Pedido de anuência para mudança societária da GS Inima (sócia majoritária da Saneouro) chega oficialmente à Prefeitura de Ouro Preto

A Prefeitura de Ouro Preto confirmou que chegaram oficialmente ao município os documentos que solicitam anuência para a mudança societária envolvendo a Saneouro, concessionária responsável pelos serviços de água e esgoto na cidade. Segundo informações obtidas pelo Vintém, o pedido foi protocolado e a Procuradoria Geral do Município já iniciou a análise jurídica da documentação. A expectativa da administração municipal é que o parecer jurídico seja emitido em até quinze dias. O protocolo marca a abertura formal do processo no âmbito municipal, etapa obrigatória sempre que há qualquer alteração societária que possa impactar contratos de concessão de serviços públicos. O que motivou o pedido O pedido de anuência ocorre após o anúncio internacional de que a GS Inima Environment, empresa que integra a estrutura societária da Saneouro, foi incluída em um processo global que pode resultar na entrada de um novo acionista. Procurada pela reportagem, a Saneouro informou que: “A Saneouro notificou a Prefeitura Municipal de Ouro Preto que a GS E&C (Coreia), controladora da GS Inima Environment (Espanha), iniciou um processo internacional que possibilita a oportunidade de inclusão de um novo acionista.” A empresa destacou que o processo está em andamento no exterior e que a notificação ao município atende às exigências contratuais e legais. Por que a anuência do município é necessária De acordo com as regras que regem concessões públicas, qualquer alteração societária que envolva empresas concessionárias precisa ser previamente analisada e autorizada pelo poder concedente — neste caso, a Prefeitura de Ouro Preto. Até que o parecer jurídico seja emitido e o processo concluído, não há alteração na operação da Saneouro nem na prestação dos serviços à população. Próximos passos Com a documentação já protocolada, cabe agora à Procuradoria Geral: O Vintém acompanha o andamento do processo e seguirá atualizando os leitores à medida que novas informações forem oficialmente divulgadas.

Bacia de contenção é entregue no Morada do Sol para reduzir alagamentos em Mariana

Uma bacia de contenção — estrutura projetada para reter temporariamente a água da chuva e controlar o escoamento, reduzindo enchentes e enxurradas — foi entregue na tarde da última terça-feira (6) no bairro Morada do Sol, em Mariana. A obra, executada pela Secretaria Municipal de Obras e Gestão Urbana, era aguardada há anos por moradores da região do Barro Preto, frequentemente afetada por alagamentos. As intervenções tiveram início em março de 2025 e foram concluídas em prazo considerado curto para o porte da obra. A nova estrutura tem como objetivo ampliar a capacidade de drenagem da área e aumentar a segurança de moradores que conviviam com inundações recorrentes, especialmente em vias como a Travessa Monsenhor Rafael Coelho, onde o acúmulo de água era frequente em períodos de chuva intensa. Impacto direto na rotina dos moradores Moradores relatam que o histórico de alagamentos gerava insegurança constante. Para Milton, morador do Barro Preto, a entrega da bacia representa um alívio. Segundo ele, a obra traz mais tranquilidade principalmente para quem vive em áreas mais baixas do bairro, onde a água costumava invadir residências e dificultar a circulação. A Prefeitura informou que a intervenção foi planejada a partir de demandas antigas da comunidade e integra um conjunto de ações voltadas à mitigação de riscos associados às chuvas no município. Intervenções técnicas e desafios da obra A execução da bacia de contenção envolveu alta complexidade técnica e enfrentou desafios logísticos, como o intenso fluxo de veículos na região. Entre os serviços realizados estão a construção de muro de gabião e colchão reno, a instalação de aduelas sob a ponte, além de terraplanagem, pavimentação asfáltica, paisagismo, construção de passeios e instalação de grades de proteção. Outro destaque foi a implantação de uma estrutura de trilhos destinada a reter lixo e entulhos levados pela enxurrada. De acordo com a administração municipal, o sistema tem atuado de forma eficaz ao impedir que resíduos agravem o volume de água acumulada e comprometam o funcionamento da bacia. Drenagem urbana e prevenção de alagamentos Segundo a Prefeitura, a obra faz parte de uma estratégia mais ampla para ampliar a capacidade de drenagem urbana, reduzir os impactos das chuvas e melhorar a qualidade de vida nos bairros Morada do Sol, Barro Preto e em outras áreas suscetíveis a alagamentos.

Mariana e Ouro Preto abrem cadastramento de blocos para o Carnaval 2026

Foto: Ane Souz As prefeituras de Mariana e Ouro Preto abriram, a partir desta quinta-feira (8), o cadastramento oficial de blocos carnavalescos interessados em integrar a programação do Carnaval 2026. A iniciativa busca organizar o calendário da folia, garantir segurança e permitir o planejamento prévio do apoio oferecido pelo poder público aos grupos que desfilam durante o período carnavalesco. Cadastro em Mariana Em Mariana, os blocos devem se inscrever até o dia 16 de janeiro, presencialmente, no Departamento de Documentação e Arquivo, no prédio da Prefeitura. O atendimento acontece de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h e das 13h às 16h30. Segundo a administração municipal, o cadastramento é uma etapa essencial para que a Secretaria de Patrimônio Cultural possa organizar a programação, planejar a logística e definir o apoio aos blocos que participarão do carnaval. No ato da inscrição, os blocos devem apresentar: O Carnaval é um dos eventos mais aguardados do calendário cultural de Mariana, e a organização antecipada é apontada pela Prefeitura como fundamental para que a festa ocorra de forma segura e estruturada. Cadastro em Ouro Preto Já em Ouro Preto, o cadastramento dos blocos carnavalescos para o Carnaval 2026 está aberto no período de 8 a 18 de janeiro. O procedimento pode ser feito online, por meio de formulário eletrônico (Google Forms), disponibilizado pela Prefeitura. Além do cadastro digital, também haverá a opção de inscrição presencial na sede da Secretaria de Cultura e Turismo, localizada na Rua Cláudio Manoel, nº 61, Centro — a Casa de Gonzaga. O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. De acordo com a Prefeitura, o cadastramento é fundamental para o planejamento do evento, contribuindo para a segurança, a estrutura e a valorização das manifestações culturais que fazem parte do carnaval ouro-pretano. Planejamento e organização Nas duas cidades, o cadastramento não garante automaticamente recursos ou apoio financeiro, mas é requisito básico para que os blocos sejam considerados na programação oficial e no planejamento da infraestrutura pública durante o carnaval. As prefeituras orientam que os blocos interessados realizem a inscrição dentro do prazo estabelecido, garantindo a participação no processo de organização do Carnaval 2026.

Lei em Minas proíbe comércios de exigirem dados pessoais de clientes sem justificativa legal

Entrou em vigor nesta quinta-feira (8), em Minas Gerais, uma lei que proíbe comércios e prestadores de serviços de exigirem dados pessoais dos clientes como condição para a venda de produtos ou atendimento, salvo quando houver previsão legal específica. A norma impede práticas comuns como a solicitação obrigatória de CPF, telefone, endereço ou e-mail no momento do pagamento. A lei foi publicada no Diário Oficial do Estado e é resultado de um projeto apresentado em 2019 pelo deputado estadual Charles Santos (Republicanos). O texto também recebeu contribuições de outros parlamentares da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). O que muda na prática Pela nova regra, os dados pessoais só poderão ser solicitados quando forem indispensáveis para a operação e estiverem amparados por lei. Isso inclui situações como emissão de nota fiscal quando exigida pela legislação, contratos de prestação de serviços ou operações reguladas por normas específicas. Fora desses casos, o consumidor não pode ser constrangido a fornecer informações pessoais para concluir uma compra ou acessar um serviço. A exigência de cadastro, prática comum em muitos estabelecimentos, passa a ser considerada irregular quando não houver base legal. Alinhamento com a LGPD A legislação estadual está em consonância com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), em vigor desde 2018, que estabelece princípios como a finalidade, a necessidade e a transparência no tratamento de dados pessoais no Brasil. A LGPD determina que empresas e órgãos públicos só podem coletar informações estritamente necessárias para cumprir uma finalidade legítima, informando claramente ao titular dos dados como essas informações serão utilizadas, armazenadas e protegidas. Proteção ao consumidor Com a nova lei, Minas Gerais reforça o entendimento de que a proteção de dados é um direito do consumidor. O objetivo é coibir a coleta excessiva de informações e reduzir riscos como uso indevido de dados, vazamentos e abordagens comerciais não autorizadas. A norma limita o acesso dos comerciantes apenas às informações indispensáveis e legalmente autorizadas, fortalecendo a privacidade nas relações de consumo cotidianas.

As “pequenas” coisas que devemos a Albert Einstein

Francisco José Torcal Milla, Universidad de Zaragoza Fotografia de Albert Einstein (Princeton, N.J.) Oren Jack Turner / Wikimedia Commons. Se perguntássemos às pessoas na rua o nome de um cientista, as respostas provavelmente seriam principalmente Albert Einstein, Marie Curie, Isaac Newton, Stephen Hawking, nomes locais, como Oswaldo Cruz, ou que apareceram recentemente nos cinemas, como Robert Oppenheimer. De acordo com algumas pesquisas, os quatro primeiros ficariam com aproximadamente entre 60% e 90% das respostas, e Albert Einstein sairia vencedor, com uma grande vantagem. Retrato de Marie Skłodowska-Curie (1867–1934). Wikimedia Commons. Agora, se perguntássemos a seguir por que conhecem Einstein, a grande maioria dos entrevistados responderia: a Teoria da Relatividade! Mesmo que não soubessem do que se trata essa teoria. Concordamos que Einstein contribuiu para o progresso da ciência com essa conquista, embora também tenha feito o mesmo em outras áreas, menos conhecidas e de grande importância no nosso dia a dia. Quatro artigos pioneiros Em 1905, antes de divulgar sua teoria mais reconhecida, Albert Einstein publicou quatro artigos, cada um deles merecedor de um Prêmio Nobel: Sobre um ponto de vista heurístico sobre a produção e transformação da luz, no qual propôs os quanta de energia e explicou o efeito fotoelétrico. Efeito fotoelétrico: emissão de elétrons (em vermelho) de uma placa metálica ao receber energia suficiente transferida dos fótons incidentes (linhas onduladas). Wikimedia Commons., CC BY Sobre o movimento de pequenas partículas suspensas em um líquido estacionário, conforme exigido pela teoria cinética molecular do calor, no qual forneceu evidências empíricas da realidade do átomo e deu crédito à mecânica estatística, um ramo da física relegado naquela época. Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento, precursor de sua grande teoria, no qual Einstein conciliou as equações de Maxwell do eletromagnetismo e as leis da mecânica clássica e propôs a velocidade da luz como a velocidade máxima alcançável, acessível apenas aos fótons. A inércia de um corpo depende de seu conteúdo energético?, em que Einstein deduziu a equação mais famosa de todos os tempos ou, pelo menos, a mais reproduzida em camisetas e canecas. A equivalência entre a massa de um corpo em repouso e a energia em que ele pode se converter: E=mc². Parecem resultados importantes e realmente são. Mas de que isso tudo serve para as pessoas comuns? Sincronização de relógios Sempre que alguém abre o Google Maps ou o navegador do carro, o bom funcionamento do GPS depende diretamente da Teoria da Relatividade de Einstein. Os satélites que formam o sistema GPS se movem muito rápido e estão longe da superfície terrestre, onde a influência gravitacional da Terra é menor. Einstein descobriu que o tempo não avança ao mesmo ritmo em todas as circunstâncias: a gravidade e a velocidade do objeto modificam sua passagem. Os relógios dos satélites, portanto, tendem a se adiantar ou atrasar em relação aos que estão na superfície da Terra. Telstar, o primeiro satélite de comunicações lançado ao espaço, em 1962. NASA. O sistema GPS corrige esse efeito aplicando as equações da Relatividade Especial e da Relatividade Geral. Se não o fizesse, o posicionamento indicado teria erros de vários quilômetros acumulados depois de apenas um dia. Da mesma forma, a infraestrutura da internet e das telecomunicações modernas dependem de uma sincronização extremamente precisa entre relógios distribuídos por todo o planeta, muitos deles também em satélites. Se esses relógios não fossem corrigidos de acordo com a Relatividade Geral, as redes de eletricidade, os sistemas de pagamentos eletrônicos, a navegação aérea e a própria internet sofreriam falhas importantes. Cada conexão, cada videochamada e cada transação bancária se beneficia, sem que percebamos, da maneira como Einstein mudou nossa compreensão sobre o tempo e a gravidade. Painéis solares: uma questão de fótons Os painéis solares modernos funcionam graças ao efeito fotoelétrico, que foi explicado por Einstein em 1905 — foi essa descoberta que lhe rendeu o Prêmio Nobel em 1921. Ele propôs que a luz é formada por pacotes de energia chamados fótons e que, quando um fóton com energia suficiente atinge certos materiais, pode arrancar um elétron de sua superfície. Essa expulsão de elétrons é o que gera corrente elétrica em uma célula solar. Todos os painéis fotovoltaicos domésticos, todas as luzes a energia solar e todos os pequenos carregadores solares portáteis se baseiam exatamente no processo descrito por esse cientista: luz que libera elétrons e elétrons que geram eletricidade. Videochamadas e telas digitais A fotografia digital, as câmeras dos celulares, as webcams e praticamente qualquer sistema moderno de captura de imagens também funcionam graças ao mesmo efeito. Nos sensores CCD e CMOS, que substituem o filme fotográfico clássico, cada ponto da imagem é uma minúscula célula que libera elétrons quando recebe luz. Essa liberação é medida eletronicamente e convertida em uma imagem digital. O princípio físico por trás de cada foto, vídeo ou videochamada cotidiana é exatamente o que Einstein descreveu em 1905. Lasers grandes e pequenos Os lasers, que hoje aparecem em aplicações muito diversas, funcionam seguindo outro mecanismo previsto por Einstein: a emissão estimulada. Em um artigo de 1917, ele lançou a ideia de que um átomo poderia ser “forçado” a emitir luz idêntica à que recebia, criando um feixe de luz extremamente puro, concentrado e opticamente coerente. Décadas depois, essa previsão se tornou o princípio de funcionamento do laser. Hoje encontramos lasers em leitores de código de barras em supermercados, em mouses ópticos, em impressoras a laser, em reprodutores de CD, na fibra óptica para internet e em alguns procedimentos médicos. Lasers de estado sólido emitindo feixes de luz em diferentes cores. (Wikipedia) CC BY-SA Medicina nuclear A energia nuclear e várias tecnologias médicas modernas dependem da equação E=mc². Essa relação estabelece que uma pequena quantidade de massa contém uma enorme quantidade de energia. A compreensão dessa relação permitiu explicar o funcionamento dos núcleos atômicos e abriu caminho para os reatores nucleares, mas também a usos médicos essenciais, como a radioterapia ou os exames PET (tomografia por emissão de pósitrons), que permitem diagnosticar doenças detectando pequenas quantidades de radiação proveniente de desintegrações atômicas.

Conheça a trajetória das línguas africanas no Brasil, dos tempos coloniais até hoje

Ivana Stolze Lima, Fundação Casa de Rui Barbosa Durante o desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro, neste carnaval de 2025, a atitude de uma das juradas contra o que ela considerou ter sido um excesso de uso de termos em iorubá no samba da escola Unidos de Padre Miguel fez a escola perder pontos e ser rebaixada do Grupo Especial, a elite do carnaval carioca, para o grupo de acesso. A decisão extemporânea e sem respaldo nem nas regras nem na tradição do desfile gerou imensa e justificada polêmica no mundo do samba. E, também, entre historiadores, linguistas e estudiosos da cultura africana e suas relações com o Brasil. Eu, particularmente, ouço palavras que desconheço em línguas africanas desde muito antes de dedicar às pesquisas sobre o tema, como historiadora. E agradeço ao samba por ter me ensinado a ver a história — sempre presente — dos africanos no Brasil. “Pizindin, menino bom”: eu era criança quando conheci esse lindo samba-enredo da Portela, de 1974, pelo rádio, ouvido por minha mãe enquanto costurava. O samba homenageava Pixinguinha que, junto a outros músicos, desde o final do século XIX expressava conceitos e palavras de línguas africanas em letras de samba, lundus e que tais. Como no clássico Yao, dele e de Gastão Viana: “Aquicô no terreiro peluadié, faz inveja pra gente que não tem muié”. Bem mais recentemente, em 2024, fomos brindados pelo lindo refrão Ya temi xoa(“ainda estamos vivos”) do Salgueiro, salpicado de palavras yanomamis, que trazem uma curiosidade saudável pela diversidade linguística que constitui a história da humanidade e que é direito constitucional no Brasil. As vozes e as falas africanas sempre geraram reações, o que é a melhor evidência de sua força comunicativa e meio de memórias, pensamentos e conhecimentos. Já na época colonial, Luís dos Santos Vilhena alertava para os problemas da concentração africana na população de Salvador, tomando as línguas africanas como ameaça à boa ordem, como vetores de uma comunicação perigosa, e sugeria que as autoridades coibissem seus batuques e alaridos. O historiador Francisco Adolfo Varnhagen, construindo uma imagem sobre a história do Brasil após a Independência, denuncia-se ao escrever que os africanos não teriam identidade própria, e que por isso deturpariam o português, e corromperiam “a língua da mocidade”. Ora, quer exemplo mais claro da força da comunicação africana do que sua capacidade de influenciar a juventude? Como historiadora, há muitas questões interessantes para refletir quando se considera os povos africanos e suas línguas em diáspora. Há vários anos desenvolvo pesquisas sobre a história social das línguas africanas no Brasil. Meu livro “Antônio, escrivão português, e Rita, africana do Benim: essa não é uma história de amor” tem como eixo básico a análise do manuscrito “Obra nova de língua geral de mina traduzida ao nosso idioma”, que consiste em uma tradução de línguas do sul do Benim para o português falado em Minas Gerais do século XVIII. Trata-se de um documento valioso para discutir a diáspora africana no Brasil. Construo uma análise no campo da história social, e procuro evidenciar a voz africana contida no documento, representada metaforicamente por Rita, uma africana escravizada que se libertou, foi dona de uma venda, teve uma filha com o escrivão português Antônio da Costa Peixoto, que assina o manuscrito. Essa icônica Rita representa as mulheres africanas oriundas do atual Benim, que tiveram papel fundamental na região mineradora, atuando no pequeno comércio, usando sua matemática, se aproximando por vários caminhos do poder da escrita, e principalmente como guardiãs de uma memória e conhecimento africano decisivos na formação social da população brasileira. Rita é figurativamente a coautora da tradução. Não sabia escrever, mas “usou” a mão do escrivão para operar uma tradução e sobreviver na terra do branco. O documento é precioso não apenas por registrar uma língua africana falada no Brasil — algo que demonstra os vínculos de sociabilidade reconstruídos pelos escravizados da Costa da Mina (como os portugueses se referiam à região litorânea do Benim, Nigéria e países vizinhos) — como por representar diferentes aspectos da experiência africana. Aspectos estes rarissimamente presentes em registros e discursos oficiais, como a sexualidade, a corporeidade africana, a violência sofrida por escravizados, as hierarquias sociais, a religiosidade e outros. Analiso o documento em diálogo com a riquíssima historiografia sobre as Minas Gerais no século XVIII, e sobre a história africana e da formação do mundo atlântico. Consultei arquivos e bibliotecas de Minas, Portugal e Estados Unidos, e essa experiência aparece muito: os impasses da pesquisa, os limites dos arquivos coloniais, a materialidade dos documentos são questões explicitadas no livro. Para abordar a questão da presença dos africanos no Brasil a partir de suas línguas, é importante ainda entender o contexto mais geral da diversidade de populações, povos e línguas que marca a história do país. Bem como discutir aspectos sociais e políticos que envolveram a expansão da língua portuguesa, isto é, a colonização linguística. Longe do que pode ser imaginado, projetando sobre o passado a situação linguística contemporânea, o português custou muito a se impor como a língua de colonização. Embora desde o século XVI existisse a expectativa de que a língua do príncipe deveria ser falada pelos súditos, as alteridades americanas e africanas se impuseram ao projeto colonizador. Entre as centenas de línguas indígenas, o tupinambá, falado por povos do litoral, foi logo aprendido pelos europeus. Os missionários jesuítas se dedicaram a estudá-la e usá-la na doutrinação católica. Surgiram as línguas gerais que tinham como base o tupi, falada por descendentes de europeus e de africanos. Em meados do século XVIII, houve uma tentativa de proibição das línguas gerais de base tupi e a imposição do português, entre as reformas empreendidas pelo Marquês de Pombal. Mas a língua portuguesa só passou a dominar na medida em que o número de falantes de português se tornou majoritário, e com uma série de mudanças ao longo no século XIX: a centralização do Estado, a imprensa e a ampliação da alfabetização por meio de um sistema escolar. Os povos

A história dos Reis Magos e da Estrela de Belém na visão de um astrônomo

Ilustração dos Três Reis Magos seguindo a Estrela de Belém: história bíblica tem muito pouca informação sobre o tema. Dimol/Unlimphotos Alexandre Cherman, Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro O Dia de Reis, celebrado em 6 de janeiro, é dia de desmontar o presépio, guardar a árvore de Natal e, enfim, dar por encerradas as comemorações do nascimento de Jesus. Para quem não é muito íntimo das tradições católicas, vale perguntar: por que 6 de janeiro? E, também, quem são esses reis? A resposta da segunda pergunta costuma estar na ponta da língua de muita gente: “são os Reis Magos!”. Mas, convenhamos, isso é só um nome; não explica muita coisa. Voltaremos a ela em instantes. Antes, porém, falemos do 6 de janeiro. Por que essa data foi consagrada como o Dia de Reis? Embora ninguém saiba com exatidão histórica a data do nascimento de Jesus Cristo (nem o dia, nem o mês e, incrivelmente, nem o ano!), a tradição cristã fixou essa efeméride em 25 de dezembro. É o Natal. Essa data, o 25 de dezembro, veio emprestada de tradições mais antigas, que celebravam o solstício de inverno do Hemisfério Norte, a noite mais longa do ano. Era o “Dia do Sol Invencível”. As noites iam ficando cada vez mais longas com a chegada do inverno. E no dia do solstício ocorria a mais longa de todas as noites. Ou seja, no dia seguinte o Sol começava a “se recuperar” em sua luta contra a escuridão. Daí o termo “sol invencível”. Uma vez que a Igreja se apropriou do dia para celebrar o nascimento do Salvador, outras datas começaram a ficar amarradas. O início do ano foi fixado em 1º de janeiro, no que chamamos “estilo da circuncisão”: Jesus, como todo menino judeu, foi circuncidado sete dias depois do seu nascimento. E, seguindo o texto canônico do Evangelho de Mateus, pouco depois disso o Filho de Deus foi visitado por três reis vindos de muito longe, para saudá-lo e lhe dar presentes. São os Reis Magos, que assim o teriam feito no dia 6 de janeiro do primeiro ano da Era Cristã. (Importante relembrar: nada sabemos sobre essas datas do ponto de vista histórico. Repito: ninguém sabe quando Jesus nasceu!) Pouca informação, muita invenção E assim como não sabemos a data correta, também não sabemos quem foram esses reis. A única passagem da Bíblia que os menciona, o Evangelho de Mateus, na verdade não nos diz nem quantos eram. A dedução de que eram três fica por conta da inferência criativa de Orígenes de Alexandria, teólogo do século III. Ele supôs que, por terem trazido três presentes (ouro, incenso e mirra), os magos citados por Mateus eram três. Mas em nenhum lugar da Bíblia é dito isso: “Depois de Jesus ter nascido em Belém da Judéia, no tempo do Rei Herodes, chegaram a Jerusalém magos do oriente que perguntaram: ‘Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo’” Mateus, 2: 1-2 Percebam que não há nenhuma alusão a quantos eram esses Reis Magos. Além disso, em nenhum lugar da Bíblia eles são chamados de “reis”. Essa denominação é bem posterior, do século VII provavelmente, por uma interpretação retroativa do Salmo 72: 10: “Os reis de Társis e as ilhas ofertaram presentes…”. Não eram três, não eram reis. E mesmo assim sabemos seus nomes: Baltazar, Gaspar e Melchior. Mas sabemos mesmo? O leitor atento já deve estar captando um padrão: não, não sabemos. No século VIII começaram a surgir pinturas retratando três ilustres, e ricos, visitantes nas cenas da Natividade. Foi-se consolidando a ideia de “três reis”. E reis não podiam ficar no anonimato! Começaram, então, a surgir os primeiros nomes, sem fonte certa: Bithisarea, Melchior e Gathaspa. Segundo o padre Miguel Fuentes, do Instituto do Verbo Encarnado, “os nomes atuais de Gaspar, Melchior e Baltazar, foi-lhes atribuído no século IX pelo historiador Agnello, em sua obra Pontificalis Ecclesiae Ravennatis”. E assim ficamos com os Três Reis Magos, Baltazar, Melchior e Gaspar. A Nebulosa do Caranguejo, um exemplo de remanescente de uma supernova, vista pelo Telescópio Espacial James Webb: até hoje não foi encontrada nenhum objeto como este que indique um explosão do tipo na época do nascimento de Jesus. NASA, ESA, CSA, STScI, Tea Temim (Princeton University) E a Estrela de Belém? Uma pergunta justa, que não foi feita na abertura deste artigo, mas nos parece óbvia agora, após a citação de Mateus é: que estrela foi essa que surgiu no oriente? É a Estrela de Belém, claro! Mas o que de fato teria sido esse astro? A Astronomia tenta responder isso há séculos, sem sucesso. Há basicamente três possibilidades de eventos astronômicos que poderiam ser percebidos como uma “anunciação”, um augúrio. A Estrela de Belém poderia ser uma supernova. A Estrela de Belém poderia ser um cometa. A Estrela de Belém poderia ser uma conjunção planetária. Uma supernova é um astro que surge no céu depois da explosão de uma estrela gigante. Tem esse nome porque geralmente esse astro aparece de repente, como uma “nova estrela” no céu. Nestes casos, a estrela original, que explodiu, apesar de grande, costuma estar tão distante que não era visível antes de explodir! Explosões desse tipo deixam restos, as nebulosas, e até hoje não foi encontrada nenhuma nebulosa remanescente de supernova que traga evidências de uma explosão desse tipo na época do nascimento de Jesus. Próxima hipótese, então… Cometas são objetos que vêm do Sistema Solar profundo, formados por gelo e poeira, que quando se aproximam do Sol (por aqui onde a Terra está) formam uma bela cauda que chama a atenção no céu. Cometas podem ser periódicos ou não. Se a Estrela de Belém tivesse sido um cometa periódico, provavelmente este cometa já teria voltado à nossa região e teríamos calculado a sua órbita. Não há cometa periódico que se encaixe nessa narrativa. Se fosse um cometa aperiódico, que passa apenas uma vez e nunca mais, deveríamos ao menos encontrar relatos em

Folia de Reis em Ouro Preto: tradição segue viva nos distritos e tem encontros confirmados nesta segunda (6)

Fotos: Ane Souz Entre o Natal e o Dia de Reis, Ouro Preto volta a ouvir um som antigo e sempre atual: o das folias que percorrem comunidades, renovam promessas e mantêm viva uma das manifestações mais fortes do ciclo natalino. Ligada à celebração dos Três Reis Magos, a Folia de Reis é também encontro, memória e pertencimento — um ritual comunitário que atravessa gerações e continua pulsando em bairros e distritos do município. Um dos símbolos dessa continuidade está no Padre Faria. Jésus Eduardo Floretino, o Jésus Boi, conta que faz parte da Folia de Santos Reis do Padre Faria desde o começo. “A primeira saída dela foi dia 25 de dezembro de 1974”, lembra. Ele explica que, no início, o grupo tocava até repertório sertanejo: “Começamos tocando música sertaneja”. À época, Jésus já era do Congado de Saramenha, mas precisou se afastar por um problema de saúde. “Dei problema de saúde, na coluna. Aí formei a folia com uma turminha, com apoio do Dom Barroso, que deu alguns instrumentos, e assim começamos. Eu não deixei ela acabar”, afirma. Em Amarantina, a tradição também se reforça com novas etapas de organização e permanência. Leandro da Costa Filho, da Folia de São Gonçalo de Amarantina, diz que o grupo atua há anos como parte ativa da cultura do distrito. “Já há alguns bons anos estamos fazendo parte desse movimento cultural do nosso distrito”, diz. Para ele, a folia é também um gesto de continuidade: “Estamos resgatando alguns valores e estamos firmes, sempre, sempre com a música”. Além de preservar cantos, instrumentos e a simbologia das bandeiras, as folias mantêm um tipo de cultura que não depende de palco: ela acontece no corpo a corpo, na visita, na roda, na rua — e por isso segue sendo um patrimônio vivo. Folias e grupos tradicionais em Ouro Preto O município reúne diferentes expressões do ciclo de Reis, com grupos reconhecidos nas comunidades: Agenda confirmada nesta segunda (6) Por que isso importa culturalmente Mais do que uma tradição religiosa, a Folia de Reis é um patrimônio vivo: ela preserva músicas, versos, modos de tocar e de cantar, além de costumes de visitação e acolhida que ajudam a formar a memória das comunidades. Em cidades históricas como Ouro Preto — onde o patrimônio material é muito visível — a folia lembra que o patrimônio também existe no que é cantado, celebrado e transmitido de pessoa para pessoa. As pastorinhas, por sua vez, integram esse mesmo universo do ciclo natalino com apresentações que combinam canto, encenação e devoção, reforçando a participação de diferentes gerações e mantendo uma linguagem popular que atravessa o tempo.