gravação, o médico afirmou que o procedimento anunciado atende, neste primeiro momento, uma paciente com convênio. Ainda assim, a expectativa é que o serviço também seja ofertado pelo Sistema Único de Saúde, em parceria com o município. “A cirurgia vai servir uma paciente que tem convênio… mas vai ser feita, oferecida também… pelo Sistema Único de Saúde, uma parceria importante da Santa Casa com o município de Ouro Preto”, declarou. O cirurgião disse que a intenção é manter o mesmo padrão de equipe e insumos. “Vai ser feita pelas mesmas equipes, com os mesmos materiais de primeira qualidade, por via minimamente invasiva, oferecendo serviços de primeira qualidade”, afirmou.
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ECA Digital: ‘Temos até março de 2026 para garantir uma internet que acolha e não explore nossas crianças’

Ergon Cugler, Fundação Getulio Vargas (FGV) Quem cria uma conta em rede social logo clica em um botão que diz “eu confirmo ter mais de 13 anos de idade”. Isso é o que está nos termos de uso da maioria das plataformas. Mas a realidade é outra: crianças estão nessas redes, e não são poucas. Segundo a pesquisa TIC Kids Online, 83% dos brasileiros com acesso à internet entre 9 e 17 anos têm perfil em ao menos uma plataforma, e entre 9 e 10 anos, 60% já participam ativamente desses ambientes. Isso significa que boa parte da infância brasileira convive em espaços digitais que priorizam o engajamento, não o bem-estar. É nesse contexto que o ECA Digital (Lei 15.211/2025), sancionado em 17 de setembro de 2025 a partir do PL 2628/2022, inaugura um novo capítulo da proteção integral. A lei reconhece o ambiente digital como parte da vida cotidiana de crianças e adolescentes e determina que, até março de 2026, o Brasil deve adequar mecanismos de verificação etária, privacidade e segurança. Diante da contagem regressiva e da centralidade do tema, o debate sobre o ECA Digital exige mais do que soluções meramente técnicas: precisa de articulação entre academia, sociedade civil, especialistas e poder público. O desafio não é apenas implementar sistemas de verificação etária, mas definir que tipo de sociedade queremos construir no processo. Afinal, não estamos diante de um problema apenas de código, e sim de um dilema ético e democrático: como proteger sem vigiar? Como garantir direitos sem criar novos riscos? O modelo de autodeclaração falhou Durante anos, as plataformas pediram que os próprios usuários informassem sua idade. Esse sistema de autodeclaração foi apresentado como equilibrado e leve, mas nunca foi eficaz. No levantamento oficial da eSafety australiana, com oito serviços digitais, constatou-se que 80% das crianças de 8 a 12 anos utilizaram redes sociais em 2024, mesmo com a idade mínima geralmente fixada em 13 anos. Apenas 10% das que tinham conta relataram ter tido o perfil derrubado por idade entre janeiro e setembro de 2024, revelando a baixa efetividade dos mecanismos de controle atualmente aplicados. No Reino Unido, estudos que embasaram a lei do Online Safety Act mostraram que a maioria das crianças ignora essas restrições e navega livremente. A própria Ofcom, autoridade britânica, concluiu que autodeclarar idade não é verificação, mas ficção regulatória. Como apresentado inicialmente, o cenário é muito similar no Brasil. O acesso precoce às redes expõe meninas e meninos a publicidade direcionada, desinformação e conteúdos inadequados. As plataformas, por sua vez, seguem se apoiando em critérios opacos de detecção de idade, baseados em linguagem ou comportamento, sem transparência ou controle público. A consequência é uma infância hiperexposta e desassistida. É nesse contexto que o ECA Digital apresenta, dentre outros elementos, a exigência de métodos “altamente efetivos” para verificação etária no ambiente digital. Ele reconhece que a proteção da infância online deve ser política pública e não promessa privada. É o fim da ideia de que a tecnologia pode se autorregular sozinha. Verificar idade não é vigiar identidade Um ponto central do debate é distinguir a verificação etária de verificação de identidade. A primeira busca apenas saber se a pessoa é criança, adolescente ou adulta. A segunda revela quem ela é, com potencial de vigilância e exclusão. Quando o Estado ou as plataformas confundem essas duas coisas, abrem caminho para modelos perigosos de coleta de dados, como reconhecimento facial, CPF obrigatório ou exigência de documentos em cada site acessado. Além do modelo de autodeclaração que já se provou falho, também temos experiências internacionais que mostram os riscos de apostar em soluções simplistas ou desproporcionais. Um exemplo é o uso de cartão de crédito como “prova de maioridade”, prática que falha especialmente no contexto do Brasil, uma vez que cerca de 60% dos brasileiros de baixa renda não possuem cartão de crédito, o que tornaria o acesso à internet desigual e discriminatório. Sem contar que uma criança poderia pegar o cartão de crédito dos pais e utilizar secretamente para acessar sites inadequados. Além disso, esse método abre brechas para fraudes, phishing e coleta desnecessária de dados financeiros, transferindo o problema da proteção infantil para o setor bancário. Outro equívoco seria exigir o upload de documentos de identidade em cada site acessado. Tal prática cria bases privadas de dados biográficos, suscetíveis a vazamentos e a usos indevidos, além de excluir milhões de jovens sem documentação formal. O próprio conceito de “provar ser adulto” só faz sentido em serviços 18+, e não como regra geral da internet. Também se mostram problemáticas as propostas que recorrem à biometria facial, seja para identificar a pessoa, seja para estimar sua idade. A coleta de dados biométricos é altamente sensível, podendo gerar exclusões e vieses, especialmente contra pessoas com deficiência, tons de pele diversos ou expressões atípicas. Mesmo a estimação facial de idade, quando não vinculada à identidade, apresenta margens de erro significativas nos limiares de 12/13 e 17/18 anos, justamente as faixas mais críticas, e pode ser facilmente burlada por imagens geradas por inteligência artificial. Outros métodos que parecem inovadores também apresentam limitações graves. A verificação comportamental, baseada em padrões de escrita, horários de acesso e redes de contato, é intrusiva por definição, pois depende do monitoramento extensivo das atividades do usuário. Já os testes de capacidade ou “maturidade” confundem idade com escolaridade, podendo excluir crianças com deficiência ou contexto educacional precário, ao mesmo tempo em que podem ser facilmente vencidos por quem for treinado. Além disso, propostas como atrelar a verificação ao chip do celular ignoram a realidade brasileira de compartilhamento familiar de aparelhos, onde crianças muitas vezes usam o telefone dos pais, o qual poderia já estar desbloqueado para acesso de conteúdos inadequados. Esses exemplos reforçam que o desafio não é escolher uma ferramenta milagrosa, mas construir um modelo plural, proporcional ao risco e centrado na privacidade da criança, não na conveniência das plataformas. É nesse sentido que outros países oferecem caminhos melhores. A França e a União Europeia como um todo apostam na ideia
ALMG aprova desestatização da Copasa e abre caminho para privatização; o que muda para municípios e consumidores

Foto: Luiz Santana A Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) aprovou em definitivo o PL 4.380/2025, que autoriza o governo estadual a iniciar medidas de desestatização da Copasa e a permitir que Minas deixe de ser o acionista controlador. O texto aprovado prevê que o Estado possa manter uma golden share (ação especial com poder de veto em decisões estratégicas) e que a companhia passe a operar no modelo de corporation, no qual nenhum acionista, sozinho, concentra o comando. Na prática, o projeto não “privatiza” automaticamente a empresa no dia seguinte. Ele abre o caminho legal para que o Executivo avance com o desenho do modelo (operações societárias, oferta de ações e/ou mecanismos que alterem o controle), preservando — ao menos no papel — instrumentos de salvaguarda e metas regulatórias. O pano de fundo: fim do referendo e disputa judicial no STF O processo ganhou velocidade após a promulgação da Emenda à Constituição nº 117/2025, que dispensa a realização de referendo popular para privatização (ou transferência de ações à União), desde que haja lei específica de iniciativa do governador. A emenda virou alvo de questionamento no STF, que deve analisar norma mineira que retira a consulta popular. Quem controla a Copasa hoje A Copasa é uma empresa de capital aberto, com ações negociadas na bolsa. No site de Relações com Investidores da companhia, a composição acionária aponta o Estado de Minas Gerais com 50,03% das ações. É esse controle — mais do que a simples existência de acionistas privados minoritários — que está em jogo quando o Estado fala em “deixar de ser controlador”. O temor nos municípios: tarifa, subsídio e atendimento no “Minas profundo” A votação ocorre sob pressão de sindicatos e de segmentos que alertam para risco de perda de capacidade de investimento público, piora de condições de trabalho e encarecimento do serviço. Mas, para as prefeituras, o nervo exposto é mais concreto: como ficam contratos, equilíbrio econômico e atendimento em localidades menos rentáveis. Em audiências públicas na ALMG, representantes municipais e parlamentares registraram receio de desassistência e aumento de custos, especialmente para municípios menores e mais pobres. O que ainda está indefinido Com a autorização legislativa, o próximo capítulo é o modelo concreto da desestatização (a “engenharia” da operação) e como a governança prometida — golden share e corporation — se traduzirá em regras duras de fiscalização, metas e punições quando houver descumprimento. Também fica no horizonte o impacto político: com a emenda constitucional sob análise judicial, o tema pode ganhar contornos de incerteza jurídica, e isso costuma pesar — para o bem e para o mal — em processos de privatização. Próximos passos O texto aprovado ainda depende dos desdobramentos do Executivo (modelagem e execução) e de como a disputa constitucional avançará. O debate, no entanto, já mudou de escala: saiu do “se” privatiza e entrou no “como”, “quando” e “com quais garantias” — especialmente para os municípios que dependem da Copasa para não ficarem à mercê do improviso.
Plano de Saneamento prevê R$ 300 milhões em 20 anos; governo diz que Novo Acordo do Rio Doce pode exigir nova licitação e atingir contrato da Saneouro

A revisão do Plano Municipal de Saneamento Básico de Ouro Preto, apresentada em audiência pública na Câmara Municipal nesta semana, estima cerca de R$ 300 milhões em investimentos ao longo de 20 anos para universalizar os serviços de abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem urbana e manejo de resíduos sólidos. A principal discussão da noite, porém, não ficou nos números do diagnóstico — e sim no desenho político-institucional que pode alterar o modelo de prestação do serviço de água e esgoto no município. Ao responder a um questionamento do vereador Kuruzu, o secretário municipal de Meio Ambiente, Chiquinho de Assis, afirmou que os recursos do Novo Acordo do Rio Doce tendem a ser executados pelo Estado, por meio de blocos regionais, o que pode levar a uma nova licitação — com possibilidade de a concessionária atual disputar o processo. “O tal do ‘Fora Saneouro’ vai acontecer, por outros motivos, por outras razões”, disse o secretário. “Faz-se a licitação, que a Saneouro pode disputar e pode ser vencedor (…) Ou ela pode disputar e perder, e ter que sair.” O que muda com a regionalização Segundo o secretário, o Novo Acordo do Rio Doce — tratado pelo governo federal e executado, no eixo do saneamento, sob coordenação do governo estadual — não prevê transferência direta do recurso para o caixa municipal. “Não entra dinheiro em Ouro Preto. Direto para o Estado”, afirmou Chiquinho, ao descrever que a proposta é reunir municípios em um bloco para licitar em conjunto. “Eles vão fazer esse bloco e vão licitar.” Como hipótese de regionalização, citou uma composição envolvendo Ouro Preto, Mariana e Acaiaca. O coordenador do comitê executivo da revisão, o engenheiro Luciano Pereira, fez uma ressalva sobre o risco de descontinuidade caso o modelo avance: “Primeiro licita, prepara infraestrutura (…) para que o cidadão não fique descoberto do serviço (…) e aí sim a empresa deixa de operacionalizar.” Diagnóstico: insatisfação e problemas recorrentes A revisão do plano foi elaborada pelo Consórcio Intermunicipal de Saneamento Ambiental (Consane) e reuniu oficinas participativas, questionários e visitas técnicas no território municipal — sede, distritos e zona rural. No eixo de abastecimento de água, a equipe apresentou um dado que sintetiza o humor da cidade: 60% dos respondentes disseram não estar satisfeitos com o serviço. Já em esgotamento sanitário, o índice de insatisfação chegou a 63%. A engenheira ambiental Amanda Soares, do Consane, listou problemas relatados pela população e observados no diagnóstico: “Ineficiência da ETE já existente, falta de coleta de esgoto adequada (…) retorno de esgoto.” Entre as queixas recorrentes, apareceram redes antigas com vazamentos, contas consideradas altas e variações na cor da água. Metas e prazos: horizonte até 2044 O plano trabalha com horizonte de 20 anos, até 2044, quando a população estimada de Ouro Preto chegaria a 83.846 habitantes (projeção apresentada na audiência). As metas incluem: Investimentos: números altos, execução por etapas A projeção de investimentos apresentada gerou reação no plenário. Para o período imediato (0 a 3 anos), o plano estima cerca de R$ 115 milhões; no curto prazo, mais R$ 130 milhões; e, em médio e longo prazo, outros R$ 55 milhões. No recorte do esgotamento sanitário, foi citado investimento imediato de R$ 107 milhões. “Assusta esses valores, mas são valores que são estimados (…) Não é um valor que vai ser gasto de uma vez. São etapas”, ponderou Amanda Soares, ressaltando a possibilidade de captação de recursos externos e parcerias. Chiquinho reforçou que o plano funciona como “porta de entrada” para financiamentos: “Chegou amanhã, quanto que é? Tem aqui um plano.” Tarifas: recursos não eliminam cobrança Ao ser questionado pelo vereador Kuruzu sobre a hipótese de o novo acordo eliminar tarifas, o secretário foi direto: “Há possibilidade com esse recurso ter tarifa de graça? Não. (…) Há possibilidade com esse recurso o esgoto não ser cobrado? Não.” Próximos passos O plano está em consulta pública e ainda receberá contribuições antes de seguir para a Câmara Municipal. O último plano de saneamento de Ouro Preto foi elaborado entre 2012 e 2013 e aprovado em 2016. Ao final, o secretário destacou que a governança prevista para os recursos do acordo envolve instâncias estaduais — e citou um comitê com participação de órgãos como Seplag, Semad, Seinfra, Codemge e BDMG. Procurada pela reportagem, a Saneouro informou que preferiu não se posicionar sobre as informações apresentadas na audiência e sobre a possibilidade de nova licitação mencionada por representantes do Executivo.
Razões científicas para adiar em duas horas o horário de entrada dos jovens no colégio
Adolescentes passam por muitas mudanças biológicas, incluindo alterações nos padrões de sono, como atrasos no horário de adormecer: adiar a hora de entrada no colégio pode ajudar a melhorar sua saúde e bem-estar físico e psicológico. PeopleImages.com/Shutterstock Daniel Gabaldón Estevan, Universitat de València O período vital em que se encontram os alunos na segunda metade do ensino fundamental e no ensino médio, entre os 12 e os 18 anos, implica mudanças biológicas de primeira ordem no seu desenvolvimento. Algumas delas são muito evidentes, como o rápido crescimento (os “estirões”), e outras mais sutis, como o atraso na fase do sono. E é justamente sobre esta última que precisamos refletir ao definir o horário de início do dia letivo. Mudanças na hora de ir para a cama Desde o início da puberdade (no meio do ensino fundamental) até o que se denomina o fim da adolescência (19,5 anos nas mulheres, e 21 anos para os homens), ocorre um atraso gradual no horário natural em que estamos predeterminados a adormecer . Isso significa que, naturalmente, à medida que avançamos para o final da adolescência, nosso organismo está programado a atrasar gradualmente tanto o momento em que adormecemos quanto a hora em que acordamos naturalmente. Independentemente de sermos, por herança genética, mais matinais (madrugadores) ou mais noturnos (notívagos), a adolescência será a fase mais noturna de nossa vida, pois a partir do final desse período há um lento, mas progressivo, avanço de nossa fase de sono, de modo que, após os 40 anos de idade, praticamente desaparece esse efeito de atraso. Mudanças na qualidade do sono Por outro lado, nesta fase da vida, ocorre um aumento das conexões da parte “afetiva ou emocional” do cérebro, com um aumento menor dessas conexões na parte “executiva” ou de raciocínio do órgão, processo que também contribui para mudanças fisiológicas na qualidade do sono do adolescente. Essas mudanças relacionadas ao atraso da fase do sono podem causar dor de cabeça, sonolência, fadiga, deterioração cognitiva e desregulações metabólicas e imunes, bem como predisposição a manifestar transtornos mentais como depressão, ansiedade e bipolaridade. E se a escola começar mais tarde? Quando o horário de início do dia letivo é muito cedo em relação à hora natural de acordar dos alunos, ocorre o que é conhecido como “jetlag social”. É uma dessincronização entre a hora marcada pelo relógio interno dos alunos e a hora marcada pelo relógio social, com uma diferença de cerca de duas horas no tempo total de sono entre os dias letivos e os fins de semana, alterando o relógio biológico dos estudantes. Distribuição do ‘jet lag social’ por idade dos alunos participantes do projeto Kairós: a dessincronização medida com o Munich Chronotype Questionnaire (https://doi.org/10.3389/fpubh.2024.1336028) aumenta à medida que os alunos avançam na adolescência. Duas tendências opostas estariam por trás desse fenômeno: o atraso na fase do sono e o avanço na hora de entrada na escola. Gráfico retirado do Projeto Kairós (PID2021-126846NA-I00/AEI/10.13039/501100011033 e CIACO/2023/120), coordenado pelo autor., CC BY Por isso, pedir a um adolescente que acorde às 7 da manhã é como pedir aos seus pais que acordem às 4 ou 5 da manhã. Isso afeta muito a saúde física e mental, principalmente porque eles não dormem horas suficientes, mas também pelo desajuste entre os horários interno e externo. Vejamos: Ao não conseguirmos dormir antes da nossa janela de sono (momento em que podemos adormecer naturalmente) e ao termos que acordar antes da nossa hora natural de despertar, nosso organismo não consegue descansar o suficiente, gerando uma “reparação deficiente”: durante o sono, o sistema glinfático impede a acumulação de toxinas no sistema nervoso; se não descansarmos o suficiente, a limpeza não é completa. Se não descansarmos o suficiente na noite anterior à aula, nosso estado de alerta durante a vigília é prejudicado, o que afeta nossa capacidade de concentração e de aprender (prestar atenção e acompanhar a aula, relacionar e assimilar conceitos). Se dormirmos apenas 6 horas e perdermos os últimos 25% do sono, poderemos estar perdendo entre 60% e 90% de todo o sono REM, responsável por reforçar as conexões neuronais. Se não descansarmos o suficiente à noite após um dia de aula, a capacidade do nosso cérebro de processar as informações adquiridas e a nossa memória são comprometidas. De fato, estudos sobre o sono e a memória indicam que aqueles que têm a oportunidade de dormir um intervalo de 8 horas entre o aprendizado e a memorização melhoram entre 20% e 40% sua capacidade de reter o que aprenderam. Além disso, não dormir o suficiente afeta nosso sistema imune, tornando-nos mais vulneráveis a contrair doenças como depressão, ansiedade, diabetes, câncer, ataque cardíaco e acidente vascular cerebral. Nosso humor também é afetado quando não descansamos. De fato, observou-se que a amígdala, que é fundamental para desencadear emoções fortes como raiva ou ira, sofre uma amplificação de mais de 60% na reatividade emocional em pessoas privadas de sono. Uma verdadeira bomba-relógio para a convivência nas escolas. Duas horas mais tarde: múltiplos benefícios Diversos estudos demonstraram que quando se adia a hora de entrada na escola ocorre um ganho líquido de descanso: os alunos continuam indo dormir no mesmo horário, mas acordam mais tarde, dedicando cerca de 80% do tempo extra para dormir. Dormir mais reduz a sonolência diurna, a depressão, o consumo de cafeína, os atrasos e a dificuldade em permanecer acordado, além de melhorar a qualidade do sono, a satisfação com a vida e combater o mal-estar psicológico. Outros estudos sugerem que quanto maior o tempo adicional de sono, melhor é a qualidade do sono, o funcionamento diurno e o bem-estar subjetivo. O adiamento no horário entrada na escola também reduziria a dessincronização dos alunos mais noturnos, aliviando a diferença observada entre os alunos mais madrugadores e os mais notívagos. Deixar os jovens dormirem o que precisam e quando precisam é, em definitiva, respeitar o seu direito de fazer as coisas quando for mais conveniente para a sua saúde, desenvolvimento e bem-estar. Daniel Gabaldón Estevan, Profesor Titular de Universidad, Sociología, Universitat de València