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Chegou para um fim de semana, ficou a vida inteira e ajudou a fundar a FAOP e o ensino das artes
Nas previsões esportivas, o pensamento racional perde por goleada

Atalhos e vieses cognitivos influenciam a forma como pensamos e prevemos resultados de partidas para além da preferência por um ou outro time ou seleção, em um exemplo da chamada “economia comportamental”. Stock-Asso/Shutterstock Armenio Pérez Martínez, Universidad Laica Vicente Rocafuerte O futebol é o esporte mais universal que existe. Basta ver como ficamos envolvidos quando acontece uma partida da Copa do Mundo em que “nossa seleção” está jogando. Quer estejamos assistindo ao nosso time favorito, quer não tenhamos preferência entre os adversários, nossa mente imediatamente tenta prever o resultado da partida. Mas a (ir)racionalidade pode nos pregar uma peça e diminuir as chances de acertarmos nossas previsões. Menos empates do que o esperado Vamos contextualizar. Dediquemos um tempo para analisar a seguinte situação: duas seleções se enfrentam em qualquer torneio com a mesma quantidade de pontos; qual resultado esperaríamos? Em uma pesquisa, 68,2% dos entrevistados consideraram que os dois adversários deveriam empatar. É um resultado aparentemente racional se seguirmos essa lógica: para times empatados em pontos, o resultado mais provável é o empate. Eureka! Mas de acordo com um estudo baseado em dados da Liga Espanhola até 2010, de um total de 14.937 partidas analisadas, apenas 3.994 (26,7%) terminaram empatadas. Em outra pesquisa realizada com resultados das Copas do Mundo — também até 2010 —, os resultados mais frequentes foram 1 a 0 (18,8%), 2 a 1 (14,5%), 2 a 0 (11%) e 1 a 1 (9,8%). Obviamente, as vitórias são mais comuns do que os empates nesse esporte. A estatística não está aí por acaso. Na primeira pesquisa, também foi perguntado aos participantes o que aconteceria se essas equipes empatadas na tabela tivessem tido trajetórias diferentes para somar seus pontos (nove). Nesse cenário, uma equipe teria conquistado três vitórias e duas derrotas, enquanto a outra não teria perdido, vencendo duas vezes e empatando três. Pois bem, 80,3% dos entrevistados previram que uma das duas equipes venceria — apenas 19,7% mantiveram o empate em sua previsão —, enquanto 43,9% consideraram que venceria a equipe que não havia perdido até aquele momento. Primeira conclusão: o empate como resultado mais provável caiu drasticamente ao serem apresentados os resultados anteriores. Segunda conclusão: a maioria dos participantes previu uma vitória da equipe que ainda não havia sofrido nenhuma derrota. Explicando o inesperado O que aconteceu, então? É possível que as mesmas pessoas alterem suas previsões esportivas ao receberem mais informações? O valor que atribuímos aos novos dados nos leva a mudar nossas previsões? Se nossas decisões seguissem o princípio da invariância, ou da racionalidade ilimitada, deveríamos manter nossa previsão, algo que não ocorreu no estudo. Esses casos que violam os princípios da economia clássica e seus mecanismos são analisados pelos pesquisadores da chamada economia comportamental. Trata-se de uma área inovadora de conhecimento interdisciplinar entre a economia e a psicologia que estuda as decisões humanas e o quão (ir)racionais elas podem ser. Sobre atalhos cognitivos e vieses A economia comportamental estava inicialmente ligada exclusivamente às decisões econômicas, mas hoje abrange uma ampla gama de áreas de aplicação: finanças, aposentadorias, políticas públicas, doação de órgãos, marketing, eleições, etc. Ela se baseia nos conceitos de heurísticas e vieses cognitivos para explicar essas falhas na racionalidade humana. A que nos referimos exatamente? Para Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia em 2002, as heurísticas são os atalhos que os processos mentais utilizam para buscar soluções para situações inéditas. Por isso, podem ser, até certo ponto, previsíveis. Por outro lado, os vieses cognitivos são falhas no processamento da informação decorrentes da capacidade limitada do cérebro e da rapidez com que se busca responder, sendo mais difíceis de serem detectados antecipadamente. E qual é o papel das heurísticas e dos vieses cognitivos em nossas previsões esportivas? Além dos elementos propriamente afetivos, que se relacionam com a preferência por algum time, ambos tornam nossas previsões vulneráveis, pois não somos capazes de processar todas as informações. Preferimos nos guiar pelo acaso e não pelas estatísticas, e não levamos em conta outras condições do ambiente. No caso das previsões esportivas, os vieses cognitivos mais frequentes são: O excesso de otimismo, que é a confiança injustificada na ocorrência ou estabilidade de um fenômeno, o que impede enxergar o erro nas estimativas iniciais. O viés da “mão quente”, que considera que as sequências de vitórias ou derrotas permanecerão para sempre, ignorando os referenciais estatísticos. O viés de representatividade, em que a resposta é selecionada por semelhança, e não por probabilidade. O viés dos números pequenos, ao realizar estimativas com base em poucos casos. A superinferência, que considera impossível que algo ocorra se não tiver ocorrido anteriormente. Ao fazer previsões no esporte, subestima-se a importância da estatística e superestima-se as sequências de vitórias ou os bons resultados. O pensamento intuitivo conspira, então, contra o pensamento racional: torna-se mais rápido, espontâneo e atraente. Armenio Pérez Martínez, Director del Departamento de Investigación Científica, Tecnológica e Innovación, Universidad Laica Vicente Rocafuerte This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.
Cientistas brasileiros investigam se medicamentos como Ozempic e Mounjaro podem mesmo ajudar a proteger o cérebro

Diogo Haddad, Hospital Alemão Oswaldo Cruz Poucos medicamentos geraram tanto entusiasmo nos últimos anos quanto Ozempic, Wegovy (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida). Originalmente desenvolvidas para tratar diabetes tipo 2 e, posteriormente, obesidade, essas substâncias transformaram a forma como os médicos passaram a enxergar as doenças metabólicas. Elas melhoram o controle da glicose no sangue, promovem perda de peso significativa e reduzem o risco cardiovascular em muitos pacientes. Mas uma outra pergunta, mais inesperada, começou a surgir: esses medicamentos também poderiam ajudar a proteger o cérebro? Cientistas vêm explorando essa possibilidade. A ideia é atraente: o diabetes tipo 2 está associado a um maior risco de declínio cognitivo e demência, e as vias biológicas envolvidas no diabetes se sobrepõem a algumas implicadas nas doenças neurodegenerativas. Ainda assim, as evidências permanecem longe de serem conclusivas. Na verdade, alguns dos estudos mais aguardados na área trouxeram, recentemente, resultados decepcionantes. Grandes ensaios clínicos de fase 3 que avaliaram a semaglutida em pessoas com doença de Alzheimer em estágio inicial não demonstraram os benefícios cognitivos claros que muitos pesquisadores esperavam. Os ensaios clínicos EVOKE e EVOKE+, que avaliaram a semaglutida oral em mais de 3.800 pessoas com doença de Alzheimer em estágio inicial, não demonstraram benefício clínico significativo na desaceleração do declínio cognitivo quando comparada ao placebo. Os achados serviram como um importante lembrete de que retardar ou prevenir a neurodegeneração é extremamente difícil. Parte da resposta pode estar em uma possibilidade simples: talvez estejamos fazendo a pergunta de pesquisa errada. Em vez de perguntar se esses medicamentos podem retardar a doença de Alzheimer já estabelecida, talvez seja necessário investigar se eles podem influenciar a saúde cerebral muito antes, em etapas anteriores ao desenvolvimento da demência. Essa possibilidade motivou nosso estudo Tirzepatida versus semaglutida para a prevenção de comprometimento cognitivo leve, demência e doença de Alzheimer em diabetes tipo 2: um estudo de coorte retrospectivo no mundo real, publicado recentemente no Journal of Diabetes and Its Complications. Olhar para o cérebro pela lente metabólica Durante décadas, a doença de Alzheimer foi estudada principalmente a partir da perspectiva das placas amiloides, dos emaranhados de tau e da neurodegeneração. Essas continuam sendo características biológicas centrais da doença. Entretanto, o cérebro não existe de forma isolada. Ele depende de vasos sanguíneos saudáveis, metabolismo energético eficiente, sinalização adequada da insulina e respostas inflamatórias rigorosamente reguladas. Muitos desses sistemas são comprometidos no diabetes tipo 2. Pesquisadores têm reconhecido cada vez mais que a disfunção metabólica pode contribuir para a vulnerabilidade do cérebro em envelhecimento. Isso não significa que o diabetes inevitavelmente cause demência. Em vez disso, sugere que o ambiente biológico criado pelo diabetes pode tornar o declínio cognitivo mais provável em alguns indivíduos. Isso levou cientistas a investigar se medicamentos que melhoram a saúde metabólica também poderiam influenciar os desfechos cognitivos de longo prazo. Foi o que fizemos. Usando registros eletrônicos de saúde do mundo real, provenientes de uma ampla rede internacional de pesquisa, comparamos adultos com diabetes tipo 2 que iniciaram tratamento com semaglutida ou tirzepatida. Esta é particularmente interessante porque atua em duas vias hormonais envolvidas no metabolismo: GLP-1 e GIP (incretinas). A semaglutida, por sua vez, tem como principal alvo apenas o GLP-1. Depois de parear cuidadosamente mais de 44 mil pacientes em cada grupo, considerando características demográficas e clínicas, examinamos a ocorrência posterior de comprometimento cognitivo leve, demência e doença de Alzheimer. Janela de oportunidade Nosso achado mais forte envolveu o comprometimento cognitivo leve, frequentemente considerado um estágio intermediário entre o envelhecimento normal e a demência. Os pacientes que iniciaram o uso de tirzepatida apresentaram menor incidência de comprometimento cognitivo leve do que aqueles que iniciaram o uso de semaglutida. Para demência e doença de Alzheimer, os resultados foram menos consistentes. Embora algumas análises tenham sugerido uma possível redução de risco, os achados não foram robustos o suficiente para sustentar conclusões definitivas. Essa distinção é importante. Nosso estudo não mostra que a tirzepatida previne a doença de Alzheimer. Tampouco sugere que as pessoas devam usar esses medicamentos para proteger a memória. Por se tratar de um estudo observacional, ele identifica associações, mas não prova causa e efeito. No entanto, levanta uma questão científica intrigante: por que os efeitos poderiam parecer mais evidentes na fase de comprometimento cognitivo leve do que na demência já estabelecida? Uma possibilidade é que as doenças neurodegenerativas se desenvolvam ao longo de décadas, enquanto muitos tratamentos são introduzidos relativamente tarde. Quando a doença de Alzheimer se torna clinicamente aparente, extensas alterações biológicas muitas vezes já vêm ocorrendo silenciosamente há anos. Nessa fase, modificar o curso da doença pode ser muito mais difícil. O comprometimento cognitivo leve pode representar uma janela de oportunidade diferente. Em estágios mais iniciais, a saúde vascular, a resistência à insulina, a inflamação e a disfunção metabólica podem exercer maior influência sobre as trajetórias cognitivas. Se terapias baseadas em incretinas afetam alguma dessas vias, seu impacto pode ser mais fácil de detectar antes que uma neurodegeneração substancial tenha ocorrido. Isso ainda é especulativo, mas oferece uma possível explicação para o fato de estudos observacionais em pessoas com diabetes, às vezes, gerarem sinais diferentes daqueles observados em ensaios clínicos conduzidos com pacientes que já têm doença de Alzheimer estabelecida. O contexto biológico subjacente pode não ser o mesmo. A lição mais importante Outra questão ainda sem resposta é se todas as terapias baseadas em incretinas devem ser vistas como um único grupo. Semaglutida e tirzepatida têm semelhanças, mas não são medicamentos idênticos. A dupla ação da tirzepatida sobre os receptores de GLP-1 e GIP pode influenciar vias biológicas de forma diferente da semaglutida. Estudos experimentais sugeriram que essas vias poderiam afetar inflamação, sobrevivência neuronal, função sináptica e metabolismo energético cerebral. Ainda não se sabe se esses efeitos se traduzem em benefícios clínicos significativos. Os nossos achados sugerem que pesquisas futuras talvez precisem avaliar essas terapias individualmente, em vez de presumir que elas produzam efeitos idênticos sobre o cérebro. Isso é particularmente relevante diante do número crescente de ensaios clínicos que investigam intervenções metabólicas em doenças neurodegenerativas. A mensagem mais
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Como Messi, Mbappé e Haaland usam a cabeça para ter uma vantagem psicológica na Copa do Mundo

O norueguês Erling Haaland comemora ao marcar o primeiro gol de sua equipe durante partida da fase de grupos da Copa do Mundo contra o Iraque, em 16 de junho de 2026: psicólogo do esporte analisa características que ajudam no sucesso no futebol moderno. AP Photo/Martin Meissner Eric Zillmer, Drexel University Parte da beleza do futebol está em sua imprevisibilidade. Na Copa do Mundo de 2026 já vimos Marrocos empatar com o Brasil, pentacampeão mundial e a Austrália superar as expectativas ao derrotar a Turquia. Mas poucas surpresas superarão o fato de a seleção de Cabo Verde, classificada em 67º lugarno ranking da Fifa no início do torneio, ter empatado em 0 a 0 com a Espanha – a favorita de muitos especialistas ao título. Mas o que influencia se uma equipe vence, empata ou perde? É claro que a qualidade dos jogadores e da comissão técnica é importante. E avanços recentes na análise esportiva, incluindo métricas de geolocalização de jogadores em tempo real, levaram à adoção de decisões baseadas em dados durante as partidas. Os principais times de futebol dependem cada vez mais de big data e algoritmos preditivos para obter uma vantagem competitiva. Mas a psicologia do esporte também desempenha um papel importante. E é aí que eu entro. Tenho paixão por esportes em geral e pelo futebol em particular – é o esporte que pratiquei desde criança na Alemanha. Agora, como psicólogo esportivo e diretor do Global Sport Leadership Solutions Lab da Universidade Drexel, estudo como jogadores e treinadores podem lidar com o caos em campo para melhorar estrategicamente o desempenho e vencer. A seguir, destaco vários princípios psicológicos modernos essenciais para todas as 48 seleções que disputaram a Copa do Mundo de 2026 no México, Canadá e EUA. Cinco passos para o sucesso no futebol Perturbação – É verdade em todos os esportes, e certamente no futebol moderno, que a equipe vencedora se beneficiará ao perturbar seu adversário. Táticas disruptivas podem incluir faltas táticas agressivas, contra-ataques em alta velocidade que pegam o adversário desprevenido, jogadas ensaiadas enganosas que criam um caos organizado, táticas de alta pressão que forçam os adversários a cometer erros e provocar os jogadores adversários. Desorganizar a estrutura e o ritmo do time adversário é tanto uma mentalidade quanto uma estratégia que pode levar a oportunidades de gol. Um time capaz de interromper o fluxo do adversário muitas vezes consegue superar uma desvantagem técnica ou desmoralizar times mais fracos. Aptidão de atenção – Marcar gols no futebol internacional é difícil. Um grande atacante vale seu peso em ouro. Ele não apenas realiza dribles excepcionais e usa de habilidades espetaculares no um contra um. Ele também tem uma forte “capacidade de atenção”, que exige eficiência cognitiva e ética de trabalho para se posicionar de forma a marcar gols. Esses jogadores são celebrados por seu “sangue frio” e habilidade com a bola, mas é sua inteligência psicológica que os torna especiais. Uma das primeiras habilidades a falhar sob pressão é a capacidade de concentração. O artilheiro por excelência não “congela”. Pode-se chamar isso de “nervos de aço”, mas é apenas uma metáfora para gerenciar múltiplas fontes de atenção de forma simultânea e eficiente. Atacantes como o inglês Harry Kane, o francês Kylian Mbappé e o norueguês Erling Haaland mantêm o controle da atenção sob pressão. Eles se concentram no momento em que mais importa e alternam entre tarefas com naturalidade. Divagação mental controlada – A divagação mental é um afastamento espontâneo do ambiente imediato. Nos esportes, a divagação mental costuma ser vista como algo negativo, pois a falta de atenção em um momento crucial pode levar ao desastre. Mas é difícil manter o foco por mais de 90 minutos durante uma partida de futebol. E novas evidências de neuroimagem sugerem que, nos momentos de divagação mental, o cérebro não está de forma alguma em repouso. Na verdade, ele apenas está processando informações de maneira diferente. Assim, a divagação mental controlada, que envolve uma exploração mental ativa, pode ser altamente benéfica em esportes de alto rendimento — mesmo que seja apenas por alguns segundos. Os melhores jogadores parecem saber quando se concentrar e quando se distanciar. Às vezes, eles desviam o olhar da bola e absorvem uma perspectiva mais ampla da partida. Então, quando surge uma oportunidade crucial de marcar um gol, eles fixam sua concentração e estão 100% presentes. O capitão da Argentina, Lionel Messi, comemora a vitória de seu país por 3 a 0 sobre a Argélia em 16 de junho de 2026. AP Photo/Reed Hoffmann O árbitro Wilton Sampaio, do Brasil, mostra o cartão vermelho ao sul-africano Themba Zwane durante a partida entre México e África do Sul em 11 de junho de 2026. AP Photo/Silvia Izquierdo Quando pesquisadores examinaram para onde o grande jogador argentino Lionel Messi olha, descobriram que seus olhos muitas vezes estão longe da bola. O senso comum no futebol sempre foi manter os olhos na bola, mas uma nova pesquisa sugere que o vencedor também deixa a mente vagar e desvia o olhar da ação. O cérebro de Messi parece ser capaz de fazer coisas que muitos de seus adversários não conseguem; ele parece ter habilidades cognitivas de nível extraordinário. Resiliência (para os árbitros) — O futebol é um dos esportes mais difíceis de arbitrar. Os árbitros não só precisam estar em excelente condição física, como também devem ser capazes de se controlar emocionalmente a partida. Isso tem se tornado cada vez mais difícil, com jogadores profissionais simulando lesões rotineiramente e uma regra do impedimento que é interpretada com precisão de frações de centímetro. E há ainda uma das decisões cognitivas mais difíceis e controversas de todos os esportes: o pênalti, marcado por uma falta cometida dentro da área. Com tanto em jogo e todos de olho, o árbitro da Copa do Mundo moderna precisa ter habilidades excepcionais de multitarefa, comunicação e gestão. Os árbitros fazem parte da dinâmica da partida, quer queiram, quer não. Todos os julgam – ainda mais em 2026, já que os árbitros
A IA chegou na pós‑graduação, mas não nas universidades

Raquel Lobão, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Numa tarde recente, uma orientanda me enviou o rascunho de um capítulo teórico. O texto estava fluido, bem articulado, com as referências nos lugares certos. Algo, porém, parecia levemente fora de lugar, uma certa uniformidade de ritmo, uma ausência daquela aspereza produtiva que marca quem ainda está aprendendo a pensar por escrito. Não perguntei nada. Ela também não disse nada. E foi exatamente esse silêncio que me preocupou. Essa cena, que aposto não ser exclusiva da minha experiência no programa de pós-graduação em Comunicação (PGCOM) da UERJ, resume um dos dilemas mais urgentes e menos enfrentados da universidade brasileira hoje: a inteligência artificial generativa já está dentro das dissertações e teses. Está nas revisões de literatura, nos fichamentos, nos esboços de argumento, nas transcrições de entrevistas. Está no cotidiano da pós-graduação de um jeito silencioso, informal e, sobretudo, sem nenhuma bússola ética ou institucional que oriente estudantes e professores sobre o que fazer com ela. O problema não é a tecnologia. O problema é o vazio ao redor dela. Esse vazio não é privilégio brasileiro. Uma revisão sistemática publicada em 2025 na revista Frontiers in Education, analisa estudos sobre escrita acadêmica e IA entre 2023 e 2025 e identifica o que pesquisadores passaram a chamar de escrita “AI-nizada” — textos que diluem a voz autêntica do estudante e comprometem o desenvolvimento de sua identidade intelectual. Pesquisa publicada no British Journal of Educational Technology mostrou que professores de universidades britânicas já recorrem a arguições orais improvisadas como estratégia de emergência para verificar autoria. E o International Center for Academic Integrity revelou que 58% dos estudantes admitiram usar ferramentas de IA de forma desonesta em avaliações acadêmicas e provavelmente a cifra real é maior. Trata-se de um sinal claro de que os modelos avaliativos tradicionais simplesmente não dão conta do novo cenário. Sem mapa e sem bússola No Brasil, o quadro é agravado por uma camada adicional: a ausência quase total de regulação institucional. Levantamento realizado pela Cátedra Oscar Sala da USP, com mais de 150 Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras, encontrou apenas sete com diretrizes formais para o uso de IA generativa. O Referencial do MEC para uso responsável de IA na Educação, publicado em fevereiro de 2026, confirmou o tamanho do problema: 73,8% dos docentes e gestores de IES públicas não souberam informar se havia qualquer medida regulatória sobre o tema em suas instituições. Mais recentemente, levantamento publicado pelo O Globo em março de 2026 indicou que apenas 43% das 69 universidades federais já têm protocolos disponíveis ou em construção – o que significa que mais da metade ainda opera sem qualquer orientação formal. Quando uma universidade finalmente se mexe, o campo ainda não sabe bem como reagir. O caso da Universidade Federal do Ceará é ilustrativo. Ao publicar sua Portaria nº 39/2025, tornando obrigatória a declaração de uso de IA e a submissão de trabalhos a ferramentas de detecção de similaridade, a universidade foi simultaneamente pioneira e alvo de crítica. Artigo publicado aqui no The Conversation argumentou que a norma carregava viés punitivista, criava zonas cinzentas difíceis de fiscalizar e arriscava desestimular exatamente a transparência que pretendia promover. A UFC respondeu que o objetivo era ético e formativo, não disciplinar. O debate em si, porém, é sintomático: não temos nem linguagem comum para discutir o problema. Na pós-graduação, as tensões são particularmente agudas porque o que está em jogo não é apenas o desempenho numa disciplina. É a formação de pesquisadores. Uma dissertação ou tese não é um produto. É um processo de aprendizagem profunda, de construção de um pensamento próprio, de amadurecimento intelectual que não tem atalho. E é exatamente nesse processo que a IA generativa, usada sem mediação, representa seu risco mais sutil e mais grave: não o do plágio evidente, mas o do que pesquisadores chamam de erosão epistêmica, isto é, a atrofia gradual da capacidade de pensar de forma independente, de sustentar um argumento, de desenvolver uma voz intelectual própria. Risco de corrupção da identidade acadêmica Pesquisa conduzida com acadêmicos britânicos e publicada na Postdigital Science and Education revelou que professores expressam temores de que as ferramentas de IA possam “corromper a identidade acadêmica e as práticas autênticas de produção intelectual.” Outros falam em “desqualificação”, “desumanização” e “erosão epistêmica”. Não se trata de resistência tecnológica. Trata-se de uma ansiedade existencial legítima sobre o valor do trabalho intelectual em si. Na pós-graduação, essa ansiedade se concretiza no processo de orientação: como avaliar o desenvolvimento de um pensador quando não se sabe mais distinguir o que é dele do que foi gerado por uma máquina? Como identificar se um mestrando realmente compreendeu o que escreveu — ou se aprendeu apenas a fazer as perguntas certas para um chatbot? O estudo da Frontiers in Education é preciso ao nomear o dilema que estudantes enfrentam: escolher entre produzir um texto que “soa melhor” graças à IA ou um que “soa como eles mesmos.” Quando a escolha sistemática é pela primeira opção, o que se perde não é apenas autoria — é a formação. O referencial do MEC propõe caminhos sensatos: Comissões de Inteligência Artificial nas IES, critérios explícitos de autoria, revisão das práticas avaliativas para valorizar processo e não apenas produto. Um estudo comparando políticas institucionais em 40 universidades de seis regiões do mundo aponta na mesma direção, mostrando que as instituições mais eficazes combinam diretrizes claras com programas de formação e avaliações autênticas e não apostam apenas em controle e detecção. São propostas razoáveis. Mas um referencial sem obrigatoriedade é uma sugestão. E sugestões, no contexto da burocracia universitária brasileira, têm um ciclo de vida conhecido: viram grupos de trabalho, que viram relatórios, que viram gavetas. O que falta não é diagnóstico. O que falta é mecanismo e um ator que o faça funcionar. Esse ator tem nome: a CAPES. A agência que regula e avalia a pós-graduação brasileira é, hoje, a instância com mais poder real para induzir mudanças sistêmicas nas IES. Não por acaso,
SEF/MG notifica por SMS donos de veículos com IPVA 2026 em aberto; saiba como pagar

SMS não traz links nem boleto; inadimplente perde o CRLV 2026 e pode ir à dívida ativa do estado
Conheça a história da rapamicina, medicamento de US$ 1 bi cuja ciência e a indústria farmacêutica devem aos indígenas da Ilha de Páscoa

O povo Rapa Nui é praticamente invisível na história da origem da rapamicina. Posnov/Moment via Getty Images Ted Powers, University of California, Davis Um antibiótico descoberto na Ilha de Páscoa em 1964 deu início a uma história de sucesso farmacêutico de bilhões de dólares. No entanto, a história contada sobre esse “medicamento milagroso” deixou completamente de fora as pessoas e a política que tornaram sua descoberta possível. Batizado em homenagem ao nome indígena da ilha, Rapa Nui, o medicamento rapamicina foi inicialmente desenvolvido como imunossupressor para evitar a rejeição de transplantes de órgãos e melhorar a eficácia dos stents no tratamento de doenças da artéria coronária. Desde então, seu uso se expandiu para tratar vários tipos de câncer e, atualmente, os pesquisadores estão explorando seu potencial para tratar diabetes, doenças neurodegenerativas e até mesmo o envelhecimento. De fato, os estudos que levantam a promessa da rapamicina de estender o tempo de vida ou combater doenças relacionadas à idade parecem ser publicados quase diariamente. Uma busca no PubMed revela mais de 59.000 artigos de periódicos que mencionam a rapamicina, tornando-a um dos medicamentos mais comentados na medicina. Estrutura química da rapamicina. Fvasconcellos/Wikimedia Commons No centro do poder da rapamicina está sua capacidade de inibir uma proteína chamada alvo da rapamicina quinase, ou TOR. Essa proteína atua como um regulador principal do crescimento e do metabolismo celular. Juntamente com outras proteínas parceiras, a TOR controla como as células respondem aos nutrientes, ao estresse e aos sinais ambientais, influenciando assim os principais processos, como a síntese de proteínas e a função imunológica. Devido à sua função central nessas atividades celulares fundamentais, não é surpreendente que o câncer, os distúrbios metabólicos e as doenças relacionadas à idade estejam ligados ao mau funcionamento da TOR. Apesar de ser tão onipresente na ciência e na medicina, a forma como a rapamicina foi descoberta permaneceu em grande parte desconhecida do público. Muitos profissionais da área sabem que cientistas da empresa farmacêutica Ayerst Research Laboratories isolaram a molécula de uma amostra de solo contendo a bactéria Streptomyces hydroscopicus em meados da década de 1970. O que é menos conhecido é que essa amostra de solo foi coletada como parte de uma missão liderada pelo Canadá em Rapa Nui em 1964, chamada Expedição Médica à Ilha de Páscoa, ou METEI. Como cientista que construiu minha carreira em torno dos efeitos da rapamicina nas células, senti-me compelido a entender e compartilhar a história humana subjacente à sua origem. Tomar conhecimento do trabalho da historiadora Jacalyn Duffin sobre a METEI mudou completamente a forma como eu e muitos de meus colegas vemos nosso próprio campo. Desvendar o complexo legado da rapamicina levanta questões importantes sobre o viés sistêmico na pesquisa biomédica e o que as empresas farmacêuticas devem às terras indígenas de onde extraem suas descobertas de sucesso. História da METEI A Expedição Médica à Ilha de Páscoa foi uma criação de uma equipe canadense composta pelo cirurgião Stanley Skoryna e pelo bacteriologista Georges Nogrady. Seu objetivo era estudar como uma população isolada se adaptava ao estresse ambiental, e eles acreditavam que a construção planejada de um aeroporto internacional na Ilha de Páscoa oferecia uma oportunidade única. Eles presumiram que o aeroporto resultaria em um maior contato externo com a população da ilha, resultando em mudanças em sua saúde e bem-estar. Com financiamento da Organização Mundial da Saúde e apoio logístico da Marinha Real Canadense, a METEI chegou a Rapa Nui em dezembro de 1964. Ao longo de três meses, a equipe realizou exames médicos em quase todos os 1.000 habitantes da ilha, coletando amostras biológicas e pesquisando sistematicamente a flora e a fauna da ilha. Foi como parte desses esforços que Nogrady coletou mais de 200 amostras de solo, uma das quais acabou contendo a cepa de bactérias Streptomyces produtora de rapamicina. METEI logo. Georges Nogrady, CC BY-NC-ND É importante perceber que o objetivo principal da expedição era estudar o povo Rapa Nui como uma espécie de laboratório vivo. Eles incentivaram a participação por meio de subornos, oferecendo presentes, alimentos e suprimentos, e por meio de coerção, alistando um padre franciscano que há muito tempo estava na ilha para ajudar no recrutamento. Embora as intenções dos pesquisadores possam ter sido honrosas, esse não deixa de ser um exemplo de colonialismo científico, em que uma equipe de pesquisadores brancos opta por estudar um grupo de indivíduos predominantemente não brancos sem a participação deles, resultando em um desequilíbrio de poder. Havia um viés inerente no início do METEI. Por um lado, os pesquisadores presumiram que os Rapa Nui estavam relativamente isolados do resto do mundo quando, na verdade, havia uma longa história de interações com países fora da ilha, começando com relatos do início do século XVII até o final do século XIX. A METEI também presumiu que os Rapa Nui eram geneticamente homogêneos, ignorando a complexa história de migração, escravidão e doenças da ilha. Por exemplo, a população moderna de Rapa Nui é mestiça, com ancestrais polinésios e sul-americanos. A população também incluía sobreviventes do comércio de escravos africanos que foram devolvidos à ilha e trouxeram consigo doenças, inclusive a varíola. Esse erro de cálculo prejudicou uma das principais metas de pesquisa da METEI: avaliar como a genética afeta o risco de doenças. Embora a equipe tenha publicado vários estudos descrevendo as diferentes faunas associadas aos Rapa Nui, sua incapacidade de desenvolver uma linha de base é provavelmente uma das razões pelas quais não houve nenhum estudo de acompanhamento após a conclusão do aeroporto na Ilha de Páscoa em 1967. Dando crédito onde ele é devido As omissões nas histórias de origem da rapamicina refletem pontos cegos éticos comuns na forma como as descobertas científicas são lembradas. Georges Nogrady levou amostras de solo de Rapa Nui, uma das quais acabou chegando ao Ayerst Research Laboratories. Lá, Surendra Sehgal e sua equipe isolaram o que foi batizado de rapamicina, levando-o ao mercado no final da década de 1990 como o imunossupressor Rapamune. Embora a persistência de Sehgal tenha sido fundamental para