Em 1965, o casal Anna Amélia Lopes de Oliveira e Nello Nuno viajou de Belo Horizonte para Ouro Preto com dois filhos pequenos para um fim de semana com amigos. Não voltaram. Ficaram na cidade pelo resto da vida — ou pelo resto das suas vidas, já que Nello Nuno morreu em 1975, aos 35 anos, e Annamélia continuou em Ouro Preto por quase seis décadas mais, até outubro de 2024, quando faleceu aos 88 anos.
Nesse tempo, Annamélia ajudou a moldar a cena cultural da cidade de formas que ainda se sentem hoje. Foi uma das responsáveis pela criação da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP) em 1968 — instituição fundada com apoio do poeta Vinicius de Moraes, do escritor Murilo Rubião e da atriz Domitila do Amaral. No ano seguinte, ela e Nello Nuno criaram a Escola de Arte Rodrigo Melo Franco de Andrade, que foi incorporada à estrutura da FAOP e passou a oferecer cursos de formação artística em desenho, pintura e gravura. Ali também foi criado o primeiro curso de formação de conservadores e restauradores do país.
Annamélia havia se formado na primeira turma do curso de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nascida em Nova Lima em 1936, trouxe para Ouro Preto uma linguagem visual que tinha a cidade como matéria-prima — as pedras, a arquitetura barroca, as ladeiras, o cotidiano. A gravura se tornou uma de suas marcas. Segundo a filha Gabriela Rangel, que também atua nas artes visuais, foi Annamélia quem trouxe a gravura para dentro da FAOP “com a força que ela tem hoje”.
Sua obra circulou por instituições brasileiras e estrangeiras. Participou da Bienal Internacional de São Paulo, onde recebeu o prêmio Itamaraty. Suas pinturas foram exibidas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e no Kunstcenter, na Dinamarca. Em 2022, lançou ao lado do filho Nello Rangel o livro Entrelaçados, com 38 pinturas produzidas em 2020 e 2021 — trabalhos sobre isolamento, apreensão e os sinais de esperança que atravessaram o período da pandemia.
Annamélia foi professora na FAOP por décadas. Conciliou a produção autoral com o ensino e se tornou uma referência para gerações de artistas que passaram pela instituição. O secretário municipal de Cultura e Turismo, Flávio Malta, resumiu a relação entre a artista e a cidade na frase que se tornou o tema do festival deste ano: “Annamélia de Ouro Preto e Ouro Preto de Annamélia. A cidade se confunde com a artista e a artista se confunde com a cidade.”
O ateliê onde Annamélia viveu e trabalhou foi revitalizado pelas filhas Tatiana e Gabriela Rangel e reaberto ao público no início de 2026. Instalado em um casarão setecentista na Rua Camilo de Brito, 59, no Centro Histórico, o espaço guarda obras, matrizes, objetos de trabalho e pertences pessoais da artista. A visitação é gratuita e pode ser agendada pelo WhatsApp (31) 9527-0629.
O Festival de Inverno de Ouro Preto 2026 ocupa todo o mês de julho com o tema da homenagem. Os shows confirmados são nos dias 7 e 8 de julho, coincidindo com o aniversário de 315 anos da cidade: Orquestra Ouro Preto e Duda Beat no dia 7, e Mumuzinho no dia 8, ambos às 21h no estacionamento do Centro de Convenções da UFOP. Annamélia completaria 90 anos em 2026.
1936 — Nasce em Nova Lima, Minas Gerais
Formou-se na primeira turma do curso de Belas Artes da UFMG
1965 — Chega a Ouro Preto com o marido Nello Nuno e dois filhos
1968 — Participa da criação da FAOP
1969 — Funda com Nello Nuno a Escola de Arte Rodrigo Melo Franco de Andrade, incorporada à FAOP
1975 — Morte de Nello Nuno, aos 35 anos
Décadas de carreira como professora e artista, com participação na Bienal de SP e prêmio Itamaraty
2022 — Lança o livro Entrelaçados com o filho Nello Rangel
Outubro de 2024 — Falece em Ouro Preto, aos 88 anos
2026 — Ateliê reaberto ao público; Festival de Inverno leva seu nome como tema
Endereço: Rua Camilo de Brito, 59, Centro Histórico de Ouro Preto
Visitação gratuita
Agendamento: (31) 9527-0629 (WhatsApp)