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Mapear o fundo dos oceanos é uma questão de soberania, especialmente para o Brasil

O Brasil está em processo de requerer a extensão de sua Zona Econômica Exclusiva, a Amazônia Azul, de 3,6 milhões para 5,7 milhões de km². Sendo que 80% dessa área possui profundidades superiores a 200 metros. Para isso, é necessário conhecer o que há no fundo, e entender melhor seu potencial de exploração econômica e científica. Imagem: Data is Beautiful Visual Map, CC BY Alex Cardoso Bastos, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Quando os navegadores europeus partiram em direção ao desconhecido nos séculos XV e XVI, um dos maiores desafios era cartografar o que havia abaixo do mar. Não era por curiosidade científica, mas para sobreviver. Recifes, bancos de areia e rochas podiam destruir uma embarcação inteira. Hoje, séculos depois, o fundo dos oceanos ainda guarda mais mistérios do que a superfície de outros planetas. Temos mapas de Marte e da Lua com resolução de poucos metros. Apenas 28% dos nossos oceanos têm suas profundidades medidas com precisão acústica. Os outros 72% são estimativas baseadas em dados de satélite, insuficientes para entender o que realmente acontece no fundo do mar. De um fio de prumo ao sonar: uma longa jornada As primeiras tentativas de medir a profundidade dos oceanos eram exatamente o que parecem: um peso preso a uma corda longa, jogado ao mar. O processo era lento e impreciso. Em 1855, o oficial americano Matthew Fontaine Maury publicou um dos primeiros mapas do Atlântico e especulou sobre uma grande elevação central. Ele identificou o que conhecemos hoje como a atual Cordilheira Meso-Atlântica, cadeia de montanhas submarinas de mais de 14 mil quilômetros. O salto decisivo veio com a Expedição Challenger (1872–1876): 70 mil milhas náuticas, mais de 500 medições de profundidade ao redor do mundo, e o nascimento da oceanografia moderna. A Segunda Guerra Mundial acelerou o mapeamento ao impulsionar os sonares. Avanço tecnológico para fins militares que passou a revelar o relevo do fundo oceânico com precisão inédita e mais rapidez. Na década de 1970, Marie Tharp, Bruce Heezen e Maurice Ewing, da Universidade de Columbia (EUA), produziram o primeiro mapa detalhado da fisiografia dos oceanos. O trabalho de Tharp — que enfrentou décadas de resistência por ser mulher num campo dominado por homens — revelou cordilheiras, fossas e zonas de fratura, sendo peça fundamental para a consolidação da Teoria da Tectônica de Placas, uma revolução científica. Menos de um terço mapeado: por que isso importa? Em 2017, quando o projeto Seabed 2030 foi lançado por iniciativa da Fundação Nippon em parceria com o General Bathymetric Chart of the Oceans (GEBCO/UNESCO), apenas 5% do fundo oceânico havia sido mapeado com precisão acústica. Hoje, esse número chegou a 28%. A meta é atingir 100% até o final desta década. Parece uma questão técnica distante do cotidiano, mas não é. Dentro do contexto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, o conhecimento sobre o fundo dos oceanos tem um papel fundamental para várias questões inerentes e de interesse da sociedade: segurança à navegação, soberania, modelos climáticos e de risco geológico, biodiversidade, recursos pesqueiros e recursos minerais e energéticos. Portos, cabos submarinos de internet, rotas comerciais e plataformas de petróleo dependem de cartas náuticas precisas. Sedimentos marinhos regulam o clima ao acumular carbono por milênios. Corais de água profunda, fontes hidrotermais e montes submarinos abrigam ecossistemas únicos, muitos ainda desconhecidos. E o mapeamento detalhado do relevo submarino é ferramenta essencial para antecipar riscos de desastres, modelar a propagação de tsunamis e orientar a instalação de cabos e estruturas offshore. Mapear não é só medir profundidade Durante muito tempo, mapeamento oceânico significava uma coisa: medir a profundidade. Hoje, o conceito é muito mais amplo. Os ecobatímetros multifeixe modernos adquirem também o backscatter (a intensidade do sinal acústico refletido no fundo), que indica se o substrato é rochoso ou inconsolidado (lama e areia), compactado, coberto de algas ou se é um recife. A combinação dessas informações com o relevo do fundo permite criar mapas que revelam a geodiversidade marinha — a variedade de substratos, estruturas e relevos que existem no fundo oceânico. A geodiversidade acaba tendo uma relação forte com a distribuição da biodiversidade. Fundos mais complexos e variados tendem a abrigar uma maior diversidade de espécies. Determinados recursos pesqueiros, habitam áreas específicas. Isso significa que o mapeamento da geodiversidade marinha pode servir como um guia para prever e modelar a distribuição da biodiversidade e de recursos pesqueiros. Hoje, algoritmos de inteligência artificial são treinados para identificar padrões nesses dados e classificar automaticamente tipos de fundo marinho. Isso contribui para prever a distribuição de espécies bentônicas, áreas de pesca sustentável e recursos minerais. É uma área em rápida expansão tecnológica, e pesquisadores brasileiros precisam estar na fronteira desse desenvolvimento. O Brasil e a Amazônia Azul: uma oportunidade que não pode ser desperdiçada Nos últimos quinze anos, pesquisadores brasileiros — quase sempre em redes colaborativas com recursos escassos — acumularam descobertas relevantes. Descrevemos mosaicos de recifes submersos na Plataforma de Abrolhos, paleovales (rios submersos) afogados no Espírito Santo, estruturas recifais na Foz do Amazonas, depressões que indicam diferentes processos geoquímicos e biológicos, e exploraram amplamente o uso do backscatter na definição do substrato de fundo. Os resultados mostram que há muito a descobrir e que a capacidade científica existe no país. Mas faltam investimento e embarcações com tecnologia de ponta. Os anos de 2026 e 2027 representam uma janela histórica. O Instituto Schmidt Ocean trouxe seu navio Falkor (too) para o Atlântico Sul Ocidental, onde realizará expedições em parceria com pesquisadores brasileiros e internacionais sem custo direto para as equipes selecionadas. O navio está equipado com um veículo autônomo para mapeamento de alta resolução junto ao fundo (em profundidades de até 6 mil metros) e um veículo operado remotamente capaz de mergulhar até 4 mil 500 metros, filmar o fundo e coletar amostras. É uma oportunidade rara de acesso à tecnologia de ponta. Aproveitá-la, porém, exige que o Estado brasileiro trate os oceanos como prioridade estratégica — o que ainda está aquém do papel que o país pode assumir no
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Mudanças climáticas estão tornando regime de chuvas na Amazônia mais sensível ao desmatamento

Chuvas na Amazônia: estudo om participação de pesquisadores de cinco países investigou como as mudanças climáticas globais e os padrões regionais de uso da terra interagem para influenciar os padrões de precipitação na região sul do bioma até o ano de 2050. Foto: Fapesp Pesquisa / Rogerio Assis, CC BY Britaldo Soares Filho, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) A comunidade científica investiga, há um tempo considerável, as ameaças da ação humana para a Floresta Amazônica e seus impactos no clima regional e local. Uma das grandes preocupações entre os cientistas é o quanto de desmatamento a floresta suporta até que seu sistema de regulação de chuvas entre em colapso. Estudos prévios mostram que o volume de precipitações cai drasticamente quando o desmatamento ultrapassa cerca de 30% a 40% regionalmente. Nos últimos 50 anos, estima-se que a Amazônia tenha perdido cerca de 20% de sua cobertura vegetal para lavouras e pastagens, e a expectativa é que o dano total atinja 44,9% até 2050. Essa perda, entretanto, não recai sobre o clima uniformemente, de modo que os impactos dependem da escala geográfica e do uso que se faz das áreas afetadas. E não é apenas o desmatamento que impacta o sensível equilíbrio local. De acordo com o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, a região sul da Amazônia deve sofrer com secas prolongadas e redução de chuvas em geral em decorrência das alterações climáticas globais. As consequências conjuntas de mudanças no clima e perda de cobertura vegetal nativa para ultrapassar o limiar de colapso amazônico, entretanto, ainda não haviam sido investigadas. Padrões regionais de uso da terra Diante dessa incógnita, o principal objetivo do nosso estudo, Climate Change Amplifies Rainfall Sensitivity to Deforestation in the Southern Amazon, publicado na Geophysical Research Letters, com participação de pesquisadores da China, Austrália, Coreia do Sul, Finlândia e do Brasil, foi investigar como as mudanças climáticas globais e os padrões regionais de uso da terra irão, em interação, influenciar os padrões de precipitação na região sul do bioma amazônico até o ano de 2050. Nossos principais questionamentos eram como os efeitos combinados das alterações no clima e do desmatamento modificariam padrões regionais de precipitação futuros e sua sensibilidade à perda progressiva da floresta, e se as mudanças climáticas alterariam o limiar de desmatamento necessário para causar reduções mensuráveis e persistentes das chuvas. Nas análises, foram combinados cenários de mudanças climáticas globais e mudanças no uso da terra regionais. Para o clima, foram usados contextos contrastantes, em que um representava um caminho de desenvolvimento sustentável, com baixas emissões de gases do efeito estufa, e outro, um caminho de desenvolvimento baseado em combustíveis fósseis, com altas emissões. Para o uso da terra, foi utilizado o cenário “business‐as‐usual” (BAU) do modelo SimAmazonia, que considera as tendências de expansão agropecuária e infraestrutura sem grandes melhoramentos na legislação e sua implementação através da fiscalização ambiental. O sul da Amazônia é uma região sob forte pressão da fronteira agrícola, e o modelo usado no estudo projeta que a cobertura florestal na área deve diminuir de 49%, em 2020, para 39% até 2050. Ao mesmo tempo, a área cultivada deve crescer em 5% e as pastagens devem se expandir de 30%, em 2020, para 36% até 2050. Queda significativa na precipitação média até 20250 Em relação às chuvas, ao considerar apenas as mudanças no uso da terra de 2020 para 2050, a precipitação média por ano na região reduziria em 1,7%, variando 42,1 mm. Quando apenas as mudanças climáticas são consideradas, a precipitação média anual diminui em 12,3% ou 295,4 mm, no cenário de baixas emissões, e 9,4% ou 225,1 mm sob o contexto de altas emissões. Quando analisadas em conjunto, mudanças no uso da terra e climáticas provocam redução de 13,9%, ou 337.5 mm, no cenário de baixas emissões e 10,9%, ou 267.2 mm, no de altas. A menor taxa de redução no segundo cenário pode dar a falsa ideia de que esse contexto seria, então, melhor que o de baixas emissões. Porém, o estudo também mostra que a distribuição e intensidade das chuvas é afetada. Sob as condições do segundo cenário, altas emissões, o volume de precipitações é maior apenas em um ponto específico, enquanto é menor nas demais áreas, revelando um maior desequilíbrio regional. De modo geral, as análises revelam que as alterações no clima deixam o equilíbrio pluviométrico ainda mais vulnerável às mudanças no uso do solo. Isso significa que o desmatamento, diante das mudanças climáticas, se torna ainda mais prejudicial ao regime de chuvas, e impacta severamente o agronegócio na região. Os resultados desse estudo são, enfim, mais uma prova de que barrar o desmatamento é essencial e a melhor decisão quando se pensa no futuro, sobretudo do Brasil. Apenas desse modo será possível salvaguardar tanto os recursos hídricos, quanto a produtividade e competitividade da agricultura regional e nacional. Britaldo Soares Filho, Fundador e pesquisador do Centro de Sensoriamento Remoto, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.