Homem é atropelado por viatura da GCM durante abordagem e leva gás de pimenta no rosto após cair

Caso é acompanhado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara; GCM apura na Corregedoria
Lei que inseriu o símbolo do autismo em Ouro Preto completa oito anos

Lei aprovada pela então vereadora em 2018 determinou inserção do símbolo do autismo nas placas de atendimento prioritário do município Em 2018, a vereadora Regina Braga assinou a Lei Municipal 1.097, que determinou a inserção do símbolo do autismo nas placas de atendimento prioritário de estabelecimentos públicos e privados de Ouro Preto. Supermercados, bancos e comércios passaram a ser obrigados a exibir o lacinho colorido ao lado dos demais símbolos de prioridade. A lei não criou um novo direito — o atendimento preferencial a pessoas com autismo já era garantido — mas tornou esse direito visível. Sete anos depois, a autora da lei é a vice-prefeita do município. E o Abril Azul, mês internacional de conscientização sobre o autismo marcado pelo Dia Mundial em 2 de abril, trouxe a oportunidade de olhar para o que mudou — e para o que ainda falta. “É uma data importante para reforçarmos o respeito, a inclusão e o direito das pessoas autistas a uma vida digna e com oportunidades”, disse Regina Braga. Sobre a lei de 2018, ela reconhece o limite do gesto: “Foi um gesto simples, mas que representa respeito e dignidade.” A legislação municipal acompanhou uma mudança mais ampla no reconhecimento dos direitos das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil. A Lei Berenice Piana, de 2012, foi o marco federal que estabeleceu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Em Ouro Preto, iniciativas como a lei de 2018 e, mais recentemente, a instalação da sala de reabilitação sensorial pela Secretaria Municipal de Saúde fazem parte do mesmo caminho. 📋 A lei Lei Municipal 1.097/2018 — Ouro Preto O que determina: Inserção do símbolo do autismo (lacinho colorido) nas placas de atendimento prioritário de estabelecimentos públicos e privados Autora: Regina Braga, então vereadora, atual vice-prefeita de Ouro Preto Abril Azul: Mês de conscientização sobre o autismo — Dia Mundial em 2 de abril
Automutilação na adolescência: qual o papel da escola na prevenção deste problema crescente?

Ainda que os cortes sejam feitos pelo adolescente em outros ambientes, como em casa, é na escola que eles com frequência são vistos pela primeira vez. Estudiosos indicam que os profissionais de ensino em geral são os primeiros adultos a perceberem as lesões. Imagem: CVV Gabriela Meireles Macedo, PUC-Rio e Terezinha Féres-Carneiro, PUC-Rio A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertou, em 2025, que os problemas de saúde mental no mundo são responsáveis por 16% das doenças e lesões entre adolescentes. No Rio de Janeiro, a Secretaria de Estado de Saúde registrou, em 2023, 13.007 notificações de violência autoprovocada, sendo 25% casos de adolescentes. Os números alarmantes indicam o aumento do fenômeno nas últimas décadas. O psicólogo clínico americano Matthew Nock, em seu estudo de 2010, definiu automutilação como todo comportamento que é realizado intencionalmente e com o conhecimento de que pode ou irá resultar em algum grau de lesão física e/ou psicológica para si mesmo. Trata-se de um dano autoinfligido que pode ser realizado com o uso ou não de objetos perfurocortantes. As áreas mais comuns onde acontecem as lesões são punhos, antebraços, coxas, barriga e pernas. Em 2020, o Ministério da Saúde lançou a “Cartilha para prevenção da automutilação e do suicídio: orientações para educadores e profissionais da saúde”, na qual é ressaltada a diferença entre a autolesão com intenção suicida e a sem intenção suicida (ASIS). As autolesões possuem funções intrapessoais, como buscar alívio da dor emocional, e funções interpessoais, como a finalidade de comunicar o próprio sofrimento e/ou pertencer a grupos. A automutilação surge como um recurso que, paradoxalmente, busca apaziguar uma dor psíquica insuportável por meio do ato de infligir-se uma dor física. Automutilação: um problema para saúde e a educação A adolescência representa um momento de passagem, situando-se na fronteira entre a infância e a vida adulta. Ocorre, nesse período, certo desprendimento do adolescente em relação às figuras parentais e uma busca por inserção nos discursos sociais e nos grupos. Isso coloca em questão a relação dele com a alteridade: movimento que, segundo os estudiosos da área, pode provocar sentimentos de desamparo e angústia. As instituições educativas são fundamentais na construção de laços fora do seio familiar. Diante de tantas transformações corporais e psicossociais, é comum o adolescente transferir para o corpo, em ato, seu sofrimento. Ele faz isso ao invés de utilizar a palavra ou a fala como recurso de expressão. É nesse cenário que costumam aparecer as automutilações. Um fato curioso sobre a automutilação na adolescência, identificado por alguns pesquisadores do campo, é que ainda que os cortes sejam feitos pelo adolescente em outros ambientes, como em casa, é na escola que eles, com frequência, aparecem. Estudiosos indicam que os profissionais da instituição de ensino, comumente, são os primeiros adultos a perceberem as lesões. A escola por estar menos comprometida emocionalmente comparada aos pais, ao observar o adolescente, consegue, muitas vezes, detectar com mais clareza dificuldades no processo de desenvolvimento do aluno. Os professores são capazes de notar mudanças de comportamento repentinas em sala de aula como tristeza e isolamento, que se configuram como um sinal de alerta. Isso aponta a importância de o fenômeno da automutilação na adolescência ser discutido não só na esfera da saúde, mas também no campo da educação. Além disso, a escola acaba sendo um lugar favorável para tratar a problemática porque ela concentra a maior parte da população infantojuvenil e isso possibilita não só identificar riscos e danos psicossociais que assolam esse público, mas também fomentar a educação em saúde em larga escala. O estudo Em nosso projeto, realizado no Laboratório de Estudos em Família e Casal (LEFaC), do Departamento de Psicologia da PUC-Rio, investigamos a questão da autolesão em adolescentes na atualidade, a partir da percepção de profissionais que atuam na escola. Foram entrevistados 10 profissionais da área da psicologia e/ou educação que atuassem diretamente com adolescentes em escolas públicas (municipais, estaduais e federais) do estado do Rio de Janeiro. Dentre eles, professores de diferentes disciplinas, orientadores educacionais, que são pedagogos de formação e psicólogas. Os dados elucidaram como acontece o manejo da escola diante do fenômeno da automutilação na adolescência e os desafios enfrentados pelos educadores. Além disso, os resultados evidenciaram qual é o papel da escola frente a essa questão e a importância de um trabalho de cuidado em rede (família, escola e Estado). O manejo e seus desafios Os entrevistados relataram inicialmente um manejo no sentido de acolher o adolescente por meio de uma escuta empática e sem julgamentos, de modo que o jovem possa expressar seus sentimentos. Em seguida explicitaram a importância de comunicar à família sobre a automutilação, mas de maneira cuidadosa para não desencorajar outras buscas por ajuda. Ressaltaram a necessidade de orientar os responsáveis e realizar encaminhamentos a serviços de saúde mental e/ou assistência social. Por fim, a maioria dos participantes declarou que a escola faz a notificação compulsória ao Conselho Tutelar, seguindo a Lei nº 13.819/2019, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio. Curiosamente os entrevistados relataram um manejo que está de acordo com as diretrizes da Cartilha para prevenção da automutilação e do suicídio: orientações para educadores e profissionais da saúde, mesmo sem tê-la mencionado. Isso aponta para um saber-fazer do educador que pode ser lapidado com informações mais consistentes acerca da temática. Essa aquisição de conhecimento sistemática pode funcionar como um amparo para o profissional em sua atuação. Em geral, os entrevistados alegaram se sentirem despreparados para lidar com a problemática da automutilação. Ficou evidente a falta de uma orientação clara e técnica sobre o referido tema e a falta de formação continuada acerca das questões de saúde mental na escola. Esses fatores comumente levam a uma estigmatização do fenômeno. Alguns entrevistados denunciaram que colegas descrevem, pejorativamente, a automutilação como uma atitude do adolescente para “chamar atenção”. Essa é uma percepção pautada no senso comum que pode desembocar numa negligência do adulto face ao episódio. O fato é que o adolescente que se corta está demandando um olhar e uma
Por que o crime organizado está tornando a vida mais cara sem que a gente perceba

Robson Rodrigues, UERJ Há muito a criminalidade organizada deixou de ser um fenômeno restrito às periferias urbanas. Ela atualmente está infiltrada de maneira profunda nos circuitos formais da economia. Nas grandes metrópoles – onde se concentra a infraestrutura financeira, logística e produtiva –, os efeitos sobre o setor privado são particularmente severos. Os custos operacionais sobem, a concorrência é distorcida, investimentos são adiados ou cancelados e o próprio capital institucional se fragiliza. Trata-se, portanto, de um problema que é securitário, econômico e de governança ao mesmo tempo. Para ilustrar, imagine um comerciante observando um concorrente abrir uma loja ao lado da sua, que vende mais barato, não paga impostos e nunca parece ter problemas de caixa. Depois de alguns meses, o comerciante descobre o motivo: a loja existe para lavar dinheiro do crime organizado. Esse cenário, que parece enredo de série policial, é o dia a dia de milhares de empresários brasileiros. Estudos conduzidos por instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o IPEA e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que a criminalidade organizada impõe ao Brasil um custo anual equivalente a cerca de 4,2% do PIB apenas em impactos sobre o setor privado. Em valores absolutos, isso equivale a mais de R$ 450 bilhões — montante suficiente para construir sete vezes o Rodoanel de São Paulo. Custo nacional e transnacional No Rio de Janeiro, essa situação salta aos olhos. Basta a um observador atento percorrer a Avenida Brasil — principal e mais estratégico corredor viário do Estado, mas também um dos mais perigosos — para constatar a deterioração acelerada do ambiente produtivo. Empresas históricas, que durante décadas compuseram um tecido econômico vibrante ao longo da via, vêm desaparecendo de um território que passou a ser, na prática, controlado por organizações criminosas. Diante desse cenário, as respostas do Estado têm seguido um roteiro velho e surrado: reforços pontuais e reativos de policiamento combinadas com operações policiais de grande impacto midiático, mas com baixos resultados estruturais. Além disso, como o cobertor dos recursos públicos é curto, o modelo se exaure nessas ações, abrindo espaço para a expansão dos “crimes de rua”, em especial roubos e furtos de celulares. Importante destacar que o problema está longe de ser uma particularidade brasileira. Na América Latina e no Caribe, o custo médio do crime alcança 3,44% do PIB regional, segundo estimativas do BID (2024). É o equivalente a 78% de todo o orçamento público destinado à educação na região. As cifras estimadas para a região ultrapassam em 42% o custo estimado do crime organizado na Europa. Em escala global, dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) indicam que redes criminosas transnacionais movimentam anualmente cerca de 1,5% do PIB mundial — um volume financeiro que supera, inclusive, toda a ajuda humanitária global combinada. No fim das contas, essa conta não desaparece: ela só se redistribui, chegando, de diferentes formas, a toda a sociedade. O impacto sobre o setor produtivo A criminalidade deixou de ser um risco eventual ao setor privado e tornou-se custo estrutural de operação. Para funcionar, as empresas sustentam uma engrenagem paralela de proteção, que inclui câmeras, vigilância privada, blindagem de veículos, seguros mais caros, rastreamento de cargas e rotinas adicionais de controle. Segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, os gastos diretos com segurança no Brasil já se aproximam de R$ 60 bilhões por ano. A esse valor se somam cerca de R$ 200 bilhões em custos indiretos — perdas, interrupções logísticas e ineficiências operacionais — que se espalham pela cadeia produtiva e acabam repassados ao consumidor. Nesse cenário, não causa espanto que uma em cada três empresas da América Latina registre ao menos um incidente criminal por ano. Tampouco que os gastos com segurança já consumam 2,7% da receita bruta — mais, em muitos casos, do que as perdas causadas por falhas no fornecimento de energia. Mais grave ainda é o custo invisível trazido pela presença do crime organizado. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) mapeou sua atuação em 16 setores da economia formal. Entre eles, nos combustíveis, bebidas, tabaco, construção civil, mineração. Em cada um desses setores, empresas criminosas operam com vantagem competitiva artificial: não maximizam lucros, só precisam lavar dinheiro. Isso destrói a concorrência leal. O resultado? A CNI estima que essa infiltração tenha impedido a criação de 370 mil empregos formais em 2022 e retirado R$ 500 bilhões da economia produtiva — recursos que, em condições normais, poderiam estar gerando renda, impostos e inovação. O que pode ser feito As estatísticas trazem um dado muito interessante sobre o enfrentamento eficiente à violência. O FMI (Fundo Monetário Internacional) mostrou que reduzir as taxas de homicídio ao nível da média global poderia elevar o crescimento anual da América Latina em até meio ponto percentual. Nas economias mais violentas, o ganho poderia chegar a 1 ponto — o equivalente a bilhões de dólares em riqueza adicional gerada a cada ano. Isso muda o enquadramento do problema. Combater o crime organizado não é apenas uma questão de segurança pública. E o setor privado tem um papel importante nessa equação que vai além de contratar vigilantes. As empresas poderiam, por exemplo, exigir rastreabilidade nas cadeias de fornecimento, pressionar por regulação mais rigorosa em setores infiltrados e adotar práticas antilavagem de dinheiro mesmo quando não são instituições financeiras. O Movimento Unidos pelo Combustível Legal é um exemplo concreto disso. Trata-se de uma coalizão de empresas do setor que estimou perdas de cerca de R$ 30 bilhões por ano com sonegação e adulteração de combustíveis — e passou a pressionar ativamente por mudanças regulatórias. Os resultados mostram que esse tipo de articulação funciona. Isso significa que combater o crime organizado não é só uma questão de segurança. É política econômica. É competitividade. É geração de emprego. A conta que ninguém faz No fim das contas, o crime organizado funciona como um imposto invisível. Ele não aparece na nota fiscal, não consta em nenhum CNPJ, mas está embutido em