Copa do Mundo, futebol brasileiro e letramento racial: uma experiência necessária

Daniel Machado da Conceição, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) O futebol é, de longe e há muito tempo, o esporte mais popular do mundo. A Copa que acontece agora nos EUA, no México e no Canadá é só o maior e mais novo exemplo disso. Mas se hoje o esporte em seu nível mais alto é uma profusão de cores, raças e nacionalidades, nem sempre foi assim. O futebol brasileiro se estruturou nos seus primórdios num ambiente institucionalmente racista. Hoje funciona como uma oportunidade permanente para a sociedade reconfigurar sua relação com a questão racial. Mas nem sempre essa oportunidade é aproveitada. É o que mostra em seu artigo o pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos de Futebol Brasileiro (INTC Futebol) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Daniel Machado da Conceição: O futebol nos moldes que conhecemos hoje é uma modalidade esportiva que surge no século XIX, período vitoriano no Império Britânico. Sua disseminação acontece como um veículo ideológico projetado para propagar a imagem do sportsman, isto é, apregoar os valores de uma sociedade colonizadora e que tem na negação do ócio o seu projeto civilizatório. Ao destacar que o futebol surge em território inglês, é preciso identificar a classe mais abastada, a elite, como responsável pela sua apropriação e ressignificação como modelo de lazer e formação para o trabalho e os novos empreendimentos. As public schools eram locais em que os filhos da elite aprendiam e desenvolviam a modalidade. A partir dessa realidade, a modalidade desembarca em diversos países. História do futebol no país das chuteiras No Brasil, o mito de origem para a chegada da modalidade está relacionado a Charles Miller, herdeiro de uma família rica que vai estudar na Europa e, quando retorna ao país, volta com uma bola, um par de chuteiras e o livro de regras do esporte. A prática do futebol, então, começou no Brasil como uma atividade da elite, de caráter amador, que restringia a entrada dos estratos sociais desfavorecidos. A mensagem era da prática pela prática, ou uma prática desinteressada. As classes populares, principalmente a população negra, crianças, jovens e adultos, também praticavam a modalidade. No entanto, a entrada nos clubes de outras modalidades ou sociais vinculados à elite estabeleceu-se a partir de restrições que impediam a participação dessa população. Condicionantes sociais de classe e raça Atletas negros iniciam esse percurso de reconhecimento e valorização em clubes que rompem essa lógica, mas ainda conservando os estereótipos de classe e de raça, dois conceitos que no Brasil se confundem. Clubes como Bangu Atlético Clube-RJ e Associação Atlética Ponte Preta-SP acabam sendo as principais referências históricas, com base em fontes documentais. O Club de Regatas Vasco da Gama-RJ, que em 1923 vence o campeonato estadual com um time majoritariamente composto por atletas negros, sofre reprimendas e imposições a partir do regulamento do campeonato que marca distinções de classe e consequentemente de raça. A elaboração de um documento atestando descontentamento sobre tal situação se torna o primeiro manifesto antirracista, embora não cite abertamente a questão racial. Nesse período, um homem negro, Arthur Friedenreich, filho de um alemão e uma negra, torna-se ídolo nacional ao se destacar na Seleção Brasileira, sendo responsável pelo gol na final do primeiro título internacional do Brasil, o Sulamericano de 1919 (atual Copa América). As primeiras décadas do futebol no Brasil são um espaço de disputa e resistência das classes populares. O apagamento desse grupo populacional e seu relacionamento com o futebol passa pelos condicionantes sociais de classe e raça. Na terceira e quarta décadas, o reconhecimento e inserção, especialmente, dos atletas negros acontece não em razão de uma maior consciência e abertura do jogo para os menos afortunados. Sua inserção é em razão do desempenho e resultados no campo. Amadorismo marrom e profissionalização Nesse cenário, uma estratégia passa a confrontar o amadorismo. O chamado “amadorismo marrom”, no qual os atletas são contratados como trabalhadores nas empresas (comércio, fábricas e indústrias) de propriedade de membros da diretoria dos clubes e, nos dias de treinamento e jogos, são liberados para competição. No amadorismo, o atleta não pode receber para jogar, a profissionalização é deturpadora da prática desinteressada, então essa estratégia muito bem elaborada passa a ser uma nova fonte de renda para as classes populares (negras). A partir do amadorismo marrom, o passo seguinte foi a profissionalização. Um expoente desse processo é a figura do Leônidas da Silva, o Diamante Negro. Sua imagem passa a ser referência no campo de jogo e na arena publicitária e comercial. Em meados do século, a presença negra no campo de futebol não é mais um estranhamento, no entanto, os valores de classe e o modelo civilizatório não atacam mais a distinção econômica e laboral. O corpo negro e sua representação passam a ser os marcadores da racialização do futebol. Narrativas racializadas Os discursos das pseudo-ciências, religião e política que legitimaram as narrativas racializadas (racismo) afetam a presença negra nos times e na seleção. Ao destacar o racismo, é necessário identificá-lo como um conceito ideológico que estabelece a hierarquização entre os povos, definindo um determinado grupo com capacidades superiores. Essa ideologia, com o final da escravização nos países da América, é ainda mais exaltada para justificar a sua manutenção. O que significa que a escravização deixou marcas profundas que, durante os primeiros anos da República no Brasil, ao falar sobre classe nesse período, a raça é algo implícito e preponderante. Por ser um conceito social e sem qualquer determinismo biológico que o sustente, o racismo foi se manifestando de inúmeras maneiras. Primeiro, como rejeição e exclusão, depois como um elemento depreciativo ao indicar uma não conformidade ou capacidade física e emocional dos atletas negros. Logo, o sentido assimilacionista procura valorizar a mestiçagem como vantajosa, tendo em vista que as valências físicas do corpo negro são utilizadas para uma maior produtividade no esporte. Os argumentos que sustentam a atribuição de um lugar para o corpo negro no esporte a partir de meados do século XX com a Declaração dos Direitos